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EU, KADU – episódio 10 : “a difícil arte de amar”

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Volto a fitar o espelho após posicionar os óculos sobre o rosto.

Por um período que não consigo mensurar, permaneço imóvel, sentindo-me vazio, sem a mínima noção de tempo e espaço, mergulhado num mar de ansiedade e desespero muito, muito maior e mais profundo do que todos os outros mares que atravessei desde que tomei consciência da minha homossexualidade. Um oceano bem mais revolto do que este, que venho lutando para cruzar já a dois anos à medida que tento processar toda a gama de sentimentos que me ligaram a Gabriel…

Matheus… Matheus… Eu preciso parar por aqui enquanto há tempo. Não quero me acorrentar a esse sentimento de impotência, a essa frustração, mas o meu ego está ferido demais. Se eu não estivesse sentindo tanta raiva de mim mesmo talvez conseguisse ignorar, enterrar a sete palmos toda essa dor, essa incerteza, essa tensão, essa instabilidade… Talvez eu conseguisse continuar onde estou, ou melhor, onde eu estava.

“Se você quer saber algo sobre o seu amiguinho, por que não o questiona como está fazendo comigo? Ele com certeza tem todas as respostas para as suas perguntas”.

Se Matheus realmente fez esse pacto no intuito de me proteger dos ataques homofóbicos dentro do colégio…

A respiração curta e acelerada não me deixa terminar esta frase ao mesmo tempo que meneio a cabeça com força, ao mesmo tempo que enfrento a imagem confusa à minha frente, uma imagem preenchida com dor e sofrimento que por um instante não consigo reconhecer…

Meu cérebro está ativando a porra de um mecanismo de defesa construindo uma barreira de pura negação diante da possibilidade da certeza da deslealdade de Matheus. Não está me deixando sequer completar o raciocínio lógico que me colocará em um caminho sem volta, pavimentado por questionamentos e reflexões sobre a verdadeira base da nossa amizade. MAS EU PRECISO SEGUIR ADIANTE.

Estico o braço até alcançar o porta toalha e tão logo consigo arrancar algumas folhas de papel, volta a fitar o espelho. O reflexo de Allyson ressurge, intercalado ao meu, e à medida que vou secando as maças do rosto, a testa e o queixo com certa violência, não consigo deixar de pensar no seu desespero, no seu suplício enquanto buscava conviver, ou até mesmo superar, o bullying que sofria diariamente, sendo chamado de boiolinha, de gayzinho, recebendo bolinhas de papel sobre si durante o intervalo, sendo alvo de agressões verbais e psicológicas e quem sabe, físicas, até entrar numa depressão profunda e idealizar, e em seguida tentar, e graças a Deus e à percepção do coordenador Jorge e sua intervenção, e também de uma psicóloga, falir em dar cabo da própria vida.

Que crime esse menino cometeu? Ter dificuldade em conviver com os outros garotos, não jogar futebol, se recusar a compartilhar as rodinhas de adolescentes estúpidos e violentos e que só falam bobagens? Ok, ele possui alguns trejeitos, mas certos gestos e comportamentos não determinam a orientação sexual de ninguém, ao menos não deveria.

O reflexo de Allyson… O meu reflexo… Está sorrindo… Para mim… Um misto de amargura e resignação, dor e prazer, ânimo e desespero…

O crime de Allyson foi o de se recusar a socializar com os Neandertais. Sim. Isso o sentenciou a ser discriminado e hostilizado com tanta veemência, a ser o bode expiatório. Eu ainda me recordo de vê-lo se afastando, se isolando e agindo com uma absurda apatia aos ataques homofóbicos. Como um garoto de 14 anos pode mudar sua postura, passando a andar com as costas semi envergadas, a cabeça baixa, os olhos sempre mirando o chão? A resposta não é difícil de ser encontrada. A agressão verbal e psicológica antecede a física, porque nossos corpos se erguem conforme a nossa mente, e se ficamos depressivos, decerto nossos corpos começam a reagir assim.

Jogo as folhas molhadas e amassadas na lixeira e então baixo os olhos. Não posso continuar encarando Allyson, ainda que seu reflexo seja fruto do meu estresse e também de um dos piores sentimentos que podem afetar um ser humano: a culpa. O que esse menino suportou durante meses foi mais que um castigo, mais que uma provação. E ele suportou, acredito, e não tenho qualquer dúvida, muito mais do que qualquer um, muito mais do que até eu mesmo teria suportado, e o que todos ao redor fizeram para ajudá-lo? O QUE EU FIZ? Na verdade a questão aqui é o que nós não fizemos pelo simples medo do contágio social, pelo temor, pela ameaça de sermos tomados por gays ou lésbicas…

Cerro os punhos e os bato sobre o mármore da pia, não com tanta força, mas o suficiente para sentir alguma dor física que possa abrandar a dor que carrego em minha alma; uma dor tão dolorida que em certas ocasiões não consigo ficar sozinho comigo mesmo, superar os reflexos negativos que ela derrama de uma só vez dentro de mim.

Por que, Deus, o Senhor permitiu que eu nascesse deste jeito? Por que não me deixou ser uma pessoa normal, gostando do sexo oposto e com isso não precisando me esquivar e nem vigiar todos os meus gestos, os meus olhares? Um ser humano sempre com medo, pavor de que alguém descubra a sua essência? Um ser humano que não precisaria chegar ao ponto de sentir vergonha de si mesmo, de não reconhecer o seu valor, de se amar?

Acredite Pai, e o Senhor sabe tão bem como eu sei, tem dias que acordo ou chego ao final de uma noite sentindo-me completamente cansado, exausto por ter que assumir um papel perante todos e pelo qual eu não sinto a menor empatia… Apesar dos pesares, a Brenda foi genuína nos seus poucos instantes de lucidez ao afirmar que eu uso uma máscara para cobrir o meu rosto e fingir ser o que eu não sou.

Corro os olhos de um lado para o outro, num movimento quase involuntário e então sinto uma enorme irrupção de dor e cólera e vergonha formar-se dentro de mim e com elas a imagem de Allyson, triturado durante os meses em que foi vítima dos idiotas do CGAM. Visualizo seus cabelos caindo sobre os olhos com seu orgulho, sua autoestima. Vejo-o passar da condição de um adolescente mirrado e tímido a uma mera engrenagem para os pseudomachistas depositarem suas mágoas profundas e sentimentos de inferioridade. Vejo-o passar de engrenagem a um animal encurralado, em apuros… 

Ergo os olhos e miro de pronto o espelho e encontro em meu rosto nada mais que rugas e músculos flácidos… Não devo berrar. Posso espumar de raiva, mas não devo berrar… Inspiro e expiro. Na verdade eu também fui um bode expiatório. Eu, Kadu, também teria sofrido todas essas investidas funestas por muito mais tempo se não fosse… se não fosse…

Engulo em seco enquanto uma dor aguda irradia pelo meu crânio antes de desaparecer em poucos segundos…

SE NÃO FOSSE MINHA PRESENÇA DE ESPÍRITO, MINHA DETERMINAÇÃO EM NÃO PERMITIR SER TRATADO COMO UM PÁRIA. Remato, por fim, mas sem qualquer convicção e daí imediatamente dou as costas para o espelho, apoiando o peso do corpo sobre as pernas e também sobre minhas nádegas pressionadas contra o mármore da pia, ao passo que cruzo e descruzo os braços, impaciente, fazendo menção, logo em seguida, em retirar o celular do bolso da calça, mas desistindo.

Se Matheus realmente fez esse pacto no intuito de me proteger dos ataques homofóbicos dentro do colégio, significa que desconfiava da minha orientação sexual. Desconfiava não, tinha certeza e nunca me disse nada. E o pior disso tudo, além da mentira que já perdura por todos esses anos, o Matheus fez o que fez por sentir pena de mim, claro. A Brenda, nisso, também está com a razão. Não quero ser o objeto de compaixão de ninguém, muito menos do Matheus. Não há nada mais pesado que a piedade.

A manifestação de Matheus, achando graça ao ver sua foto na tela de bloqueio do meu celular, e que tomei como uma mera reação de indiferença amigável, invade meus pensamentos em contraponto ao sorriso debochado de Lauro quando entrou agora a pouco nesse banheiro. Puta que  o pariu, por que não enxerguei isso antes? O sorriso entredentes do Neandertal é o mesmo que o Matheus me dispensou. A demonstração de simpatia, amabilidade do meu amigo nunca existiu, a não ser dentro da minha cabeça. Matheus não foi indulgente, pelo contrário, estava zombando de mim, prova incontestável do seu desamor.

Como uma doença, o vírus da dúvida volta a correr pelo meu organismo e então, ato contínuo, cravo os olhos sobre minhas mãos, após colocá-las à minha frente, esticadas, tentando com esse gesto, num ato de extremo desespero, rechaçar a ideia da suposta traição perpetrada por Matheus, porém, não há como não sustentá-la.

Minhas mãos estão trêmulas. Sim. Minhas mãos estão trêmulas. Minhas mãos estão trêmulas e não consigo controlá-las.

Súbito as recolho e arfando como nunca busco recuperar o eixo da minha existência enquanto minha mente é bombardeada por todos os lados e de todas as formas.

“Se você quer saber algo sobre o seu amiguinho, por que não o questiona como está fazendo comigo? Ele com certeza tem todas as respostas para as suas perguntas”. 

A voz de Lauro, forte, mordaz, o seu desafio, rastejam por todos os cantos do meu cérebro e então sinto minha garganta apertar… Não vou chorar. Se isso tudo for verdade, ah!, Brenda, vou te odiar anda mais se isso tudo for verdade e Matheus não valerá mais nenhuma lágrima minha. Nenhum pesar…

Apoio a perna esquerda para trás e dobro um pouco o joelho e daí arremesso os quadris e, por fim, todo o corpo para frente, afastando-me da pia e tomando de imediato a direção da saída do banheiro, iniciando, a passos largos, o meu trajeto pelo corredor, decidido a não mais voltar à sala de aula e esperar Matheus, no intervalo, para confrontá-lo. De pronto escolho um canto da parede para recostar todo o peso do meu corpo enquanto arranco o celular do bolso da calça para ligá-lo. A minha fúria é tamanha que por pouco não o deixo se espatifar no chão.

 

Encontre-me AGORA na saída do corredor para a sala de música.

Preciso falar com você e É URGENTE!!!!!!!

 

Termino de enviar o Whatsapp para o Matheus, devolvo o telefone para o bolso com extrema violência e então subo as escadas para o terceiro andar pisando forte, muito forte e pouco me importando se alguém poderá me ouvir. Ao passo que começo a percorrer o longo caminho do primeiro corredor rumo à sala de música, observando, de soslaio, as câmeras suspensas nas paredes, começo a sentir, vindo lá do segundo corredor, mesmo que não tão forte, o odor do meu vômito. Com certeza o seu Clint ou alguém da limpeza logo vai aparecer. Senão pelo fedor, pelas imagens do espetáculo que eu dei…

Merda! Merda! O Jorge com certeza vai nos chamar. A mim e a Brenda, depois de ver as filmagens, porque é claro que elas serão mostradas a ele ou até mesmo ao diretor… Acho melhor pensar num outro lugar para encontrar o Matheus…

Meu celular vibra e daí eu o arranco do bolso mantendo o mesmo ímpeto de violência: é uma mensagem do Judas Iscariotes.

 

Onde você tá, Kadu?

O professor me perguntou do seu paradeiro umas três vezes.

 

Meus olhos fervilham enquanto leio e releio essa mensagem. Tanto que por pouco não arremesso o celular longe… Mas respiro fundo e então digito uma resposta:

 

Já te disse onde estou e que eu quero falar com você URGENTE.

Qual parte dessa mensagem não entendeu?

Vai vir aqui ou vou precisar ir te buscar, caralho?

 

Não recebo nenhum retorno, mas também não há necessidade. Vejo que Matheus leu minha sentença ameaçadora e isso basta.

Guardo novamente o telefone no bolso e logo começo a passear com o olhar a esmo no meu entorno e então me deparo, a alguns centímetros de distância, com uma fresta na porta da sala onde ficam guardadas as carteiras velhas e danificadas; um feixe de luz escapa dessa pequena abertura que eu não tinha reparado antes, quando cruzei a sua frente ao vir me encontrar com Brenda e muito menos depois, na volta, quando já estava completamente transtornado.

Dou alguns passos até me aproximar e abro a porta, cauteloso, a fim de conferir se há mais alguma coisa (ou alguém) além do propósito destinado a este lugar. No meu raio de visão, ao fundo, amontoadas de qualquer maneira umas sobre as outras, um grupo de cadeiras enferrujadas, quebradas e obsoletas e acima delas, quase alcançando o teto, a claridade forte do sol atravessando duas janelas de vidro basculantes de tamanho médio, que estão separadas entre si somente por alguns centímetros.

Qual a razão para manter um espaço desses? A direção do CGAM por acaso tem planos de reciclar esta tralha acumulada? Questiono-me enquanto corro os olhos sobre as peças abandonadas até voltar a atenção para as janelas de vidro. É a única fonte de luz do local, já que o interruptor, à direita de quem entra, não está funcionando, constato tão logo termino de testá-lo… Ah, o chão está completamente empoeirado, talvez pra combinar com as paredes sujas e com a pintura descascando. O CGAM, quem diria, também tem os seus inferninhos.

Pé ante pé avanço alguns passos para dentro, deixando a porta atrás de mim na mesma posição que a encontrei e corro novamente o olhar à minha volta. É o lugar adequado para tomar satisfações de Matheus, concluo enquanto me preparo para tirar o celular do bolso e enviar uma nova mensagem para ele comunicando o novo local do nosso encontro, porém, mal tenho tempo de alcançar o aparelho, pois a música que anuncia as chamadas de Filipa invade os meus tímpanos, mas não vou atender. Essa louca deve estar caçando o noivo depois da merda que fez e vai querer minha ajuda para perguntar ao Matheus aonde o Luciano pode ter se metido. Não estou com cabeça para isso agora.

Decido aguardar a insistente e sem noção terminar, pois não vou lhe dar o gostinho de recusar sua chamada. Ela que se afogue no seu poço de ansiedade, ciúmes e impaciência.

Depois de poucos segundos, graças a todos os anjos do céu, meu celular silencia e então, finalmente, o resgato e envio um Whatsapp para o Matheus informando o lugar onde estou e em seguida, após guardá-lo de volta no bolso da calça, busco no amontoado de carteiras alguma menos depreciada ao passo que alterno minha atenção, olhando de esguelha, na direção da porta. Por fim, e sem grandes sacrifícios, encontro um exemplar aparentemente “saudável” e depois de resgatá-lo debaixo de outras duas carteiras, o levo para perto da porta, onde, após de limpar um pouco a poeira que parece estar há séculos entranhada em cada parte da sua estrutura, me sento decidido a aguardar a chegada de Matheus, aliás, por que ele está demorando tanto?

É inevitável. Um turbilhão de pensamentos continua atravessando a minha mente ao mesmo tempo que impotência e raiva crescem dentro de mim enquanto meu cérebro parece resgatar cenas longínquas para dispô-las sobre uma mesa, desafiando-me a montar uma espécie de quebra-cabeça que é impossível de ser organizado.

Eu me reteso.

Talvez eu sempre soubesse. Talvez eu tenha percebido tudo e preferi me enganar…

Minha respiração está curta e acelerada… Expiro, inspiro e então solto o ar.

Eu não traí o Matheus. Não tecnicamente. Eu ajudei a Brenda com aqueles planos sem noção, sim, mas não expus a reputação dele em nenhum instante. Matheus não pode me acusar de traidor, afinal de contas eu não sabia os motivos que o levaram, de fato, a dar um chute na boneca de cera… No frigir dos ovos, de uma maneira ou de outra eu ia lhe contar. Só estava esperando o momento certo…

Fecho os olhos. Não quero mais pensar. Não quero. Não posso.

Merda. É essa a visão que o Matheus tem de mim? Um bebê recém-nascido? Uma peça de cristal? Um ser humano incapaz envolto em uma embalagem onde do lado de fora está escrito de um canto ao outro e em letras garrafais CUIDADO FRÁGIL?

Sinto um aumento da minha temperatura corporal, tremores e fortes palpitações no peito… Controle. Controle. Preciso ter controle sobre mim.

Abro os olhos e volto a cabeça na direção do chão. O que o Matheus queria provar ou comprovar se já havia me julgado e condenado desde o instante que decidiu interceder junto aos seus amiguinhos para que me deixassem em paz? Está explicado o motivo de nunca ter presenciado qualquer manifestação de sua parte em relação ao fato da desconfiança de alguém ser gay. 

Merdaaaaa!

Eu fui uma moeda de troca. A merda de uma moeda de troca, concluo, rangendo os dentes, completamente transtornado, dando um soco forte sobre o apoio de braço da carteira. Se o Matheus confirmar toda essa história, eu juro que nunca mais falo com ele.

O sinal anunciando o final do terceiro tempo toca e logo em seguida o eco da algazarra dos alunos atinge os meus ouvidos. Ótimo. Se o Matheus não vier agora, durante o intervalo, vou ter que voltar pra sala de aula e eu não queria encará-lo sem antes ouvir o que tem pra me dizer, pois não vou conseguir esperar até a hora da saída… Não tem outro jeito. Eu preciso resolver isso aqui e agora!

O toque da música no meu celular anunciando Filipa novamente. Ela deve tá de sacanagem.

Cuspindo cobras e lagartos, apanho o telefone e o coloco no vibracall e em seguida o devolvo para o bolso da calça e em meio a uma respiração ofegante, inclino-me um pouco para frente e depois volto para o encosto da cadeira e repito esses gestos por mais duas, três vezes.

Como o Matheus pôde fazer isso comigo? Se realmente for tudo verdade, ele, sim, me traiu e me fez de palhaço e eu aqui preocupado em facilitar sua vida nos próximos três meses enquanto seus padrinhos estiverem no Japão. Pensando até mesmo em enfrentar dona Marcela para deixá-lo ficar no nosso apartamento… Um idiota. Um completo idiota é o que eu sou.

Levanto-me de supetão e começo a andar de um lado para o outro, digladiando com o meu cérebro e o meu coração, afinal, se tudo for confirmado de onde tirarei forças para seguir adiante? Como vou acordar todos os dias sabendo que não poderei mais encarar o Matheus? Sabendo que deverei ignorá-lo?

Foda-se.

Jogo-me de volta sobre a carteira com todo peso do corpo, chegando a arrastá-la um pouco do lugar e daí abaixo novamente a cabeça e respiro muito, muito fundo. Não vou chorar, NÃO POSSO, mas é tarde demais. As lágrimas brotam dos meus olhos e escorrem pelo meu rosto, pela minha boca e uma dor aguda irradia por todo o meu peito chegando a quase me sufocar e então ouço a porta da sala sendo aberta e mal tenho tempo de levantar o rosto…

 

… é Matheus parado sob o batente, olhando-me um tanto assustado, e acho que também um tanto temeroso.

Não. Não posso escolher como me sinto, mas posso escolher o que fazer a respeito, disse Shakespeare em A tempestade, é o que me vem à cabeça de pronto enquanto encaro Matheus e num milésimo de segundo me vejo tomado pelos acontecimentos das últimas trinta e oito horas, desde o instante em que ele escolheu se distanciar, desaparecer, até aqui, neste exato momento, onde permanecemos imóveis como dois seres congelados no tempo e no espaço, qual personagens de um romance pseudointelectual em que o autor já não tem a menor noção de como seguir para o próximo parágrafo, pois as ideias e situações, a ficção por ele concebidas, criaram vidas e tomaram um rumo inesperado a ponto de seus protagonistas correrem o risco de mergulhar num mar de tédio e ostracismo até que seus destinos possam ser redefinidos, para o bem ou para o mal.

Por que Matheus não fala nada? Até quando vai ficar parado, me observando, como se eu fosse uma espécime rara exposta em algum cativeiro? Por que ele permanece reticente, sem mover um dedo sequer, sem esboçar qualquer tipo de reação que sugira que vai avançar para dentro dessa sala? Decerto deve estar escolhendo as palavras que vai usar com o máximo de cuidado. Buscando encaixar todas as peças que sobraram desse quebra cabeça no intuito de me convencer da sua inocência diante das acusações que irei despejar sobre os seus ombros, afinal de contas, é mais que provável que ele já saiba os motivos que me fizeram chamá-lo até aqui. Brenda não perderia tempo em dar com a língua nos dentes. Típico. E o tal Lauro possivelmente agiu da mesma maneira, enviado o seu relatório top secret e emergencial para o chefe do bando informando que a casa caiu. 

Segundos, minutos e Matheus ainda não se move, apenas ergue o braço direito para apoiá-lo no batente da porta. Sua fisionomia está completamente impassível e eu, ainda que esteja coberto de razão, não consigo mais sustentar o seu olhar e então inclino cabeça e os olhos um pouco para baixo, passando a considerar a possibilidade de ter me precipitado em trazê-lo até aqui.

Conforme a teoria do Big Bang, e que está prestes a entrar em colapso no mundo científico, o universo teria surgido de uma grande explosão cósmica que ocorreu em função de uma enorme concentração de massa e energia, o que para mim, neste momento, serve perfeitamente de metáfora para explicar o funcionamento da efusão de pensamentos positivos e negativos, contradições, lembranças e outros tipos de informações que já vem circulando pela minha mente numa desigual velocidade, e que agora está devidamente concentrada em um único ponto e com grande pressão: a presença física de Matheus! E com ela a “quase” certeza de que eu venho amando uma coisa inventada…

Sinto um nó no estômago.

– Kadu…

Ouço a voz de Matheus ao mesmo tempo que um resquício de lágrimas termina de escorrer pelos cantos dos meus olhos. Acho que estou com medo. Sim. Preciso reconhecer que talvez esteja com medo e não quero ter essa conversa, mas não posso continuar me escondendo, não agora que descobri que sou motivo de chacota dentro do CGAM. Uma chacota ardilosa, sombria, perpetrada por ele, meu melhor amigo.

Mesmo que eu considerasse a mais ínfima possibilidade de fazer isso, pegar toda minha dignidade e esconder sob as solas dos pés e seguir a vida, como se nada tivesse acontecido, assim como fiz quando o Gabriel me deu o chute na bunda, seria impossível, pois a sombra de Brenda estaria sempre à minha volta lembrando o quão covarde e sem vergonha na cara eu estarei sendo e com isso validando todas as suspeitas que tem sobre mim.

Bem disse Oscar Wilde antes de dar seu último suspiro num hotel de quinta categoria em que passou os últimos meses de sua vida: meu papel de parede e eu estamos lutando um duelo até a morte. Algum de nós deve partir… Sendo assim, no meu caso, não serei eu a sair cabisbaixo deste cemitério de carteiras abandonadas, pois vou lembrar ao meu digníssimo amigo que assim como ele e os seus coleguinhas, também tenho colhões entre as pernas.

Resoluto, ergo o rosto na direção de Matheus, fitando-o com toda firmeza de caráter que eu consigo reunir.

– Caralho, Kadu, que mensagem mais louca foi essa que você mandou? E o que tu tá fazendo aqui dentro?

Finalmente ele se manifesta e em questão de segundos não demora a vir na minha direção e eu, como não poderia ser diferente, me retraio e de pronto recosto-me à carteira enquanto com o dorso das mãos vou enxugando o rastro infeliz que decerto as malditas lágrimas deixaram sobre o meu rosto.  

– Tá chorando cara? Tá sentindo alguma coisa?

Matheus mal termina de fazer sua pergunta e já se prepara para se inclinar, dando a entender que vai se abaixar até onde estou, porém sou mais rápido e de supetão me coloco de pé e cruzo os braços ao tempo que procuro assumir uma fisionomia que mescla a intransigência e o mau humor. Em definitivo, neste exato momento, minha raiva venceu o medo e moralmente estou acima do até então meu melhor amigo.

– Que bico é essa Kadu? Que bicho te mordeu? – Matheus me questiona ao passo que ensaia um improvisado gesto de malabarismo para se manter de pé enquanto se equilibra para não cair com o joelho direito no chão – Me manda umas mensagens nada a ver, mas que me deixaram preocupado e agora chego aqui e te encontro com essa cara de vento ventania…

Assim como a matemática é uma ciência exata, sei que Matheus irá contra atacar quando eu colocá-lo no banco dos réus, me cobrando o valor da nossa amizade por eu ter ajudado a Brenda nessas duas últimas semanas. Entretanto, espero que examine atentamente alguns fatores antes de se achar no direito de envergar a armadura de injustiçado. Primeiro, a Brenda me pediu apoio, não agi deliberadamente; segundo, eu e ela não temos qualquer vínculo de amizade; e terceiro, o resultado da minha suposta emboscada, sim, porque serei tratado como um vilão impiedoso, não iria ferir a hombridade de ninguém, muito menos a dele. Se for para colocar os pingos nos is, traição por traição, esse título é seu, Matheus.

Mas que merda.

Descruzo os braços ao tempo que sinto uma vontade feroz de gritar enquanto sou consumido por um lampejo que desafia análises. A raiva pode ter vencido meu medo, mas não o meu amor, pois aqui estou eu, cheio de admiração a fitar os olhos extraordinariamente brilhantes e expressivos da pessoa que por quase um ano vem dando sentido à minha vida. Por incrível que pareça, por mais absurdo que seja, estou considerando a possibilidade de jogar tudo para o alto, ignorar a perseguição psicológica que Brenda empreenderá contra mim, e assumir, aqui e agora, ares de descontração e dizer para Matheus que minhas mensagens não passaram de uma brincadeira, pois eu não estava a fim de assistir à aula do quarto tempo e queria uma companhia para compartilhar essa aventura.

Sim. Sim. Basta apenas que Matheus, nesse instante, retribua um décimo do que sinto por ele. Me dê a mais ínfima certeza de que minhas esperanças podem vir a se concretizar, apesar de não estar sendo justo comigo mesmo ao desejar isso, permitir que todo o meu orgulho venha a sucumbir diante da oportunidade de vê-lo sorrindo, de ver suas as covinhas se formando em cada lado de suas bochechas…

Por que nesse mar de aflição, mesmo com todas as dúvidas bombardeando minha mente, não consigo olhar para o meu amigo e não sentir outra coisa a não ser uma ternura insensata, um desespero alucinante de querer correr na sua direção e abraçá-lo forte, contar tudo o que trago dentro do peito e beijá-lo, beijá-lo e beijá-lo tanto até que o mundo inteiro se acabe enquanto vou confessando todos os meus pecados, assumindo que fui um covarde por não ter exposto os meus sentimentos, que agi como uma criança mimada querendo que descobrissem todos os meus desejos ao passo que fazia birra e fechava a cara…

-Tá me deixando preocupado, Kadu – Matheus insiste – Tu fumou alguma coisa? Fala a verdade. Tá agindo estranho do mesmo jeito como agiu lá no gramado. Eu não consigo imaginar você fazendo esse tipo de coisa, puxar um baseado… – ele ensaia um sorriso, mas acaba desistindo, decerto por não encontrar eco ante o meu (esforçado) semblante em ebulição.

Não posso continuar fitando Matheus dessa forma, afogado em condescendência, até porque a última coisa que pretendo neste momento é baixar minha guarda. Eu devia estar indiferente, carregado de autoridade e atitude, como há cinco segundos, e a essa altura do campeonato eu já deveria estar aos berros, tomando satisfações e repetindo cada uma das palavras de Brenda, exigindo comprovações de tudo o que ela entornou sobre mim, porém, minhas forças parecem estar se esvaindo. Cérebro e coração, mais uma vez, correndo em direções opostas. Por que quando gostamos de alguém nosso julgamento em relação a essa pessoa é afetado? Por que amar significa renunciar a todas as nossas forças?

As palavras de Brenda afirmando que eu deveria ter notado a manipulação de Matheus invadem meu cérebro sem sequer me dar uma chance de defesa. O que de certa forma é bom, e então inspiro e expiro tentando recobrar o que resta do meu equilíbrio emocional, mas confusão e ansiedade continuam prostradas à minha frente e a imagem do carinha entrando no banheiro, me afrontando através do espelho e rindo, é disparada como um flash diante dos meus olhos, acionando automaticamente a sensação de incômodo e a irritação por me sentir um completo idiota que acredita em contos de fadas.

Sem pestanejar me volto na direção das duas janelas de vidro basculantes e enfrento a claridade forte do sol enquanto cada músculo do meu corpo parece fervilhar, enquanto a famigerada frase “já basta o Matheus tentando afastar os lobos de cima do veadinho” reverbera a cada cinco segundos dentro da minha cabeça. Qual a razão de Matheus ter permanecido em silêncio depois de ouvir a Brenda envenená-lo com a revelação de que eu gosto dele? E o que o levou às vias de fato, fazendo tomar a decisão de desmanchar o namoro com ela? Foi porque se sentiu ofendido ou por que a boneca de cera o fez enxergar o que não queria?

– Puta que o pariu Kadu. Você pode me dizer o que está acontecendo, por favor?

O tom de voz firme e grave de Matheus atravessa os meus ouvidos, e também sinto o peso de suas mãos sobre cada um dos meus ombros, o que chega a me surpreender, e daí me viro num gesto instantâneo e não respondo nada, apenas e tão somente permaneço calado, encarando o incontestável desassossego perpassando pelo seu olhar até que decido recuar dois passos à medida que meneio a cabeça, forçando Matheus a recolher suas mãos.

– Tem certeza de que você não sabe por que está aqui? – questiono incisivo ao mesmo tempo que ajeito os óculos sobre o ápice da testa, sem desviar um minuto sequer do meu olhar.

– Na boa, Kadu, sem drama, sem lero-lero. Diz logo o que tem pra dizer…

-Ok. Só vou te fazer essa pergunta uma única vez, está me ouvindo? – inicio um tanto áspero, enquanto fungo o nariz e volto a passar as costas da mão direita sobre o rosto – Eu sempre, sempre confiei em você, desde pequeno, quando nos conhecemos e começamos a nossa amizade…

– Kadu, o intervalo não dura a vida toda. Logo, logo o sinal vai tocar…

Decido ignorar o sarcasmo de Matheus.

 -Há quanto tempo você vem me protegendo dos ataques desses idiotas que acham que ser macho é ter um pênis entre as pernas para enfiá-lo em qualquer buraco que encontrar pela frente e depois sair atacando todos os outros que não agem dessa maneira? – disparo num só fôlego enquanto ajeito, novamente, os óculos sobre o rosto.

As sobrancelhas de Matheus se erguem e se curvam. A pele, abaixo delas, fica esticada e rugas horizontais se formam ao longo de sua testa ao passo que suas pálpebras ficam tão abertas que a parte branca dos olhos aparece acima e abaixo da íris. O queixo, por fim, se abre e os dentes ficam levemente afastados. Não consigo enxergar tensão em sua boca, mas seu semblante não deixa dúvidas do quão surpreso essa minha pergunta o impactou e a inércia acaba sendo a alternativa que lhe cabe, enquanto digere o peso das palavras que acabou de ouvir. 

Chegou a hora. É tudo ou nada. Porém, como num passe de mágica, vejo o rosto de Matheus se transformar de uma fisionomia beirando a incredulidade a uma leveza sublinhada com trações de ares de deboche seguidos por uma forte gargalhada.

-Do que você tá falando, Kadu?

Ele me interroga tão logo consegue se controlar ao passo em que começa a mexer nos cabelos, contrair os lábios e a piscar com certa frequência. Não. Ele não está zombando da situação. Está melindrado. Sua linguagem corporal não deixa dúvidas.

– Que merda é essa que você tá me dizendo, Kadu? De onde tirou isso? Estava tudo bem até o momento em que sentamos na sala e começamos aquela prova infeliz e agora…

-Eu te disse que ia fazer essa pergunta uma única vez. Você não entendeu e quer que eu desenhe, é isso? – interrompo carregado de autoridade.

-Oh! Oh! Pega leve! -Matheus apoia as mãos na cintura, mas logo as deixa cair ao lado do corpo – Qual o seu problema?

Aperto minha mão esquerda sobre a fronte e enquanto baixo a cabeça, mirando o chão completamente empoeirado, lembranças pulsam na minha mente, como todas as vezes que fui deixado de lado por causa das novas conquistas de Matheus. Ou então ele decidido a assistir algumas séries que eu havia sugerido há tempos. Ou quando jogávamos aqueles terríveis fighting games. Ou todos os momentos que em suas mãos quase sempre se encostaram aos meus braços ao passo que conversávamos sobre tudo e sobre nada. Ou as vezes em que ele gargalhava alto e depois tentava de todas as formas rebater meus argumentos de que os livros do Harry Potter deveriam ser leitura obrigatória nas escolas. Ou aquele seu sorriso com ou sem razão quando nossos olhares se encontravam…

Assim como também me imagino no lugar de Allyson, atravessando o calvário proporcionado pelo bullying e a imagem de Matheus se esforçando para me proteger, me explicando, com lágrimas nos olhos, que fez o que fez porque queria me manter vivo, porque não teria forças para seguir em frente se eu sucumbisse diante dos ataques dos seus amiguinhos…

Sinto meus músculos retesarem e uma dor absurda nos ombros ao tempo que uma série de vertigens me obriga a fechar os olhos. Tum. Tum. Tum. Tambores em meu crânio e uma voz berrando ininterruptamente dentro dele: idiota! Idiota! Idiota!

Não. Matheus não é um herói. Não é. Ele é como o Gabriel, brincando com os meus sentimentos; a única diferença é que o futuro cunhado da Maria Clara foi honestamente cruel.

Graças aos céus não me revelei, não me expus. Eu fiz a coisa certa em guardar para mim o meu amor, contudo, Matheus ouviu a verdade de Brenda, ainda que sob uma cortina de maledicência, recalque, mas ouviu e não fez nada. O que significa que pouco se importou, quem sabe até achou graça, como fez quando viu sua foto na tela de bloqueio do meu celular, e deduziu, o que é pior, na frente do “diabo veste Prada”, o quão ridículo eu sou. Há três semanas ele carrega isso dentro de si e simplesmente optou por ignorar, tomando, levianamente, suas próprias conclusões. Eu não sei mais o que pensar. Só posso propor um juízo: se isso tudo for real, definitivamente eu não sei com quem venho lidando todos esses anos.

Abro os olhos. A vontade feroz de gritar volta a me assombrar, mas não posso desabar. Serei mais forte que você Matheus, mais forte que a Brenda, mais forte que todos esses cretinos Neandertais…

Tento estabelecer uma sequência lógica das ideias conflitantes que teimam se chocar em minha mente, mas não consigo e daí eu ergo a cabeça e volto a afrontar Matheus. Seu rosto está lívido. Atordoado. O que estará pensando?

Numa fração de segundos, ainda envolto em um irremediável silêncio, desejo, quase como uma prece, por mais estranho e paradoxal possa parecer, que Matheus não confirme minhas dúvidas. Ainda tenho esperanças de que a Brenda armou tudo isso. Entretanto, uma força estranha, uma energia misteriosa, potente, quase infinita, não me deixa espaço para a fuga, gritando aos meus ouvidos que preciso, sim, enfrentar o abismo infindável da decepção, da solidão e do desespero que me aguarda.

– Que história é essa de você me blindar para que os outros rapazes não mexam comigo? – disparo minha interrogação mesclada de uma forçada serenidade, mas também de uma crível revolta e cinismo – Você exigiu isso? De que forma? Chantagem ou só mesmo com o seu carisma irresistível ou sua palavra é lei dentro do CGAM?

Matheus respira fundo e não me encara. Está ficando cada vez mais acuado e isso só quer dizer uma coisa…

-Kadu, escuta… – ele levanta o rosto, porém seus olhos não conseguem se fixar aos meus. Estão evasivos, parecendo evitar a realidade.

– Você realmente fez isso, não é? – valido o meu questionamento – Se realmente você fez isso, Matheus, é porque acredita que esses idiotas têm motivos para me importunar…

Matheus, por fim, dá dois passos para trás enquanto corre o olhar à nossa volta para então, depois de alguns instantes, decidir estacioná-lo sobre mim. Não restam dúvidas. Ele está de fato acuado e não sabe como camuflar sua fraqueza.

-Quem te contou e o quê exatamente?

-Não importa o que eu ouvi. Eu quero saber a verdade de você – replico já sem paciência, me sentindo esgotado, cansado, esmagado, ao mesmo tempo que também me sinto como se estivesse dançando em torno de uma dinamite com o pavio aceso.

De súbito, Matheus passa a me observar com altivez e resistência. Não está suportando a pressão do meu olhar acusatório, do meu julgamento, da minha prévia condenação.

-Na boa Kadu, qual o problema em querer proteger um amigo? Que crime há nisso?

Todos os meus músculos se contraem num espasmo de agonia.

Matheus está falando sério?

É Claro.

Não tenho dúvidas.

Engulo em seco ao passo que tento assimilar essa verdade, essa maldita confissão, olhando firme em seus olhos, que pareço conhecer tão bem, mas na verdade conheço tão pouco. Enquanto busco encontrar, num último alento, alguma pista de que está apenas tirando sarro da minha cara…

Infelizmente não encontro nada.

De imediato meu crânio parece carregar uma poção de pregos com pontas afiadas. Definitivamente Matheus não precisa dizer nem mais uma palavra.

– Kadu, por favor, não sei o que você ouviu e nem de que forma você ouviu, mas te garanto…

-O que você me garante, Matheus? – pergunto entre os dentes. Sinto o meu rosto pegando fogo – Que você não me fez passar por ridículo diante de todos esses cretinos ao assinar embaixo meu atestado de indefeso, estúpido, de filhinho da mamãe?

-Kadu, você viu do que esse pessoal é capaz. Viu o que o aquele menino, o Allyson, passou… Os caras saíram do colégio, mas deixaram a sementinha plantada, muito bem plantada. Você acredita mesmo que essas regras, essa tal lei anti bullying, vai minar o preconceito dos que ficaram?

-Enfim chegamos ao “x” da questão. Você fez o que fez porque acha que eu sou gay – disparo efusivo, carregado de desdém, despejando minha mágoa sobre Matheus de uma maneira tal que o deixo completamente sem ação.

-Não se trata disso, Kadu…

-Então do que se trata? Explica, por favor, como se eu tivesse quatro anos de idade – fuzilo Matheus com um olhar transbordando intolerância e ele nada me responde.

Amei uma coisa inventada, amei uma casa inventada, balbucio.

Não posso desabar. Não vou desabar. Meus olhos correm de um lado para o outro, aleatoriamente, e então endireito os ombros e começo a andar para lá e para cá dentro da sala como se estivesse me preparando para proclamar um discurso.

– Me corrija se eu estiver errado – reinicio fazendo questão em enfatizar todo meu sarcasmo sem deixar de seguir com a minha pequena marcha – Você gentilmente pediu aos seus amiguinhos para não mexerem comigo, para me darem um desconto, mas não por achar que sou gay, claro, apesar desses seus mesmos amiguinhos, machões e supostamente héteros, terem como esporte preferido a prática do bullying homofóbico, como você mesmo acabou de afirmar…

– Cara, você tá exagerando…

– Exagerando? – estaco, por fim, e desafio Matheus sem pestanejar – Forçar uma barra absurda sobre um garoto de 14 anos, fazendo a vida desse menino se transformar num inferno sobre a face da Terra, insultando-o diversas vezes por causa dos seus trejeitos, não é bullying homofóbico? Corrija-me, please.

-Caralho, Kadu, esses caras implicam com qualquer um que eles acham diferente…

Meneio a cabeça e olho para o teto por um rápido instante enquanto um ricto nervoso me corta os lábios e uma comichão, um desespero, me fazem voltar a andar pela sala…

-Hoje, antes de entrarmos no CGAM… Olha a ironia… Você, Matheus, depois de gritar e espernear sobre o fato de seus padrinhos irem passar um tempo lá no Japão, te deixando aqui, com o seu pai biológico, o que me respondeu quando te perguntei sobre a alternativa de você e o Luciano se cuidarem? – não dou tempo dele se expressar – Você me disse que não precisava de um marmanjo sendo sua babá – completo aos berros ao mesmo tempo em que estaciono de frente para Matheus.

-Kadu, na boa, esse papo tá chato…

-Você não respondeu à minha pergunta.

Refuto buscando, agora, manter uma calma aparente ao passo que vou me aproximando de Matheus. Serei mais forte do que ele, do que sua hipocrisia, seu cinismo.

– Acha que eu sou gay?

-Eu tô pouco me lixando se você é gay ou o diabo a quatro. Você é meu amigo, e isso basta.

-Acha que eu sou gay e que também por causa disso preciso de uma babá? – não hesito e dou mais um passo em sua direção.

-Quer saber? -ele dá de ombros e me encara, enfim, determinado – Não vejo porque tanto drama. Na boa. Eu já fiquei com um cara e realmente não vi motivos pra tanto alarde…

Não acredito no que acabei de ouvir. Sinto-me desarmado. Minhas entranhas ardem. Vazio, desespero, raiva, frustração, dor e angústia e CIÚME me rasgam o peito numa velocidade avassaladora.

-Filho de uma puta!

Parto pra cima de Matheus com toda força, pegando-o desprevenido e ele não reage; apenas se defende dos golpes e pontapés que desfiro enquanto vou pressionando-o contra a parede, gritando que o odeio.

– Kadu, se acalma.

Quanto mais Matheus pede para que eu me tranquilize, mais eu me revolto.

-O que é isso meninos?

Uma voz ecoa por toda a sala.

Ofegantes, suspendemos imediatamente nosso confronto e olhamos ao mesmo tempo na direção da porta, que está escancarada e com o coordenador Jorge apoiado nela com uma das mãos e tendo ao seu lado o Inspetor do terceiro andar.

– Rapazes – ele caminha na nossa direção enquanto eu e Matheus nos afastamos – Eu tenho certeza de que este não é o lugar para isso e seja o que for que os esteja aborrecendo, não será com violência que vão resolver a questão… – Jorge acaba preenchendo o espaço que surge entre nós dois, passando a nos encarar alternadamente – Está claro ou preciso repetir alguma dessas minhas palavras?

Diferente de Matheus, que deixa cair o olhar, eu permaneço teso e com o ritmo ávido da minha respiração ao passo que arrumo os óculos, que por um milagre dos deuses não caiu no chão enquanto insultava fisicamente esse ser humano que em definitivo não sei se poderei mais chamar de amigo.

-Kadu… – Jorge se vira por completo para o meu lado – Sua irmã está lá na portaria querendo falar com você.

-Irmã? – pergunto, franzindo a testa e semicerrando os olhos, entre curioso, confuso e preocupado.

– Sim… – ele esquiva os olhos rapidamente para a esquerda, como se buscando lembrar o nome de quem está querendo falar comigo – Filipa – informa, afinal, voltando a me encarar – Ela não disse do que se tratava…

Um relâmpago atravessa minha mente e com ele as tentativas de ligações de Filipa e daí eu desvio o rosto por um instante na direção de Matheus no exato momento em que ele ergue a cabeça para me fitar.

– Ela apenas pediu para que um funcionário da secretaria o chamasse, mas ele acabou te confundindo com outro Carlos Eduardo, que também é do último ano…

Não escuto as últimas palavras de Jorge, apesar de ver seus lábios se movendo. Toda minha atenção se volta para o meu celular, que arranco do bolso da calça para logo digitar o número do telefone de Filipa…

O ser humano demora a atender e só o faz após o terceiro toque.

-Qual é o seu problema? – Filipa dispara, e como de costume, carregada de autoridade, se achando a rainha da Inglaterra.

-O que houve Filipa? Por que você que está aí na portaria?

– Porque outro motivo senão o de falar com você? Aliás, o senhor não deveria estar na sala de aula? Que dificuldade pra te achar…

-Você pode me dizer o que houve? – devolvo impaciente.

– Ninguém está conseguindo contato com a Maria Clara. Pelo jeito ela desapareceu – Filipa avisa num tom de voz seco, beirando o descaso.

aquilo – calling me 

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