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EU, KADU – episódio 3 : “um garoto de lugar nenhum”

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Inclinado e com o ombro direito apoiado sobre o vidro da janela, espero, devidamente sentado, o motorista terminar sua manobra para estacionar em frente à guarita posicionada no recuo da divisa frontal na entrada principal do condomínio, enquanto deixo escapar um ar sopesado de puro tédio, ao mesmo tempo que observo, com os olhos semicerrados, igual a uma ave de rapina espreitando a caça, uma boa parte dos outros passageiros se colocando de pé ao lado de suas poltronas, estreitando ainda mais o corredor do ônibus. 

Será que este bando de desesperados não sabe que ninguém vai conseguir sair desta caixa de metal enquanto ela não estiver parada? Depois que esses pela sacos derem de cara no chão vão querer processar o motorista, a empresa, gritando em alto e bom som os seus discursos sem qualquer conteúdo lógico, completamente vazio, inadequado e impregnado de revolta e frustração. E o pior. Vão conseguir um representante da lei tão ou mais egoísta e sem noção quanto eles para oficializar o serviço sujo.

São essas pessoas que fazem a vida em sociedade se tornar um martírio.

Como bem disse o célebre personagem, Dr. House, eu não sou antissocial, só não suporto gente idiota e o mundo está cheio delas. Concluo ao passo que meneio a cabeça bem devagar num ato de reprovação silenciosa à medida que empurro, com o dedo indicador, a armação dos meus óculos, fazendo-a recuar os milímetros de distância necessários que a separa neste momento do ápice da minha testa.

Sem qualquer sinal de urgência, volto o rosto na direção da janela e me deparo com o portão de entrada do condomínio, não muito distante, que ladeado por um metal tão branco como a neve, ostenta o nome Mare e Laguna gravado na cor preta e com a fonte aqr typeface se destacando sem muito esforço em meio à natureza etérea do vidro temperado verde que o rodeia. Seu propósito, assim como o extenso muro que o segue no mesmo padrão envidraçado, é garantir uma harmonia clean à fachada desse empreendimento faraônico, onde meus pais, e outros tantos megalomaníacos, decidiram fixar moradia.

Será que daqui a alguns milhares de anos essa nossa sociedade contemporânea, como qualquer outra civilização dos tempos antigos, despertará o interesse de antropologistas e historiadores, apesar da sua INVOLUÇÃO social?

É óbvio que ninguém é perfeito, e nem tem a obrigação de ser, mas em um momento como este, em que temos acesso a uma infinidade de informações e a velocidade com a qual elas nos atingem, o egoísmo, de mãos dadas com uma conveniente ignorância, vêm ganhando cada vez mais espaço. Acabamos por trancafiar o mundo em uma casca de noz e pouco nos importamos em declarar a todo instante o nosso amor exclusivo aos interesses próprios. Como aqui, agora, no corredor deste ônibus.

Independente do lugar, nós sempre esbarramos com essas atitudes que não têm explicação racional. Só mesmo a afamada frase, “todo excesso esconde uma falta”, poderá justificar, ou ao menos tentar, a necessidade/compulsão em residir num condomínio de luxo onde o apartamento mais chinfrim tem 288 metros quadrados. Além de lagos, parques, quadras, piscinas, academias, pista de bicicleta, pista de correr, churrasqueira… Em suma, uma estrutura bem desenvolvida contrastando de maneira gritante com “vizinhos” que moram com suas famílias em barracos construídos com restos de madeira, isopor, latão e papelão, onde mal sequer cabem duas pessoas.

Qual o motivo para almejar ter tanto dinheiro e tanto poder? Isto é evolução? O que realmente está acontecendo com o mundo? Não deveríamos ter aprendido com o resultado das experiências, boas e ruins, pelas quais passamos por tantos séculos? Ter aprendido com o sacrifício das muitas vidas ceifadas pelo absurdo das guerras e de tantos outros flagelos que assolaram e ainda assolam a humanidade?

Sim. Deveríamos. Mas nos recusamos.

Preferimos nos distanciar da finalidade da nossa existência, que, decerto, deve passar bem longe do afã alienado da preocupação com o lançamento do próximo IPhone.

Inspiro e expiro sem pressa e em seguida, num movimento hercúleo, olho para o céu, agora coberto por matizes vibrantes de vermelho e laranja, anunciando mais uma noite de início de outono com um ar nonsense de inverno.

Por que, cargas d’água, eu estou me preocupando com um futuro anos-luz de distância, do qual, sem sombra de dúvida, não farei parte? Por que não posso ser como a maioria dos adolescentes, focados em saturar à exaustão qualquer tipo de sofrimento, insistindo em uma melancolia sem sentido, dramas sem pé nem cabeça, um ser humano inconformado, agressivo e que se compara o tempo todo com o universo dos outros?

Afasto-me do vidro da janela e deixo os ombros caírem ao passo que desvio o olhar do firmamento para estacioná-lo sobre as costas das duas poltronas vazias à minha frente.

Preciso de alguns segundos para colocar minhas ideias em ordem.

Todos os músculos do meu corpo estão gritando e é sempre assim quando o meu nível de estresse está me levando à beira de um ataque de nervos, e tudo isto por causa do Matheus. Merda, merda e merda. Por que ele não dá sinal de vida? Não estou pedindo para que faça um relatório das últimas vinte horas da sua existência. Ou tampouco exigindo um discurso se redimindo por esta sua ausência sem precedentes. Apenas um “oi, Kadu, tudo bem?” estaria de bom tamanho.

Cruzo e descruzo os braços em questão de segundos enquanto respiro fundo até começar a tamborilar com os dedos no apoio da poltrona, para, então, voltar a mirar o céu à procura de algo que não sei exatamente o que pode ser.

Se existe alguma espécie de anjo ou entidade que seja responsável em monitorar os olhares suplicantes dos adolescentes que vivem na Terra, certamente ele ou ela encontrará nas janelas da minha alma não os reflexos do espírito de um jovem de 17 anos, mas os de um ancião amargurado que completou o percurso de sua existência carregando a plena certeza de que tudo o que fez foi em vão…

Afasto novamente os olhos do firmamento e os aterrisso sobre as mãos, agora espalmadas em cima de cada uma de minhas pernas, ao mesmo tempo que inspiro todo o ar a minha volta com muita força, pois quero arrebentar os meus pulmões.

Pensando bem, na verdade, sou, sim, um adolescente como todos os outros. Um laboratório de hormônios sem noção da minha realidade e que se deixa guiar por um monstro gerado e acalentado pela instabilidade emocional, cujos sentimentos intensos acaba por jogar para escanteio toda e qualquer pretensa razão, enquanto assiste, revoltado, “passivamente revoltado”, a vida embaralhar a bel prazer todas as cartas e derrubar todas as peças de cima do tabuleiro antes mesmo do game over.

Minha cabeça vai para trás depois de um solavanco que o ônibus dá. Instantaneamente, numa sequência de puro movimento e reflexão, ação e reação, consigo evitar que meus óculos criem asas.

Em que liquidação esse motorista adquiriu a sua carteira?

Alguns passageiros começam a reclamar em voz alta, principalmente aqueles que já estavam de pé, prontos para tirarem o pai da forca, ou quem sabe preparados para disputar uma ultramaratona tão logo venham conseguir colocar os pés para fora deste ônibus. Não posso deixar de achar graça com o provável susto que levaram. Bem feito. 

O meu celular começa a vibrar…

Whatsapp chegando…

Matheus!…

Eu não acredito.

Deus faça que seja ele.

Precisa ser ele…

De um modo arrebatador, enfio a mão esquerda no bolso da calça jeans, e apesar de todos os meus esforços, ela acaba empacando enquanto o telefone continua a vibrar. Certamente Matheus deve estar enviando várias mensagens porque estou demorando a lhe responder. Eu faria o mesmo, claro. Só espero que ele não pense que estou agindo de maneira proposital, me escondendo atrás de uma vingançazinha besta…

Começo a xingar mentalmente todos os palavrões possíveis e imagináveis que eu conheço ao passo que estico a perna na direção do corredor do ônibus para que a infeliz abertura do bolso da calça seja liberada, mas o máximo que consigo é tocar o celular com a ponta dos dedos, já que o miserável acaba escorregando para o fundo e estacionando por lá no modo horizontal.

Se alguma coisa puder dar errado, dará. E mais: dará errado da pior maneira possível.

Merda. Merda. Merda. Eu vou adquirir uma tendinite se continuar com esse malabarismo e logo depois sofrer um infarto do miocárdio.

A Lei de Murphy realmente rege o universo, constato na medida em que outros tantos palavrões passeiam pelo meu cérebro e vou puxando o ar com violência para dentro dos pulmões enquanto continuo a empurrar a mão bolso adentro, porém, agora, tomado por uma determinação ferrenha, como se minha vida estivesse por um fio e dependesse única e exclusivamente desse gesto para que eu continuasse a existir sobre a face da Terra.

Por fim, consigo resgatar o famigerado telefone, que a essa altura do campeonato já se calou ao passo que meu coração dispara enquanto o trago para perto do rosto e por pouco não o deixo cair no chão…

NÃO POSSO ACREDITAR!

 

Precisamos nos falar com urgência.

Dá seu jeito.

Vou precisar da sua ajuda. 

Consegui, desta vez, bolar um plano infalível para reconquistar o Matheus.

Me espera amanhã entre o intervalo do segundo para o terceiro tempo na saída do corredor para a sala de música.

Bjs, lindo, e não me deixe esperando.

 

Encaro a tela do Whatsapp soterrado pela incredulidade, até porque não há outro tipo de reação que eu possa ter. Todo este frenesi, todo este esforço pra isso? Pra me deparar com mensagens da Brenda?

Balanço a cabeça, reviro os olhos e depois de tornar a ler o que a Barbie fake escreveu, respondo com um “OK”, muito a contragosto. Sei que se não fizer isso, enviar qualquer retorno, ela irá me torrar o que resta da paciência.

Quem poderia prever que um dia eu veria a patricinha do CGAM engolir o próprio orgulho?

Justo ela, que antes de namorar o Matheus jamais me dirigiu uma palavra sequer. A propósito um gesto típico da sua arrogância, afinal, Brenda, assim como suas amiguinhas, nunca dirige a palavra a qualquer outro ser humano que não faça parte do seu mundo cor de rosa perfeito, cuja ordem do dia, aliás, de todos os dias, é “não estou aqui para agradar ninguém”.

Como o Matheus conseguiu namorar essa falsiane mimada e consumista? Até hoje me pergunto o que ele teria visto nela além da sua beleza superficial, da sua pseudoperfeição e da sua autoestima tão frágil como um cristal.

Desde que me descobri apaixonado por Matheus, volto a afirmar e sem o mínimo pudor, vê-lo com uma garota e ouvir suas confissões a respeito de cada uma delas não me faz muito bem.

Na verdade NÃO ME FAZ BEM e ponto.

Mas daí ter que testemunhar sua felicidade ao lado do “diabo veste Prada” por dois longos meses, foi uma prova de fogo muito, muito injusta, quase uma penitência. Agora eu sei de verdade o que o Hércules passou quando precisou dar conta daqueles doze trabalhos. Ainda sinto arrepios só de lembrar o olhar de Brenda abarrotado por uma sensação de vitória plena e absoluta por ter Matheus ao seu lado ao tempo que me jogava na cara, silenciosamente, que eu não tinha outra escolha a não ser tolerar sua presença.

Estico o braço esquerdo até minha mochila, que a essa altura do campeonato está mais que abandonada na poltrona ao lado, e depois de abrir um dos bolsos que fica numa de suas laterais, atiro o celular dentro dele e em seguida assumo uma postura ereta sobre o meu assento e cruzo os braços.

Como eu desejei com cada fibra de cada um dos meus músculos que o meu amigo tivesse sido uma mera conquista para a Brenda. Resultado de alguma aposta absurda, dessas que só vemos em filmes. Porém nunca consegui descobrir nada parecido, e caso tenha sido essa a razão do súbito interesse dela por ele, o tiro lhe saiu pela culatra… a merda é que eu também acabei sendo atingido.

Dois meses! Até que durou muito.

Descruzo os braços, levo a mão direita à altura da nuca e inclino o pescoço levemente para trás e em seguida endireito-me novamente sobre a poltrona.

Por que Deus? Por que fui ter pena dessa garota pedante e intragável? A raiva e o desprezo que sinto por Brenda deveriam ter sido mais fortes, ter saltado à frente do meu coração mole, me impossibilitando de aceitar seu pedido, pedido não, sua súplica para ajudá-la a tentar ter o Matheus de volta depois que ele lhe deu um pé na bunda, há quase um mês.

Ela não foi a primeira que assisti se desesperando, chorando, confusa, querendo voltar no tempo e fazer tudo diferente. Se perguntando onde foi que errou. Insistindo na ideia de que poderia continuar a fazer parte do mundo do meu amigo enquanto ele seguia curtindo a vida. Contudo, lá no fundo, por mais que eu não queira, preciso reconhecer: Brenda foi a primeira que me fez recordar o quão atordoante pode ser a dor da rejeição.

Olho para baixo depois que retiro a mão direita de trás da nuca e fico observando o estofado da poltrona que está no espaço entre as minhas pernas.

O Gabriel…

Será que ele continua agindo como uma aranha, lenta, cruel e perversa, sequioso em atingir seus propósitos, deixando em casa mulher e filhos para se aproveitar de garotos ingênuos, que estão explodindo de hormônios e ansiedade sexual, para usá-los e depois descartá-los? Pouco se importando se os fará sofrer, se irá deixá-los desorientados, fazendo com que se sintam ser de lugar nenhum?

Fico pensando se haveria menos pesar no mundo se as pessoas (se o Gabriel) seguissem o que Mário Quintana disse a respeito de promover e incentivar os sentimentos de paixão no outro quando não se pretender fazer o mesmo.

Reviro os olhos à medida que busco ignorar o resquício de incômodo que o futuro cunhado da minha irmã Maria Clara ainda consegue me fazer sentir. Graças aos céus, águas passadas não movem moinho, e pra falar a verdade já tinha até me esquecido que ele será um dos padrinhos do casamento dela, no sábado…

Dou de ombros e volto a olhar para as costas das poltronas vazias à minha frente. Um problema de cada vez, e nesse momento preciso resolver a “questão Brenda”. Eu realmente não sei qual de nós dois está com a autoestima mais do que soterrada, entretanto um erro não pode justificar o outro, por mais empatia que eu tenha sentido com sua “sofrência”.

Definitivamente alguém precisa retomar o centro da razão e do amor próprio nessa história toda, e eu não tenho a mínima vocação para encarnar Cyrano de Bergerac, que foi capaz de se sacrificar para que o amor de sua vida fosse feliz com outra pessoa. Ainda mais se essa outra pessoa for a Brenda. E no frigir dos ovos, se tudo isso não for suficiente, não posso esquecer que nas últimas três semanas venho traindo a confiança do meu melhor amigo.

– Jovem. Todos já desceram.

Levanto os olhos na direção da voz grave que recai sobre mim. É o condutor do ônibus, parado no corredor, com as mãos na cintura, me encarando como se eu fosse um completo estranho, uma ameaça em potencial, um homem bomba prestes a explodir tudo à minha volta.

*   *   *

Ostentando um semblante carrancudo, atravesso a área de passeio feita com pedra miracema, ladeada por um jardim composto de azaleia, buxinho e grama esmeralda, cuja extensão de 1.200 metros segue da entrada principal do condomínio até a entrada do hall social do bloco aonde fica o apartamento dos meus pais.

Antes de cruzar a porta automática, também de vidro temperado com fundo verde, no mesmo padrão do portão e muro do condomínio, estaco a alguns centímetros de distância para olhar na direção do bloco onde o Matheus mora, já considerando a hipótese de subir até o apartamento dos seus padrinhos e cara a cara perguntar para ele os motivos que o levaram a me ignorar desde ontem à noite, depois que nos falamos no celular pela última vez, apesar de eu já saber a resposta.

Num movimento um tanto brusco, tiro os óculos do rosto e os levo até a extremidade da camisa para limpá-los rapidamente (não importa o que se faça, eles vão estar sempre sujos) e logo em seguida, mal terminando de devolvê-los ao lugar de praxe, e enquanto respondo com um sorriso forçado aos cumprimentos de alguns dos moradores que passam por mim, busco reunir forças para ir adiante com minha intenção, por mais idiota e patética que possa parecer. Nem Zeus escapou do ridículo do amor, então porque eu, um mero mortal, deveria me preocupar com isso?

Talvez esteja mais do que na hora do Matheus rever sua lista de prioridades. Saber o quão incomodado fico por ser tratado de maneira completamente hostil quando ele está com uma nova namorada.

Nem chego a dar o primeiro passo e logo sinto minha respiração mudar, ficando mais acelerada e mais superficial do que o meu corpo precisa, e minhas costas começar a doer e pensamentos desconexos invadir minha mente de maneira obsessiva.

Pensando bem, talvez lá, no País das Maravilhas, ao lado da Alice, do Coelho apressado e daquele Chapeleiro envolvido com drogas pesadas e ilícitas, essa possibilidade de confrontar Matheus possa se concretizar, mas aqui…

Balanço a cabeça carregado de incredulidade ao passo que tento semear o mínimo de coerência possível no vasto terreno árido onde ideias revolucionárias germinam como ervas daninha pelas paredes do meu cérebro, ao tempo que procuro controlar minha respiração, deixando a saída do ar durar um tempo maior do que a da entrada até que aos poucos vou retomando o centro da minha existência.

O que está acontecendo comigo? Questiono enquanto arrumo a alça da mochila sobre o ombro esquerdo e em seguida olho para baixo, na direção da fila de buxinhos e azaleias próxima aos meus pés, sem conseguir deixar de lamentar por mais uma batalha vencida pela hesitação crônica. Todavia, no mesmo instante, algo dentro de mim parece gritar, recusando-se, desta vez, a aderir à certeza da derrota.

O que está acontecendo comigo? Pergunto, de novo, entredentes. Não tenho mais quatorze, quinze anos. Chega de sofrer por alguma coisa que não sei se é real. Preciso saber se tudo isso está somente dentro da minha cabeça ou não. Talvez uma avalanche da mais dura e fria realidade me ajude a abandonar de vez a esperança de que Matheus vai despertar um belo dia e enxergar o que sinto por ele e de pronto acreditar que encontrou sua alma gêmea e reconhecer quanto tempo foi perdido até aqui.

Uma comichão de ansiedade e desespero me invade de maneira tal que é impossível continuar resistindo, e daí eu respiro fundo (de novo e mais uma vez) e sem titubear levanto os olhos e torno a mirar, cheio de determinação, a entrada do bloco em que o Matheus mora e dou o primeiro passo adiante e também o segundo, entretanto, o terceiro e o quarto, inevitavelmente, me fazem recuar, devolvendo-me ao ponto de partida, silenciando em minha alma, e de uma só vez, a intrépida voz que tentara, com mérito, dar o seu brado de independência.

Não poderia ser diferente. Ingenuidade em excesso de minha parte acreditar que eu não seria assombrado pelo fantasma da possibilidade de ser rejeitado. Pela convicção de que todo o esforço que venho fazendo para manter intacta a amizade de Matheus vai desmoronar num estalar de dedos. 

Uma foto do melhor amigo estampada na tela de bloqueio do seu celular é uma coisa, ainda que um tanto estranho, pode ser encarado como uma homenagem, mas ouvir uma confissão de que ele está a quase um ano perdidamente apaixonado por você, o levará a concluir, sem qualquer objeção, que esteve todo o tempo ao lado de um exímio mentiroso que se aproveitou de maneira sórdida de todos os instantes da intimidade fraternal que compartilharam.

Se parar pra pensar, nunca presenciei Matheus se manifestando em relação ao fato da desconfiança de alguém ser gay. Não sei o que se passa em sua mente. Ou que tipo de conceito tem construído, já que nunca falamos sobre isso. Pelo menos não de forma direta e sem meandros, graças a Deus.

E se ele for do time dos que acha a homossexualidade contagiosa?

Porque não?

O séquito de amiguinhos no CGAM que está sempre ao seu redor, aquele bando de primatas do paleolítico médio, pensa dessa forma. E por mais que Matheus tenha a inacreditável habilidade de acender uma vela para Deus e outra para o diabo sem se queimar, sustentando um meio termo que só mesmo as Leis da Diplomacia podem explicar, principalmente quando esses seus amiguinhos decidem escolher uma potencial vítima para infernizar sem qualquer fundamento, creio ser difícil para ele ainda conseguir manter-se imune. Ainda mais em algo que coloca em jogo a própria masculinidade, ponto de honra para aqueles Neandertais…

Eu até hoje vivo sob o temor de que a nossa amizade, em algum momento, vá sucumbir em favor desses seus coleguinhas. E para essa corda arrebentar de vez, não precisa muito. Basta tão somente que um deles junte provas incontestáveis sobre a minha orientação sexual para colocar Matheus entre a cruz e a espada, destilando um veneno corrosivo que vai invadir sua alma, seu coração, criando um abismo entre nós dois até que ele, Matheus, seja convencido de qual lado deverá permanecer.

Ainda não estou preparado para perder esta amizade. De ser banido impiedosamente do universo, da força gravitacional que emana de Matheus. E sei o quão frustrante isso pode ser. Mas por agora preciso encontrar um meio termo e continuar seguindo com a minha existência, dando o meu jeito de conviver com a dor que escolhi, mesmo porque não sei o quanto ela vai durar. Só torço para que não se estenda por mais quase um ano.

Entre resignado e impaciente, dou meia volta, passo pela porta automática de entrada do hall social do meu bloco, e depois de atravessá-lo a passos largos, alcanço o elevador e milagrosamente, sem ninguém como companhia, chego até o décimo andar onde moro, sentindo minha cabeça latejar, como se dentro dela estivesse sendo montada toda aparelhagem de um show de heavy metal para o qual não serei convidado e nem faria a mínima questão.

Por que às vezes achamos que sabemos tudo ao mesmo tempo que não temos a menor ideia do que está acontecendo? Bocejo enquanto reviro minha mente em busca de uma resposta até que, por fim, saio do elevador e inicio o trajeto rumo ao meu apartamento sem muita pressa.

Sob uma iluminação disponibilizada pelo sensor de presença, percorro o extenso corredor deixando para trás pontos de luz com intensidades baixas até chegar à frente da imponente porta com madeira de demolição que demarca a entrada do “lar doce lar” onde vivo e, despretensiosamente, após ajeitar os óculos sobre o rosto, eu a encaro para logo em seguida estacionar meus olhos sobre o número “1010” gravado em relevo sobre sua superfície.

O que eu daria para não estar aqui, para sumir do mapa sem deixar rastros até conseguir parar de me sentir a pior pessoa do mundo. Até conseguir enterrar muito, muito fundo, e sob uma placa de concreto terrivelmente pesado, a impressão de que estou sendo cobrado por ter tomado o caminho errado na estrada da minha existência…

Ao menos Ricardo III, concluo cabisbaixo, tinha um reino para trocar por um cavalo no auge do seu desespero em pleno coração da maior batalha de sua vida.

Sem pressa, fecho e abro os olhos algumas vezes, fitando o vazio do meu inconsciente, tentando ignorar por completo a realidade maciça do meu entorno. A dor de cabeça ainda persiste, porém numa escala bem menor e então decido seguir com o baile, pois ficar aqui, parado, esperando a banda passar, não é a melhor das opções.

Ergo o olhar, depositando-o mais uma vez sobre a porta enquanto trago a mochila para frente, sem retirá-la do ombro esquerdo, no intuito de apanhar a chave do apartamento que está num dos seus bolsos laterais. Uma sensação de certa falta de ar, ainda que leve, começa a chamar minha atenção e, claro, vou ignorá-la. Mero resquício deste samba lelê que estacionou dentro mim, em cada canto do meu corpo, da minha mente. Todavia, a cretina é determinada, e vai se tornado tão intensa em questão de segundos, que é impossível seguir desprezando sua tentativa de me desestruturar.

A infeliz sobe dos pulmões para o cérebro com a velocidade de um relâmpago, paralisando meus braços e pernas, não me dando sequer uma oportunidade de defesa a não ser devolver a mochila para detrás do ombro e com ela amortecer o baque involuntário do peso do meu corpo contra a parede ao lado da entrada do apartamento, ao tempo que luto para não desabar enquanto garras comprimem meus músculos até alcançarem meu peito, obrigando-me a inclinar a cabeça também para trás até sentir o concreto frio da parede tocando o meu couro cabeludo.

Não posso acreditar que cheguei a este extremo e que meu organismo esteja tão fragilizado assim.

Detesto sentir-me desse jeito. Completamente exposto. Uma presa fácil para alguém começar a encher os meus ouvidos com perguntas chatas e cansativas. Não estou com disposição para elaborar uma desculpa qualquer, por mais esfarrapada que seja, caso algum vizinho apareça aqui, agora, neste corredor, convencido de que eu esteja tendo um AVC.

Nestas horas, embora não acreditando muito nos perfis e características pré-estabelecidos pela astrologia para os signos do zodíaco, reconheço, mesmo a contragosto, a força da personalidade ariana que carrego.

Preciso com muita urgência aprender a lidar com o excesso de ansiedade e com minhas próprias emoções. Matheus não vale isso. Nem o Gabriel. Nem a escola. Nem os imbecis daqueles Neandertais. NEM A BRENDA!

Consigo mover a cabeça para o lado, na direção do corredor que deixei para trás e enquanto observo os pontos de luz com intensidades baixas promovidos pelo sensor de presença, trato de inalar, durante um longo suspiro, todo o ar que consigo e daí, lentamente, conto até dez, me afasto da parede, tomo coragem e resgato a chave na mochila para em seguida encaixá-la na fechadura e girá-la ao mesmo tempo que vou me agarrando desesperadamente à realidade.

É o que me resta…

Entretanto, antes mesmo de colocar o primeiro pé no hall de entrada do apartamento, meus ouvidos são invadidos pelos brados de dona Marcela, e concluo, um tanto desgastado, depois de fechar apressadamente a porta atrás de mim, que um dia ainda vou tomar coragem em voltar para casa com um protetor auricular e também um ansiolítico forte, desses que derrubam até um elefante, para que eu não perca o que resta das minhas faculdades mentais. Até lá, não serei tão exigente quanto Ricardo III. Estarei disposto a trocar minha coleção autografada do Harry Potter por um pônei, ou mesmo um burrico, que seja, mas que consiga levar-me o mais distante possível de todo este pandemônio.

Sixpence None The Richer – Don’t Dream It’s Over

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  • Realmente kadu, há muitos idiotas no mundo, tenho paciência para isso não =.=
    Agora esses pensamentos acaba sendo neuras mesmo, quem vai entender o outro? Relex lindo, pessoas são estranhas ponto.

    Agora “qualé” dessa mina querer que você ajude ela a voltar com Matheus? Pior que você vai acabar indo lá e ajudando né? Prevejo que isso não vai dá certo e você vai sofrer =.=

    Fran amei os devaneios do Kadu, tbm viajo em meus pensamentos enquanto estou parada no ponto ou no ônibus indo para casa ou trabalho. Parabéns arrasou novamente <3

    Quero ser vc quando crescer Fran =*

    • Obrigado mais uma vez Isa por sua participação. Já vi que o Kadu ainda não percebeu que tem uma amiga “aqui fora”…kkkk Eu também muita das vezes me pego mergulhado nos meus pensamentos a caminho (ou voltando) do trabalho… Acho que até faz bem, sabia? Claro, não da forma como o Kadu se embrenha..kkk… mas tadinho, Enfim, agradeço todo essa carinho e você já é uma promissora escritora e não vou me cansar de afirmar. Um grande beijo.

  • Que série boa! Estou gostando muito de acompanhar a trajetória do Kadu. Não tem como não torcer por ele. Acredito que estejam centenas de Kadus se identificando com o herói da história, e isto é muito bom. Parabéns, Francisco.

    • Olá Marcelo. Muito obrigado pelo privilégio de ter você como leitor.

      Acredite, enho grandes esperanças de que esse texto, esse personagem, possa criar empatia com outros adolescentes que possam estar atravessando conflitos parecidos com o do Kadu e perceber e constatar que tudo o que sentem faz parte dessa fase da vida por mais avassalador que lhes possa parecer.

      Um grande abraço e grato demais por suas palavras.

  • Kadu é uma peça! Mas, que conflito interessante! Como disse a Isa acho que ele vai acabar ajudando a garota. Mais, um filosófico episódio!

  • Realmente kadu, há muitos idiotas no mundo, tenho paciência para isso não =.=
    Agora esses pensamentos acaba sendo neuras mesmo, quem vai entender o outro? Relex lindo, pessoas são estranhas ponto.

    Agora “qualé” dessa mina querer que você ajude ela a voltar com Matheus? Pior que você vai acabar indo lá e ajudando né? Prevejo que isso não vai dá certo e você vai sofrer =.=

    Fran amei os devaneios do Kadu, tbm viajo em meus pensamentos enquanto estou parada no ponto ou no ônibus indo para casa ou trabalho. Parabéns arrasou novamente <3

    Quero ser vc quando crescer Fran =*

    • Obrigado mais uma vez Isa por sua participação. Já vi que o Kadu ainda não percebeu que tem uma amiga “aqui fora”…kkkk Eu também muita das vezes me pego mergulhado nos meus pensamentos a caminho (ou voltando) do trabalho… Acho que até faz bem, sabia? Claro, não da forma como o Kadu se embrenha..kkk… mas tadinho, Enfim, agradeço todo essa carinho e você já é uma promissora escritora e não vou me cansar de afirmar. Um grande beijo.

  • Kadu é uma peça! Mas, que conflito interessante! Como disse a Isa acho que ele vai acabar ajudando a garota. Mais, um filosófico episódio!

    • Obrigado Hugo. Adorei a observação: “Kadu é uma peça” 😀😀😀😀😀😀😀😀. Grande abraço 👍👍👍

  • Que série boa! Estou gostando muito de acompanhar a trajetória do Kadu. Não tem como não torcer por ele. Acredito que estejam centenas de Kadus se identificando com o herói da história, e isto é muito bom. Parabéns, Francisco.

    • Olá Marcelo. Muito obrigado pelo privilégio de ter você como leitor.

      Acredite, enho grandes esperanças de que esse texto, esse personagem, possa criar empatia com outros adolescentes que possam estar atravessando conflitos parecidos com o do Kadu e perceber e constatar que tudo o que sentem faz parte dessa fase da vida por mais avassalador que lhes possa parecer.

      Um grande abraço e grato demais por suas palavras.

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