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EU, KADU – episódio 9 : “dez coisas que odeio em você”

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“Tem certeza de que está preparado para ouvir a verdade?” A pergunta de Brenda reverbera dentro da minha cabeça, em todos os cantos, massacrando cada um dos meus neurônios…

Mas que verdade? Eu não vou acreditar em nada que você me disser, em nada. Matheus me protegendo dos Neandertais? Isso é uma piada. Como ele pôde ter tomado essa iniciativa e ainda por cima sem ter me consultado?

Infelizmente não consigo articular nenhuma dessas palavras. Todas travam, uma a uma, na minha garganta, por receio, desespero… Seja lá qual for o motivo, não consigo atirá-las em direção à Brenda e então fecho os olhos ao mesmo tempo que sinto um tique nervoso tomar conta do meu rosto, minha mão esquerda tremer, minha garganta ficar seca e uma confusão mental crescer a cada milésimo de segundo.

Calma Kadu. Calma.

Respiro fundo, até o limite que meus pulmões permitem alcançar e daí eu abro os olhos, bem devagar, acreditando que quanto mais tempo levar para completar a engrenagem desse mecanismo, maior a possibilidade da Brenda ter desaparecido da minha frente…

– Kadu. Qual é o seu problema? Fingir que não está me escutando não é a solução…

A voz de Brenda ecoa ao longe, bem longe de onde se encontra a sua imagem estagnada, me olhando, me medindo, porém suas palavras se embaralham em minha cabeça e eu as ouço como se estivessem sendo ditas ao pé do ouvido.

É impossível me concentrar…

Não posso acreditar que meu subconsciente está tendo outro piripaque… Matheus, ONDE VOCÊ ESTÁ?

O primeiro solavanco, o segundo e depois o terceiro e então sinto como se estivesse caindo, perdendo o equilíbrio, a mesma sensação de espasmo quando se está pegando no sono… Brenda está parada à minha frente, com as mãos sobre os meus ombros, examinando com extrema atenção cada linha do meu semblante. Sinto-me um tanto desorientado e com a respiração irregular…

– O que quis dizer com “se não fosse o seu Robin Hood, você e sua pretensão teriam virado poeira dentro do CGAM?”

É claro que eu sei o que a boneca de cera quis dizer, mas as palavras escapam da minha boca sem me oferecer a menor chance de impedi-las ao tempo que percorro o meu entorno, apenas movendo a cabeça sobre o pescoço, aparentemente sem pressa, e, tão logo termino o exame do espaço à minha volta, estaciono o olhar novamente sobre Brenda, que me dispensando um sorriso entredentes, se afasta, não muito, apenas o suficiente para que possamos manter a dignidade do mínimo de espaço que dois inimigos, decerto, precisam sustentar enquanto travam uma batalha.

– Você é um bom ator, Kadu. Não é ótimo. Mas se investir na carreira vai alcançar o patamar de um James McAvoy ou até mesmo de um Thimothée Chalamet. Imagina você protagonizando uma versão de Me chame Pelo Seu Nome, interpretando o adolescente que tenta negar a sua homossexualidade até que se apaixona pelo acadêmico que foi ajudar nas pesquisas de seu pai? Sem sombra de dúvida você daria uma veracidade tamanha ao papel e o Oscar ia ser seu em dois tempos. Prêmio que o lindinho do Thimothée não conseguiu, apesar de ter merecido, na minha humilde opinião.

Cínica. Não há como não compreender essa observação recheada de sarcasmo enquanto enxergo nos olhos de Brenda, parada à minha frente, exalando arrogância, como se detivesse todos os segredos do universo, a certeza incontestável de que ela sabe sobre mim. De pronto, começo a experimentar o desconforto de uma leve tontura somada à minha respiração cada vez mais irregular à medida que arrumo os óculos sobre o rosto, uma, duas, três vezes… 

– Na boa, Kadu, chega né? Você realmente achou que com esse teatrinho ia me convencer a sentir pena de ti? Se não me convenceu até hoje com essa sua falsa ingenuidade que insiste em manter a respeito da proteção que o Matheus vem lhe dando dentro desse colégio…

Sim, Brenda sabe. Mas como?

Passo e repasso em minha mente todos os movimentos, olhares e gestos que eu possa ter deixado escapar diante dela e que poderiam ter feito, de uma forma ou de outra, que deduzisse algo, mesmo que eu compreenda que trejeitos e comportamentos não tenham nenhuma relação com orientação sexual. Não encontro nada que possa me condenar. Estou limpo. Com certeza essa famigerada está blefando. É impossível que desconfie de alguma coisa. Nem ela e nem ninguém. Eu não deixei pistas. EU NÃO DEIXEI!

– Sei que você deve estar me achando ainda mais cretina, antipática e irritante por eu estar aqui, na sua frente, Kadu, te dizendo todas essas coisas, porém, pense e reflita… Quem mais para te trazer para o mundo real, te tirar de dentro dessa Matrix que você criou para si mesmo? Sua família? Impossível. Os parentes adoram nos testar. Anda mais em situações como essas. Amigos? Convenhamos você só tem um, nosso querido e amado Matheus, aliás, muito amado, não é mesmo?

-Não sei do que você está falando, Brenda.

Eu a interrompo de súbito enquanto empertigo os ombros e busco forças no além para sustentar a firmeza do meu olhar. Se eu me deixar cair ou fizer qualquer outro movimento que sugira uma retirada, uma debilidade qualquer, a Barbie Fake vence essa guerra e eu não pretendo ser derrotado. Essa cretina, como sempre, está agindo de maneira dissimulada, uma víbora se deleitando sobre o próprio veneno. E se por acaso, se realmente ela sabe algo sobre mim, e de quebra está tentando transformar o Matheus em meu inimigo, decididamente eu não lhe darei o prazer da vitória.

Um longo instante de silêncio. A tensão nesse corredor é palpável. Nenhum movimento. Nada. Quem será o primeiro a agir?

-Kadu… – Brenda arqueia uma de suas sobrancelhas antes de mover a cabeça de um lado para o outro, sem pressa, para em seguida voltar a me afrontar – Na boa, se nós dois fingirmos que estamos namorando, ninguém sai perdendo. Eu, claro, reconquisto o Matheus, por mais irritante que isso possa lhe parecer, mas essa provação nem vai pesar tanto quando os boyzinhos do CGAM virem você com uma garota a tiracolo, deixando, finalmente, todos em dúvida. E modéstia à parte, a garota mais desejada por aqui – ela deixa escapar uma risadinha de satisfação sem realmente qualquer falsa modéstia ao passo que me oferece uma piscadela.

-Escuta…

Com os braços baixados, encosto as mãos nos lados de cada uma das minhas pernas e cerro os punhos enquanto tento escolher as palavras que vou desferir. As pontas dos meus dedos estão parecendo blocos de gelo.

– Quem está precisando de ajuda aqui é você Brenda. Eu não vou continuar nesse caminho equivocado, alimentando uma parceria construída sem nenhuma base sólida, como venho tentando te dizer desde o instante em que começamos esse diálogo insano e surreal. Reconhecer um erro é sinal de humildade e vontade de aprender. Não somos amigos, nunca fomos, e se não fosse o seu namoro com o Matheus, possivelmente jamais teríamos trocado qualquer palavra. Sou muito, muito grato por sua consideração, por pensar em me proteger, como você mesmo está afirmando, mas não vai dar certo, ok? Nossos mundos são diferentes…

Se Brenda pudesse me esfaquear, aqui, agora, ela o faria, e com um prazer bestial.

Se o Matheus decidir voltar para você, não serei eu a dizer o contrário, afinal, ele já é grandinho o suficiente para saber o que faz da vida. Porém nunca, repito, nunca o vi reatar um namoro, e olha que não são poucas as garotas que já estiveram ao seu lado… Vamos nos despedir. Prometo que não vou dizer ao Matheus nada do que conversamos…

-E se o Matheus souber que você me ajudou, diga-se de passagem, não só uma vez, a tentar reatar o meu namoro com ele? – Brenda dispara enfática – Até onde me lembro, eu não te amarrei, não te chantageei ou te ameacei. Enfim, não te obriguei a nada. Então me diga como o seu querido amigo irá reagir diante dessa sua súbita e hipócrita fidelidade?

– Realmente você não ouviu nada do que eu disse e estamos dando voltas e voltas e sem sair do lugar…

Deixo escapar um longo suspiro e daí dou de ombros e me despeço com um sorriso meio de lado, virando-me por completo, mesmo sentindo as minhas pernas bambas, quase não aguentando o peso do meu corpo. Pela minha saúde física e emocional está decidido: nada do que essa maluca disser vai me fazer voltar atrás.

-Você é mais idiota do que eu pensava, Kadu. E não me arrependo de nada do que eu disse para o Matheus a seu respeito…

Continuo a caminhar. Preciso. Minha respiração, aos poucos, está alcançando o seu ritmo natural.

-Pergunte para o seu amigo. Pergunta pra ele o motivo do término do nosso namoro e você vai entender que me deve, sim, essa conta…

-Só te ajudei por pena!

Não resisto e disparo enquanto me viro para depois retomar a direção rumo à saída do corredor.

– Não mesmo – Brenda completa resoluta – Você me ajudou porque queria se sentir superior. Quis jogar na minha cara que eu merecia a má sorte de ter sido chutada pelo Matheus. Você, Kadu, agiu em resposta à sua inveja, à rivalidade que temos, e o fato de ter aceitado me ajudar, apesar de inconscientemente sabotar cada uma das minhas tentativas, te fez se sentir no topo do mundo. Vitorioso. Com a faca e o queijo nas mãos.

– Brenda, na boa, o que você tomou no café da manha?- apelo para o escárnio ao passo que continuo meu trajeto enquanto olho de soslaio, rapidamente, para a câmera instalada a alguns metros de distância da altura da minha cabeça.

Era só o que me faltava. Inveja dessa Barbie Fake? A inveja aparece quando reconhecemos em alguém uma qualidade que gostaríamos de ter, mas acreditamos que não temos, ou não podemos ter. E o que essa desvairada, cabeça de vento, possui para que eu deseje? A superestimada autoestima? O nível de arrogância ultrapassando as nuvens? O desespero em se manter na vitrine a cada 15 minutos? Ser escravo da moda? Bens materiais? Pelo amor de Deus, minha mãe é tão rica quanto o pai dela…

– É claro que você não vai admitir Kaduzinho…

Ouço o “diabo veste Prada” prosseguir e sem sombra de dúvida com mais um desfile de calúnias.

– Ao assumir que tem, sim, inveja de mim, você será obrigado a reconhecer que falhou. Será obrigado a reconhecer que o seu recalque por eu ter conquistado o Matheus e ter conseguido ficar com ele dois meses, dois longos meses, tempo muito maior que todas as outras conseguiram, não foi suficiente pra te manter estabilizado e isso te levou à beira da loucura. E sabe por quê? Porque você não conseguiu nos separar, como fez com as outras.

– Saber perder é uma virtude, alguém te avisou?

Disparo bem alto, ignorando por completo mais essa insanidade vomitada pela patricinha descompensada, ao mesmo tempo que não desvio um instante sequer do meu foco, pois estou quase lá, faltando pouco, bem pouco para virar a esquina do corredor e deixar essa mancha para trás. E não vou apertar o passo. Não vou fugir como um rato. Não vou dar esse prazer à rainha louca. Vou seguir meu caminho com dignidade.

– Escuta Kadu… O Matheus desmanchou o namoro comigo porque não aguentou ouvir a verdade. Ou melhor dizendo, as verdades…

A dissimulação no timbre da voz de Brenda, assumindo um tom meloso, não natural, fingido, maquiando seu desespero através de lamentações e injúrias, é inconfundível.

– Confesso que eu sentia ciúmes de você, Kadu, e pode se vangloriar, eu deixo. Um pouco de autoestima vai te fazer muito bem. E não há duvidas de que você está precisando.

Oi?

Engulo em seco.

Não vou escutar o que essa pessoa tem pra dizer. Continue a andar Kadu. Continue a andar…

– Eu cheguei ao cúmulo de pedir ao Matheus para que escolhesse a sua amizade ou o nosso namoro…

Não posso acreditar no que estou ouvindo. Aonde mais a Brenda foi capaz de ir para ter o Matheus com exclusividade ao seu lado? Na boa, essa garota é uma psicopata além de narcisista e maquiavélica, e o meu amigo fez muito bem em dar um chute na sua bunda.

– Discutimos muita coisa – Brenda continua mantendo, sabe Deus como, uma aparente calma e controle – O Matheus me chamando de imatura, exigindo uma justificativa para o meu receio, para o meu despeito, duvidando dos meus sentimentos depois de dois meses que já estávamos juntos… Eu não aguentei e falei o que estava acontecendo bem embaixo do nariz dele: que você o ama Kadu. Que você o idolatra, o venera e que não é preciso ser um gênio para perceber isso…

Palpitações invadem o meu peito e sinto falta de ar enquanto termino de assimilar o despautério que acabei de ouvir.

Tento, mas não consigo dar mais nenhum passo e então fecho os olhos à medida que respiro fundo, experimentando o medo, a insegurança e as expectativas em excesso voltarem a me assolar, entranhar-se por cada poro da minha pele, tomando a velocidade vertiginosa da minha corrente sanguínea.

Minha cabeça começa a girar e daí eu inspiro e expiro e abro os olhos no intuito de focar um ponto qualquer a fim de retomar o comando das minhas emoções, a fim de não perder o controle da minha consciência, porém, de um instante para o outro, vejo Brenda se postar à minha frente, já levantando o meu queixo, sustentando-o com extrema convicção…

Não me resta alternativa. Num esforço hercúleo eu também a encaro.

– Matheus me odiou, eu sei disso – o olhar de Brenda, penetrante, atravessa minha alma e atinge o meu coração sem qualquer resistência de minha parte – Mas eu já estava na chuva mesmo então contei que sabia do acordo que ele havia feito com os moleques do CGAM e também o fiz enxergar que essa proteção que negociou para que deixassem de te importunar, Kadu, não tinha nada de nobre. Foi incentivada e até hoje é sustentada por um mero sentimento de compaixão, piedade, lástima, e quer saber? O Matheusinho não encontrou nenhum argumento que jogasse por terra o que eu estava dizendo e, por fim, pediu para que jurasse jamais te contar… Por que será que ele pediu isso?

Não consigo pensar. Não consigo pensar.

– Hellooo! – Brenda revira os olhos de maneira tão espetaculosa que me dá nojo – Ele assinou embaixo a sentença de culpa com esse pedido, concorda?

Não consigo pensar. Não consigo concatenar a mais irrisória das sequências lógicas entre ideias ou argumentos e daí eu coloco uma, duas, três vezes o dedão da mão direita no meio do rosto para, de novo e de novo, empurrar os meus óculos na direção do ápice da testa e por pouco, quando volto a baixar o braço, não esbarro no pulso de Brenda, que teima em manter o meu queixo entre seus dedos.

– Você deve estar se perguntando por que te contei tudo isso…

A boneca de cera me observa por alguns segundos e depois sorri com fingida benevolência.

– Eu não queria ter chegado a esse extremo, mas as cartas estão na mesa, Kadu, e eu não jogo para perder. Então pense bem na minha proposta, lindo: se o Matheus descobre que você, o melhor amigo, o traiu, apesar de ele também ter te traído, mas por um bem maior, pensando em preservar a sua integridade física e moral, não tenho dúvidas de que ele ficará puto da vida e sua proteção aqui dentro do CGAM, Ka-du-zinho, estará com os dias contados. Matheus odeia perder o domínio da situação e odeia ser confrontado. Veja o que fez comigo… – ela pondera um tanto displicente, arqueando novamente uma das sobrancelhas ao passo que me desfere um imperativo piscar de olhos – Não duvido nada de que ele não vai querer te ver nunca mais.

Retiro a mão de Brenda do meu queixo com um gesto um tanto brusco enquanto cerro com mais força o punho da minha destra que permanece baixada ao lado da perna. Meu peito está arfando e eu me odeio por isso, por estar sendo desarmado desse jeito, sem reagir…

– Esta é a oportunidade de ouro que você estava buscando, não Kadu? O problema e a solução entregues ao mesmo tempo. De bandeja. Estou facilitando as coisas para você, então nada mais justo que eu tenha um reconhecimento à altura.

A voz de Brenda está me causando um mal estar cada vez maior. Ela precisa sair daqui o mais breve possível ou não respondo por mim.

– Vamos lá, lindo. Agora que acabou de saber que o Matheus tem plena consciência do que você sente por ele, e ainda assim eu duvido que tu tenhas coragem de se revelar, de se assumir, nada melhor que fingirmos ser namorados, não acha? Com isso você vai se safar da certeza plena e absoluta de ser desprezado pelo melhor amigo e o nosso amado Matheus e os bobões do CGAM vão ficar com o queixo caído e a pulga atrás da orelha. Convenhamos, o privilégio da dúvida é um presente dos deuses concedido a poucos.

Um instante de um silêncio pesado volta a desmoronar sobre esse corredor ao passo que nós dois, inimigos declarados num campo de batalha completamente contaminado pela vaidade de cada um dos oponentes, aguarda o contra ataque.

Preciso me conter. Preciso me conter. Apesar de tudo preciso me conter, mas está muito, muito difícil. Meu coração não para de acelerar, minha respiração só aumenta e os meus músculos, cada um deles, sem exceção, estão retesados… Vou permanecer calado. Tenho o dever de não falar nada diante desse ataque, dessa invasão abusiva… Brenda não é uma pessoa de confiança. Ela está me manipulando, mentindo…

– Então? Como ficamos? – Ela tem o disparate de me perguntar.

Baixo os olhos. Paulo Coelho… Paulo Coelho escreveu que nosso inimigo só entra na luta porque sabe que pode nos atingir e exatamente naquele ponto onde nosso orgulho nos fez crer que éramos invencíveis.

– Kadu, lindo – ouço a voz de Brenda pausada e também carregada de determinação – Eu sei que você não quer acreditar, e te entendo. Não deve ser fácil desconstruir um ídolo de um instante para o outro. E se esse ídolo for o motivo pelo qual respiramos, é ainda pior…

– Sai daqui. Agora.

Não consigo mais suportar e repito, aos berros, o meu pedido carregado de autoridade enquanto ergo a cabeça, resoluto, buscando de imediato fitar os olhos da boneca de cera com tanta rigidez que, se pudesse, atravessaria sua alma. Ela, esboçando um sorriso debochado, dá de ombros, contorcendo sem demora os lábios para baixo.

– Eu também só iria te ajudar por pena, Kadu… Mas pensando bem, já basta o Matheus tentando afastar os lobos de cima do veadinho.

Suas palavras são ditas sem compaixão sobre um semblante tomado por ares de contrariedade, mas também de um triunfo tedioso.

– Grave bem o que vou te dizer garoto: eu posso ser a solução pros seus problemas, ou posso ser o começo deles… Você escolhe.

Depois de dar um beijo, de leve, no meu rosto, ela se afasta, sem pressa, até desaparecer do meu raio de visão ao virar a esquina do corredor. Imediatamente olho para os lados e tudo começa a se mover e então caminho, devagar, até alcançar uma parede para me deixar cair no chão enquanto minhas costas vão se arrastando e uma queimação no meu estômago vai se fazendo presente. Primeiro devagar, controlável, mas não demorando muito tempo para que se torne insuportável até que sou forçado a cruzar os braços e me encolher, apertando a barriga com força..

Meu cérebro parece que está sendo invadido por uma porção de agulhas bastante afiadas…

Minha muralha… Meu mundo… Meus planos… O que houve com tudo isso?

Sinto minha visão ficar cada vez mais turva, minha boca, amarga, e um enjoo crescente tomar conta de mim até que não resta alternativa senão abaixar a cabeça entre os joelhos e me manter em uma posição quase fetal…

Matheus… Matheus fez um acordo…

Um gosto da bile sobe em minha garganta e eu mal tenho tempo de tirar os óculos para me colocar de joelhos antes de vomitar.

*     *     *

Inspiro e expiro por diversas vezes até reunir forças para conseguir abrir os olhos. De pronto não consigo visualizar com nitidez qualquer imagem à minha frente. Estou me sentindo como um paciente que volta da sala de cirurgia após uma operação com anestesia geral.

Não posso. Não devo me entregar.

Depois de um longo suspiro e alguns segundos piscando sem parar, começo a reconhecer, ainda que com um resquício de dificuldade, a porta da sala de música, a parede que a circunda, o chão encerado, enquanto meneio a cabeça lentamente, sopesando as inúmeras conclusões que circulam dentro dela, tentando controlar as diversas linhas de raciocínio que se atropelam num vai e vem alucinado, como num clipe musical vertiginoso.

Meus óculos?!

Após uma nova e rápida conferida no meu entorno, com os olhos semicerrados, consigo encontrá-los, não muito distante, e apenas esticando o braço direito, com algum esforço, eu os alcanço, não demorando a encaixá-los sobre o rosto.

A sensação de vertigem persiste… Quero superar essa tontura. Obrigá-la a sair de mim, mas a infeliz se recusa.

Brenda, Matheus, os idiotas do CGAM… Todos, um por um, assumem seus lugares diante da reação desnorteada do meu cérebro. No pandemônio criado e incentivado pelos meus neurônios. Mas eu necessito manter a razão. Preciso de um norte para não mergulhar no lamaçal proposto pela Brenda, afinal ela mentiu, por despeito, por raiva, contrariedade, ciúmes… Ela mentiu! Voltou a ser quem era a partir do instante em que me recusei a continuar como seu cúmplice.

Não posso me esquecer do deleite estampado no seu semblante, acreditando que conseguiria manipular meus sentimentos com tamanha facilidade… Mas coitada, não alcançou seu objetivo. Nem mesmo depois da historinha insana de que o Matheus vem me blindando contra os ataques dos primatas desse colégio e tampouco a de que me usou para tentar preservar o namoro com ele. Essa última parte então é completamente ridícula. Não consigo imaginar a Brenda sendo tão ousada, tão cretina a esse ponto. Barganhar a sua relação com o Matheus usando a mim? A minha privacidade? Os meus sentimentos?

Aliás, como ela descobriu sobre esse suposto acordo? 

Fecho os olhos e de pronto encosto a cabeça na parede atrás de mim enquanto sinto o peso do mundo inteiro sobre cada um dos meus ombros e então me vejo, mais uma vez, de volta ao gramado, do lado direito do colégio, momentos antes do início das aulas.

Matheus está me encarando, depois que eu voltei da viagem astral psicodélica proporcionada pelo meu subconsciente, com um olhar controverso, um semblante transmitindo ofensa e também incredulidade, e sem fazer qualquer esforço para tentar omitir o quão moralmente abalado ele parece estar…

Merda.

Por mais que eu não queira dar ouvidos à boneca de cera, agora não posso deixar de me questionar: Matheus estava abalado pela surpresa de ter recebido a confissão de que eu o amo ou por ter constatado que já tinha escutado aquilo de Brenda?

Merda. Merda. A Brenda não fez isso. Ela não jogou tão baixo assim. Matheus não sabe. Matheus não sabe o que sinto por ele. Nem antes ou depois do que houve hoje de manhã, lá no gramado. É claro que não sabe… Como já disse um milhão de vezes, ele teria me dito. Teria tomado satisfações, principalmente se tivesse ouvido da Barbie fake essa suposição, a princípio, sem qualquer fundamento.

Ele teria colocado toda essa confusão em pratos limpos, pois jamais iria admitir ter descoberto algo tão sério, que dissesse respeito a nós dois e que não fosse diretamente por mim.

Merda. Puta que o pariu.

Respiro uma, duas, três vezes, com muita, muita, muita força até permitir que o ar escape dos meus pulmões, expurgando também o odor desagradável do meu próprio vômito, e então trato de recordar a única ocasião em que tentei conversar com Matheus sobre o término do seu namoro.

Sim… Foi um pouco depois que ele e Brenda romperam… Quebramos o acordo tácito que havíamos feito de jamais falar sobre essa relação, pois não tive paciência para entender os motivos que o levou a ficar com a boneca de cera, assim como ele também não havia se empenhado em tentar explicar.

O meu amigo foi enfático, até mesmo um pouco severo e também lacônico ao responder que Brenda era tão imatura como as outras namoradas, e que infelizmente ele havia demorado um pouco mais para enxergar isso. Entretanto, agora, e tenho certeza de que minha mente não está criando uma lembrança conveniente, procurando fazer com que tudo se encaixe e fique de acordo com minha vontade, enxergo com uma nitidez tamanha, beirando o irracional, como se estivesse desvendando algo por detrás de uma cortina de fumaça, a dificuldade de Matheus em me encarar enquanto confessava essas palavras.

Um calafrio percorre minha espinha numa velocidade atroz e eu abro os olhos e de pronto afasto a cabeça da parede, confusamente consciente e ensimesmado com o fato de não ter interpretado essa reação de fuga de outra maneira que não fosse somente a de que ele, Matheus, estivesse desconfortável e sofrendo pelo término dos dois meses do seu namoro.

Não. Não. Matheus é meu melhor amigo e não sabe que eu o amo. Já se vai quase um ano desse suplício… Ele teria percebido. Mas é claro que teria notado. Assim como eu teria notado esse suposto acordo que fez com os idiotas do CGAM.

Não vou me preocupar, não mesmo. Venho conseguindo manter meu segredo a sete chaves e nem ele, nem Brenda e nem ninguém sequer desconfiou e nem vai desconfiar, e muito menos terá a certeza desse fato, A NÃO SER QUE EU QUEIRA!

Chega! Definitivamente não vou mais chafurdar nesse poço de autoflagelação.

Com as duas mãos espalmadas sobre o piso encerado, pressionadas sob os braços completamente esticados, impulsiono o corpo para cima a fim de me colocar de pé. Contudo, tenho a impressão de que meus membros estão se movendo em câmera lenta, que uma força sobre humana parece querer me deter aqui, no chão desse corredor, a poucos centímetros da poça do meu próprio vômito, e daí, sem alternativa ou força de vontade suficiente, eu volto a me sentar enquanto digladio com o meu cérebro buscando desesperadamente convencê-lo de que necessito combater o desânimo e a fraqueza que se alojaram em cada ponto, em cada fibra do meu ser.

Por que vim até aqui me encontrar com a infame da Brenda? Por que lhe dei ouvidos? Eu já devia saber que iria ficar assim, me odiando por me sentir completamente atormentado. Que poder de persuasão essa imbecil possui? Concluo hesitante, voltando a respirar forte, sentindo a irritação imediata do cheiro desagradável do ambiente cada vez mais intenso.

Um tanto cambaleante consigo me colocar de pé e dar o primeiro passo, ainda que apoiado à parede enquanto olho para o alto e miro a câmera disposta a alguns metros de distância acima de mim. Antes mesmo que eu possa sequer realizar qualquer outro movimento, sou tomado, de novo, por uma leve tontura, uma sensação nauseante e então inspiro e expiro, baixando a cabeça em seguida, buscando recobrar o que seja para evitar tombar novamente sobre o chão.

Gostaria de ter uma máquina do tempo e voltar atrás, não muito longe, apenas há quase um ano, antes de eu me descobrir apaixonado pelo Matheus… Reflito, fechando e abrindo os olhos, repetidas vezes, até me sentir relativamente seguro para erguer o rosto, empurrar os óculos para o lugar que lhes é de praxe e ir adiante.

Eu ajudei a Brenda porque precisava ser solidário, e ela, claro, jamais vai compreender esse tipo de atitude. Jamais vai compreender que alguém pode, sim, colocar sua raiva e seu desprezo de lado para apoiar aquela mesma pessoa da qual não suporta a existência sobre a face da Terra.

Ok. Tive pena, sim, e reconheço a falta de nobreza desse sentimento diante da fragilidade extrema em que Brenda se encontrava. Entretanto, esse pesar foi apenas e tão somente o fator principal que incentivou o meu ato de generosidade e humanidade. Não é justo que ela sustente a ideia de que eu a ajudei impulsionado pela minha soberba. Mas não vou cobrar isso. Não vou perder meu tempo tentando provar quais foram minhas reais intenções. Seria uma afronta.

Volto a caminhar possesso, mas sem pressa, jurando a mim mesmo que não vou mais lembrar, por agora, a conversa que tive com essa escabrosa. Que não vou mais mergulhar no veneno destilado por essa víbora, que está pagando com extrema ingratidão tudo o que fiz, buscando de todas as formas que eu e o Matheus assumamos campos opostos dentro da batalha particular sustentada pela fogueira de vaidades que consome a sua alma.

Mas que droga.

Tenho que reconhecer: nenhuma das palavras de Brenda, nenhum dos ataques que proferiu contra mim atingiu tanto quanto a semente que deixou plantada diante do simples fato de ter levantado essa suspeita contra Matheus. Se for para escolher entre a cruz e a espada, prefiro lidar com a possibilidade de que o meu melhor amigo saiba dos meus reais sentimentos, do que a mínima desconfiança de que tenha feito um acordo, uma negociata, me tratando como um objeto de troca. 

Sem demora cruzo a frente da sala onde se localiza o almoxarifado e em seguida a frente da sala aonde carteiras velhas e danificadas ficam guardadas e em pouco tempo alcanço, finalmente, o Estação Ville De Paris. Após encará-lo por alguns segundos, constato que dentro de vinte e cinco minutos o sinal anunciando o fim das aulas do terceiro tempo, como também o início do intervalo, vai tocar, e com isso todos os alunos sairão das salas para se alimentar, encher os corredores, ir ao banheiro… Preciso ser rápido se eu quiser um pouco de paz de espírito para lavar o rosto, enxaguar a boca a fim de me livrar desse gosto azedo e recobrar, em suma, a minha dignidade e até mesmo a minha sanidade mental. 

Depois de arrumar novamente os óculos sobre o rosto e inspirar todo o ar do meu entorno como se a minha vida dependesse desse gesto, desço as escadas até o segundo andar e à medida que vou me aproximando dos últimos degraus, tento de todas as maneiras possíveis, enquanto busco organizar os pensamentos que transbordam da minha mente, dificultando minha concentração e aumentando minha ansiedade, agir com naturalidade, com o intuito de não chamar a atenção de algum Inspetor ou de qualquer outro aluno, que assim como eu, esteja fora da sala de aula. Aliás, não sei como ainda não deram falta de mim. O prazo para o término da prova de história já expirou. 

Graças aos céus, atravesso a passos relativamente rápidos o longo corredor que me levará ao banheiro, e sem qualquer empecilho alcanço o meu propósito e em questão de milésimos de segundo cruzo o batente da porta e, sem pestanejar, escolho uma das pias disponíveis, onde praticamente atiro os meus óculos sobre sua superfície de mármore e em seguida me debruço, encharcando o rosto com a água fria que sai em filetes da torneira para logo depois lavar minha boca e gargarejar com a mesma água fria, e por repetidas vezes, até achar que está bem limpa, apesar do gosto de resquício do vômito ainda permanecer.

O mal-estar parece que já esta quase no fim, ao menos isso.

Levanto-me e de pronto sou confrontado com minha imagem absorta refletida diante do espelho. A conversa que tive com Brenda, cada palavra, cada vírgula, cada veneno por ela destilado se repete como num roteiro de cinema, uma cena crucial de um filme que atravessa meu cérebro na velocidade da luz…

Arranco, sem qualquer delicadeza, algumas folhas de papel do porta toalhas e começo a secar minha cara molhada enquanto meneio a cabeça de um lado para o outro, me sentindo incomodado com a minha linha de raciocínio.

Então o Matheus, se é que realmente a Brenda disse a verdade, sabe que gosto dele? Dou de ombros. Nada que eu não possa negar. Será minha palavra contra a dela. Uma pessoa com ciúmes é capaz de inventar qualquer besteira.

Jogo as folhas de papel toalha na lixeira e ao tempo que coloco os óculos de volta ao rosto e fito novamente o espelho a fim de conferir como está minha aparência para que eu possa retornar à sala de aula sem grandes alardes, sou surpreendido com a entrada abrupta de um dos Neandertais no banheiro.

Para variar está pisando forte.

Aliás, um movimento típico do grupo do qual faz parte. Como se a sua massa corporal tivesse um peso insuportável. Como se a sua estrutura óssea não fosse de um mero adolescente cujo corpo não é essencialmente largo, mas sim com falta de músculos.

Decido não encará-lo, lógico, porém ele faz questão de me fitar através do reflexo do espelho enquanto sorri um sorriso solto num tom de deboche mal disfarçado, e segue com esse semblante inabalável e irritante até desaparecer dentro de um dos reservados, batendo com força a porta atrás de si.

Ao mesmo tempo que ouço o som surdo da madeira se chocando,também ouço um gatilho ser disparado dentro da minha cabeça e então fecho os olhos mais que decidido a resistir à invasão que se aproxima na velocidade da luz, trazendo consigo a mesma batalha infame de minutos atrás.

Vou resistir. Não vou ceder ao fluxo de ideias, símbolos e associações que o meu cérebro está derramando sem qualquer critério.

Meneio a cabeça com força, abro os olhos, apoio as mãos sobre o mármore da pia e engulo em seco ao tempo que prendo a respiração por uns instantes, evitando, naturalmente, meu reflexo no espelho e daí as palavras muito bem arquitetadas de Brenda vem à tona, como um pedaço de madeira pesado de um navio recém naufragado…

Acabo deixando o ar fugir dos pulmões como se estivesse fazendo um favor à natureza… 

O Neandertal, por fim, sai do reservado e toma a direção da pia onde lava as mãos sem pressa alguma, enquanto me encara, sempre através do espelho, com um semblante de escárnio, sem fazer o mínimo esforço em disfarçar. Eu me mantenho firme, claro. Para o bem ou para o mal, devo acreditar no respeito que consegui, independente do veneno destilado pelo “diabo veste Prada”, e mantendo essa postura o vejo se afastar, mas ao invés de buscar o porta toalhas, ele recua alguns passos, olha para os lados e então volta a fitar o meu reflexo ao mesmo tempo que coloca uma das mãos sobre a virilha e aperta com relativa força o volume do tecido que se formou entre seus dedos e em seguida, como se nada tivesse acontecido, retira a mão, deixando-a cair ao lado de corpo, passando a caminhar tranquilamente para a porta.

Sinto falta de ar e daí eu inspiro e expiro, tentando recuperar o fôlego enquanto continuo acompanhando com os olhos afixados no espelho a imagem do filho da puta.

Minha raiva é forte demais…

Não. Não. Não. Matheus não teria sido capaz. Ele não me entregou de bandeja para o bando de primatas do paleolítico médio que flutua ao seu redor. Eu já estou convencido disso… Eu já estou…

Volto a analisar o meu semblante com uma determinação ferrenha ao passo que minha respiração vai retomando a normalidade… Enxergo um pesadelo… Meu rosto, irreconhecível… Talvez lá no fundo, bem lá no fundo, devo admitir, eu não estou tão certo em relação ao meu melhor amigo e para acabar de vez com esse suplício só há uma coisa a se fazer.

A mesma força sobre humana que me dominou há instantes para que eu permanecesse abatido, caído no chão daquele corredor, injeta de uma só vez uma dose cavalar de ânimo e coragem, mais que suficiente para que possa seguir adiante e enfrentar o inevitável, mesmo temendo descobrir que o meu melhor amigo não seja a pessoa que eu pensava que fosse.  

– Que merda de pacto foi esse que o Matheus fechou com vocês?

Lanço a pergunta de imediato, a voz seca, ativa, enquanto retiro as mãos de sobre o mármore e termino de virar o corpo na direção do Neandertal, que agora está parado, de costas para mim, sob o batente da porta.

Lauro (acho que é esse o seu nome) não se move. Ele permanece estagnado sob a porta aberta, de frente para o corredor, sem esboçar qualquer movimento, qualquer reação. Parece que seus pés estão atados ao solo. É bem provável que esteja se recuperando do choque que a minha pergunta lhe causou, o que não deixa de ser uma merda, pois se estivesse virado para mim eu identificaria as manifestações em cada linha do seu semblante, e assim o desarmaria, não lhe permitindo reunir sequer meia dúzia de palavras para tentar me engabelar, porque é o que ele vai fazer caso essa história desse tal acordo seja verdade, afinal de contas é a reação que se espera do cúmplice de uma quadrilha.  

O silêncio continua e nada acontece. Quantos minutos se passaram? Uma eternidade? Daqui a pouco o sinal do intervalo vai tocar e vai ser impossível…

Lauro se vira, finalmente. Seus ombros estão empertigados e o rosto carregado por uma altivez desconcertante. Ele apenas me fita, sem se pronunciar, medindo-me de cima a baixo, como se fosse necessário realizar essa revista pessoal antes de se dirigir a mim e esse comportamento arrogante, ao mesmo tempo reservado e ausente, é um tanto agressivo. Tão mais quanto qualquer palavrão ou até mesmo o seu gesto ridículo de massagear a virilha no intuito de reforçar o seu estado de macho alfa.

– Será que você pode dizer alguma coisa? Qualquer coisa? – eu questiono sem paciência, e também um pouco indeciso, pois já não sei mais se estou preparado para ouvir o que quer que seja, entretanto não posso recuar. Situações extremas exigem medidas extremas.   

– Tu é engraçado, garoto…

Lauro responde, por fim, e de maneira enérgica ao mesmo tempo que dá um passo na minha direção e eu respiro fundo, buscando forças no além para não esmorecer. Talvez não tenha sido uma boa ideia abordá-lo…

– Nunca se dirigiu a mim, não é mesmo Kaduzinho?

Ele prossegue, mas dessa vez sem avançar e assumindo um tom de voz aparentemente calmo, enquanto usa o diminutivo do meu nome com demasiado escárnio. Seus olhos não deixam de me afrontar um minuto sequer.

– Mas agora acha que pode chegar e me fazer uma pergunta e pronto, eu vou te responder assim…

Lauro dobra o braço direito até formar um L e daí, com a mão em riste, pressiona o polegar contra o dedo médio, estalando-os ao passo que arqueia os lábios para baixo. O desprezo estampado em seu rosto é inconfundível.

De certa maneira Lauro tem razão. Todos esses anos eu o venho ignorando, a ele e aos seus amiguinhos, e sem sombra de dúvida tendo motivos de sobra para isso, e de repente, sem mais nem menos, do nada, eu lhe dirijo a palavra sem um cumprimento sequer, apenas e tão somente despejando sobre si uma inquirição, quase um interrogatório judicial.

Ok. Sei que não posso esperar nenhum tratamento diferente do que estou recebendo, porém existe diplomacia até mesmo entre os inimigos, então o que custa apenas ele me dizer um sim ou um não?

– Por que dessa pergunta? – Lauro me devolve incisivo enquanto seus olhos, semicerrados, continuam a examinar minuciosamente o meu semblante. Seus braços, caídos ao lado do corpo, balançam para frente e para trás, bem, bem devagar e veias saltadas correm pela sua testa e têmporas.

– É só uma pergunta…

– Não. Não é só uma pergunta…

Lauro me interrompe sem hesitar, fitando-me agora com os olhos completamente abertos. Olhos pálidos, frios, que não sentem remorso, ao tempo que avança sobre mim como um felino faminto sobre a caça, acabando por pressionar a minha bunda contra a pia.

Sou obrigado a apoiar as duas mãos sobre o mármore para não me desequilibrar enquanto sinto meu corpo inteiro estremecer e numa fração de segundos, enquanto apenas alguns centímetros separam nossos rostos e corpos, relembro de todas as investidas em que eu fui tachado de gayzinho enrustido, que em casa usava as roupas das minhas irmãs, de como fui obrigado a olhar para os idiotas que me assediavam à medida que apertavam suas virilhas, demonstrando o quão superiores acreditavam ser por se enxergarem como héteros, como esse cretino fez agora a pouco…

E até mesmo da única vez em que todas aquelas mãos percorreram aleatoriamente algumas partes do meu corpo aqui mesmo nesse banheiro, ao passo que um dos Neandertais ficava vigiando a porta…

– Você concorda que o que jogou em cima de mim não foi só uma pergunta? Foi uma ordem, Kaduzinho. O que você latiu foi uma ordem, não foi uma pergunta, então se você quer saber algo sobre o seu amiguinho, por que não o questiona como está fazendo comigo? Ele com certeza tem todas as respostas para as suas perguntas… 

O tom de voz beirando o irascível usado por Lauro e os respingos de sua saliva sobre a minha pele, me resgata da amarga reminiscência, mas não por completo, pois começo a sentir uma repulsa absurda crescendo dentro de mim, a mesma impressão de quando passei pela via crucis do bullying e daí a falta de ar volta a se manifestar e eu inspiro e expiro e com mais força do que da primeira vez, assim como também tento recuperar o fôlego com a mesma intensidade enquanto vejo Lauro se afastar o suficiente para não ter o mínimo de contato comigo.

Engasgo.

Pânico, vergonha, ansiedade, medo, humilhação e raiva. Tudo que vinha conseguindo manter trancafiado nesses anos implode de uma só vez e então continuo a inspirar e expirar e também a engasgar. Por fim me afasto da pia e endireito-me, obrigando, assim, o ar a entrar em meu peito, contudo só consigo uma tosse cavernosa que me deixa ainda mais sem ar enquanto o sangue corre para o meu cérebro numa velocidade absurda e então vejo tudo vermelho e, sem alternativa, fecho os olhos, dou as costas para Lauro e volto-me na direção do espelho, apoiando as mãos novamente sobre o mármore, ao tempo que inclino a cabeça para baixo.

Quero gritar. Uma vontade alucinada de berrar estaciona em minha garganta aguardando apenas o sinal verde para explodir, todavia me seguro. Não devo vociferar, posso espumar de raiva, mas não devo gritar. Não vou dar o prazer para esse estúpido que está atrás de mim; já não basta o espetáculo que está assistindo, reflito, num esforço hercúleo, com a garganta queimando, ao passo que meus pulmões deixam escapar um doloroso assobio antes de se encherem de uma só vez.

Abro os olhos e pouco a pouco vislumbro o ralo no fundo da pia tomando forma e também o branco do mármore que o envolve, salpicado de gotas de água e minúsculos pontos de cor preta ou marrom, vai saber… Filhos de uma puta, eu murmuro e em seguida cuspo, com força, enquanto sinto, infelizmente, lágrimas se formando no canto dos olhos e me odeio por isso. Força Kadu. Força. Esses idiotas não podem ter esse domínio sobre a sua pessoa. Aconteceu. Já passou. Você não é mais aquele moleque…

As lágrimas inevitavelmente correm para a boca e então volto a inspirar e expirar com tamanha violência que chego mesmo a sentir minha caixa torácica estremecer. Sem pestanejar, tiro a mão esquerda de sobre o mármore e arranco os óculos, atirando-os de qualquer maneira sobre a pia e depois abro a torneira e lavo o rosto novamente debaixo dos filetes da água fria, sentindo, dessa vez, um calor sob os dedos e daí ergo a cabeça e enfrento, mais que resoluto, minha imagem no espelho.

As lágrimas, sinto, estancaram, e agora medo, desespero e raiva são o que encontro diante de mim, o que não me causa surpresa, mas por incrível que pareça outra figura também surge à minha frente, intercalando o seu reflexo ao meu e não demoro muito para reconhecê-la: é o rosto de Allyson. De pronto olho para trás e não há ninguém, nem mesmo Lauro; o covarde se foi. Só resta saber até que momento ele serviu de platéia e queira Deus que não tenha filmado nada.

Mas por que estou me preocupando? Pondero ao passo que termino de fechar a torneira. Se existe o tal acordo, com certeza o infame não ousou infringi-lo, e isso ficou mais do que claro quando lançou sobre mim o seu conselho desafiador disfarçado de contestação: “se você quer saber algo sobre o seu amiguinho, por que não pergunta pra ele?”.

Busco num relance o destino dado aos meus óculos e depois que os recupero sem grandes esforços ou malabarismo sobre o mármore da pia, os coloco a poucos centímetros diante dos olhos para conferir e constatar os respingos de água que tomaram conta de suas lentes. Enquanto os levo até a extremidade da camisa para limpá-los, eu vou “mastigando” as malditas e decisivas palavras de Lauro, massacrando ainda mais o meu cérebro.

Impossível evitar que novas perspectivas se formem. Que uma visão bem nítida dos últimos anos, as ações e reações de Matheus, o bullying, ainda que velado, dos seus seguidores e que eu, montado em minha prepotência, deixei de enxergar, comece a interferir na ordem natural das coisas, dos fatos, da ideias…

Durante todos esses anos eu venho focando minha preocupação, temendo que o séquito de primatas que rodeiam Matheus pudesse influenciá-lo contra mim, contudo, na verdade, ele nunca correu esse perigo. Por mais que estivesse possessa e recalcada, Brenda não foi incoerente em suas afirmações. Se eu parar e pensar, as coisas começam a fazer sentido e Matheus definitivamente não é o mocinho nessa história.

Wide Awake – Glee 

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    • Kkkkk… a implicância com a pobre da Brenda. Ela só está fazendo tudo por ?

      Obrigado Isa e por tudo que tem feito por essa trama . Um grande beijo no coração ??

    • Kkkkk… a implicância com a pobre da Brenda. Ela só está fazendo tudo por 💖

      Obrigado Isa e por tudo que tem feito por essa trama . Um grande beijo no coração 😘😘

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