Naquela noite de horror, as mulheres voltaram para a cela em choque. Sem acreditar que aquele massacre fora real. Algumas tiveram que ir à enfermaria, pois não conseguiam se mexer. Jade sentia um misto de raiva e incredulidade. Não podia estar vivendo isso!

Depois de algumas horas em silêncio, Olívia ajoelhou-se ao lado de Jade e disse: – Você precisa nos ajudar a sair daqui.

Jade ficou surpresa, pois achava que as outras não confiavam nela. Mas ao mesmo tempo, esperava que algo parecido fosse acontecer. Ela não ficaria o tempo todo alheia a qualquer plano de fuga.

– O que eu tenho que fazer?

– Posso confiar em você? – Olivia perguntou.

– Claro!

Então, Olívia contou todo o plano a Jade.

 

 

EPISÓDIO: PLANO DE FUGA

 

LICURGO

Eram cinco horas da manhã, quando Licurgo estacionou sua camionete vermelha ao lado da Pousada da Paz, no centro de Monte Verde. O céu estava rosado, e o sol, com preguiça de acordar. Mas, os moradores já circulavam cuidando de suas vidas.

Bruno e Victória entraram na camionete, cumprimentaram Licurgo e em seguida foram para a casa da delegada Yeda.

Sem muitas delongas, a delegada sentou ao lado do motorista que também a cumprimentou com o olhar. Seguiram para a saída de Monte Verde, e ficaram em um pequeno restaurante da cidade.

– Agora e só esperar – disse Yeda, olhando para o celular.

– Será que vai dá certo?  Licurgo perguntou.

– Espero que sim – ela respondeu.

Enquanto isso, Victoria e Bruno estudavam um mapa no banco traseiro.

– Vai dá certo! – disse Licurgo, lançando um sorriso maroto para Yeda.

– O carro tá bom?

– Esse é o melhor carro para esse tipo de missão!

– Eu também acho que sim! – Yeda brincou.

– Sério! Ele só me deixou na mão uma vez. Eu troquei o pneu dele um dia desses.

– Mas você tem estepe?

– Droga! Esqueci de repor o estepe – disse Licurgo.

– Espero que não precisemos de pneu novo – afirmou Yeda.

– Vai dá certo. Positividade!

**

JADE

Após a refeição da manhã, as mulheres voltaram para a cela, mas Pimentel levou Jade para a sala de interrogatórios.

Ela ficou lá, sozinha, aproximadamente uns trinta minutos. Até que Babemco entrou, segurando o bebê Cícero no colo.

Jade correu, voando em cima do menino e tomando-o nos braços. O garoto assustou-se e começou a chorar. Jade não parava de beijá-lo e apertá-lo.

Babemco apenas observava, enquanto preparava um charuto.

– Meu amôzinho. Como você tá, lindinho? – ela perguntava ao menino espantado.

Depois de alguns minutos, Cícero pareceu ter reconhecido a mãe, que estava careca e desfigurada.

– Você não lembra da mamãe não, meu filho? Você assustou?

Ele deu um sorriso iluminado, arrancando uma lágrima de Jade.

Babemco sentou e pediu que ela sentasse também. Jade lançou um olhar de ódio, antes de sentar-se com seu filho.

– Tudo bem? – ele perguntou, soltando uma baforada.

Ela não queria falar com aquele monstro. Ao mesmo tempo, tinha curiosidade de saber o que ele queria com toda aquela carnificina?

– Você nunca mais será a mesma depois dessa experiência.

Ela apenas observava, tentando entender qual a lógica dele.

– Eu não queria que as coisas chegassem nesse nível. Acho que não era esse o plano inicial.

– Do que você tá falando? – ela perguntou.

– A minha relação com você. Não queria te ferir nesse ponto. Eu sou um homem exótico, confesso. Eu sou imprevisível, sim, confesso. Mas, não sou cruel, apesar de parecer, às vezes.

– Já que você é tão bonzinho assim, por que não solta a gente?

– Vocês não podem ser soltas. Você sabe o que essas mulheres fizeram para estar aqui?

– O que você é? Você é o estado pra legislar, julgar e executar a pena?

– Quase isso! Já ouviu falar do rei francês Luís XIV? Ele dizia ser o sol. Estava em todos os lugares. Sabe o que ele fazia? Ele tinha pessoas contratadas que usavam roupa real, a mesma piruca que ele usava, e esses reis de mentirinha, eram seus olheiros. Ele afirmava que podia aparecer em qualquer lugar a qualquer momento. Isso é bem forte, não acha? – disse, dando mais uma baforada.

– Isso é bem louco.

– Eu sou esse Rei, sabe! Eu e a Prime Security estamos em todos os lugares. Nossos olhos veem a casa de todos, inclusive a sua. Da sua sogra, dos seus pais, da sua psicóloga. Eu vejo tudo e todos.

– O que você quer com isso? Eu cumpri minha pena. Eu poderia sair desse buraco. Me liberta!

– Não vai dá querida. Você matou meu filho, esqueceu? Você vai cumprir uma pena perpétua, é isso que vai acontecer. E quer saber mais? No fim das contas, você me deu um presente. E eu sou muito grato por isso.

– Do que você tá falando?

Ele apontou para o pequeno Cícero, que estava dormindo no colo de Jade.

– Esse menino é um presente dos céus. Você matou um, e ao mesmo tempo me deu outro. Olha que ironia – sorriu Babemco.

– Ele é meu filho, e nada pode mudar isso.

– Então, seja apresentada à pessoa que pode mudar qualquer coisa. Vamos, me cumprimente! Eu sou essa pessoa. Essa pessoa que esta acima da lei, acima de tudo e de todos. Eu sou o próprio deus do meu universo. Eu digo e tudo se faz. Esse sou eu – gargalhou Babemco.

– Você é louco!

– Escute bem o que eu vou dizer. Você esvaziou. Eu lhe tirei a liberdade, a paz, a família e os seus sonhos. Se um dia você chegar a ficar livre, tudo que você vai fazer é juntar os pedaços e tentar sobreviver. Eu lhe tiro tudo e piso no buraco em que você foi enterrada. Esse é o maior ato de misericórdia que eu posso ter por você. Agora devolva o meu filho – esticando os braços para pegar o pequeno.

– Não! – ela chorou.

– Devolve ele.

– Não machuca meu filho.

– Eu vou cuidar muito bem do Oscar.

– O nome dele é Cícero.

– Não… A partir de hoje, ele vai se chamar Oscar – disse, segurando a criança e saindo da sala.

Jade sentou, se derramando em lágrimas.

**

VALTER

O delegado Valter acordou às nove da manhã. Tomou banho e se vestiu. Foi até a copa da pousada e tomou café. Estava pronto para começar mais um dia de investigações junto à delegada Yeda.

Ligou para a mulher pra saber onde que ela estava. Ela atendeu de imediato.

– Bom dia doutora!

– Oi Valter! Bom dia! – ela devolveu, naturalmente.

– Onde você está?

– Na estrada, correndo pra encontrar o rastro do Capeto.

– Por que você não me esperou? – indignado.

– Recebi a denúncia ainda de madrugada. Um posto da polícia rodoviária identificou o jipe do Capeto e nos ligou. Eles estão na cola dele e nós estamos nos aproximando. Se a ligação cair é por que estamos na estrada. Alô? Alô? Alô – desligou.

– Droga! – ele disse, chutando a parede.

O delegado Valter correu, entrando no seu carro. Ele estava determinado a alcançar a delegada.

**

Quando Valter saiu da cidade. O sinal do seu veículo apareceu no radar. A delegada apontou para o tablete que estava preso ao painel.

– Ele entrou na estrada – ela afirmou.

– Então deu certo? – Bruno perguntou.

– Aparentemente, ele tá indo atrás da gente. Agora vamos dar um pouco de distância e perseguir ele.

– O idiota vai nos levar para o Capeto – afirmou Bruno, animado.

– Vamos com calma. Muita coisa pode acontecer ainda – a delegada disse, prudente.

**

Enquanto perseguiam o delegado Valter, Bruno se divertia na viajem. Estava ao lado de Victória, uma mulher que ele achava incrível. Na liderança, a delegada Yeda, que lhe inspirava coragem. E na direção, o fazendeiro Licurgo, que lhe passava uma paz enorme.

– Vocês são incríveis – disse Bruno.

– Por que tá dizendo isso? – Victória perguntou.

– Por que acho vocês incríveis. Estamos juntos, fazendo algo por nossos amigos.

– Na verdade esse é meu trabalho – afirmou a delegada.

– Eu realmente tô fazendo isso por amizade – disse Licurgo.

– Eu faço porque amo a Jade, mas também porque o Babemco ferrou comigo – afirmou Victória – Eu tenho que me acertar com esse cara. Tenho que ajuda-lo a prendê-lo.

– Nós poderíamos criar uma equipe. Estamos em uma missão, não é mesmo? Toda missão na polícia tem um nome, e toda equipe também tem um nome. Vamos criar o nome da nossa equipe?! – perguntou Bruno, empolgado, enquanto comia doritos com chedar.

– Ele tem razão. Poderíamos criar um nome pra missão – afirmou Yeda.

– Não sou tão criativo pra nomes. Fiquem à vontade – disse Licurgo.

– Tem que ser algo relacionado ao que estamos vivendo – Victória deu a dica.

– Nós estamos em uma missão de resgate. Qual o nome relacionado a resgate? – Bruno perguntou.

– Missão Davi e Golias? – propôs Licurgo.

– Mas que nome é esse? – Yeda riu, enquanto olhava estranho pra Licurgo.

– É que o Babemco parece um gigante perto da gente. E nós somos pequenos como Davi – explicou.

– Se for ligar a algo religioso, tem que te apocalipse no meio – afirmou Bruno, comendo mais doritos.

– Mas qual o problema com nomes religiosos? – questionou Victória.

– Resgate do Apocalipse? – propôs Yeda.

– Que lindo: Missão resgate do apocalipse. Parece nome de final de série da Netflix – afirma Bruno.

– E o Davi e Golias? – perguntou Licurgo, como quem não quer nada.

– Não tem Davi e Golias! Eu voto por Resgate do Apocalipse! E vocês, qual nome escolhem? – perguntou Bruno.

– Evidentemente que eu fico com Missão Davi e Golias – disse Victória.

– Eu também fico com Davi e Golias – disse Licurgo.

– Temos um empate, pois eu prefiro apocalipse – afirmou a delegada, enquanto observava a paisagem pela janela.

– Talvez o delegado Valter possa desempatar?! – propôs Victória.

Todos caíram na gargalhada.

– Na próxima vez que falar com ele eu juro que pergunto. “E aí Valter, qual o melhor nome pra colocarmos na missão? Missão Davi e Golias, ou Missão Resgate do Apocalipse? Qual a melhor?” – brincou Yeda.

**

JADE

Pimentel levou as mulheres para o pátio e ordenou que elas fossem para as suas alas e começassem o serviço.

Jade começou limpando uma sala vazia. Ela varreu e passou pano úmido no chão. Enquanto que o guarda vigiava, encostado na porta.

Em seguida, ela entrou no laboratório de informática. Essa sala tinha várias mesas com computadores antigos que estavam quebrados. Mas havia um, no fim da sala, coberto com um plástico, esse era o computador alvo.

Jade se aproximou e começou a espanar as mesas. Ela se agachou próxima desse computador e conseguiu ligar a cpu, sem que o homem visse.

Ainda muito sorrateira, ela identificou o microfone do computador, e apertando a tecla enter, falou um código de cinco letras. Ouviu quando a voz do PC respondeu em áudio um novo código de cinco letras. Ela fechou os olhos, memorizando.

Aquele era um computador especial para deficientes visuais, e que funcionava com comandos de áudio.

Jade voltou para a cela, e quando os homens se afastaram, todas as sete mulheres se reuniram no fundo da cela para testemunhar aquilo.

Esther anotou o código que Jade lhe informara em uma folha cheia de outros códigos. Ela fez mais alguns cálculos e com cara de inteligente concluiu mais alguns números.

“Ela é o quê? Uma pequena gênia?, pensou Jade.

– Falta só mais um código e nós conseguimos abrir a porta! – afirmou Esther.

– Onde que fica essa porta? – Jade perguntou.

As meninas sorriram para Jade.

– Nós encontramos uma porta secreta numa sala da ala 02. Essa porta dá acesso a um túnel que vai nos levar pra longe daqui – explicou Olívia.

– Eu que descobri aquele computador especial. Acho que eles pensavam que não funcionava e deixaram largado lá. Eu liguei o pc e descobri que funcionava através de comando de voz. Consegui acessar o algoritmo do sistema de segurança, pois um guarda me deixou ver a sala de segurança depois de uns favores sexuais. Daí eu consegue acessar o código que dá acesso a essa porta. Todo o algoritmo está disponível a partir de um código fonte… – explicou Esther.

– Ok! Minha cabeça virou do avesso. O que eu tenho que fazer pra conseguir a senha da porta? – Jade perguntou.

– Você tem que pegar o último código disponível. Daí teremos a combinação para a senha.

– Amanhã eu consigo fazer isso – disse Jade.

**

A cela estava abafada com o calor daquele dia. Esther sentou ao lado de Jade no beliche e as duas conversaram.

– Eu vi o Cícero – disse Jade.

– Sério? O Babemco mostrou ele?

– Sim. Ele disse que o filho será dele agora.

– Que absurdo.

– Ele disse que eu matei o filho dele e agora iria ficar com o meu.

– Ele é muito louco. Mas amiga, como foi que isso aconteceu? – perguntou Esther.

– Ele invadiu minha casa e atacou meu esposo. Eu dei uma martelada na cabeça dele.

– Como você teve coragem? Não sei se eu conseguiria!

– Com adrenalina no corpo, você faz coisas que não sabia ser possível.

– Não sei se conseguiria.

– Eu matei mais dois homens antes de chegar aqui – confessou Jade.

– Caramba Jade, que história. Você sabe quem eram as pessoas?

– Não! Um era médico e o outro era o motorista do caminhão.

– E como foi que você matou eles?

– Eu estrangulei o médico e dei um tiro na testa do motorista. Foi algo muito forte. Às vezes eu penso que não fui eu que fiz aquelas coisas. Como se outra pessoa viesse e me tomasse e fizesse tudo, sabe?

– Meu Deus.

– Eu senti isso quando matei o médico. Ele parecia ser uma pessoa boa.

– Médico? Eu tenho um irmão médico. Ele se infiltrou na Prime Security e está vindo ajudar no resgate.

– Nossa!

– Ele é muito legal. Ele adora tocar violão.

Jade fixou os olhos em Esther. Não podia ser a mesma pessoa.

– Ele gosta de picolé de manga? – Jade perguntou.

– Ele ama picolé de man… peraí, você matou um médico? – Esther perguntou assustada.

– Sim.

– Você não pode ter matado meu irmão – disse Esther com lágrimas nos olhos.

Jade estava em choque, sem saber o que dizer.

– Você matou o meu irmão?

– Eu acho que sim – confessou Jade.

Esther levantou-se chorando. Não estava acreditando que o irmão fora assassinado por aquela mulher.

– Eu tava tentando sobreviver. Não sabia que ele estava do nosso lado.

– Você matou o meu irmão – Esther disse, em pranto.

Jade não sabia o que dizer.

**

As mulheres ficaram sabendo que Jade havia matado o irmão médico de Esther. Não acreditaram que aquilo estivesse acontecendo com elas. O médico fazia parte do plano de fuga. Elas precisavam dele para sair dali.

Quando Jade pegou no sono aquela tarde. Esther se aproximou sorrateira, e com uma corda, amarrou o pescoço da mulher.

Jade acordou no susto com Esther tentando lhe enforcar.

As duas lutaram, e Jade tentava a todo custo soltar-se das mãos de Esther que lhe enforcava com muita força.

Depois de alguns minutos de conflito, e outras presas separando as duas, Jade se desvencilhou de Esther.

– Vocês estão loucas?! – Olivia perguntou. – Não é hora de chamar a atenção dos guardas! – gritou.

– Ela matou o meu irmão! Como ela pode fazer isso?! – Esther berrou, revoltada.

– Que merda você fez Jade? – Olivia perguntou.

Jade abria a boca tentando falar, mas nenhum som saía da sua boca.

– O que você tem? Por que você não responde?

Ela se esforçava o máximo. As veias do pescoço estavam inchadas e ela não conseguia falar.

– Ela tá sem voz? – perguntou Olívia para as outras.

Jade sinalizou que sim. Ela estava sem voz.

 

INCOGNOSCÍVEL

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  • Meu Deus, a Jade só se ferra na vida, minha gente. Minha filha, vamos dar a volta por cima aí, meu anjo!

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