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“Inocentes”

Assim como as palavras podem carregar vida e destruição, a correnteza do rio carregava Jade e Licurgo. Frágeis existências, que lutavam para sobreviver. Levadas pelas águas, que podem purificar ao mesmo tempo em que podem afogar.

A chuva forte, ainda castigava a noite cheia de tormentas.

Licurgo agarrou-se ao barranco na beira do rio e puxou Jade. As gotas violentas lhe empurravam contra o barranco. E toda aquela água parecia inundar os recantos mais escondidos da sua alma.

A floresta passava por eles como na janela de um carro em movimento. Tudo era um borrão verde e cheio de lama. Na correria que entraram na mata eles não enxergavam nada adiante.

O coração de Jade ardia sem fôlego. Sua garganta pregava às cordas vocais como numa terra árida e sem chuva. O medo transbordante bombardeava sua caixa torácica como um balão prestes a estourar. Como não temer sabendo que sua vida estava em risco? Como não temer sabendo que feras violentas buscam te matar?

Licurgo caiu no meio do mato e encostou-se a uma árvore. Ele sentia o seu peito doer muito. Uma dor que como agulha abria buracos e repuxava a pele em uma ferida mortal. Ele não tinha mais fôlego e ânimo para continuar. Como um soldado desistindo da guerra, Licurgo rendeu-se entregando a luta.

– Levanta! – gritava Jade.

– Vai e me deixa! Você não precisa se preocupar comigo! – ele disse com lábios trêmulos.

– Eu não vou sem você – Jade insistiu puxando Licurgo pelo braço.

De repente um farfalhar de folhas secas se fez ouvir no meio do mato. Uma sombra inquisidora e se aproximava dos dois. Jade se afastou com o coração acelerado. Cercada por todos os lados, Jade pensava.

Um homem com farda do exército e uma espingarda na mão se aproximou. Ele era gordo e usava um chapéu de safari. Seu bigode saliente e o rosto redondo estavam molhados com as gotas da chuva.

Ele apontou a espingarda, e assustado perguntou: – Quem são vocês e o que estão fazendo aqui?

Jade levantou as mãos rendida e aliviada.

– Ah, graças a Deus! – ela suspirou relaxando os ombros.

– Vocês estão em uma área de reserva florestal. O que estão fazendo aqui? – perguntou o suposto guarda florestal.

– Precisamos de ajuda. Têm monstros atrás de nós querendo nos matar! – Jade falava ofegante com a pupila dilatada.

– O que você tá dizendo? Não existem monstros nessa área. Você fala de algum animal feroz? – perguntou o guarda tremendo a espingarda em sua mão.

– Não! São monstros grandes, com dentes afiados. Eles estão nos perseguindo pela floresta! – disse Jade.

– Não vejo ninguém atrás de vocês. Na verdade vocês nem deveriam estar aqui uma hora dessas.

Licurgo ainda revirava os olhos e tremia os lábios. A careta que ele fazia, contorcia todos os músculos da sua face.

Jade ainda tentava explicar ao guarda sobre a presença das feras, quando o som de passos lentos e silenciosos se aproximou deles. Uma aura negra e opressora, junto com um frio que arrepiou a penugem da nuca de Licurgo soprou sobre eles. Era Gomes com o seu arco e flecha.

O guarda apontou a espingarda para ele sentindo a ameaça.

– Bom dia! – disse Gomes com asco na fala.

– Abaixa o arco agora! – ordenou o guarda com voz firme.

– Calma senhor. Eu sou amigo. Pode perguntar ao homem caído! – falou Gomes emitindo ameaça e frieza.

– Você não é meu amigo! – disse Licurgo tremendo com ódio.

– Você já foi mais gentil meu amigo. Eu lembro de suas palavras inspiradoras e de sua eloquência. O que aconteceu? Foi covardia? Ou foi a sua avó que não permitiu você viver os seus sonhos? – disse Gomes destilando veneno.

Era evidente que Gomes queria atingi-lo, lançando palavras que invocasse os sonhos perdidos de Licurgo. O sonho de ser orador e inspirar multidões.

– Abaixa a arma. Eu não vou pedir novamente! – disse o guarda destravando a espingarda.

Em um golpe de agilidade, Gomes puxou o arco e soltou a flecha que atingiu o guarda. Este, caído puxou o gatilho acertando a perna de Gomes.

Aproveitando a oportunidade Jade puxou Licurgo e os dois entraram n floresta correndo sem direção.

Os primeiros raios de sol nasciam em meio à chuva. Era mais um motivo para ter esperança.

Depois de tanta angustia e sufoco, o que Jade e Licurgo mais queriam era um momento pra respirar. Se sentirem seguros mais uma vez em meio a esse inferno de ameaças.

Eles tiveram a casa queimada, foram parar em uma cova no meio da floresta, quase morrem sufocados dentro dessa mesma cova e agora são caçados por monstros cruéis.

Inexplicavelmente, as feras pareciam não mais persegui-los. Jade não ouvia mais o farfalhar das folhas secas e os rosnados guturais. Seu coração já voltava a bater normalmente.

Eles encontraram a estrada de terra, e andando mais alguns metros, identificaram a camionete D20 do Gomes, que estava com os equipamentos que Licurgo guardara.

Parecia muita sorte para quem vinha vivendo de sufocos. O sol brilhando e afastando a presença das bestas. A camionete com todos os equipamentos. Parecia que tudo iria cooperar dessa vez. Pelo menos Jade e Licurgo esperavam por isso.

A chave estava na ignição. Gomes havia abandonado o carro há poucos metros de onde eles estavam. Que sorte a deles que iriam sair dali imediatamente.

Jade observou que a mochila e a espingarda estavam na carroceria do carro. Ela sentou no banco e encarando Licurgo disse com esperança: – Vamos sair daqui e nunca mais voltarmos! Você vai ficar bem!

Ela deu partida e Licurgo fechando os olhos, encostou a cabeça no encosto. A camionete partiu deixando uma nuvem de poeira. Eles seguiram pela estrada de terra em direção à vila. Apenas 30 km eles estariam a salvos. O fim da angustia estava próximo. A esperança tinha retornado.

MEMÓRIAS DE JADE

Lucas estava começando a filmar o hall do condomínio em que Jade morava, quando observou as mulheres saindo do apartamento.

“Noiva mal educada”, Lucas ouviu um velhota com vestido rosa murmurar.

O que teria acontecido? Ele correu com a câmera ligada em direção à porta e deu de cara com sua mãe, a histriônica Dona Marieta. Ela fechou a porta mais continuou segurando a maçaneta.

– Que aconteceu? – perguntou Lucas com cara de bobo.

– A sua noiva coitada! Acho que ela teve algum tipo de surto! Mas sabe que isso é completamente normal com as mulheres meu querido. Principalmente em momentos marcantes como casamento, nascimento dos filhos. Eu não sei se você já ouviu falar, mas existem mulheres que com o nascimento dos filhos ficam depressivas e loucas. Algumas chegam a matar as crias. Seja firme. Seja louco com ela querido. Não se deixe levar. Ou melhor, leve na brincadeira. Ela vai saber que você é forte e não se deixa levar pelos joguinhos emocionais dela. Então conte uma piada. Seja divertido! – Dona Marieta se despende dando um beijo na face do filho.

Lucas acha tudo aquilo estranho, mas decide não seguir as orientações da mãe.

Jade está chorando copiosamente prostrada no chão. Uma onda de compaixão toma conta de Lucas que corre para abraça-la. Ele deixa a câmera ligada em cima da estante.

É possível ver pela lente da câmera quando Lucas se ajoelha e abraça Jade. Eles ficam assim por alguns minutos.

Já recomposta de sua consciência culpada, Jade entra no carro acompanhada do seu noivo e da sua pretendente à sogra. Quem dirige o carro é Jonas, o investigador que trabalha para Marieta e descobriu o crime cometido por Jade.

O plano de Marieta era o seguinte: embarcar seu filho no voo da meia-noite para Paris, afastando-o da decepção ao descobrir que sua noiva era uma criminosa. E logo após, seguir para a primeira delegacia de plantão para entregar Jade às autoridades policiais.

O aeroporto estava deserto naquele sábado. Após fazer o check-in, Lucas sentou-se ao lado da noiva e ainda tentava entender o que havia acontecido com ela.

– É só você falar que eu desisto agora mesmo dessa viagem. Para mim o mais importante é o seu bem-estar – dizia Lucas preocupado.

– Não! Eu quero que você viaje e cumpra as determinações da sua mãe. Eu vou ficar bem meu amor. Pode confiar em mim. Vai ficar tudo bem. Eu estou aqui e já estou bem. É tudo novo pra gente e talvez isso tenha me influenciado. Mas, vai tranquilo, por favor – apaziguou Jade.

Eles deixaram Lucas enquanto ele subia na área de embarque. Marieta ordenou que Jonas levasse Jade à delegacia, pois ela iria na frente aguardá-los de camarote.

Jade sabia do seu destino, ela só não queria aceitar aquela situação.

– Deixe-me ir em casa pegar algumas roupas e documentos! – pediu Jade.

– Você não vai me escapar garota – alertou Marieta.

– Eu vou à delegacia. Só quero passar em casa, por favor.

Jade entrou no carro com Jonas, que dirigiu até o apartamento dela, que ficava há uns 10 quilômetros do aeroporto. As ruas estavam desertas e frias. Uma lua apagada assistia desconfiada toda aquela movimentação.

Jade entrou ressabiada enquanto Jonas a acompanhava. Ela foi até o quarto, preparou sua bolsa com alguns produtos higiênicos e uma muda de roupas.

Ainda concentrada arrumando as coisas, Jade não percebeu a sombra de Jonas entrando no quarto e trancando a porta atrás de si.

O coração dela tremeu ao notar os sapatos de bico fino se aproximarem por trás. Ela imaginou que corria risco. Um espasmo paralisante tomou conta do seu corpo tirando sua voz e suas forças.

Jonas a agarrou por trás e empurrou-a na cama. Ela tentou gritar, mas não tinha ânimo pois o medo a paralisara. Ela ainda quis mordê-lo mas sua mandíbulas estavam fracas.

Jonas a empurrou, e com os pés abriu as pernas dela. Com a raiva de quem é tomado de uma obsessão sexual. Ele revirava a cintura dela como se fosse um pedaço de carne bovina saída do abate.

A vergonha e a humilhação de quem é tomada de forma violenta, tomou de conta de Jade, que abriu sua boca num grito rouco e trêmulo.

A porta do quarto abriu num rompante. Lucas que desistiu de embarcar no último minuto. Resolveu fazer uma surpresa para Jade e voltou para o apartamento dela, e entrou sem ser notado. Ele tinha as chaves do apartamento.

Lucas agarrou Jonas afastando-o de Jade. Raiva e revolta lhe tomaram e impulsionaram o seu pulso a esmurrar o rosto de Jonas.

O investigador caiu desnorteado e correu para a sala. Ele sacou uma arma, mas Lucas como um touro lhe empurrou contra a parede. Uma tesoura caiu do armário e Lucas não pensou duas vezes quando a enfiou no peito de Jonas.

Um golpe, dois golpes, três golpes de tesoura no pescoço de Jonas e o sangue quente com gosto de metal, cobriu o rosto de Lucas. Gotas de sangue escorriam pelo queixo dele. Seus dentes rangiam como um monstro feroz. Ele havia matado Jonas. E, o mais curioso: uma câmera na estante filmava toda a ação de Lucas.

Naquela mesma noite, Jade encontrou a câmera ligada e viu as imagens de Lucas matando o capanga de Marieta. Ainda chocada com tudo o que havia acontecido, ela viu a possibilidade de chantagear Marieta com as imagens captadas. Aquilo foi um assassinato brutal. Não houve legítima defesa.

A camionete de Gomes corria no meio da estrada, quando uma fumaça branca começou a sair do motor.

O céu ainda escuro começava a ganhar as primeiras notas de luz. Um brilho alaranjado tomava conta do horizonte, anunciando a chegada do sol.

Jade parou o carro e acordou Licurgo. Ele estava atordoado, mas desceu para verificar o motor. Não era nada, o carburador que havia aquecido. Era somente aguardar alguns minutos e dar partida novamente.

Ele entrou no carro e encostou-se novamente no assento do banco.

– Você tá bem? Essa ferida no seu peito parece infeccionada. Você precisa de um médico urgente – disse Jade preocupada.

– Tô ótimo. Como os passarinhos eu tô muito bem! Sabe que quando criança eu costumava falar com eles e eles me obedeciam. Na verdade todos os bichos faziam aquilo que eu mandava. Parecia um dom, um presente dos céus. Eu falava e todos se reuniam para me ouvir. Alguns até choravam – disse Licurgo revirando os olhos e suspirando em um delírio – eu desisti de tudo por causa da minha vó. Eu lembro que nós estávamos na Assembleia de agricultores e o telefone tocou. Eu atendi e Ele me disse que queria falar com o pai do Gomes, o senhor Afonso. Eu fui até ele e estendi a mão com o telefone, mas ele deu um tapa na minha mão e o aparelho quebrou-se ao cair no chão. Eu fiquei muito triste e ainda por cima minha Vó Biza pegou-me pelo braço e disse que eu não podia tentar reconciliar as famílias. Que eu não tinha esse direito. Eu fiquei decepcionado com aquelas palavras e emudeci. Por isso que minha boca tornou-se um túmulo. Um túmulo de silêncio – delirou Licurgo.

– Você não tá falando coisa com coisa – disse Jade.

Jade foi até a carroceria do carro e encheu com o pó do diálobu, um pequeno saco de pano, que ela retirou do bolso. Ela também retirou o telefone e deixou no colo de Licurgo. A espingarda e o saco maior com o pó vermelho continuaram na carroceria.

– Guarda esse saquinho contigo – disse Jade entregando-o para Licurgo.

No colo dele um saquinho com o pó do diálobu e do lado um telefone vintage de cor vermelha.

Os olhos de Licurgo brilharam ao ver o telefone em seu colo. Ele pegou o telefone e com reverência o beijou.

Jade deu partida no carro e voltaram sua viajem.

No meio do caminho ela notou pelo retrovisor umas sombras negras passando pela estrada. Ela não deu tanta importância já que os monstros não saíam durante o dia.

Mas, que asar o dela que aquelas sombras revelaram-se as bestas grandiosas e ameaçadoras. Mas como podia ser? Já que as bestas não podiam sair na luz do dia?

Licurgo acordou com os gritos desesperados dela.

– O que foi? – gritou Licurgo.

– Os monstros estão atrás de nós! – disse Jade desesperada.

– Não pode ser! – disse Licurgo observando as bestas lhe perseguirem.

Eles corriam determinados e velozes. Uma dezena de monstros loucos para acabarem com os dois dentro do carro.

– Acelera, acelera! – gritava Licurgo.

Mas era em vão, as feras eram mais rápidas e conseguiram chegar até o carro. Uma delas que parecia liderar acertou as patas na carroceria destruindo tudo. Era uma vez a espingarda e o pó de diálobu.

Adrenalina percorria o corpo de Jade impulsionando-a a acelerar cada vez mais.

Mas, não adiantou. As bestas viraram o carro fazendo-o capotar.

Jade e Licurgo giravam dentro da cabine sem noção de direção.

As bestas cercavam o carro, enquanto Licurgo saia da cabine. Um sol fraco e assustado tentava aquecer o ambiente. Mas, um sentimento de desesperança tomava de conta.

Jade rapidamente saiu do carro com um corte na testa.

– O que vocês querem? – perguntou Licurgo para os monstros ao redor.

Eram uns 15 monstros arrodeando o carro. Todos prontos para matar.

– Eu quero dialogar com vocês. É possível? – perguntou Licurgo ficando de frente para a besta que parecia liderar.

Licurgo foi até a cabine e pegou o telefone vintage. Ele andou devagar até a besta e estendeu o telefone vermelho em sua mão.

– O que você está fazendo Licurgo? – perguntou Jade.

– Só o diálogo pode nos salvar! – disse Licurgo cheio de esperança.

O monstro lhe encarou e viu aquele homem magro com a mão estendida, segurando um telefone vermelho.

Um raio de esperança inundou o coração de Licurgo.

Jade aguardava o desfecho de toda aquela estranha situação.

Mas, não demorou muito para que a besta se manifestasse.

Em um movimento rápido e preciso, a fera abriu a boca e engoliu a mão de Licurgo. Quando o monstro soltou dele sangue e músculos escorriam pela sua boca.

Licurgo caíra ajoelhado sem a mão e sem o telefone.

A besta mastigava a mão dele de forma cruel e violenta.

 

 

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  • Meeeeeeeeeeeeeeu Deeeeeeeeeeeeeeeuss! Quando eu penso que finalmente eles terão paz, mais desgraças acontecem. Pobre Licurgo.

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