Josué Ferreira fez menção em levar a destra até a altura da face maculada enquanto corria os olhos sobre a terra exposta diante de si…

Enquanto mirava a bota envelhecida, com fivela carcomida, suja e malcheirosa de estrume do desgraçado capataz…

Enquanto sentia a rijeza do aço daquele rifle sobre a pele. 

O calor já não mais o incomodava, tão somente a vergonha e a humilhação, o brio ferido.

Exceto o pai, nenhum outro homem se atreveu a por a mão na sua cara, nem mesmo os macacos, aqueles ordinários oficiais do Estado, quando decidiam enfrentar o bando de Zé Porcino, nos tempos em que ele, Josué, recém saído da adolescência, andou pelo cangaço. 

Estremecendo ao sentir a cólera invadir-lhe o âmago, baixou a mão de súbito antes que ela alcançasse seu rosto, espalmando-a em seguida, assim como a outra, sobre a terra batida para sentir a energia das profundezas de sua alma descer pelos braços _ lenta como uma onça rondando a presa antes do ataque fatal _ até chegar à ponta de cada um dos seus dedos…

Cerrou os dentes. Encolheu os ombros. 

Estava pronto para atacar. 

– De verdade, espero que você se lembre, maldito… 

Miguel, engolindo em seco, os lábios trêmulos, puxou o ar com toda força para dentro dos pulmões antes de continuar, ao passo em que observava um punhado de cabelos brancos espalhados pela cabeça do coronel; fios, que sob a forte claridade solar, refletiam algum tipo de  luminosidade… 

Desde quando o diabo pode usar um halo? , balbuciou a pergunta retórica, sem eco.

Uma onda de calor excessiva, arrepios e uma leve tontura mesclaram em seu peito, em sua cabeça.

– Espero que se lembre de um ato covarde que praticou lá atras, há mais de trinta anos, quando arrancou a vida de um trabalhador inocente, um pai de família honesto… 

Tentou evitar, mas sentiu um embargo na voz e detestou esse sinal de fraqueza, de inconstância. Meneou a cabeça com força, rápido, e buscou no ódio que corria em suas veias a determinação para não quedar. Precisava seguir adiante e cumprir a promessa que fizera à mãe e, acima de tudo, carecia vingar a honra, a alma de seu pai abatida na ponta daquele maldito facão… 

Tensão, tristeza, desespero, aversão… A frustração era amarga demais para se sentir. 

Numa fração de milésimos de segundos, Miguel levantou o pé direito e o esticou com extrema violência na direção do coronel, atingindo-lhe o rosto no mesmo lado em que havia despejado, há poucos instantes, o seu insulto. 

Josué Ferreira, ainda com os olhos fixos nos grãos da terra batida, recebeu o chute cingido de lancinante dor e com um gesto inútil tentou se equilibrar, caindo direto com as costas no chão. 

– Em nome do que fez com meu pai, seu cobra ruim – berrou Miguel.

Mas de que diabos o jagunço estaria falando, quis saber Josué Ferreira, questionando-se em completo silêncio enquanto buscava recuperar-se. Por que o covarde não agia como homem e resolvia logo essa questão, fosse ela qual fosse, sem arerês, a culhão se necessário, e deixasse esse rodeio de lado… 

Inspirou profunda e vagarosamente antes de apoiar um dos cotovelos sobre o solo, ao mesmo tempo em que elevou o outro braço até a altura do rosto, protegendo, com a mão, a vista do brilho intenso do sol.

Miguel, a poucos centímetros de distância, encarava-o com o rifle em punho, trazendo uma estranha expressão morta em seu semblante.

Sim. Ele estava muito diferente daquele capataz humilde, fiel e dedicado que vinha acompanhando Josué Ferreira já há dois anos, desde que sua morena os havia apresentado, a ele e a João, como os dois irmãos que ela deixou para trás, ainda mocinha, antes de cair na estrada da vida.

Naquele momento, inebriada de felicidade pelo destino ter lhe permitido o reencontro há muito desacreditado, Adalina, num brado de aleluia, clamou, intercedeu, rogou ao seu homem para que desse uma oportunidade de trabalho digno e honesto aqueles dois… 

O coronel sabia muito bem que qualquer amante, masculino ou feminino, contava com o apoio de seu parceiro. Esperavam que seus amasiados os ajudasse, os guardasse, os apoiasse, promovesse-os, e sua morena conseguiaser ainda mais encantadora e excitante quando um desejo lhe era atendido, fazendo brincadeiras tolas, sentando em seu joelho, permitindo que ele se sentisse vinte anos mais moço…

Adalina… Seria possível que estivesse por trás dessa traição? Josué Ferreira atreveu-se a pensar, mas tratou de afastar o disparate daquela suspeita antes que lhe corroesse as vísceras…

Com o espírito de quem um dia fora um bandoleiro, não temendo nada e nem ninguém, ele, coronel Josué Ferreira não reconhecia a derrota, mesmo estando aprumada diante de si. Jamais imaginou que jagunço algum tentasse tocaiá-lo, emboscar um poderoso de sua estirpe, muito menos que esse fedido fosse um de seus homens, de seus protegidos…

– Desce do seu cavalo, João – ordenou Miguel – Vem aqui…

João titubeou, demorou um pouco para apear. A indecisão que carregava dentro de si não lhe deixava agir ou pensar em seu estado normal.

– Miguel, por favor…

– Desça logo desse maldito cavalo!

Miguel urrou como um animal ferido, sem deixar de fitar o coronel um segundo sequer.

– Finalmente a promessa que fizemos à mainha vai ser cumprida – bradou como se o mundo fosse acabar naquele instante enquanto empunhou o rifle e voltou a impingi-lo contra a testa do seu patrão.

Josué Ferreira respirou fundo, sentindo o cano da arma arranhar a fronte e então, de soslaio, espreitou sua pistola Lunger caída próxima de onde estava.

– Nem pense.

Avisou Miguel, entre os dentes, a voz derramando rancor e desprezo, pressionando, com mais força a ponta da arma contra sua vítima.

-Todo o sofrimento de minha santa mãe pela morte traiçoeira do meu pai vai ser pago quando eu te fizer sangrar igual a um porco, coronel Josué Ferreira – ele seguiu adiante com o rosto fogueado, sem piscar os olhos – Espero que nunca tenha se esquecido do que fez lá em Areias, até porque, a marca da injustiça que meu pai deixou em seu rosto deve lembrá-lo todos os dias.

Josué Ferreira não podia acreditar no que tinha acabado de ouvir, e ao confrontar Miguel não teve dúvidas de que ele falava sério. 

Engoliu em seco ao assimilar, por fim, a verdade.

Ato continuo, retirou a mão de sobre os olhos e a passou pela cicatriz que atravessava o canto esquerdo da face, ainda suja pelo escárnio do jagunço, e sentiu como se estivesse sendo ferido novamente, naquele mesmo lugar.

Milésimos de segundos, eternizados num simples lampejo que desafiava análises, desenterraram uma lembrança mais que remota dos recantos de sua mente.

Voltou a sombrear as vistas, erguendo o rosto sem demora para encontrar nos olhos do capataz o mesmo olhar impassível daquele menino, há trinta e seis anos, que o fitava estagnado, como uma estátua, ausente de qualquer reação após ver o pai perder a vida na ponta de uma peixeira.

 

 

Um cabra de Lampião quem foi quem trouxe a notícia

Que viu Lampião chegar os inferno neste dia

Quando Lampião bateu

Um moleque ainda moço

No portão apareceu:

– Quem é você, cavalheiro?

– Moleque, eu sou cangaceiro

Lampião lhe respondeu.

 

– Moleque, não! Sou vigia

E não sou seu pariceiro

Hoje aqui o senhor não entra

Sem dizê quem é primeiro

– Moleque, abra o portão

Saiba que sou Lampião

Assombro do mundo inteiro     ¥

 

 

1938…

 

Os povos do mundo travam batalhas de morte contra o facismo.

Sob o governo de Getúlio Vargas, o lema progresso é um objetivo incontestável, absoluto.

A marcha para o Oeste, lançada às vésperas de 1938, incorpora, nas palavras do presidente, “o verdadeiro sentido de brasilidade”, uma solução para os infortúnios da nação, já que o Brasil havia prosperado quase que exclusivamente na região litoral, enquanto o vasto interior mantinha-se estagnado, vítima da política mercantilista colonial, da falta de estradas viáveis e de rios navegáveis.

A semifeudalidade e o coronelismo imperam sobre essas terras, submetendo a família camponesa às mais duras condições de trabalho, impostas pelo latifundiário, grande criador de gado na região.

Diversas formas contra esse sistema coronelista são vistas no Nordeste. O cangaço é uma delas. Nomes como Lampião, Corisco e Zé Porcino, são os principais cangaceiros dessa época. Cada um com o seu próprio bando atuando em regiões específicas do sertão.

 

Após as mortes de Zé Porcino, no final de 1937, e de Lampião, em meados de 1938, ambas por tropas do estado, cangaceiros como Corisco por bem se entregaram às forças do Estado Novo varguista, em prol da absolvição dos crimes e da anistia.

 

É lançado “Vidas Secas”, obra escrita por Graciliano Ramos, tendo como tema a luta pela sobrevivência de uma família camponesa contra os flagelos da seca e a exploração e opressão do latifúndio. Utilizando-se de um estilo seco, expressando-se por meio do uso econômico dos adjetivos, Graciliano parece transmitir a aridez do ambiente e seus efeitos sobre as pessoas que ali estão.

 

*    *    *

 

Cidade de Areias… nos confins da Bahia

 

Nem mesmo o sol sufocante daquela manhã de dezembro conseguiu reduzir a presença dos fiéis na missa dominical da modesta igreja de Areias, aonde padre Manuel vinha exercendo o seu ministério a pulsos fortes nos últimos oito anos.

Todos haviam chegado quase que simultaneamente, cumprimentando-se e ocupando as colunas dos bancos de madeiras desconfortáveis, sem atritos ou querelas.

Há muito ninguém ousava ausentar-se da Santa Missa; salvo o resguardo de um parto ou alguma doença que incapacitasse o cristão de se locomover ou fosse contagiosa, nenhum outro motivo, fosse qual fosse, não seria suficiente para aplacar a indignação do honrado sacerdote, que iria julgá-lo e implacavelmente condená-lo e catalogá–lo como um pecado grave.

A mãe do prefeito, no ano anterior, teve o bom senso de sofrer o seu infarto minutos depois do encerramento da missa que promovia o aniversário de 130 anos da cidade, e até mesmo a esposa do Sr. Marcelino, dentista respeitável, temeu, de certa maneira, pela salvação de sua alma, assistindo pacientemente a toda a missa do Domingo de Páscoa, havia cinco anos, para só depois fugir com um caixeiro viajante que estava em Areias não mais que dois dias, levando à loucura o pobre marido.

A Eucaristia seguia já a um quarto de hora e logo a prostração causada pelo calor não demorou a tomar conta de alguns cristãos que já não assimilavam muitas das palavras convenientemente articuladas num tom ameaçador por padre Manuel, que, do alto de seu púlpito, sabia muito bem como lidar com os incautos e suas dispersões mentais…

Sim. Os holofotes precisavam estar direcionados a ele, portador da mensagem do Cristo, e sob um olhar iminente, ostentando sua irrevogável onipresença, o velho ministro sempre recorria ao artifício de um providencial e sonoro pigarro, muita das vezes, exasperado, entrecortando, a contragosto, seu dilatado discurso.

– Veni, Sancte Spiritus. Venha o Paráclito com suas luzes! Glória ao Pai, pelos incomparáveis dons que nos dera! Glória ao Filho, pelo mistério da Sexta-Feira Santa…

Mas até mesmo a mais resistente das palmeiras enverga com a força do vento, e padre Manuel, naquela manhã de início de dezembro, vinha à duras penas sustentando sua postura equilibrada e austera sem titubear, sem mudar qualquer regra daquele sagrado cerimonial, enquanto abençoava, por incrível que pudesse parecer, num silêncio sepulcral, o calor que não diminuía nem mesmo com o vento seco e ardente que entrava pelas poucas janelas da pequena igreja de Areias, permitindo-lhe, de maneira oportuna, usufruir daquele seu artifício para omitir o nó do desespero estacionado em sua garganta, resultado do nervosismo que lhe consumia os órgãos desde a madrugada, quando uma visita inesperada, “um fantasma do passado”, portador de um infame propósito, surgiu à porta da casa paroquial.

Sua inquietação, seu infortúnio, não poderia em hipótese alguma se tornar perceptível para quem quer que fosse. De todas as responsabilidades que lhe cabiam, manter o rebanho unido era a fundamental.

– Glória ao Paráclito, que nos ensinara a erigir o altar para imolar o Cordeiro sem mancha à glória da Trindade. Per Christum Dominum nostrum.

Engolindo em seco, prosseguiu com o seu ministério enquanto rogava intimamente o perdão à Santa Trindade por ter cedido o espaço de Sua casa, há um três quatros de hora, para servir de alicerce a insultos contra o quinto sagrado mandamento…

Mesmo tendo sido forçado a este ato pelo segredo de confissão, o peso em sua consciência não se tornava menor.

Em mais de quarenta anos de carreira eclesiástica, padre Manuel jamais havia sido exposto à situação semelhante. Certamente ouvira diversas revelações dos mais variados pecados, mas nunca se viu diante de tal conflito que o levasse a questionar a própria capacidade de prosseguir com seu trabalho ministerial.

Cogitou até mesmo redigir uma carta ao Papa, mas estaria correndo perigo se acaso a missiva não chegasse às mãos de Sua Santidade, e mesmo o interceptor não sabendo diretamente quem eram as pessoas envolvidas, o segredo de confissão seria quebrado, ferindo a graça, força e a confiança depositada por Deus sobre ele, seu humilde servo.

“Fabiano sempre foi o seu protegido, não é mesmo, padre?”

Recordou padre Manuel, trêmulo, as palavras finais selando a revelação carregada de ódio que lhe fora confidenciada.

Fique tranquilo. Não serei eu que terei o privilégio de arrancar a vida do miserável traidor… Mas saiba que carregarei comigo a satisfação de ter tido o prazer em mandar pro quinto dos infernos a vida do homem que atirou meu nome na lama… E a propósito, caso o senhor convença Fabiano, de alguma maneira, a deixar a cidade, eu o encontrarei, como o encontrei enfurnado nesse fim de mundo,e quando o fizer, não terei um pingo de clemência: mandarei dar cabo da família inteira”!

Do alto de sua tribuna, em meio à sua eloquência desmedida, Manuel buscou, absurda e cautelosamente, uma improvável cumplicidade no olhar de cada um de seus fiéis, não demorando a constatar, pesaroso, que nenhuma daquelas almas sequer desconfiava do torpe encontro que estava acontecendo naquele exato momento nos limites da casa de Deus.

– Fabiano precisa fugir… Mais uma vez…  – ele balbuciou, por um segundo, um murmúrio imperceptível, os olhos lacrimejantes.

 

*   *  *


– Pra quem participou do bando daquele cangaceiro, isso não vai ser um problema. Ache um jeito. Eu quero aquele feirante morto!

Sentenciou com voz áspera o homem sentado num banco de madeira ao lado de um pequeno balcão improvisado que dividia a estreita sala de espera de uma casa paroquial, impregnada de um velho cheiro de flores, onde sem nenhuma dificuldade a pobreza que tomava conta do lugar podia ser notada, mesmo que sob a luz bruxuleante das poucas velas que se esforçavam para derramar alguma luz sobre o lugar, ou sob as fretas de luz que entravam pelas janelinhas cobertas de moscas, mantidas completamente fechadas, no alto das paredes laterias.

Com as feições paradas, o rosto gordo e sem desviar os olhos fundos das imagens dos santos de gesso dispostas em um pequeno altar, Antero Crespi, cujas palavras lhe pareciam arranhar os dentes quando pronunciadas, finalizou sem qualquer sinal de arrependimento, remorso, ou tampouco hesitação, a sórdida negociação que o arrastara até ali, não permitindo ao jovem em pé à sua frente, um tanto absorto e impressionado, qualquer resquício de dúvida sobre a natureza de sua ordem.

O rapaz de porte mirrado, mas que chamava a atenção de todos por sua beleza, ainda que escondida sobre a má sorte dos últimos tempos que vinha assolando sua existência, não ignorava o poder incrustado naquele homem muito bem vestido e que movia lentamente, de um lado para o outro, o chicote que carregava na mão direita; estava acompanhado por quatro jagunços, todos carrancudos e armados até os dentes, pronto para atacar a qualquer sinal que fizesse, entretanto, por razões inexplicáveis, recorria aos serviços de um terceiro, de um completo estranho para dar fim à vida de um desafeto.

Por quê?

Guardou para si esse questionamento. Realmente pouco lhe importava os motivos; receberia sua paga e fugiria dali, deixando pra trás a miséria de sua vida, na qual estava mergulhado há quase um ano desde que abandonara o que tinha restado do bando de Zé Porcino, chegando a Areias já não tendo quase nada para sobreviver, aceitando qualquer tipo de serviço que lhe permitisse o mínimo de dignidade, fazendo das fraquezas forças para não ir ao fundo.

A proposta infame de dar cabo à existência de um simplório e pacato feirante era a oportunidade de tentar recomeçar, consertar a vida arruinada. Não seria a primeira vez que mataria alguém, mas seria a primeira que agiria como assassino de aluguel.

– E como tu se chama, moleque? – indagou Antero Crespi, empurrando uma vela para próximo do rosto do seu pistoleiro de mando.

– Josué!

 

¥    trecho do Cordel “A chegada de Lampião no inferno”, de José Pacheco 

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CANDEEIRO ENCANTADO – Grupo Miralra

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