Esta cova em que estás com palmos medida

É a conta menor que tiraste em vida

É de bom tamanho, nem largo, nem fundo

É a parte que te cabe deste latifúndio

 

 

Não é cova grande, é cova medida

É a terra que querias ver dividida

É uma cova grande pra teu pouco defunto

Mas estarás mais ancho que estavas no mundo    ¥

 

 

Uma sombra inconsolável tomou conta de Areias depois da notícia da morte de Fabiano. Decerto, sob a perspectiva do prestígio e da vaidade humana, a importância de sua figura não passava de um reles espectro se comparado à estirpe de coronel Damasceno, dono de quase tudo que existia naquela pequena urbe, entretanto, desde que chegara por ali, há pouco mais de sete anos, trazido por padre Manuel, o feirante soube cativar e conquistar amigos em todas as camadas daquela diminuta sociedade.

Homem de sonho, doce, resignado, vez em quando encolhido, espiando o céu, escondia suas frustrações e sua angústia como ninguém. Uma amargura que havia nascido por ter sido forçado em deixar para trás, resultado da injúria imposta pelo melhor amigo, a vida que levava na fazenda Olho d’água, ao lado da mãe, lugar que o viu nascer e crescer, tendo, a partir de então, a miséria e a má sorte como companheiras, marcando sua existência “a ferro e fogo” com os flagelos da dor, do desespero e da desesperança.

Após abandonar Olho d’água, Fabiano precisou encarar a necessidade de sobrevivência, amontoado, por quase cinco anos, numa terra pobre e estranha, sendo explorado enquanto trabalhador de enxada, aguardando, sempre em silêncio, promessas que julgava ter recebido. E, por fim, a derradeira aflição, que nem mesmo a submissão muda fora suficiente amainar: assistir, impotente, a vida de sua amada Sebastiana se esvaindo, seus padecimentos, sua dificuldade em respirar durante a luta inglória contra um câncer que a devorava inclemente aos 22 anos de idade enquanto ele lhe prometia, ruminando sua devastação, sua revolta e sua raiva, que se manteria firme, carregando no coração, ou no que restasse dele, a esperança de um dia Antero Crespi lhe procurar e pedir perdão pelas injustiças que derramara em suas costas, 

 

No dia seguinte ao passamento de Fabiano, uma chuva fina e persistente caia sobre Areias à medida que dois homens, curvados, as calças dobradas até o joelho, aparentemente cansados, carregavam nos ombros a rede contendo o seu corpo inerte em meio ao cortejo fúnebre. Homens, quase todos de pés rachados e mulheres com suas cabeças cobertas por véus em fervorosa oração. Lá, à frente da triste comitiva, Eulália, com seu ventre avolumado e os dois filhos ao seu lado, Miguel e a pequena Adalina. A viúva olhava algumas vezes o céu cinzento sobre sua cabeça como se quisesse encontrar algo que abrandasse sua perda, seu pesar… O ódio que não conseguia controlar.

Mas Eulália estava decidida: iria embora daquela maldita cidade, mesmo estando naquele estágio da gravidez, correndo o risco de parir no meio da estrada, tudo para não ter que conviver nem mais um dia à sombra de padre Manuel, como seu falecido marido aceitara passar os últimos sete anos. Ouvira de Fabiano, sem muitos detalhes, a intervenção do padre quando este lhe salvou a vida, evitando que fosse morto pelo melhor amigo, na fazenda onde haviam sido criados; ela também reconhecia a dívida que tinham com o sacerdote por ter-lhes tirado da existência sub-humana que levavam naquelas terras no interior de Pernambuco, mas o preço que pagaram fora muito alto e talvez Padre Manuel já lhes devesse algum troco. 

O famigerado sacerdote tomou conta de suas vidas, sempre sugerindo, alguma das vezes deixando claro sua vontade de como deveriam agir, na verdade como Fabiano deveria agir. Essa obediência cega Eulália não iria permitir, nem a si e nem a seus filhos. Não iria criar Miguel e Adalina, nem tampouco a nova alma que estava por vir, sob um julgo opressivo, insano e veladamente cruel.

Olhando para o lado, na direção de padre Manuel, ao passo em que filetes de água da fina chuva desciam por seu pescoço, ela enxergou rugas impiedosas surgindo nos cantos da boca do padre santo, escoltadas pela fisionomia de um homem embriagado pelo cansaço… Ou talvez sendo consumido pela culpa.

Que sua alma queime no inferno, padre miserável, Eulália desejou ardorosamente, mergulhada no silêncio daquela inusitada viuvez, enquanto voltava a mirar o caminho de terra batida que levava ao cemitério.

Por piores que fossem as coisas que estavam por vir, não podiam ser tão horríveis como as coisas que já tinha sofrido. Esse pensamento lhe dava coragem, alimentando sua indiferença, o vazio dentro de si. Sabia que nunca mais teria vontade de rir nem de chorar. Gostaria de estar deitada ao lado de Fabiano, partir com ele para onde Deus os guiasse, mas necessitava viver, afinal de contas, seus filhos precisavam da mãe e não tinham pedido a ninguém para vir ao mundo.

Sim. Iria sobreviver, mesmo com a sorte andando sempre contra ela… Iria sobreviver, nem que fosse de raiva, de birra.

 

 

*    *    *

O fogo lento que se acendera no peito de padre Manuel, consumindo-o desde o dia em que Antero Crespi aparecera à porta da casa paroquial, havia se transformado, a partir da morte de Fabiano, de um fogareiro de revolta nascida da consciência e incapacidade diante de uma injustiça, a uma tormenta de magoa e, por mais que não quisesse reconhecer, também de ódio. Desde o nefasto crime que comia e dormia pouco, e vivia num permanente estado de agitação física e espiritual ao mesmo tempo que a vestimenta negra ia ficando cada vez mais folgada no corpo anguloso e a voz se tornava agastada e áspera, e muita das vezes parecia se concentrar exclusivamente nos carvões ardentes dos olhos.

Três meses, três longos meses desde a morte trágica de Fabiano pelas mãos de um joão-ninguém.

Antero soubera escolher o mais invisível de todos que viviam em Areias, aquele que não era observado por ninguém, quase um mendigo, um jovem, quiçá um garoto, que vivia de favores nas poucas semanas em que esteve na cidade, desde sua chegada repentina até a partida sob a mancha da ignomínia de um crime contra um inocente.

Raiva impotente mesclada a uma (ainda) piedade dolorosa era o que padre Manuel nutria por aquela alma infeliz que ousara realizar trabalho tão sórdido… Deus diz claramente na Bíblia que homicídio é pecado. A vida é algo precioso, um dom dado por Ele. Além disso, como o homem e a mulher foram criados à Sua imagem, assassinato é uma ofensa não só à pessoa assassinada, mas também a Ele, o Deus que a criou.

 

Pecador, agora é tempo de pesar e de temor:

Serve a Deus, despreza o mundo, já não seja pecador!

Neste tempo sacrossanto o pecado faz horror:

Contemplando a cruz de Cristo, já não seja pecador!

Vais pecando, vais pecando, vais de horror em mais horror.

 

A Eucaristia da quarta feira de cinzas… A voz dos fieis cantarolando, atravessando as janelas da pequena igreja até chegar ali, aos seus ouvidos…

 

Filho acorda dessa morte, já não seja pecador.

Passam meses, passam anos, sem que busques teu Senhor.

Como um dia para o outro, assim morre o pecador.

 

Graças aos céus, a Santa Igreja não demorou a mandar padre Mariano para substituí-lo até que se recuperasse. O rebanho precisava manter-se unido e ele, padre Manuel, não tinha mais forças, não possuía mais o poder para isso…

De guia espiritual, se tornara um peso para os seus fieis.

 

Pecador arrependido, pobrezinho pecador,

Vem, abraça-me contrito, com teu Pai, teu criador!

Compaixão, misericórdia vos pedimos, redentor:

Pela virgem, mães das dores perdoe-nos, Deus de amor!

 

Padre Manuel encarou seu reflexo no pequeno espelho carcomido que mantinha guardado na gaveta da mesinha de ferro e madeira, ao lado da cama, ao passo em deixava escapar um assovio de dentro do peito. Pela diminuta janela, no alto, à esquerda da parede lateral, a luz da manhã invadia o quarto lhe permitindo conferir a barba por fazer, as faces descarnadas, dum amarelo lívido que tomava conta de todo o seu rosto, revelando o quão quebrantado se encontrava.

Perguntou-se, enquanto seu cérebro cansado movia-se com lentidão, se haveria escapatória do beco sem saída em que estava, mas sua voz, sem eco, vagou no silêncio da cela, mais uma vez, como vinha acontecendo já há semanas ao se reconhecer e se permitir tomado por uma apatia e ansiedade crescentes, por uma sensação de que não valia mais a pena continuar vivendo.

Com movimentos refreados, devolveu o objeto de vidro ao interior da gaveta e fechou os olhos em seguida, tentando desesperadamente esvaziar seus pensamentos e manter o equilíbrio do próprio corpo enquanto sentado.

Por que Eulália partira, afrontando-o, não acreditando que o desejo de Fabiano fosse ter os filhos sob seus cuidados? Recebendo os ensinamentos e a comunhão de um verdadeiro cristão?

Padre Manuel meneou a cabeça tentando expulsar para bem longe aquela visão estarrecedora, quando a mulher de seu protegido, alguns dias depois do seu sepultamento, subiu a carreta, logo atrás de seus filhos, voltando-se para ele, encarando-o com um brilho frio de ódio e desgosto ardendo nos olhos, sem dizer qualquer palavra, emitir qualquer som, apenas se virando dentro e em pouco tempo para frente, ignorando por completo sua existência. 

Por que Eulália decidira lhe tirar o que restava de Fabiano? O que tinha acontecido? Estava pagando com extrema ingratidão tudo o que ele havia feito por sua família…

Uma onda de náuseas, fome, sono, exaustão e golpes atordoantes tomou conta de cada neurônio existente dentro da cabeça do velho sacerdote _ sintoma cada vez mais frequente _, não lhe deixando alternativa a não ser cair sobre seu catre. Mantendo os olhos cerrados, sentiu o peso de sua matéria indo de encontro ao leito. Não queria pensar em nada, não queria refletir, mas os pensamentos estavam ali, fortes, circulando e investindo contra ele, mergulhando e cravando garras dilacerantes em sua mente…

Sentiu o corpo enrijecido e dolorido quando se levantou, num esforço hercúleo, abrindo os olhos, mirando a parede à sua frente onde o lampião a querosene repousava pendurado. Trôpego, esticou o braço direito para debaixo do magro travesseiro e retirou um pedaço de papel vergado e o trouxe para perto de si, abrindo, sem pressa, cada uma das dobras que lhe haviam sido impostas até se deparar com a própria letra e o emaranhado de palavras e frases que ela formava.

Quando deixei para trás a cidade de Laranjeiras, no interior de Minas Gerais, atendendo a uma determinação superior para assumir o cargo de sacerdote na igreja de Areias, nos confins da Bahia, uma terra que sequer conseguia ser localizada num mapa, acreditei, ingênua e piamente, que eu estaria pondo fim a um conflito cujas raízes foram alimentadas pelo orgulho e a vaidade, pai e mãe de todos os males que caminham sobre a face da Terra de nosso Senhor.

Antero e Fabiano, os vi nascerem, como tantos outros na fazenda Olho d’água enquanto exerci por lá meu ministério por longos vinte anos.

Antero Crespi, o único herdeiro dos hectares das terras onde vivia, enquanto Fabiano, o filho de uma empregada, cresceram unidos, amigos inseparáveis durante toda a infância, enxergando-se como irmãos, ignorando a posição social que os distinguia perante os olhos de toda a sociedade, até que o destino, com suas garras traiçoeiras, decidiu criar um abismo entre essa amizade…

Sebastiana, uma jovem bastante bonita, filha de um fazendeiro da cidade vizinha, seria a esposa perfeita para Antero, e não fossem os cinco anos que ele passou na capital para retornar a Laranjeiras com um diploma de advogado embaixo dos braços, teriam se tornado marido e mulher, mas Antero fez questão de querer desposá-la, sabia-se lá por que, carregando o título de “doutor”.

Infelizmente nesse ínterim, enquanto Antero Crespi manteve-se afastado, retornando à fazenda e à cidade tão somente em datas especiais, como as férias de final de ano, Sebastiana e Fabiano se enamoraram, de maneira involuntária, decidindo comunicar pessoalmente a Antero, antes de assumirem o desejo de unirem-se pois acreditavam lhe dever esse ato de honestidade e lealdadde.

Nada no mundo nos preparou para aquela reação do jovem Crespi, que derramou sobre o (ex) amigo de infância toda a culpa pela infelicidade e vergonha que ele estava sendo obrigado a carregar em seus ombros. Claro que não foram poucas as tentativas de Fabiano em tentar conversar, provar ao amigo sua inocência, pois não premeditara nada, nem tampouco Sebastiana… De nada adiantou. O filho do poderoso coronel Alexandre Crespi, mergulhado em seu próprio ressentimento, demonstrou de fato do que era feita a sua verdadeira personalidade para aquele que já condenara como um traidor.

A fim de evitar uma tragédia sem proporções, a meu pedido, Fabiano e Sebastiana fugiram de Laranjeiras, sem que ninguém soubesse o destino que tomariam, exceto eu, já que havia prometido à pobre e inconsolável Nicolina, mãe do rapaz, que os ajudaria de todas as maneiras possíveis, acreditando que o tempo aplacaria a fúria de Antero, acalmando os ânimos alterados que recaíra sobre Olho D’Água.

Um engano infeliz.

Como disse, deixei-me guiar por completo pela ingenuidade…

Assim que assumi o cargo de pastor espiritual nesta cidade, mandei buscar Fabiano e Sebastiana, para tê-los sob minha proteção, literalmente, e qual minha desagradável surpresa ao descobrir que a pobre alma daquela jovem já não se encontrava entre os vivos, e Fabiano já havia contraído núpcias com Eulália, carregando um pequeno consigo…

Como disse, deixei-me guiar pela ingenuidade…

Há duas semanas, depois de doze anos, numa madrugada de domingo insuportavelmente quente, Antero Crespi surgiu à minha frente, à porta da casa paroquial, acompanhado de quatro jagunços. Não demorei a perceber, mesmo depois de tanto tempo, que ele ainda permanecia um produto indissociável do que carregava dentro de si… O agora coronel Antero Crespi, uma figura rude, hostil, embrutecida e com a alma implacavelmente torturada, decidiu que não me permitiria mais carregar a paz espiritual que todo servo do Senhor precisava ter…

O inferno do desespero que passou a me consumir após ouvir sua confissão repugnante, ouvir cada palavra, cada letra, cada som da revelação prévia do assassinato que mandaria cometer, me deixou completamente perturbado, inexoravelmente desestruturado.

Antero me puniu por ter ajudado Fabiano e a Sebastiana. Ele anunciou minha sentença: eu ficaria aprisionando para sempre dentro das paredes do sigilo sacramental que precisaria e deveria manter…

Não consigo…

Não consigo…

Não consigo…

Ontem, depois de ter encaminhado a alma e o corpo de Fabiano, me senti o pior dos homens, o pior dos servos de Deus. Não consigo orar, não consigo comungar. Uma agonia sem fim, um peso inominável está sobre mim, quase não me deixando respirar, neutralizando minhas orações, minhas rogativas, potencializando a tentadora capacidade de violar aquele segredo ainda que confiado a mim por um ato de raciocinada covardia.

Não posso.

Não posso.

Não posso.

Ao

 menos preciso manter minha dignidade de servo do Nosso Senhor… É o que me resta… Ou não…

 

Depois de ler atentamente cada linha, na verdade depois de reler cada série de letras de sua autoria, padre Manuel pousou a carta sobre a mesinha de cabeceira à medida que laivo de temor e resignação endureceu-lhe a expressão.    O pensamento de sua própria destruição atravessou-lhe a mente desorganizada…

Que a Virgem e o nosso Senhor me perdoem… Que não me deixem vagar eternamente no fogo do inferno…

 

 

 

 

 

¥    trecho da canção “Funeral de um lavrador”, de Chico Buarque

__________

JOANNA – A PADROEIRA

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