Xian estava totalmente desconcertado, sem entender o motivo que levou Zhan a procurá-lo tão tarde. O estado dele era um tanto assustador, ao ouvir aquele pedido não pode deixar de pensar que o outro entendera errado seu sutil afastamento.

— Zhan? – Xian se afastou para encará-lo. – Está me assustando, aconteceu algo grave?

Zhan se moveu afastando dele, porém sua mão ainda segurava o braço de Xian, como se precisasse desse apoio ou desmoronaria. Trêmulo, ofegou algumas vezes para se acalmar e contar ao seu ex-melhor amigo sobre a monstruosidade que sofrera a 13 anos atrás.

— Eu sinto muito. – Balbuciou se desculpando em tom quase imperceptível. – Não deveria ter vindo.

Xian inspirou e olhou para a porta que ainda estava aberta dizendo:

— Se veio é porque acreditava que seria necessário, vou fechar a porta e vamos nos sentar. – Xian olhou para seu braço que ainda tinha a mão firme de Zhan o segurando.

Zhan rapidamente notou e soltou o braço de Xian, acompanhando com os olhos ele ir até a porta a fechando.

Para Xian aqueles segundos de espaço de tempo entre ambos eram uma eternidade em sua mente, afinal se Zhan havia vindo vê-lo certamente seu irmão Lan Huan havia contato sobre eles. No dia que Cheng entrou em contato com Huan para lhe informar que o irmão estava vivo, Xian conversou com ele antes de Huan falar com Zhan pedindo que evitasse tocar no assunto sobre eles, já que Zhan não se recordava de sua vida antes do acidente.

Xian voltou-se para Zhan e fez um gesto com a mão para segui-lo, assim ambos se sentaram no sofá, havia uma tensão enorme entre eles que fez Xian prender a respiração.

“Lan Huan, lhe implorei para não contar e agora o que faço… Se ele começar a perguntar…”

— Xian… Como disse que éramos melhores amigos, possivelmente sabe sobre mim e como eu vivia em minha casa. – Zhan falava ofegante e algumas vezes a voz ecoava tremula.

— O seu irmão pode responder melhor que eu e…

— Eu lhe contei que era gay?

Xian mal conseguiu terminar de falar e seus olhos se arregalaram chegando a engasgar com o ar preso em seu peito.

— E-euu…

Zhan olhou-o notando o desconforto e se afastou um pouco escorregando o corpo para o lado no sofá.

— O que vou lhe contar é …

— Zhan… Por favor… – Xian estava trêmulo e totalmente desconfortável com aquela situação, ele queria sumir a ter que enfrentar Zhan.

— O meu pai sabia que eu estava vivo. – Zhan fitou-o com os olhos cheios de lágrimas.

— O QUE?! – Xian sentiu um baque forte no peito levando a mão na altura do coração totalmente confuso. – O seu pai sabia o que…? vivo? Como?

— Ele sabia, a minha tia Han An foi quem o avisou quando me resgataram do mar. – Zhan suspirou buscando, através de uma lufada de ar, buscando forças para falar daquela história horrível. – Ela disse que estava em estado grave, passei por uma cirurgia e estava me recuperando.

Xian sentia-se atordoado olhando Zhan relatar, mal crendo no que ouvia, mas sabia que era real, afinal seu Wang não é de mentir e muito menos fingir algo que não existe.

— Ele me abandonou, disse que preferiria um filho morto a um homossexual. – Zhan chegou a ofegar no final daquela frase.

Xian chegou a cair o queixo e atordoado levantou colocando a mão na testa, fechou os olhos e murmurou para si mesmo que tudo que ouviu só podia ser um pesadelo.

Zhan olhava-o caminhar de um lado para o outro falando baixo e resmungando até que parou e abriu os olhos que estavam totalmente inchados e vermelhos denunciando sua tentativa inútil de segurar a raiva. Xian não se segurou e gritou alto um palavrão sendo amparado por Zhan.

— DESGRAÇADO!!! – Xian falava furioso aquelas palavras sem notar que Zhan havia o abraçado tentando consolá-lo. – Maldito desgraçado!!! – Xian estava tremendo e as lágrimas escorriam pela face soltas.

Ambos ficaram abraçados alguns minutos, havia um choro silencioso entre eles, era como se sentissem a dor um do outro. Zhan estava atordoado, mas com Xian em seus braços, sentindo seu contato era como bálsamo que lhe acalmava.

Tão logo Zhan sentiu Xian mais calmo afastou seu rosto que estava escondido em seu peito para encará-lo. Se arrepiou com aquele olhar triste e teve a impressão de que este se desculpava. Zhan tocou a face de Xian passando o dedo polegar na bochecha para limpar a face úmida de seu chefe e melhor amigo.

— Xian…

O contato deles era cada vez mais imerso e Xian olhava para os lábios que outrora lhe pertenciam. Seus pensamentos eram tortuosos e mal conseguia responder ao seu assistente e amor do passado.

— Xian, está mais calmo?

Xian balançou a cabeça confirmando e sentiu um pouco a relutância de Zhan ao se afastar dele. Eles se sentaram no sofá e Xian conseguiu finalmente balbuciar algo.

— Conta-me direito, o maldito te abandonou em um lugar estranho e longe …

Zhan começou a falar da história, a cada fato relatado Xian sentia o peito doer. O maldito pai de Wang sempre agia como ele queria por ter poder e dinheiro. Deixou que todos acreditassem que havia morrido e não revelou a ninguém o que havia feito.  Abandonou Wang, dando dinheiro a uma senhora e até documentos falsos fez para manter o filho “anormal” longe.

Quando finalmente Zhan terminou de relatar a Xian, este ficou olhando para ele sem mal conseguir falar de tão chocado que ficou. Todos aqueles 13 anos, Xian se culpava pela morte de Wang, se culpava por te lhe dito que o odiava no dia que iria embora do país.

— Eu não entendo o que levaria um pai a abandonar um filho dessa forma… Eu não…

— Você não fez o que ele queria e não seguiu os planos como deveria.

— Planos?!

— A família Lan é uma das mais ricas e poderosas de Xangai, eles têm empresas e atuam em vários ramos com parceiras milionárias. – Xian finalmente criou coragem e continuou a falar, havia um tom de raiva na voz ao falar do pai de Wang. – Os planos eram lhe casar com a jovem Liu Mei Lin, a família dela é uma das mais influentes.

Zhan ouvia-o silencioso e atento.

— O casamento lhe renderia uma união de empresas e ainda um contrato milionário para as duas famílias. – Xian ofegou. – Tudo para atender os caprichos de uma garota mimada. E como você negou e ainda se assumiu homossexual, o seu pai ficou furioso e quis a todo custo esconder a vergonha da família.

Zhan baixou o olhar em seguida falando:

— Ele me odiou pelo visto…

— Seu pai odiava todo mundo, para ele o que importava eram os negócios e claro brigar com sua mãe. – Xian suspirou.

— Xian, então, você sabia sobre mim… – Zhan soltou leve sorriso triste. – E isso lhe incomoda… – Zhan encarou-o. – Posso garantir que estou bem com a Bel e não sinto nenhuma atração por homens.

Xian olhou-o por uns instantes e um sorriso amargo brotou em seus lábios.

“Se ele está pensando dessa forma é porque Lan Huan não contou sobre nós.”

— E seu irmão?

— Arrasado, chorou bastante e precisei lhe dar um remédio para dormir.

— Lan Huan lhe ama muito, ele é um ótimo irmão mais velho.

— Quando conversávamos, parecia que entendia o que eu pensava. – Suspirou esboçando um leve sorriso. – É muito bom saber que tenho um ótimo irmão.

— Lan Huan queria fazer mais por você, sempre pelo seu bem e não media esforços. – Xian fez uma breve pausa ofegando baixinho. – Eram um pelo outro, já que seus pais estavam mais preocupados em se atacarem seja por status ou dinheiro.

— Ele passou pelo mesmo, me contou que foi um casamento arranjado e por sorte ele se apaixonou pela esposa.

— Foi bom para ele que deu certo, a sra Lan YinLi é boa esposa.

O silêncio preencheu o espaço entre ambos, Xian olhava para o nada pensando em toda a dor que sentiu naqueles 13 anos e o medo de agora que descobriu o que o maldito do pai de Wang fez só podia pensar em quanto a sua culpa era maior.

Xian incentivava dia e noite Wang para que eles se assumissem para ambas famílias que estavam apaixonados. Eles combinaram que seria tão logo se formassem e fossem para a faculdade em Pequim.

Xian contou ao seus pais, estes apesar de chocados com a revelação levaram um tempo para entenderem, no entanto em nenhum momento foram agressivos ou mesmo o ofenderam.

Xian se sentia muito feliz por isso, os pais eram compreensivos e mesmo que a situação fosse desconfortante para eles, este respeitava-os e mantinha a postura para não os envergonhar.

Zhan não teve a mesma sorte e ao revelar que não se casaria, assumindo a sua sexualidade, o pai lhe amaldiçoou e lhe disse palavras duras. Obrigando-o a esconder algo que considerou nojento e continuaria com os planos do casamento.

Xian ouviu seu amado Wang contar tudo que passou ao revelar sua sexualidade e que o pai manteria o casamento a todo custo. Este teve a ideia de deixar que a tal noiva prometida visse Wang e ele juntos em um passeio no centro comercial. Uma atitude infantil de sua parte, sem imaginar que aquele seria o início de toda a dor que viria a sentir pagando um amargo preço pelo seu erro.

Um erro cometido que custou ao Wang uma surra de cinto de seu pai, uma briga séria entre os pais e a separação. O sr. Lan os expulsou de casa com apenas a roupa do corpo. Mãe e filho não tinham para onde ir e foi Huan que, de Pequim, enviou dinheiro para eles ficarem em um hotel até resolverem tudo.

— Xian?

Xian despertou daquelas lembranças e virou o rosto para Zhan que estava se levantando.

— É melhor eu ir…

— Ah? Melhor ir…? – Xian se levantou sentindo tudo girar.

— Xian?! – Zhan conseguiu ampará-lo antes de cair no chão. – Cuidado? O que está sentindo? – Zhan tomou seu pulso sentindo fraco. – Você não está bem. – Passou o braço na cintura do outro, fazendo apoiar o braço no ombro dele. – Onde fica o seu quarto?

— Não se preocupe, já estou melhor… – Xian tirou o braço do ombro de Zhan e tentou se afastar, não entendendo aquela tontura.

Tateou o sofá para sentar-se novamente, mas foi surpreendido com Zhan o erguendo nos braços e em seu colo olhava-o com seus profundos olhos claros. Xian chegou a prender o ar no peito e seu rosto corou profundamente, agitou-se para tentar sair dos braços do outro.

— Zhan, por favor…

— Vou te deixar no quarto e irei embora depois que tiver certeza de que estar melhor. – Girou o corpo e caminhou parando em frente a um longo corredor. – Qual é o seu quarto?

Xian soltou um suspiro longo e falou murmurando, ainda sentindo vergonha por ser mostrar fraco e nos braços de Zhan.

— Última porta a direita. – Apontou a direção.

Zhan caminhou até o final do corredor e ao abrir a porta entrou sentando-se Xian na cama. Agachou de frente a ele para se certificar se estava bem, tomou seu pulso e inspirou baixo.

— Algo me diz que não se preocupa tanto com sua saúde, apesar de ser alto, você é magro demais. – Os olhos claros demonstravam muita preocupação.

— Eu estou bem, não se preocupe tanto.

Xian encarou os olhos claros e se arrepiou, como ele o queria abraçar e beijar aqueles lábios. Inspirou fundo e desviou os olhos se arrastando na cama.

— Eu só preciso dormir.

Zhan concordou e se levantou pegando em seguida seu smartphone, nesse momento Xian olhou a hora e se assustou, eram 3 horas da manhã e voltou a olhar para Zhan.

— Zhan, como vai embora? São 3 horas…

— Vou chamar o Uber.

— Uber?! A essa hora não é perigoso? – Xian tinha uma leve preocupação. – Beth me contou que houve um assalto ontem com um Uber, pessoas foram baleadas… Não! – Xian se levantou segurando a barra da blusa de Zhan. – Dorme aqui, quando amanhecer você vai… embora.

Zhan baixou o olhar para a mão de Xian que segurava a ponta de sua blusa e por uns instantes ponderou em se aceitava ou não aquele convite em pernoitar na casa dele.

— Tem um quarto de hospedes na porta em frente, Cheng às vezes usa quando temos que virar noite em assuntos da empresa. – Soltou a barra da camisa de Zhan quando notou seu exagero repentino naquele pedido. – Dorme lá, não saia essa hora, será mais seguro de dia.

Zhan balançou leve a cabeça concordando por fim e virou o rosto para a porta comentando.

— A porta em frente, certo?

— Sim.

— Não quero lhe incomodar mais do que estou, eu nem deveria ter vindo. – Voltou a face para Xian. – Mas depois de ouvir toda essa história de minha suposta morte a única pessoa que eu pensava era em você.

Xian encarou os olhos claros se surpreendendo e em seu peito o coração palpitou agitado, forçou-se a baixar a cabeça e murmurar a ele.

— Como disse, se veio era porque acreditava ser necessário.

— Eu sinto que incomodo você, então, logo que amanhecer peço a empregada que abra a porta e irei embora.

— Não é incômodo Zhan, você precisava desabafar e como sou alguém ligado ao seu passado é normal que tenha vindo falar comigo. – Xian falava pausadamente cada palavra sem olhar para o outro. – Não se preocupe comigo, vá descansar.

— Xian, descanse.

Xian balançou leve a cabeça, não olhava para Zhan e assim que ouviu a porta se fechar não segurou mais suas lágrimas. Ele se sentia um lixo, se culpando por todo mal que fez a pessoa que amava e por ainda sentir um enorme amor sabendo que o homem ao qual reencontrou não era mais seu.

— Wang… Desculpa…

Xian rolou na cama e se deitou cobrindo-se e ali continuou seu choro silencioso, sem imaginar que Zhan ainda estava dentro do quarto olhando-o dali de pé perto da porta.

Zhan esperou Xian dormir, não demorou muito o som do choro abafado pelo lençol sumir e caminhou até ele, puxou suavemente o lençol e seu coração palpitou vendo o rosto pálido de Xian. Suas sobrancelhas estavam franzidas e o sono era irregular e cansado.

— Xian… Eu que peço desculpas… – A ponta dos dedos tocou a face ainda úmida pelas lágrimas. – Não vou mais lhe incomodar com meu passado.

Zhan se afastou e caminhou para fora do quarto entrando em seguida no de hospede. Sua mente fervilhava de perguntas sobre os dois, mas percebeu que teria que saber se algo aconteceu entre eles através de seu irmão.

Inspirou fundo e se sentou na beira da cama, em sua mente, não ligava mais para o que seu pai lhe fez. O que ele queria saber era seu passado com Xian e por que o ex-amigo de infância se sentia tão incomodado com sua presença. No fundo ele tinha receio de descobrir, talvez ele tenha assediado ou forçado o amigo a ficar com ele?

Zhan se deitou depois de tirar o tênis se recordando do dia que viu Xian pela primeira vez na entrevista. Em seu peito o coração saltou deixando-o um tanto ansioso. Primeiro acreditou que era por estar nervoso com a entrevista, mas ao ver seu chefe passar mal ficou muito preocupado. Com a contratação acertada começou a trabalhar com Xian percebia as estranhas reações e quando finalmente descobriu a verdade e que eram ligados no passado por um laço de amizade notou-o o evasivo. Seu chefe evitava falar do passado ou responder suas perguntas sobre a amizade deles. Com isso começou a pensar que realmente algo grave aconteceu e o fato dele ter dito que era homossexual só piorava a situação.

Zhan estava acreditando no pior e precisava descobrir se ele forçou Xian ou fez algo contra a vontade do amigo. Se isso realmente se confirmasse, Zhan iria se afastar e pedir demissão.

 Continua…

Próximo episódio 28/06 às 20 h

 

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