Triti foi conduzido à sua nova sala. Ao adentrar, deparou-se com um pequeno espaço ocupado somente por uma cadeira:

– É… Parece que o pessoal aqui não investe em decoração.

Sobre o assento havia um pacote. Ele continha a roupa inteligente com um pequeno manual de instrução. Ao vestir, parecia mais um conjunto feito de sacos plásticos pretos. De repente, o tecido moldou-se ao corpo perfeitamente. Triti sentiu-se muito confortável.

Ao acomodar-se na cadeira, procurou localizar o computador, mas nada viu. Ao baixar os olhos, notou que em seu peito brilhava uma pequenina luz amarela que logo se tornou verde. Neste mesmo instante, abriu-se bem diante de seus olhos uma ampla tela, repleta de comandos virtuais holográficos que podiam ser acionados de acordo com os pensamentos do operador. Mãos e olhos poderiam trabalhar em conjunto para aumentar ainda mais a velocidade de trabalho.

A tela virtual central exibia o desenho de uma estrutura molecular complexa, que poderia ser manipulada somente por conhecedores especializados. Não obstante, Triti continuava sem ter a menor ideia da natureza da pesquisa. Observou curiosa e atentamente a estrutura. Não demorou perceber que se tratava de uma molécula orgânica. Ao redor desta, havia uma sequência de outras moléculas de natureza inorgânica. O objetivo seria encontrar uma forma de fundir uma delas à estrutura molecular orgânica principal.

Várias tentativas resultaram em instabilidade e consequente desintegração. Após inúmeras outras frustradas tentativas, um aviso do computador alertou quanto ao estresse e a necessidade de parar. Inesperadamente, o computador encerrou o sistema e Triti retirou-se da sala. Estava exausto.

– Se o próprio sistema reconhece que estou cansado, então só me resta obedecer. Queria ir pra casa. – Mas sua mente mantinha-se ligada ao desafio da fusão molecular. – “O que poderia ser? Pra quê estabilizar uma molécula orgânica já tão estável? E pra quê associá-la a uma molécula inorgânica?”

À noite

– Olá, Triti. Ainda bem que você me recebeu no seu cérebro. Tentei falar com você o dia todo. Acho que o seu neurofone estava desconectado.

– Oi, Kleber. Onde você está?

– A caminho daquele bar que te falei. Vou encontrar Lisa e a sua amiga. Você gostaria de nos encontrar lá? As duas são maravilhosas.

– Está bem. É… eu realmente preciso espairecer um pouco.

– Ótimo! Nos vemos em meia hora. Tudo bem?

– Combinado.

Durante o trajeto para sua casa, Triti viu um homem caído num beco. Agonizava e gemia. Sem demora, ordenou que o veículo transportador diminuísse a velocidade e entrasse em contato com o serviço de emergência.

– Que estranho, aquele homem parece muito mal! – exclamou. Nem bem terminara a frase, o serviço de atendimento médico chegou. Triti saltou do veículo e juntou-se aos paramédicos. A cena que testemunhou foi aterradora. A agonia do homem aumentara. O terror estampado em seu rosto, os movimentos convulsivos de todo o corpo e sons de agonia, escapavam de seus lábios lacerados, que ele mordia com toda força, devido à dor. Um líquido viscoso amarelado desprendia-se de todos os orifícios principais. O cheiro era insuportável, pútrido.

– Ele está se afogando em seu próprio fluído corpóreo. O que é isso, meu Deus?! – exclamou o paramédico.

À medida que desidratava, aquele homem, que a cada segundo evoluía mais para um aspecto cadavérico, pôde soltar um último murmúrio ininteligível. Triti tocou-lhe o braço, o que culminou numa reação de rechaço. Seus olhos afundaram nas órbitas até desaparecerem, dando lugar a dois orifícios sombrios. O rapaz recuou diante daquilo e não conteve seu horror. Virou o rosto, sentindo-se nauseado. Por fim, só restou um corpo completamente seco e sem vida.

A equipe médica isolou o local. Triti foi intimado a acompanhar o corpo ao Instituto Médico Legal para esclarecimentos. Ao chegar, o plantonista pediu ao rapaz que fizesse uma descrição detalhada do que vira. Depois de descrever os detalhes da terrível cena, o médico inclinou a cabeça, cofiou o cabelo, e disse, em tom de desabafo e preocupação:

– Este é o terceiro caso esta semana. Estamos desconfiados de mau funcionamento dos nanobots. Já enviamos amostras aos laboratórios da Nanobios…

– Para qual laboratório as amostras foram encaminhadas? – interrompeu Triti. O médico estranhou a pergunta. – É que trabalho lá. Quem sabe possa ajudar.

– Enviamos ao laboratório Beta, aos cuidados da senhorita Rita.

– Precisamos saber o que foi aquilo. Se sua suspeita for confirmada, isso poderá significar algo pior do que qualquer contaminação que a humanidade já sofreu.

– Espero que realmente eu esteja errado. – disse o médico ao levantar-se. – Aqui está meu cartão. Caso descubra alguma coisa, por favor, me avise.

Triti saiu com aquela sensação de terror que ainda o assolava em ondas. O neurofone acionou. Era Kleber novamente.

– Triti, você vem ou não? Estamos à sua espera. – O rapaz oscilou, talvez devesse voltar para casa, mas, ao mesmo, tempo precisava dissipar aquele mal- estar.

– Tudo bem, estarei aí em quinze minutos. – respondeu, num esforço enorme para superar sua preocupação.

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