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O Circo de Pennywise – Capítulo 4 – A tempestade

O Circo de Pennywise

Capítulo 4

A tempestade

No dia da morte de Big John, Beto e Isa limpavam a piscina; Tia Maitê cuidava de um projeto debruçada na sua mesa de engenheiro; Tio Heitor consertava portas em Derry e eu me espreguiçava na cama olhando para o sol da janela do meu quarto. Minha preguiça poderia ser comparada a um Tiranossauro Rex: imensa, enorme, assustadora. Dei de ombros e rolei para lado. Só que não consegui dormir de novo, então pulei da cama e fui tomar banho. Notei que precisava urgentemente de roupas, havia poucas comigo e nenhuma de banho. Fui para cozinha tomar meu café da manhã; tinha bolo de chocolate e aquelas rosquinhas americanas de policiais. Comi duas. Tenho uma queda por doces. Não deveria, mas tenho.

Depois de comer como um padre (frase do meu avô) fiquei um tempo sentado na varanda olhando para Isa. O cabelo vermelho dela contrastava com o azul da água. Não sei por que mantinha tudo aquilo na cara, e muito menos o porquê de usar tanto o preto. Só sei que era bonita e inteligente. Bem diferente do irmão.

_Oi, gente – disse com um aceno.

_ Oi _ Beto foi o único que respondeu.

Eles limpavam a piscina das folhas e dos pequenos galhos que caiam da árvore do vizinho.

_ Nessa cidade tem sorveteria? – Perguntei colocando a mão na testa para me proteger do sol.

_ Só uma do outro lado da avenida _ Beto mantinha os olhos nas folhas.

_ Depois que terminarem de limpar tudo vamos até lá?

Isa balançou a cabeça de forma zombeteira.

_ Não temos dinheiro para sorvetes, garoto.

Como assim? Sorvetes são baratinhos. Qualquer um têm moedinhas no bolso para comprar um picolé.

_ Me conta outra, vai? _ Disse com as mãos na cintura. _ Qualquer um tem trocados para um sorvetes.

A menina me fuzilou com os olhos, para depois me fuzilar com as palavras.

_ De que planeta você veio, hein? _ Ela tirou a cabeleira da cara. _ Olha pra gente _ ela segurou os ombros do irmão. _ Não somos ricos como você. Somos os filhos da empregada da tua tia. Não temos dinheiro para sorvetes _ ela limpava com raiva a piscina. _   E não somos seus amigos.

_ Pega leve, Isa _ Beto pediu com os olhos para que eu relevasse os maus modos da irmã. _ Isadora tá naqueles dias, Rafa. Não dê ouvidos para ela.

Franzi a testa.

_ Naqueles dias? Que dias são esses?

Beto gargalhou e Isa revirou os olhos.

_ Você fica horrorosa quando faz isso com sua cara, sabia?

Dessa vez Beto riu tanto que a irmã pensou que fosse explodir.

_ Você bem que poderia nos deixar em paz, garoto. Não tá vendo que temos coisas para fazer.

Mostrei a língua para ela. Pensei que fosse me jogar um balde na cabeça. Só que não. Ela riu. Um sorriso lindo!

Com raiva do tédio, entrei para dentro do meu quarto e puxei minha mochila do armário. Minha mãe tinha me dado mil dólares para comprar roupas; que mal teria se eu pegasse apenas cem para um sorvetinho? Nenhum, né? Peguei o dinheiro e fui atrás de Tia Maitê. Precisava dela para fazer com que Beto e Isa me acompanhassem até a sorveteria.

_ Oi, Tia! _ Cumprimentei-a com um sorrisão gente boa.

_ Olá, amor. Como passou sua noite?

Ela tava envolta por um monte de papéis, réguas e calculadoras. Dei um beijo no seu rosto, coisa que nunca fiz com minha mãe.

_ Bem _ coloquei as mãos nos bolsos. _ Preciso da sua ajuda, Tia.

_ Não me diga? _ Ela arregalou os olhos. Tava tirando uma da minha cara, claro. _ Não sei não, hein. Acho que vai custar uns dez reais.

Sorri sem jeito. Eu não tinha reais, só dólares.

_ É sério, Tia. Eu preciso da sua ajuda.

Ela parou de mexer nos papéis para olhar pra mim.

_ Me parece grave, Rafa _ os óculos dela foram colocados de lado. _ Me diga em inglês que favor é esse.

_ Ah, não Tia! _ Meu descontentamento foi do tamanho do mundo. _ Assim não vale.

_ Vale sim. Vamos lá, faça um esforço.

Sei que fiquei vermelho como um pimentão. E fiquei mais vermelho ainda quando vi Tia Maitê rindo da minha cara.

-Tudo bem, tudo bem. Vou tentar.

_ Então tente, Rafa. Estou esperando.

Ela batia com seu lápis na prancheta do seu projeto. Meu suspiro foi profundo, daqueles que sofrem por alguma coisa difícil de fazer.

_ I would like you to release Isa and Beto from the pool to accompany me to the ice cream shop.

Tia Maitê arregalou os olhos. Não sei se isso era bom ou ruim.

_ Hum … _ disse deixando sua mesa de trabalho. _ Vamos ter que melhorar esse inglês, rapazinho. E você não vai fugir dessa vez. Aqui às leis são minhas, certo?

Ela apertou a ponta do meu nariz. Mexi as mandíbulas para soltar minhas narinas.

_ Vamos falar com eles.

Me senti no céu! Ao lado de Deus!

 

***

_ Eu preciso da atenção dos dois _ Tia Maitê tem um jeito engraçado de falar e apontar o dedo. _ Quero que me façam um grande favor _ Isa e Beto pararam de limpar a piscina._ Quero que levem Rafa até a sorveteria. Vão fazer isso para mim?

Beto pareceu animado. Isa me fuzilava com os olhos.

_ Precisamos terminar de limpar a piscina, Dona Maria Tereza. Minha mãe foi ao Supermercado e essa é nossa obrigação do dia.

Tia Maitê cruzou os braços sobre o peito e olhou bem nos olhos de Isa.

_De quem é essa piscina, mocinha?

_ Da Senhora, claro.

_ Ela está bem limpa para mim. E para você,  Rafa? – Fiz que sim com o dedo.

Beto sorriu, eu também.

_ A obrigação de vocês agora é acompanhar Rafa até a sorveteria, certo?

_ Minha mãe não vai gostar nada disso – resmungou Isa.

_ Eu falo com Patrícia depois, não se preocupem com isso. Vocês estão de férias e precisam se divertir _ Tia Maitê olhou para mim. _ Tem dinheiro para o sorvete, filho?

Mostrei minhas notas de dólares para ela.

_ Tudo bem, então, Vão, vão, vão. Mas quero os três aqui na hora do almoço.

Corri para a rua com Beto atrás de mim. Isa caminhou com a cabeleira na cara de novo.

_ Muito esperto, garoto. Muito esperto.

Ela nos empurrou pelas costas para que atravessássemos à rua. Coloquei as mãos nos bolsos para ficar mais marrento.

_ Sua mãe não gosta de mim? _ Perguntei de supetão para Isa.

Ela franziu a testa daquele jeito gótico.

_ Por que tá perguntando isso?

_ Você disse que ela não ficaria satisfeita em saber que foram na sorveteria comigo.

Isa revirou seus olhos daquele jeito feio de novo.

_ Isso não tem nada a ver com você _ Beto foi quem falou. _ Ela tem medo do nosso pai.

_ Como assim?

_ Que ele nos roube dela, coisas desse tipo.

_ Sei. Saquei.

Fomos calados até a sorveteria. Quando entramos, dividi o dinheiro com eles.

_ Não, não. Eu não posso aceitar _ disse Isa. Beto ficou olhando para o dele.

_ É claro de podem. É um presente meu. Como vão pagar o sorvete se não aceitarem?

Tentei ser convivente. Meu avô dizia em seus discursos no Senado que quando um homem e uma mulher conseguem pagar suas contas, eles são como Reis e Rainhas perante os outros.

_ Vamos, podem pegar _ empurrei mais ainda o dinheiro para eles. _ E fiquem com o troco para o dia de estreia do Circo.

Pegaram o dinheiro tipo assim: sem jeito, né? Eu sorri. Aquilo era apenas dinheiro, porra!

Pedimos Banana Split e Milk Shake de chocolate. Tava gostoso por demais.

Na hora de pagar a conta, cada um mostrou o seu dinheiro. Meu avô tinha mesmo razão. Isa e Beto pareciam importantes. Sorri ao vê-los feliz. As melhores coisas da vida são mesmo aquelas sem importância, como um dia comum na sorveteria com os amigos.

 

***

Voltamos para casa com Isa empurrando nossas costas para atravessarmos a rua. O clima havia mudado. Via-se nuvens escuras no céu e trovoadas além do descampado do circo. Ninguém percebeu que uma tempestade se aproximava, apenas o bobão recém-chegado de São Paulo.

_ Olha aquilo? _ Mostrei às nuvens para Beto.

_ Isso se chama chuva, Rafa _ Isa gostava de me provocar. _ Não vai me dizer que tem medo de chuva também.

E daí? Qual o problema de se ter medo?

Entramos em casa. A mãe dos dois esperava no portão. Tia Maitê conversava com ela.

_ Sua mãe é um problema sério, meninos.

A tal de Patrícia não tava nada satisfeita comigo.

_ Viram o seu pai por aí? Viram?

_ Não mãe _ mais uma vez Isa respondeu. _ Como sempre não vimos meu pai por aí.

Um raio cruzou o céu.

_ Nossa! Vem uma tempestade por aí.

Tia Maitê e Patrícia olharam para o céu. Outro raio despencou no descampado.

_ Vamos entrar.

Dei tchau para os meninos. Um raio acertou a árvore do vizinho. Pude ouvir o riso de Isa e de Beto. Não de deboche, mas por achar graça no pulo que dei para dentro de casa.

 

***

A tempestade veio com fúria. Tio Heitor chegou antes que ela caísse, com as nuvens vomitando raios e trovões. Ele entrou dentro de casa bufando, com o cabelo desgrenhado pelo vento.

_ Meu Deus! _ Disse limpando o pé no tapete. _ Que tempo desgraçado é esse? Não estamos no verão?

Tia Maitê beijou-o no rosto. Eu continuava com a cara grudada na janela vendo o mundo desabar. A tempestade parecia vir do descampado, de onde via-se o Circo. Ele tava envolto por nuvens e parecia flutuar nelas.

_ Tio Heitor, olha aquilo? _ Mostrei para ele. Meu tio coçou seu queixo daquele tipo característico dos machos que não demonstram medo perto das crianças

_ O que acha que é aquilo, Rafa?

_ Eu não sei. Mas parece que o Circo tá flutuando na tempestade.

_ Isso é impossível, rapaz. Anda vendo muitos filmes de ficção científica.

Antes fosse uma fantasia, mas aquilo era real.

Três viaturas da polícia subiram a rua com suas sirenes vermelhas. Tia Maitê olhou pela janela sem demonstrar interesse pelo assunto. Continuei olhando a chuva até que um raio caiu na piscina.

_ Ahhhh! _ Meu grito assustou Tio Heitor. _ Eu vou para o meu quarto. Depois eu desço para o almoço.

Não esperei a resposta deles. Subi correndo as escadas e fechei a porta. Me enfiei nos cobertores, encolhendo as pernas e roendo as unhas. O vento e as trovoadas continuaram por um bom tempo. Vez ou outra eu escutava o estrondo de um raio no vizinho, me encolhendo ainda mais nas cobertas. O vento soprava na varanda e nas vigas da casa, assim como no teto. Nada se comparava aquilo, nem mesmo as enchentes de São Paulo. Tia Maitê entrou no quarto e me perguntou alguma coisa. Respondi mecanicamente que sim. Para dizer a verdade, eu tava morrendo de medo e nem prestei atenção ao que ela falava. Um medo bem trevoso, daqueles que congelam a gente, saca?

O tempo passou devagar e as coisas foram se acalmando. Tirei o cobertor do rosto puxando ar para os pulmões. A casa ainda tava de pé. Apenas um barulhinho vinha do lado de fora, como se uma garoa fina caísse no jardim. Desci as escadas devagar, de olho na varanda. Meus Tios almoçavam na cozinha. Eles olharam com dúvidas, mas não me fizeram perguntas. Fui até a janela. O que vi não me deixou nada satisfeito. Era o maldito do frio batendo na minha porta, trazendo uma neve esquisita que cobria metade do jardim. Olhei para Tia Maitê. Ela balançou os ombros do tipo ‘fazer o que, né’? Suspirei ao ver que a neve começara a congelava à piscina. Olhei para Tio Heitor. Ele parecia preocupado. Muito preocupado.

 

***

A segunda morte em Le Dio aconteceu bem perto de casa. Um senhor conhecido como Richard tirava a neve da porta de uma farmácia. Tinha fama de ser rabugento e mão de vaca. Isso não era novidade: muitos americanos são rabugentos e mãos de vaca.  Sempre que nevava, era chamado para limpar as portas do comércio. Ele tinha um desses carros de tirar neve, bem comuns em Nova York. Era o único em Le Dio que fazia um precinho camarada.

Naquele dia, depois da tempestade, não fora diferente dos outros dias de tempestade. Seus serviços foram requisitados pelos comerciantes da cidade. Então ele pegou seu carro ‘comedor de neve’ e foi trabalhar feliz da vida por essa intempérie da natureza. Com certeza, um dinheirinho bom entraria na sua conta bancária sem muito esforço, porque a neve parecia fina como um algodão doce.

Mr. Dick, como era conhecido, começou ligando seu comedor de neve. Em menos de 20 minutos havia feito mais da metade do serviço. Pensava no jantar e na feira do outro dia, onde compraria seu desentupidor de pulmões (um unguento estranho e malcheiroso). Podia-se ouvir seu assovio do outro lado da rua. Mas por algum motivo que nem a polícia soube explicar, o comedor de neve parou de funcionar. Claro que Mr. Dick reclamou aos quatro ventos, mas desceu para ver o que estava acontecendo. Muitos contaram que a mão dele ficou presa nas correntes da roda; outros que o carro o puxou pela manga da camisa. Só sei que Richard foi tragado para as entranhas do comedor de neve. Seus pedaços ficaram esparramados pela calçada, assim como o sangue grosso de suas vísceras. Alguns disseram que o comedor de neve funcionava sozinho, no indo e vindo, jogando as lascas de Mr. Dick pelo caminho. Patrícia chegou em casa bufando, contando a história e fazendo o jantar. Eu olhei para Tio Heitor desconfiado. Ele ouvia tudo com aquela pulguinha atrás da orelha. Quando Patrícia cortou tomates, correu para o banheiro e vomitou. Ninguém comeu naquela noite. O frio continuou entrando pelas frestas das janelas. Puxei os cobertores e tentei dormir. Voltei a roer minhas unhas como antigamente; como quando vi meu avô morto dentro do quarto de hospital.

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