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A madrugada na cela foi pior do que os piores pesadelos, principalmente por ainda não se ter notícias de Vinícius. O tempo só piorava a situação lá fora. Agora Atílio estava convicto de que se tratava apenas de uma questão de sobrevivência, pois, não se sabia em que momento o povo invadiria a delegacia.

Um policial trouxe o café da manhã. Quem sabe o último. Empurrou a bandeja com desprezo em direção a Atílio que olhou sem interesse. A severidade no tratamento e eventuais insinuações do carcereiro, tornavam as coisas ainda piores. Na verdade, desenvolveu-se nos profissionais da lei uma necessidade sádica de lançar o condenado aos leões. Chegavam até mesmo a fazerem apostas no intuito de ver quanto tempo o prisioneiro sobreviveria ao linchamento.

De maneira angustiante o tempo passava. As agitações internas de Atílio começavam a se converter em fobia. A respiração tornou-se rápida e superficial, o suor frio molhava o rosto. Tinha a impressão de que iria perder os sentidos. Foi quando um policial se aproximou:

Está com sorte. O coronel acabou de chegar e quer te ver. Ele podia te deixar aqui às moscas.

A luz da esperança havia inundado a cela. Isso renovou o ânimo de Atílio. Ergueu-se, então, do chão frio, arrumou-se e sacudiu a poeira da roupa.

Fique bonzinho. Nada de escândalo.

Atílio meneou e sentou-se no beliche. Em seguida, Vinícius chegou.

Que bom que você veio. Por favor, me tira daqui… – Disse Atílio que foi bruscamente interrompido pelo o tom ríspido de Vinícius.

Nem cumprimentou o amigo, muito menos dirigiu-se a ele como tal. O policial destrancou a cela e o coronel entrou. Pôs a mão no bolso do casaco e tirou de lá uma folha dobrada. Abriu-a metodicamente e disse:

É da Gisel. Ela escreveu momentos antes de morrer. Encontramos na cabeceira da cama. – Atílio arregalou os olhos sem entender o objetivo daquilo. Vinícius continuou:

Pois é, aqui ela menciona que você se fez passar por Célia que, por sua vez, criou uma personagem falsa de nome Lúcia. Correto?

Si-sim.

Muito bem. Se fez passar por outra pessoa. E por ela ter descoberto o seu plano, decidiu matá-la. Certo?

Não. Nunca faria isso.

Pra quem não tinha coragem de matar uma mosca… Quem diria, as pessoas mudam. Diga-me uma coisa: tem noção clara do que fez, sim ou não?

Não fiz nada.

Pois bem; por vingança, incitou aquele movimento social, correto? Sabe o que fez? Você descentralizou o crime e democratizou a lei.

Bem eu…

Você tem ideia do que fez?

Acho que tenho. Acabei com os criminosos…

Tornando-se um deles.

Não, Vinícius, escute. Quanto ao que aconteceu a Gisel, não sou criminoso. Foi uma fatalidade!

Estou falando de centenas, senão milhares de vidas massacradas. Sua namorada foi apenas mais uma.

Jamais mataria alguém que amo.

Para quem matou milhares de pessoas mais uma não é nada.

Por favor, não me julgue sem conhecer os fatos.

Quem julga você agora não sou eu. Esta situação é o monstro que criou. Tem ciência do que te aguarda lá fora? Além disso, fato é fato e você foi pego. Sabe o que aquelas pessoas farão com você?

Naquele mesmo instante, através da pequena janela gradeada da cela, Atílio viu um brilho oblíquo que vinha na sua direção. Quando fixou a vista e enxergou o que era, uma sensação de horror, forte o bastante para lhe paralisar, o invadiu. Foi arremessado um coquetel molotov, que estilhaçou contra a grade da janela da cela. Fragmentos de vidro e fogo se espalharam. Atílio se encolheu para se proteger. Em meio às chamas, olhou para Vinícius a implorar que o tirasse dali.

Aí está a resposta. Você acha que conseguiremos conter essa gente? Claro que não. E sabe por quê? Simplesmente porque são elas que ditam a ordem agora. Isso mesmo; você, simplesmente e de maneira genial, tirou o nosso poder.

Mas…

Você, Atílio, por incrível que pareça, transformou uma população inteira em assassinos.

Justiça. Era só o que eu queria.

Eles também querem. Você matou uma linda jovem inocente. Eles querem o mesmo que você. Eles também querem mais um dia de faxina.

Sou inocente!

Desconfio que você seja mesmo, mas eles não. Se eu te livrar dessa, acabarão comigo, sabia?

Atílio beirava o desespero ao ouvir os argumentos do coronel. Sabia que não sairia vivo dali.

Daqui a pouco a massa crítica será atingida. Milhares de pessoas vão querer diversão. E a barbárie acontecerá em nome da “justiça”. Bom argumento para quem tem sangue nas mãos. Que ironia! Mata-se agora em nome de um mundo melhor…

Vinícius, pela nossa amizade, por favor, deixe-me ir. Eu não fiz nada. Juro!

Eu poderia ser condecorado se eu o entregasse para eles, sabia?

Você não faria isso, faria?

Talvez não.

Então, deixe-me sair.

E o clamor dos manifestantes aumentava lá fora. Pedras eram arremessadas. Mais uma bomba foi lançada.

Acho que eu posso te ajudar.

Tudo bem, tudo bem. O que é? Fala que eu faço.

Você é um cara inteligente. E essa é a oportunidade que eu lhe dou para entrar na minha família. Queria mesmo que esse momento chegasse.

O que preciso fazer? Fale!

Esse país carece de gente inteligente. Pedirei que os nossos soldados joguem ao povo um boi de piranha que se passará por você. Alguém que não valha nada. As pessoas estão lá fora, não porque te conhecem, mas porque querem sangue.

E aí?

Você assumirá outra identidade.

Ótimo! Tudo bem, eu mudo de nome, de endereço, saio da cidade, do país, qualquer coisa.

Não, não. Você só terá que trabalhar para nós.

Nós? Nós quem?

Deixa explicar como as coisas funcionam. Antes existia a indústria do crime. Muita gente ganhava dinheiro, desde políticos proeminentes até o ladrãozinho pé de chinelo. Com o que aconteceu, essa indústria foi desarticulada e descobriu-se que era possível ganhar mais dinheiro com o chamado “mundo melhor”. A sensação de segurança e felicidade é mais potente do que a mais poderosa droga já conhecida. Qualquer um é capaz de dar a própria vida para se manter feliz. E é exatamente isso o que queremos. Ganhamos muito dinheiro, muito mais do que imaginávamos, com a pueril promessa de garantir a segurança. Vê a turma lá fora? – Atílio fez que sim, pasmado com o que ouvia. Eles acreditam profundamente que estão engajados numa espécie de guerra santa. Na verdade, só querem colocar para fora seus instintos sanguinários. Cada indivíduo jogado na arena, rende apostas em dinheiro que envolve quantias astronômicas. Existem apostadores de toda parte do mundo. Prevemos quantos serão mortos no mês. Apostamos em quase tudo o que é possível: Quanto tempo o cara leva para morrer, se ele ou ela será decapitado, quantos inocentes serão executados e assim por diante. É grana boa. Como vê, pessoas comuns é que farão o serviço. Não precisaremos mais fazer negócios escusos. “Gente de bem” é o assassino agora. Em suma: o assim chamado crime só trocou de lado, e assume uma roupagem diferente.

Não, não, não está acontecendo. Impossível!” – Pensou Atílio a enfiar a cabeça entre as mãos.

O que eu preciso que você faça é expandir esse negócio. Você criará mais perfis falsos em todo o mundo, e instigará as pessoas a buscarem a felicidade rebelando-se contra o sistema “opressor”. Que tal? Faremos desse planeta um grande cassino. Aceita?

Preciso pensar.

É melhor não pensar muito. O tempo não vai segurar aquela gente. Eles estão nervosos.

Quem será sacrificado em meu lugar?

Um mendigo qualquer. É só dar um banho e jogá-lo no meio do povo. Pode deixar que faremos o que for preciso.

Atílio andou de um lado para o outro. Deslizou a mão trêmula sobre a testa e disse:

Tudo bem. Mas eu quero acompanhar o mendigo até lá fora.

Aha! Também quer ver sangue, hein? Por mim, tudo bem. Pode acompanhá-lo.

Vinícius sem demora deu ordem para trazer o indigente.

Traga-o para cá. Aproveitem e dê um litro de cachaça para ele. Vai doer menos.

Enquanto todos ali na delegacia faziam os arranjos, Atílio caía em profunda reflexão:

Quantas vezes pensei que a vida era exatamente como se apresentava aos meus olhos. Aborrecia-me com trivialidades, com coisas fúteis. Almejava uma vida melhor, até descobrir que vivo num mundo alicerçado em mentiras, em jogos de interesse. A realidade é apenas uma máscara para esconder a perversidade, o poder, a dominação. Quantos mártires se sacrificaram por nada? Não sou nenhum mártir, mas eu só queria vingança por terem levado o meu amor. Queria que provassem do próprio veneno.”

O mendigo foi trazido às escondidas. Deram-lhe um banho e vestiram-lhe uma roupa qualquer. Depois o fizeram beber, o que fez de bom grado. O soldado, então, disse:

Pronto, coronel.

Tudo bem. Aguarde.

Atílio foi chamado. Saiu, enfim, da cela e caminhou pelo corredor. Ao chegar à sala do delegado, deparou-se com o mendigo. Este mal conseguia parar em pé.

Está pronto? – Perguntou Vinícius a Atílio que vacilou em responder. – Ora, meu amigo, você nem é louco de dar pra trás, né? É importante lembrar que teremos a vida toda para trabalharmos juntos. – Completou. Atílio engoliu seco. – Vamos terminar logo com isso. O povo precisa se acalmar. Vou checar as apostas. Esse cara vai render uma grana!

Vinícius pegou um megafone e ordenou que os policiais segurassem o mendigo. Atílio se preparou para acompanhá-lo até a porta. Do alto da escada da delegacia o coronel bradou:

Por favor, peço a atenção de todos vocês!

Centenas de pessoas ansiavam que o prisioneiro fosse entregue de uma vez por todas. Vinícius prosseguiu:

Vocês pediram e aqui está o homem, o assassino que matou uma garota inocente, trabalhadora, servidora da casa do povo e que teve sua vida ceifada de forma tão brutal. Os tempos são outros, isso sabemos. Chega de demora em julgamentos que mais beneficiam o bandido. E ninguém melhor do que o povo para aplicar a verdadeira lei.

Nem bem terminara a frase o povo foi ao delírio:

Isso mesmo. Nós é que sabemos o que fazer com gente que não presta! – Gritavam a plenos pulmões.

Espero que esta noite, então, possamos deitar as nossas cabeças em macios travesseiros de sonhos; sonhos bons, de paz e de esperança, e que acordemos com a sensação de justiça feita. Pesadelos nunca mais.

Mais uma vez as palavras inflamaram as mentes daquela gente. Atílio, que estava um pouco mais atrás de Vinícius, em aguda crise de consciência, não suportou ver que um homem inocente seria sacrificado em seu lugar. Precipitou-se a arrancar o megafone das mãos de Vinícius que tentou resistir:

O que está fazendo? Está louco?

Os policiais tentaram intervir, mas Atílio antecipou-se chamando a atenção do povo para si:

Por favor, me escutem! O que tenho a dizer é importante. Ouçam e depois julguem. Tenham bom senso para o que vou dizer…

Atílio, cale a boca. – Vociferou Vinícius. Mas Atílio prosseguiu.

Vejam este homem. – E apontou para o mendigo. – Ele não fez absolutamente nada. Foi escolhido para ser lançado à justiça do povo em meu lugar. Um boi de piranha como o meu amigo coronel aqui disse. Eu é que sou o acusado. Confesso e juro que a morte de Gisel foi um acidente. Eu a amava. Não foi um crime passional. Na verdade, ela descobriu que eu me fiz passar por Lúcia, aquela garota da internet.

O povo arfou em uníssono e sonoramente, mas sem acreditar em nenhuma palavra.

Isso mesmo. – Continuou – Sei que é difícil de acreditar, mas vou contar a minha versão da história. Fui casado com uma mulher maravilhosa. Ela foi assassinada. Por vingança, prometi a mim mesmo que daria o troco. Mas tive medo que os criminosos me identificassem e acabei criando um perfil falso na internet. Incentivei as pessoas a assumirem as rédeas de uma justiça falha, que só beneficia os bandidos. Incitei a todos a tomarem uma posição diante da criminalidade, a qual nos fazia prisioneiros em nossas próprias casas. As pessoas aderiram ao movimento, e tornou-se o que é hoje. Por um lado, foi bom, mas por outro, geramos injustiça em nome de uma justiça feita com as próprias mãos. E agora estou aqui, prestes a ser morto por vocês. Sei que enganei, mas não podia suportar a ideia de não acordar mais ao lado do meu amor. Depois de tudo o que aconteceu, depois da resposta dada ao mundo do crime, conheci uma pessoa que me devolveu a vida. Graças a ela, saí da tristeza na qual dia após dia vivia imerso. Mas cometi um erro: Achei que ela me amaria mais, se eu revelasse que fui a pessoa que teve a iniciativa de mudar o mundo. Um dia, ao chegar ao seu apartamento, ela estava prestes a se matar. Tentei levá-la para a sala e por um acidente, ela escapou dos meus braços, caiu sobre uma mesa de vidro e cortou o pescoço. O porteiro do prédio ao ver a cena não poderia pensar outra coisa. E foi assim que fui preso. Acreditem se quiserem, mas este homem aqui ao meu lado, este que representa a lei, propôs que este mendigo, este coitado aqui, morresse em meu lugar. Sabem para quê? Ele quer que eu trabalhe para o seu bando no intuito de alimentar um sistema que vive de nossas carências, principalmente a carência de sermos felizes. Ele, pessoal, confessou que o crime mudou de lado e que nós desejamos a morte, pois, faz parte de nossa natureza. Cada um que está prestes a ser executado, gera milhões em apostas. Enquanto vocês pensam que fazem justiça, eles faturam milhões. A princípio, não acreditei que o ser humano poderia ser tão podre assim. Mas é verdade. Aqui está a prova. Não conseguiria viver neste mundo sabendo que existe uma trama tão diabólica. E foi por isso que decidi me entregar a vocês. Se isso for verdade, se o mundo é tão dissimulado assim, eu me entrego à morte. Façam de mim o que quiserem.

Os manifestantes murmuravam algo incompreensível e, logo, o murmúrio se converteu em brados:

Libertem o mendigo e ele, e acabem com o sistema corrupto!

O povo invadiu as escadarias. Agarraram o coronel que foi sendo dragado por aquela massa de gente, como se mergulhasse em areia movediça. Desapareceu por completo. Os demais policiais foram poupados e o mendigo se juntou à multidão para festejar.

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