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Uma semana se passou. E com o passar do tempo, Atílio ficava cada vez mais fechado, pensativo, até receber uma ligação, aquela que tanto aguardava:

– Atílio, é Vinícius. Já conversei lá e o encontro ficou marcado pra amanhã de manhã, às nove. Tudo bem? Posso confirmar?

– Ótimo, pode sim. Nem sei como te…

– Relaxa. Procure-me amanhã, mas não como Vinícius. Lá eu sou o Coronel Alencar, tudo bem?

– Claro. Coronel Alencar. Nos vemos amanhã.

Era final de tarde e aquela noite foi povoada por dúvidas, angústia, pensamentos paranoicos e ódio, muito ódio. Temia pelo que sentiria na hora de encarar o criminoso: “Quem sabe eu perca o controle e pule no pescoço do canalha.”

O dia amanheceu vermelho. Diante da janela Atílio observa o fluxo anestesiado da cidade. Olha para o relógio: Sete e trinta. Vai ao banheiro, lava o rosto, não dá importância à barba malfeita. Sente-se travado pela terrível ansiedade de se deparar com o assassino.

Enquanto se vestia, pensava sobre o quão diferente a vida teria sido se sua esposa estivesse viva. Como pode o destino de uma vida ficar na mão de um assassino? Quem lhe concede esse poder? Antes de sair, ligou o computador e acessou seu perfil na rede social. Postou o seguinte comentário:

Hoje enfrentarei o predador de frente. Preciso fazer isso. Aquele assassino terá que me encarar.”

Depois de digitar, foi até a cozinha tomar um gole de café. Ao voltar, ficou surpreso ao ver que, em menos de quinze minutos, cerca de trezentas pessoas já tinham lido a mensagem e postado comentários. Alguns diziam:

É isso mesmo, Atílio! Depois conte o que rolou…”

Outros ainda:

Leve uma arma e fuzile aquele vagabundo.”

Tinha que matar todos eles.”

Atílio ficou surpreso. Uma espécie de desabafo misturado a revolta. Enfim, partiu para o “cara a cara”. A sensação era de que entraria no inferno. E foi exatamente isso que encontrou ao chegar. Logo na portaria, pediu para falar com o Coronel Alencar. O guarda, sem razão na vida para demonstrar qualquer traço de hospitalidade, interfonou para obter a autorização de entrada.

O clima era denso, quase impossível se locomover sem sentir na pele o ar pegajoso. Na administração, outro guarda escoltou Atílio até uma sala onde o coronel se encontrava. Assim que o viu, o cumprimentou friamente e em tom bastante militar:

– Como vai? Está pronto?
– Creio que sim.
– Aqui não pode haver dúvidas. Está ou não?
– Estou.
– Bem, soldado, prossiga. E você, Atílio, tenha cuidado. Caso precise de ajuda é só gritar.

Atílio foi levado até a sala onde conversaria com o assassino. Sentia algo ruim invadi-lo, um misto de medo, ódio e nojo. O tremor interno indicava que estava no limite do seu controle. Assim que a porta foi aberta, lá estava o sujeito, sentado, algemado e cabisbaixo. Atílio puxou a cadeira e sentou-se diante dele. O assassino permaneceu de cabeça baixa e quieto:

– Você não me conhece. Eu sou o marido da mulher que você assassinou.

O bandido ergueu os olhos bem lentamente, fixou o olhar por um breve momento e baixou-o sem dizer absolutamente nada. Atílio insistiu:

– Quero fazer uma única pergunta.

O assassino balançou a cabeça de um lado para o outro, como se dizendo: Que saco! Fala logo.


– Por quê?

– Por que o quê?

– Por que você a matou?
– Por que eu a matei? – Soltou uma gargalhada e respondeu – Por que foi vacilona.
– Vacilona?
– Vacilona sim.
– Você entrou… entrou não, invadiu a loja dela e sem mais nem menos a matou. Onde foi que ela vacilou, seu retardado?

– Ó o respeito. Aí já tá pegando… Ela tentou correr. Eu pensei que ela ia chamar os polícia.

– Se você tivesse pelo menos dado a chance de ela ir embora…

– Já era, mermão.
– Fácil, não? “Já era, mermão.” Simples assim. Sabe, cansei de tudo isso.

-Ô tiozinho, se liga, rapa fora antes que sobre pa tu.

-Isso é uma ameaça?

-Tô avisano. Se vacilá, tá ligado, tipo, os mano sabe tudinho de tu, até a hora que tu vai ao banheiro. Então, se liga. Cala a boca e passa reto. Me erra que é melhó.

– Por que você acha que eu vim até aqui?
– Sei lá, mano. Problema seu. Só não vem com esse lero de perdão, de me convertê, essas parada aí porque aqui não rola.

– Não. Não vim aqui pra te converter. Eu vim pra ver tua cara. E a coisa vai ficar ruim pra você.

– Então, ô coxinha, se liga: Tu tá me veno aqui com algema, mas tu não fais ideia do que nóis é capaz de fazê. Tamo em todo lugá, tá ligado. Tipo, é só um zap e acabamo com a tua raça; até com o teu amiguinho coronel. Vô saí daqui memo… Agora passa fora antes que eu bole.

Sem mais o que dizer, Atílio levantou da cadeira, caminhou até a porta e ao fazer menção de chamar o guarda, o assassino alertou:

– Se liga aí, tiozinho: não fais merda. Se ficá bonzinho vai durá. Se pisá não vai durá nem um diazinho. Eu nasci pá roubá, matá e destruí. – E caiu na gargalhada.

Atílio deixou a prisão em estado lastimável. Lançou um olhar nas instalações carcerárias e sentiu profunda desesperança. Concluiu que não havia como conter aquela doença. Sem que soubessem, as pessoas, cidadãos de boa índole, foram sequestrados. Questionou para si se aquilo realmente era vida, ou se vivíamos como um bando de presas fáceis, gado, à espera de ser capturado e abatido. A vida humana não valia um centavo sequer. As próprias autoridades tornaram-se reféns daquele tipo de gente. Do jeito que a coisa caminhava, a organização criminosa acabaria por se tornar um partido político.

E Atílio voltou para casa remoendo tudo o que ouvira. Preparou um café, sentou-se diante do computador e redigiu em detalhes o que tinha vivenciado. Em seguida, postou. Surpreendentemente, em menos de uma hora, o texto registrou mais de dois mil comentários:

Atílio, concordo quando diz que só alguns poucos querem mudanças. Realmente precisamos sair dessa postura de reféns.”

Atílio, somos manipulados a acreditar que com a passividade poderemos nos salvar. Já estamos todos condenados…”

Atílio, o único jeito é abrir um buraco e jogar todos eles lá dentro, inclusive os políticos, depois tocar fogo.”

Parabéns pela coragem. Continue tendo força para suportar.”

As palavras mostravam claramente que havia um grito sufocado, e que ninguém tinha coragem de liberá-lo. Mas por quê? Porque tinham medo. “E se todos nós juntos pudéssemos transformar essa situação?” – Pensou – “O que deveria acontecer para motivar realmente as pessoas a se rebelarem contra isso?”

Essas e muitas outras dúvidas ecoavam na mente de Atílio, ainda mais agora que viu a reação que seu texto provocou. Isso fez brotar uma sensação estranha. Historicamente, todos sabem, o quão forte é a palavra, seja escrita ou falada. Manifestações populares já derrubaram ditadores, reafirmaram o poder dos cidadãos, depôs presidentes, reformou constituições de diversos países. E por que ninguém jamais fez qualquer coisa para mudar as condições da segurança no país? Medo. Vivemos na dependência de uma segurança precária. O que haveria por trás de tudo isso? O que seria necessário para superar a falta de ação dos congressistas, tão relutantes em mudar um sistema que deteriora a cada dia?

As dúvidas se tornavam uma espécie de obsessão para Atílio. Dias se passaram, e ele, cada vez mais imerso em planos sobre como despertar a população para uma reviravolta na segurança pública. Mas o que seria preciso fazer? Atílio se fechava em sua mente em busca de uma possível estratégia.

À noite, ao deitar a cabeça no travesseiro e fechar os olhos, os pensamentos pareciam criar vida: Os comentários, a agonia da inércia, políticos corruptos, pessoas assassinadas. Tudo espocava com força. De repente, um comentário da internet brotou-lhe à mente e pareceu fazer sentido: “Abrir um buraco, jogar todos os bandidos lá dentro e tocar fogo.”

Uma metáfora? E por que não um plano de engenharia? Afinal, vivenciara a experiência de ver uma cratera engolir um prédio inteiro. Não seria difícil para um engenheiro cavar um poço bem fundo. Se a vontade de mudar a realidade do país é tão forte assim, por que não pensar em ações radicais?

E a noite arrastou-se repleta de reflexões. Até que, subitamente, Atílio iluminou-se com uma ideia. Algo mexeu tanto com suas crenças que o fez emergir com a energia de alguém decidido. A revolução começou.

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  • Boa Geraldo! A série tá empolgante. Parece que a justiça restaurativa não funcionou nesse caso. Vamo partir pra o estado de natureza aonde já dizia Hobbes “o homem é o lobo do homem”. Justiça com as próprias mãos. Sem Estado e cada um fazendo seu tribunal. A série toca em temas basilares da formação do Estado. Será que teremos um contra peso às atitudes de Atílio? Sucesso!

    • Obrigado, Hugo!!! Realmente o bicho vai pegar. Como seria destituirmos o estado para reverter a situação na qual nos encontramos? Será que dá certo? Vamos ver. Obrigado mais uma vez pela leitura.

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  • Geraldo, é impressionante o realismo de sua escrita! Eu escrevo o fantástico, o irreal, o surreal, o imaginário, mas você dá vida a pessoas que sofrem, caminham e lutam contra as adversidades.

    Meus parabéns, continuarei acompanhando esta série tão bem escrita e imaginada por você!

    • Obrigado, Roberto. Realmente Atílio tem me “atormentado” muito com o seu jeito obsessivo. Veremos o que ele fará. Mas estou ansioso para ler o seu novo lançamento. Já encomendei.

  • Esperando pelo próximo capítulo! Todos nós temos um lado ”Atílio”, e é fácil se identificar com seus ideais, Muito Bom!

    • É bem verdade isso “Todos nós temos um lado Atílio.” Obrigado pelas suas observações.

  • Estar em frente a uma pessoa que lhe causou um dano irreversível é muito complicado. Além da raiva, o sentimento de impotência supera qualquer noção de justiça. Atílio vai radicalizar. Esperando ansiosa o próximo capítulo.

    • Que presença de espírito Atílio precisou ter. Não sei se somos capazes. Como você disse “Atílio vai radicalizar”. Valeu Marry!!!

  • Estar em frente a uma pessoa que lhe causou um dano irreversível é muito complicado. Além da raiva, o sentimento de impotência supera qualquer noção de justiça. Atílio vai radicalizar. Esperando ansiosa o próximo capítulo.

  • Com fica interessante a estória conforme vai se desenrolando…..Onde será que vais dar? Não posso esperar!

  • Geraldo, cada vez mais curiosa com esse Atílio…série realmente interessante que prende a leitura e aguça a curiosidade para próximo capitulo…

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  • Geraldo, é impressionante o realismo de sua escrita! Eu escrevo o fantástico, o irreal, o surreal, o imaginário, mas você dá vida a pessoas que sofrem, caminham e lutam contra as adversidades.

    Meus parabéns, continuarei acompanhando esta série tão bem escrita e imaginada por você!

    • Obrigado, Roberto. Realmente Atílio tem me “atormentado” muito com o seu jeito obsessivo. Veremos o que ele fará. Mas estou ansioso para ler o seu novo lançamento. Já encomendei.

  • Boa Geraldo! A série tá empolgante. Parece que a justiça restaurativa não funcionou nesse caso. Vamo partir pra o estado de natureza aonde já dizia Hobbes “o homem é o lobo do homem”. Justiça com as próprias mãos. Sem Estado e cada um fazendo seu tribunal. A série toca em temas basilares da formação do Estado. Será que teremos um contra peso às atitudes de Atílio? Sucesso!

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  • Geraldo, cada vez mais curiosa com esse Atílio…série realmente interessante que prende a leitura e aguça a curiosidade para próximo capitulo…

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