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O Mundo que habito: Capítulo 1

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“O mundo que conhecemos desconectou no ano de 2.027. Divididos em Feudos, os sobreviventes precisam lutar pela vida, enfrentando seres demoníacos e mutantes comedores de carne humana. Integrante da linhagem dos Caçadores, Maya e seus amigos lutam pela sobrevivência em terras bravias e infestadas de monstros do Imaginário Pop. A série “O mundo que habito” é uma homenagem ao escritor Stephen King. Os monstros mais cultuados do autor se misturam ao cenário sombrio de um planeta em decadência. Maya enfrentará o medo em suas variadas formas de manifestação: seja nas ruinas de um hotel ou numa singela plantação de milho. Nossa caçadora descobrirá através de sua jornada que os monstros não são importantes; que no mundo que habita a sobrevivência vem em primeiro lugar.”

I

Interlúdio

Admirável mundo novo

 

O declínio da humanidade começou no ano de 2.027. Não há registros nos livros ou naquilo que chamávamos de Internet. Os portões do Inferno foram abertos e nações inteiras foram dizimadas. O mundo desconectou e as pessoas enlouqueceram. Voltamos para a idade média, divididos em feudos – os que produzem alimentos e os que buscam por insumos.

Por um tempo enlouqueci também, procurando a morte. Como ela tinha sido incompetente para me levar, me juntei aos que sobraram e me adaptei a esse novo mundo. Agora faço parte da linhagem dos Caçadores.

O mundo que habito levanta cedo. As plantações são regadas com o pouco de água que conseguimos nos poços artesianos. Da colheita apenas frutos secos e moribundos. O solo doente não sustenta as sementes ressecadas pelo tempo. A natureza nos deu as costas. Tornou-se uma adolescente rebelde e primitiva. Às vezes conseguimos alguma coisa da caça (um cachorro selvagem ou um cavalo desgarrado) mas isso é muito raro. Nossa fonte de subsistência vem daquilo que conseguimos trocar nos chamados Feudos de Produção (agricultores desse novo mundo). Esses feudos trabalham no calor do dia, antes do pôr do sol. Durante à noite os VM’s (mutantes de olhos vagos – ninguém sabe o porquê desse nome) deixam suas ocas. Somos presas fáceis para suas hordas sanguinárias.

Meu pai (um professor primário) nos trouxe para a américa no início de tudo. Foi quando perdi minha mãe numa emboscada feita por mutantes desgarrados. Eles atacaram na calada da noite, com seus trajes sujos e armas feitas de pau. Assim que vi a cara deles pela primeira vez vomitei no colo do meu irmão.

-Papai, são eles? – Perguntei vendo-os da janela. – São eles!

Meu grito fora um presságio. Eles arrancaram minha mãe do carro, dilacerando-a na nossa frente. Estavam mortos de fome – a fome dos mutantes nunca é saciada. Meu irmão tentou ajudá-la – a fúria estampada na cara.

-Não pode salvá-la, filho, não pode. – Papai cuspia nervoso as palavras – Não podemos ajudá-la.

Eu me encolhi no banco de trás para não vê-la sendo devorada; para não ouvir seus gritos, seus pedidos de socorro. Paulo avançou do carro acertando-os com seu bastão de baseball dos RED SOX.

-Vamos embora! – Papai tentou agarrá-lo pelos cabelos. – Não podemos ajudá-la.

Eu não sei se repetia aquilo para nós ou para si. Só sei que Paulo continuou arrebentando com seu taco, dilacerando os VM’s, tentando tirá-los de cima dela. Mesmo aos pedaços eles continuavam se movendo, grunhido e avançando sobre o corpo macerado da minha mãe.

-Ficou maluco! – Papai tentava enfiá-lo no carro. – Quando essas criaturas atacam em bando não podemos fazer nada. Você sabe disso. Quando vai aprender? – Ele deu um tapa na cara do seu único filho (não sei se foi por amor ou raiva), mas recuou quando viu sua carranca de ódio.

-Por Deus, pai! O que tem dentro do peito? Ela é sua mulher!

Essa pergunta nunca foi respondida. As amantes do meu pai eram jovens, colegas de profissão. Mamãe escondia a mágoa, vivendo um dia de cada vez (recebendo as migalhas de um amor de via única). Ela fora esquecida por ele no próximo posto de gasolina. Só que eu e Paulo não esquecemos. Saímos cabisbaixos daquele carro, engolindo o choro, enxugando as lágrimas como o dorso das mãos. Lembro de vê-lo limpando seu bastão de baseball. O nome RED SOX o fez sorrir. Ele olhou para mim e disse:

-Foram vários home run, querida, vários (as lágrimas caindo).

Eu assenti com a cabeça – sem saber exatamente o que era um home run. Papai não demorou para nos jogar novamente naquele Citroen maldito. O dia amanhecia, e para ele promessas de coisas boas.

Papai faleceu dois anos após conquistarmos o nosso feudo. Havia muitas histórias sobre sua morte. Eu nunca duvidei de nenhuma delas. O perdão há muito deixou de ser importante. Perdoar não fazia parte do pacote. Creio que morreu pelo que acontecera com mamãe. Paulo nunca o perdoou pela morte dela. Algo poderia ter sido feito se o Professor Bundão do Primário tivesse deixado o banco do motorista e lutado com os VM’s. Essa ideia se alastrou pelas entranhas do meu irmão como um câncer, corroendo sua alma. Quando o vi com aquele velho bastão de baseball não tive dúvidas. Nunca mais voltaria a ver o meu pai. E não o vi. Quando Paulo chegou em casa com a notícia (dizendo que foram atacados por mutantes) a palavra RED SOX estava desfocada no bastão. Mas isso não tinha importância. Ele havia feito justiça (para nós dois).

Não demorou para que Paulo tomasse o lugar de papai na liderança do nosso Feudo. Com ele veio a prosperidade.

-Home run, Maya, home run! – Dizia para mim.

Eu sorria da sua cara de bobo. Ele sempre trazia comida para casa. Mas foi diferente no dia em que saímos para uma caçada em um território maldito.

Fora numa manhã comum, bem antes do anoitecer. Paulo e uma equipe de caçadores (da qual faço parte) seguiam num fusca enferrujado pelas planícies mais afastadas. Uma carretinha antiga foi presa no para-choque traseiro. Estávamos desconfiados dessa promessa de comida fácil. No entanto, só de pensar nela minha boca salivava pela expectativa de comer algo da terra, com gosto de natureza. E não os enlatados vencidos e as pastosas comidas para cachorro.

-Você tem certeza do que viu, Mike? – Perguntou Paulo desacelerando o Fusca.

-Tanta certeza que estou dentro desse carro, não estou?

As caçadas tinham que ser minuciosamente arquitetadas. Não tínhamos gasolina para buscas infrutíferas. Meu irmão sabia disso, por isso pedia aos caçadores que fossem certeiros em suas buscas para que não houvesse desperdício de insumos.

-Eu daria minha vida por um revólver .38.- Disse uma caçadora bem jovem no banco da frente.

-E eu por um sanduíche do McDonald. – Paulo mantinha um certo humor, mas nunca foi de fazer graça.

Durante o dia a vida seguia seu curso. Podíamos nos dar ao luxo de sorrir. Mas quando à noite caía, o mundo sombrio nos abraçava com seus monstros.

Mike não mentiu ao falar do que tinha visto. Havia plantações inteiras de milho e trigo numa gleba bem grande de terra.

-Meu Deus! – O bastão dos RED SOX dançando nas mãos de Paulo. – Estes campos estão intactos.

-Como isso é possível? – Perguntei cética.

-Talvez seja a distância entre os feudos – Paulo coçava o queixo – Não há gasolina para se viajar até tão longe.

Sua certeza não me convencia. Havia algo de estranho naquelas plantações de milho.

-Vamos cuidar do milharal primeiro. É mais fácil de carregar. – Disse Mike.

Ele tinha razão (apesar do meu pé atrás). O trigo teria que esperar.

Começamos o trabalho no final da manhã. As espigas grandes foram colocadas em sacos de estopas, as menores em antigos caixotes de plásticos. A menina do .38 (uma caçadora de quinquilharias) foi a primeira a ver a cidade. Ela assobiou para Paulo.

-Jade encontrou alguma coisa. – Disse para mim.

-Aposto em latas vencidas de tinta.

Só que dessa vez encontrara algo bem grande. Tão grande que me fez escancarar a boca em o maiúsculo.

-É uma cidade fantasma? – Perguntei assim que vi suas janelas intactas e ruas limpas. – Não pode ser.

-Tudo parece tão bem cuidado. – Percebia-se o espanto na cara de Mike.

-Precisamos ter certeza de que não há ninguém morando nessas casas – Paulo manteve o bastão de Baseball em prontidão – Pode ser uma emboscada.

-De quem? Dos Mutantes? – A menina .38 buscou algo nos bolsos da sua calça.

-Não. – Paulo mantinha-se atento ao barulho do vento – Mas algo bem pior.

O pior vinha da humanidade. Gente desgarrada dos feudos, que matavam para roubar, estuprar e crucificar criancinhas.

-Vamos nos dividir. Vá com Mike, Maya. Eu fico com Jade (a menina .38). Nos encontramos no carro daqui dez minutos.

Nós assentimos com a cabeça. Eu não tinha medo de nada. A morte de minha mãe me deixou dura como um martelo.

Entramos numa das casas com janelas de vidro. Havia desenhos de crianças esparramados pelo chão da sala. Não havia nada nos armários da cozinha. Estranhamos o cheiro bom de pinho e lavanda.

-Alguém limpou essa sala. – Disse arregaçando as narinas.

-É o que parece.

Um dos quartos estava trancado. Olhei para Mike com desconfiança.

-Não faça isso. – Cochichou por entre os dentes.

-Pode crer que sim.

Meu chute arrebentou uma porta podre. Meu pé afundou no buraco de meu coice de mula. Olhei entre a fresta. Um cheiro de carniça bafejou na minha cara.

-Meu Deus! Que cheiro é esse? – Mike segurou a ânsia de vômito.

-Sangue – Tampei a boca para não vomitar – Há sangue lá dentro.

Mike enfiou a mão pelo buraco abrindo a porta devagarinho. Tinha sangue coagulado no lençol. A viscosidade se estendia pelo chão até o banheiro. Havia esguichos pelo carpete e salpicados de vermelho nos abajures.

-O que aconteceu aqui?

-Não faço a menor ideia? – Me mantive serena. Vi muitas coisas estranhas nesse novo mundo. Nada dentro daquele banheiro me espantaria (conversa fiada).

Fui até lá com a respiração suspensa. Mike atrás de mim com sua improvisada besta de alumínio. Parecíamos carregar os pecados do mundo nas costas (e não dois adolescentes cheios de hormônios). Eu sentia seu hálito quente no cangote, o cheiro forte do seu suor. Provavelmente percebeu minha excitação também. Só que no mundo que habito não há tempo para isso. Alimentar o corpo era nossa única prioridade.

Tentei ver alguma coisa pela fresta diminuta da porta. Mike me afastou escancarando o banheiro para os meus olhos esbugalhados. Havia dois corpos no chão. A Fedentina que exalava imitava o cheiro do Inferno. Segurei o vômito o máximo que pude. Não foi o suficiente. Desperdicei meu frugal café da manhã no chão limpo da casa.

Corri com Mike para fora. Não foram os Mutantes. Eles comiam as pessoas. O que aconteceu naquele pequeno vilarejo fora algo diferente, feito por um outro tipo de monstro.

-O que vocês viram lá dentro? – Perguntou Paulo – O que viram?

Ele cuspia na nossa cara.

-Gente morta, as cabeças no vaso sanitário. – Mike bafejava como um vulcão.

-Por que estão com medo? – Disse a garota .38 – A morte nos espreita todos os dias. Não é novidade topar com ela de vez em quando.

-Não mesmo, querida … – respondi sem fôlego – … mas sabemos de onde vem essa morte de que fala. Dessa vez não fazemos a menor ideia de onde essa veio.

-O corpo humano é comida, Jade. E aqui ela foi desperdiçada em abundância. – Disse Paulo.

Meu irmão tinha razão. Ele sempre tem a porra da razão. Corpos não são deixados para trás. Não numa época em que o sangue é água, os ossos ferramentas e a carne ensopado.

-Vamos dar o fora daqui. – Disse caminhando para o Fusca.

-Não vou abrir mão de toda essa comida – Paulo ainda segurava seu bastão de baseball.

-Voltamos um outro dia, com mais preparo.

-E se essa coisa nos atacar? – Jade se colocou entre Mike e eu.

-Não sabemos se existe uma coisa.

-Talvez já tenha acabado, não temos certeza. – Mike mantinha a esperança.

-Ainda estão por aqui. – Disse Paulo girando o bastão. – Quem fez isso ainda tá por aqui.

-Como sabe? – Perguntei procurando pistas no milho.

-Escuta.

Uma música suave vinha do milharal. Uma cantiga religiosa?

-Puta que pariu! Que merda é essa? – Mike me puxou para o lado.

Jade mantinha nas mãos uma faca de açougueiro.

-Olha aquilo? – Ela apontou para duas diminutas sombras perto do Fusca.

-São crianças? – Perguntei desconfiada.

Jade correu para salvar a carreta que os dois meninos tentavam arrancar

-Seus desgraçados! – Gritou com a faca nas mãos. – Não toquem no nosso milho.

Eles arrastaram a carreta para dentro da plantação.

-Filhos da Puta!

Jade abriu o caminho dentro do milharal. Paulo tentou alcançá-la. Eu fiquei quieta; calada. A menina .38 sabia se cuidar. Eu acreditava que todos nós sabíamos. Uma verdade que custou a perna do meu irmão. O caminho aberto pela garota contou com a ajuda das botas militares de Mike.

-Isso não tava aqui quando chegamos. – Disse tropeçando um cipó estranho. -Estão ouvindo a música?

A mesma de outrora. Um canto antigo, religioso, não dava para saber. Vinha das entranhas do milho.

-Por que estão cantando isso? – Perguntei prestando atenção mas restes que brilhavam ao sol.

-Gente maluca não se entende – Mike mantinha sua besta presa as mãos – apenas se respeita.

Um arrepio subiu pela minha espinhela quando percebi que os sombrios pés de milho se contorciam ao contrário do vento. O Demônio soprou nos nossos ouvidos e o milharal se transformou num labirinto de folhas cortantes.

-Temos que sair daqui. – Sussurrei para Paulo.

-Como se não bastasse aqueles malditos mutantes, agora temos diabos em plantações de milho. – O senso de humor de Mike era pertinente.

As malditas espigas balançavam como se um furacão passasse por aquele lugar. Apesar da forte ventania, não havia barulho nas folhagens, só a cantiga dos meninos num descampado.

-Olha aquilo? – Fui a primeira a vê-los.

Meu irmão pediu para que ficássemos atrás dele.

-Que vestimenta estranha.

Pareciam saídos de um filme de caça às bruxas.

-A plantação se mexeu? Foi isso que eu vi? O maldito do milharal se mexeu? – Perguntou Mike.

Um farfalhar de folhas chamou a atenção das crianças.

-Cala a boca, cara. – Paulo fez sinal para que mantivesse a calma.

-O que vamos fazer? – Perguntei sentindo os olhares delas sobre mim.

-Cadê a Jade?

-Não estou vendo.

-Que merda! Onde ela se meteu?

As crianças excitavam os pés de milho com seus hinos religiosos. De repente as folhas se fecharam, nos prendendo aos cipós do chão.

-Jesus de misericórdia!

Mike tentou se livrar daquilo que agarrava seus pés. O mesmo aconteceu comigo e Paulo. Fomos arrastados pelos campos com a velocidade de um carro de Fórmula 1. Os pés de milho serpenteavam à medida que nos aproximávamos das crianças. Tive um medo do caralho!

Os pré-adolescentes carregavam foices com suas carrancas sombria. Havia marcas de luta no descampado e pedaços de ossos ao redor de uma imensa cruz de madeira. Aquilo parecia com um matadouro, das épocas em que se comprava carne clandestina nos mercados de rua do México.

-O que eles vão fazer? O que vão fazer? – Mike também estava se borrando de medo.

As crianças começaram a se agrupar. Outras vieram do milharal ensopadas de sangue. Havia um líder? Sim, sim, havia um líder. Mas qual deles? Eram tantos. Um barulho sofrido de motor atropelou meia dúzia delas. Jade pulou do fusca com sua faca de açougueiro (muito apropriado). Ela cortou os cipós afrontando os pré-adolescentes que nos ameaçavam com suas foices (tinham medo da gente e nós deles). Na outra mão trazia uma garrafa de gasolina.

-Onde encontrou isso? – Perguntei com minha curiosidade inútil.

-Dentro de uma das garagens das casas. – Jade mantinha as crianças longe.

-Um desperdício de insumos. – Argumentei.

-Que vão para o inferno os mantimentos, precisamos sair daqui.

Mike tratou de esparramar a gasolina pelo milharal.

-Eu sei. Vou tentar abrir o caminho até o carro. Aguenta firme, Jade! – Ela assentiu com a cabeça

Paulo chegou antes de mim derrubando meia dúzia de meninos e escancarando as portas do Fusca.

A música parou de repente. Ficamos calados, inertes, as crianças também. Flechas feitas de palha vieram de cima; machucando a pele, rasgando nossas roupas.

-Vamos! Vamos! – Paulo gesticulou de forma nervosa – Temos de dar o fora daqui!

Uma dessas flechas atravessou sua panturrilha. O sangue esguichou no milho, alimentando suas folhas. Mike percebeu o perigo e ateou fogo no milharal.

As labaredas tentaram nos segurar, lambendo o capô do Fusca. Ouvíamos gritos vindos do milho. Um urro sobrenatural e assustador. As crianças começaram a pular no nosso carro. Jade enfiou o pé no acelerador.

-Isso não é real. Não é real. – Disse para mim.

-Tão real quanto eu e você.

-Merda! – Paulo engolia a dor.  – Perdi meu bastão de baseball.

-Já era, maninho. Já era.

O Fusca cuspia fumaça pelo carburador. Parecia preso na terra, com dificuldade para acelerar. Paulo sangrava muito. A flecha continuava presa na sua panturrilha.

-Preciso arrancar esse troço.

-Não podemos parar, não podemos parar. – Sussurrava jade.

Consegui ver as crianças correndo para as casas. O fogo se alastrando pelas plantações, as labaredas lambendo o céu como redemoinhos de vento. O mais estranho era que não havia fumaça no fogo. Apenas as chamas chegando ao céu.

-Meu Deus!

As crianças maiores seguiam as ordens de um menino de chapéu estranho que caminhava gesticulando para o nada. Ele apontou para o Fusca. Pedi para que Jade enfiasse o pé.

-Corre, cara! Corre!

Eles vieram atrás de nós. O Fusca vomitou uma fumaça escura pelo motor. Enxergávamos as foices brilhando com os reflexos do sol. Com a distância foram perdendo o foco, sumindo na neblina quente do asfalto. Recuperei o sentido quando vi a perna de Paulo.

-Precisamos cuidar disso. – Ele tinha febre. – Para o carro, Jade.

-O que foi aquilo? – Perguntou desacelerando o Fusca.

-Creio que tivemos um encontro com o Demônio. – Foi a única coisa que veio na minha cabeça.

Colocamos Paulo na sombra do acostamento. Algo comia sua perna. Eram pedaços do milho.

-O que vamos fazer? – Perguntou Mike vendo a situação do amigo.

-Tentar arrancar.

-Ficou maluca! Isso tá no osso.

Paulo me entregou a faca de Jade.

-Arranque o que puder – disse num sussurro – logo vai escurecer.

A garota .38 segurou seus braços, Mike suas pernas. Arranquei o que deu. Coisas ainda ficaram presas no osso.

-Em casa damos um jeito. É o que dá para fazer por enquanto.

Mike o levou para o fusca. Sentei do seu lado sentindo sua quentura nos ombros. Jade pegou o volante, acelerando para chegar ao nosso Feudo antes do anoitecer.

Não demorou para o sol se pôr. Um nevoeiro avançou do mato, cobrindo a estrada, deixando o ambiente mortiço.

-Apague os faróis. – Pediu Mike. – Vamos ter que passar à noite aqui.

-Não façam barulho, evitem movimentos bruscos. – Pediu Paulo num sussurro.

Ficamos quietos, presos ao Fusca. Uma horda de VM’s vieram do mato. Caminhavam com sua lassidão, emitindo sons desconexos, expondo suas bocarras com dentes afiados. Eles esmurravam o capô do carro.  Gesticulei com as mãos para Jade; que olhasse só para mim, que esquecesse os que estavam do lado de fora. Ela assentiu com a cabeça. Seus olhos se fecharam, como os meus. Foi a noite mais longa da minha vida.

O sol lambia minha cara quando senti o bafo de Paulo. Ele tinha febre alta. Cutuquei Jade. Pedi que acelerasse o Fusca novamente. O Câncer do milho avançava numa perna inchada como sapo boi.

Paulo lutou por sua perna. Aguentou as inúmeras infusões, sangrias, extirpação do pus e a fé trambiqueira de um Feudo das montanhas. Mas Deus não deu as caras. Sua perna foi arrancada duas semanas depois do nosso infortúnio no milharal. Havia um médico nos arredores do antigo Colorado. Fomos até lá, pagamos o seu preço e foi feita a mutilação (acima do joelho, no meio da coxa direita). Não sei precisar quanto tempo meu irmão se manteve na angústia de uma depressão. Mas não podemos nos dar ao luxo das psicopatias de fresco – ou elas são de morte; ou é melhor enfiá-las no cu. E assim ressurgiu o Suserano Paulo, amparado por duas improvisadas muletas, se equilibrando entre a insanidade e o mundo real (deveras insano também).

-Tem certeza do que tá fazendo? – Perguntou Mike para seu sisudo amigo.

-Vou acabar com aqueles meninos. O que roubaram de mim quero de volta. – Disse cutucando o cotoco da perna.

Meu irmão não perdoava. Apesar de justo, carregava na alma a brutalidade daquelas terras bravias.

Foi com a ajuda de um Feudo amigo (e a promessa de uma caça) que voltamos ao milharal. Dessa vez montamos um comboio com dez carros, dois caminhões, armas bem estruturadas e nossas armaduras de borracha (usamos quando das caçadas noturnas).

O milharal parecia bem diferente. Não havia milho, trigo ou silos. Tudo destruído pelo fogo. Algumas casas se mantiveram de pé, saqueadas pelas crianças.

-Tem certeza do que estão me contando? – Perguntou um dos motoristas dos caminhões.

-Não sou de conversa mole, amigo. Me conhece muito bem. Havia um milharal aqui. E dos grandes.

-Me parece seco há bastante tempo.

-Aqueles desgraçados fugiram – Paulo pediu para que procurássemos seu bastão do RED SOX – Filhos da puta!

-Eu vi as labaredas sendo sugadas pelo chão, como num redemoinho para o Inferno. Não foi o nosso fogo que fez isso. – Contei para o Caminhoneiro.

-Que Deus nos ajude, moça. São tempos difíceis.

-Não interessa quem fez. Tá feito e pronto.

Mike não remoía problemas. Vivia um dia de cada vez.

-Coloquem fogo no que sobrou. Não quero vestígios desse lugar. – As ordens de Paulo eram severas.

Fizemos o que pediu. Colocamos fogo nas casas e no que sobrara do milho. Dessa vez nenhum demônio subiu com a fumaça. Nenhuma cantiga religiosa fora ouvida por aquelas bandas. Deixamos a plantação no meio da tarde. O humor de Paulo beirava o insuportável. Ele ainda praguejava pela perda de seu bastão de baseball do RED SOX sem sequer se lembrar de sua perna amputada (um mundo estranho, muito estranho).

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