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Os órfãos de Eldarion – Capítulo 4 – A redenção de Will

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Capítulo 4

A redenção de Will

 

_ Você não vai conseguir matá-lo sozinho, Will _ Luke tentava alcançar o amigo que enxugava as lágrimas com o dorso das mãos.

_ Vamos procurar pelos outros vilarejos. Somos apenas crianças! _ Argumentou uma Rayssa temerosa.

_ Estão todos mortos! Ele matou todos na Terra de Mythos – Will procurava por um pedaço de pau na mata.

_ Não temos como saber. Talvez tenham se escondido em algum lugar. Estamos vivos, não estamos?

Will lembrou de Banshee e no seu povo. Dissera para ele que procuravam pelo Dragão. Uma ova que faziam isso. Com certeza os trouxeram para destruir Mythos.

_ Ninguém vai me impedir de matá-lo.

Ele encontrou o  que procurava numa velha aroeira. Com a faca que fora do seu avô começou a esculpir uma lança.

_ Você não está falando sério, está? – Rayssa apontou para o pedaço torto de pau. _ Pretende matar o dragão com isso?

Will deu de ombros para sua pergunta e continuou trabalhando na madeira. Luke se sentou numa pedra, limpando a fuligem das pernas. Sentia-se cansado e sonolento. A menina ficou de pé, olhando para os dois.

_ Tudo bem. Qual é o plano?

Ela também buscou por um pedaço de pau. Uma lua rechonchuda teimava em iluminar o céu através das cinzas. Havia muito o que fazer e pouco tempo para pensar. As pontas precisavam ser finas e o equilíbrio perfeito. Acertar o peito de um Dragão não era serviço para amadores.

***

Os órfãos trabalharam até tarde nas lanças. Não trocaram sequer uma palavra. Às vezes escutavam o bater das asas de Eldarion e sua lufada de fogo. Isso não os assustava mais, se acostumaram com o perigo causado por suas labaredas. Luke colocou a matula de Will pendurada numa árvore, para que servisse de alvo. Passaram o resto da noite treinando o arremesso, sem acertar uma única vez o alvo. O órfão de Lotz deu de ombros para sua má pontaria, simplesmente pegou sua lança e caminhou rumo a quentura das chamas. Sabia onde encontrar o Dragão. Era só seguir o caminho das cinzas.

Subiram de forma acanhada uma das montanhas de Lys. O sol nascia entre as cordilheiras apesar das nuvens de fumaça causada pelo incêndio. Quanto mais alto chegavam, mais fuligens caiam sobre eles. Luke sentia dor nas pernas, mas continuava acompanhando os passos cumpridos do amigo. Rayssa usava sua lança como apoio, parecia pálida e com frio. Quando não mais enxergaram o chão, olharam para o topo da montanha. O Dragão encontrava-se acachapado nas rochas com os olhos fechados e as asas em extensão.

Will pediu para que os amigos fizessem silêncio enquanto caminhavam pela relva. Suas escamas que outrora refletiam as cores, agora pareciam opacas pelo brisa acinzentada que caía sobre elas. O menino de Lotz fez sinal para que Luke o cercasse pelos fundos, e que Rayssa fosse pelo outro lado. Os dois engoliram secos suas salivas, mas fizeram o que ele pedira. O menino de Terra Morta deu a volta por trás, quase tropeçando no imenso rabo que se estendia pela relva. A menina das Terras Alagadas rastejou pela esquerda, olhando-o de lado. O menino de Lotz encarou-o de frente, sentindo a respiração quente que vinha de suas enormes narinas. Banshee contara que Eldarion era apenas uma criança, que não sabia o que estava fazendo. Will tremeu ao pensar em como seria o mundo do dragão. Se Eldarion era apenas uma criança, imagine o tamanho de seus pais.

Will se aproximou devagar, empunhando a lança rumo ao peito da besta. Quando perto de suas narinas, pisou numa das pedras farfalhando um ruído insosso. Eldarion soltou um muxoxo estridente, arregalando os olhos de fogo. Quando viu os órfãos olhando para ele, arrepiou suas escamas.

O órfão de Lotz correu para o mato, deixando que as chamas passassem ao lado do seu corpo. O dragão voou sobre ele, procurando-o entre os tufos do mato. Luke arremessou sua lança, passando longe do corpo de Eldarion. Ele nem se atentou para a presença do garotinho recém-saído das fraldas. Rayssa veio por trás, pulando na frente de Will. Ela balançou os braços para o dragão, desviando sua atenção. As chamas quase a atingiram no peito se não fosse pelo empurrão que levara de Luke.  O três saíram correndo pelo mato, procurando por uma rocha que lhes servisse de abrigo. Eldarion continuou procurando-os na relva, esparramando suas chamas pelo mato seco. Um estrondo fez com que o chão da montanha tremesse como que pela erupção de um vulcão. Luke olhou para o céu, procurando pela origem do barulho.

_ Olha, Will! O que é aquilo?

Enormes embarcações avançavam do sol cobrindo Lys com suas sombras. Will olhou para o que acreditava ser enormes navios de guerra.

_ Não tenho certeza, mas estão flutuando através das nuvens?

Rayssa colocou as mãos sobre os olhos para enxergar melhor o horizonte.

_ São barcos? – Perguntou franzindo a testa.

Os órfãos de Eldarion se agruparam nas pedras de uma ribanceira. Suas pernas pareciam varas de pescar ao vento. O suor escorria aos borbotões de suas têmporas, misturando sujeira com fuligem. O dragão ecoou seu urro de chamas rumo às nuvens quando viu os barcos. Não demorou para que avançasse sobre aquela que planava acima de sua cabeça.

***

As imensas barcaças cortavam as nuvens de fumaça. Seus remos dividiam o vento avançando para as Montanhas de Lys. Cada navio era içado por um balão de lona com desenhos de dragões em sua estrutura. Seres alados voavam ao lado deles, vestidos em armaduras brancas. Não demorou para Will reconhecer a semelhança dos alados com Banshee. Todos eram brancos com cabelos de espiga de milho. No convés dos navios havia um povo de cor escura que comandava as investidas das embarcações. Eles estendiam suas velas buscando por mais velocidade. De repente, um enxame de anões se esparramou pelos conveses, lançando cordas para fora dos barcos. Eldarion voou rumo ao balão maior, escancarado sua bocarra de fogo. Os órfãos esbugalharam seus olhos ao perceberem que o navio conseguia se desviar das chamas com facilidade.

_ Olhem! _ Luke apontou para um ser peculiar que destoava dos outros.

Suas asas eram avermelhadas, assim como o dorso de seus cabelos. Ele planava sobre o dragão tentando envolvê-lo com cordas de cobre. Will viu Banshee ao seu lado, que montado nas costas do dragão, tentava imobilizá-lo.

_ Aquilo é uma criança? – Perguntou Rayssa.

_ Ele se chama Banshee – disse o órfão de Lotz num muxoxo.

A menina não se atentou para o sussurro de Will. Continuou olhando para o céu, hipnotizada pelos seres alados. Banshee segurava no dorso de Eldarion, para que o ser peculiar pudesse envolvê-lo com o cobre. O dragão emitia sons desconexos, renegando os comandos daqueles que tentavam aprisioná-lo. Com movimentos primitivos, seus rasantes ficaram cada vez mais cadenciados, jogando Banshee entre as pedras das montanhas. Esse conseguia se aprumar quando lançado longe, para depois retornar para as costas da besta.

_ Estão tentando prendê-lo _ Luke ficou de pé para conseguir ver melhor.

_ Uma ova que vou deixar!

Will avançou das pedras. Ele subiu ao topo da montanha para encarar os olhos vermelhos do dragão. Com um solavanco de rabo, Eldarion se livrou de Banshee. A besta e o órfão trocaram olhares acusatórios. Will jogou sua lança rumo ao peito do dragão. Eldarion desviou-a com as asas para planar acima dele. Will chamou-o para uma briga, abrindo os braços e esperando pelo fogo que levaria sua vida. 

_ Me mate seu desgraçado! Eu estou aqui! Me mate e vá embora. Deixe meu povo em paz!

Os olhos vagos da criatura se estreitaram numa linha fina, aprumando a mira e se desfazendo em ódio. O menino franzino que um dia jurou matar o dragão ouviu seu urro descomunal e sua lufada de fogo. Will sentiu que duas mãos poderosas o puxavam do chão, deixando que as chamas passassem por baixo de seus pés. O empuxo que sofrera no pescoço fez com que desmaiasse. Ele não teve tempo de perceber que um fio de cobre envolvia o pescoço de Eldarion.

***

Will acordou sobre uma cama em suspensão. Sentia os pés rígidos, a boca seca. Quis um copo de água, mas ficou com medo de se estatelar no chão. Continuou deitado por algum tempo, esperando que alguém entrasse no quarto. Uma bruma leve penetrava sorrateira pelas frestas das janelas umedecendo o ar. Quando finalmente decidiu se sentar, a cama desceu até o solo, assustando-o. Ele colocou os pés para fora dela, sentindo a textura do assoalho. Uma quentura banda subiu por suas pernas aquecendo seus músculos doloridos.

O órfão de Lotz caminhou cambaleante para a porta, abrindo-a com um discreto empuxo. Havia um corredor imerso em nuvens a sua frente, como se o céu o tivesse engolido. O menino avançou sobre ele, deparando-se com  o imenso convés de um navio. Pequenas criaturas (que acreditava ser anões) corriam de um lado para o outro como formiguinhas aladas. Eles possuíam asas diminutas, um nariz adunco e bochechas rosadas. Seres de pele escura, e de tamanho desproporcional, guiavam os navios. As criaturas olharam para ele sem estranhamento, como que o convidando a prosseguir. Will então avançou, atendo ao movimento das embarcações que planavam ao lado. Eram muitas. Todas suspensas por incríveis balões coloridos. Will nunca vira nada tão extraordinário em toda sua vida.

_ És um menino corajoso, Will _ disse uma criatura alada perto da porta.

O menino virou para encará-la (o peito arfando e o suor escorrendo da testa). Era o ser que outrora tentava aprisionar Eldarion com uma corda de cobre. Suas asas eram bem maiores quando vistas de perto. E o seu cabelo tão loiro quanto os de Banshee.

_ Onde estão os meus amigos? _ Perguntou aprumando o corpo.

_ Não precisa ter medo, órfão de Lotz. Somos sua família agora.

Com um único farfalhar de suas asas, afastou as nuvens deixando que visse seus amigos a estibordo. Luke brincava com Banshee, enquanto Rayssa olhava para o menino aldado de forma apaixonada. Will se aproximou, sentindo que seu maxilar perdia a rigidez quando perto dos outros órfãos.

_ Que bom que acordou _ Banshee voou até ele para entregar sua matula. _ Fiz questão de guardá-la para você.

_ Obrigado _ disse num sussurro.

Luke correu para abraçá-lo. Rayssa continuou acabrunhada no canto, com o sorriso irônico de sempre. Depois que se olharam por alguns segundos, ela mostrou a língua para ele. Will gargalhou gostoso, retribuindo o seu gracejo.

O menino de Lotz colocou-se a estibordo. O que viu deixou-o de queixo caído. Eldarion encontrava-se amarrado por cordas de cobre e suspenso pelos navios. Parecia roncar junto com as lufadas dos balões. Will olhou para ele, que visto de cima, não parecia tão assustador assim. Talvez fosse mesmo uma criança, como Banshee dissera.

O órfão que um dia jurou matar aquele dragão, deixou que as nuvens passassem entre seus dedos para só depois apreciar o azul do mar abaixo dos seus pés. Um sorriso de orelha a orelha iluminou seu rosto, deixando que seus olhos brilhassem novamente.

Correndo entre as diminutas criaturas, subiu ao mais alto mastro do convés. O sol rechonchudo do seu mundo se punha num horizonte de extrema beleza e encanto. Livre do ódio que sentia por Eldarion abriu seus braços a favor do vento.

_ Eu estou voando! _  Gritou para seus amigos.

As gargalhadas que subiram dos navios o fizerem enrubescer. O muxoxo da criatura alada quase o derrubou do mastro, assustado seus amigos lá embaixo. Com a testa franzida, Will olhou torto para o dragão. Não havia mais dúvidas: Eldarion roncava sobre o céu de Mythos.

Goiânia, 28 de março de 2018.

Sylvana Camello

AURORA – Through The Eyes Of A Child (Audio)

 

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    • Claro que não, Christian!!! Só que vai demorar um pouquinho. Para março do ano que vem … vamos conhecer o mundo Banshee e seus dragões… obrigado pela leitura. Bjos!!!

    • Claro que não, Christian!!! Só que vai demorar um pouquinho. Para março do ano que vem … vamos conhecer o mundo Banshee e seus dragões… obrigado pela leitura. Bjos!!!

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