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PESADELO – O Portal dos Sonhos 4 O Chamado da Imperatriz

— Jonas… eu preciso da sua ajuda.

Novamente ouço um pedido de ajuda, mas desta vez ela vem de dentro do meu armário. A mesma voz do meu sonho.

— Quem está aí? — Pergunto olhando em volta.

Nada parece diferente de antes. Nada fora do lugar, apenas a sensação de que eu não estou sozinho no quarto. A coragem para prosseguir e abrir o armário é maior que o medo que me prende a cama.

Levanto, acendo a luz do abajur e caminho receoso, até o armário a poucos centímetros de minha cama, num ins­tante escancaro as portas e revelo seu conteúdo: roupas, sapatos, meus materiais escolares e alguns brinquedos.

Nada tão fantástico quanto eu esperava.

Mas algo diferente ali chamou minha atenção, um bri­lho escarlate vindo de uma pequena caixa de madeira com algumas inscrições que eu não entendia.

— Afaste-se desta caixa! — Ordenou-me uma voz gutu­ral vinda detrás de mim.

No instante que me viro tomado pelo medo vejo um par de olhos amarelos me encarando debaixo da cama. No ins­tante seguinte a aura negra toma forma diante de mim e um monstro se materializa na minha frente.

— E só um sonho… só um sonho… — Digo repetida­mente para mim mesmo.

Antes que eu pudesse me certificar que era tudo um so­nho a mão da criatura se esticou e apertou meu pescoço junto ao guarda roupa me deixando sem folego.

— Quem e você? — Perguntei quase sem força

— A caixa! — Ele ordenou estendendo a mão para pe­gar a caixa.

— Não deixe que ele a pegue! — A voz dela invadiu minha mente.

— NÃO! — Gritei instintivamente

Um vento frio invadiu meu quarto no instante em que o monstro abriu a caixa e revelou seu conteúdo. Nela uma chave solitária brilhava envolta em um acolchoado de ve­ludo vermelho.

Ele me jogou junto a cama antes de parar e apreciar a chave por um tempo. Num canto do quarto eu tentava me levantar quase sem forças.

A fera simplesmente se virou e caminhou até meu ar­mário fechou novamente a porta e colocou a chave na maça­neta que coube inexplicavelmente nela.

Ele girou a chave fechado a porta e repetindo o movi­mento tornou a abri-la, no momento seguinte todas as coisas que estavam lá dentro haviam desaparecido dando lugar a um vórtice em espiral.

— Finalmente livre — Ele disse antes de entrar no bu­raco e desaparecer.

— Jonas seja meu campeão. — A voz dela me pediu mais uma vez. – Defenda o meu reino.

Tirando forças de onde eu não sabia que tinha eu me le­vantei e sem pensar duas vezes pulei no vórtice no qual o monstro acabara de desaparecer ignorando todo o medo do desconhecido e todos os fatos que acabaram de acontecer.

Como o monstro eu também desapareci.

 

 

 

Então eu fiz a coisa mais idiota em minha vida.

Eu sei…

Quem em sã consciência pularia em um vórtice criado por um monstro debaixo da cama? Ninguém não é.

A coisa mais plausível a ser feita era correr, se esconder ou gritar por ajuda. Mas ao contrário do que se espera eu pulei junto com a criatura rumo ao desconhecido.

Pois bem, eu fiz e não me arrependo. Eu tive medo, não nego, porem apesar do medo eu pulei.

Alguns chamariam de idiotice. Eu chamo de coragem. Não sei como, nem de onde ela veio…

Ela simplesmente veio. – é so o que eu sei.

Eu sou sugado pelo vórtice, sinto meu corpo se contor­cer nas hélices de um ventilador em velocidade máxima, um embrulho repentino no estomago me faz querer vomitar.

De joelhos com as mãos na barriga eu simplesmente coloco tudo para fora, o ácido vindo de meu estomago me corrói a garganta.

Limpo a boca com as costas das mãos. E só então me dou conta de que não estou mais em meu quarto.

Esse salto fora da realidade me levou para um lugar um pouco diferente do que a maioria de nós está acostumado a ver.

O cheiro da morte pairava no ar, onde deveriam ter ar­vores lindas e frondosas não existia vida, o ar seco e quente invadia minhas narinas, e o veneno me queimava a pele. Ela era rodeada por arvores cheias de folhas verdes e frutos dos mais diversos tipos formas e tamanhos. Porem aquele pe­queno pedaço de mundo era diferente.

Como aquilo era possível eu não poderia dizer. Se eu não visse com os meus próprios olhos, não diria que aquilo era real. Mas sim ele estava ali, vida e morte juntos num mesmo ambiente convivendo de forma pacífica, yin e yang em perfeita harmonia.

Diante de mim o monstro que me trouxe aqui esperava minha recuperação, a criatura tinha cerca de meio metro de altura, ele me encarava com os olhos em brasa.

Ele me estudava com cautela

— Você foi corajoso o bastante para vir atrás de mim. — Ele disse por fim numa vozinha fina e irritante. — Ou talvez seja burro o suficiente para me enfrentar.

Em uma das mãos estava a chave.

A minha chave!

A última lembrança de meu pai.

— QUERO MINHA CHAVE DE VOLTA! — Retruquei impaciente.

Não sei como explicar o que aconteceu, ou o que deu na minha cabeça pata eu dizer aquilo, mas eu fiz.

Fui tomado por uma inexplicável vontade de lutar, re­cuperar o que é meu de direito. Assim avancei contra a cri­atura tendo como certo que seria fácil vencê-lo.

Esse foi o meu erro.

Sem pensar duas vezes eu corri em direção a criatura que gargalhava freneticamente a minha espera. Como em meu quarto, a criatura abriu um vórtice e esticou seu braço para dentro do buraco.

No segundo seguinte eu senti o peso da minha irres­ponsabilidade vindo como uma onda negra de ódio. Na minha frente um segundo vórtice trouxe as garras da cria­tura prontas para perfurar minha carne.

Eu tive uma fração de segundo para me desviar, meu corpo apenas se movia como se soubesse exatamente o que fazer e como agir em uma situação como aquela.

Dei um salto para traz no exato momento em que ele rasgara minha roupa. O sangue escorria em meu peito man­chando minha camisa de sangue.

Ele sorria.

— Devo admitir que você tem bons reflexos!

Instintivamente levei a mão ao corte passando meus dedos pelo ferimento constatei a seriedade da batalha. Um segundo ataque fora arquitetado contra mim, acertando em cheio meu braço direito.

Eu tentei revidar, me mexer, mas meu corpo não se mo­via. Eu vi as garras da criatura sendo cravadas em meu peito.

A morte me chamava para junto dela.

— Esse não é o momento Delfian. — A voz dela surgiu como um encanto protetor. Um escudo de energia se materi­alizou diante de mim deixando aquelas enormes garras ne­gras presas. Por um instante meus olhos se mantiveram fi­xos no que acabara de acontecer.

— O guardião da luz precisa de ajuda. — A criatura disse sorrindo.

— Eu já estava a sua espera Delfian. — Ela disse saindo de detrás de uma arvore próxima.

— Pan, eu não esperava vê-la aqui. — Questionou Delfian.

— Esta e a minha prisão e a liberdade do meu povo, você como todos os outros já deveriam saber disso. Ele é meu campeão. E deve ser protegido, até que esteja pronto.

— Sua fé na luz é impressionante. – Ele zombou.

— Luz e sombras devem viver juntos. O torneio da glo­ria eterna foi criado para nos lembrar disso.

A criatura começou a emanar uma espécie de energia escura, que foi intensificada pela área onde estávamos, um segundo depois eu senti a dor do ácido lacerando minha pele. A mão pesada da criatura segurou minha perna com tanta força que eu senti os ossos quebrando todos de uma vez.

— Ele parece ser forte. Se ele sobreviver a isso, eu o re­conhecerei como um campeão da luz. Até lá sua chave do desejo ficará comigo.

— De acordo. — Eu a ouvi dizer antes de finalmente desmaiar.

 

 

 

Ao abrir meus olhos tenho diante de mim a visão de um anjo. O rosto delicado, parecia ter sido esculpido em argila, por um daqueles grandes escultores renascentistas, os lábios finos coloridos por um tom de rosa bem claro apenas para ressaltar o formato da boca pequena e olhos azuis, um lago de intensa calmaria.

Definitivamente uma boneca de porcelana feita sob en­comenda. Perfeita.

Ela sorriu de forma graciosa ao me ver despertar.

— Que bom que acordou! — Disse ela pondo um prepa­rado de folhas em meu peito.

— Aí… aí… — O preparado fluiu sobre meus ferimentos causando-me um ardor incomodo, mas, suportável.

— Desculpe, — Ela se apressa em dizer. — Mas vai aju­dar na cicatrização.

— Sem problema, — respondi tentando sorrir — Mas, quem é você?

— Você Pode me chamar de Pan, eu sou a Imperatriz deste reino.

— Que lugar é este? — Pergunto ainda mais confuso do que antes?

— Uma caverna… — Ela disse como se aquilo fosse a coisa mais óbvia do mundo, esboçando um sorriso.

A fogueira acesa sem dúvida deixara o lugar mais acon­chegante, além de permitir que eu visualizasse melhor o local, em um canto uma pilha de lenha repousava junto com algumas frutas e ervas frescas usadas em meu preparado.

Que reino é este? – Insisti.

— Você está em Pandora, mais precisamente no reino da Luz, meu reino.

— Como eu vim parar aqui?

— Você foi convocado por mim para lutar em meu nome, mas na verdade eu esperava por outra pessoa… — Ela respondeu enquanto me estudava.

— Me desculpe a indelicadeza, mas quem você espe­rava que aparecesse? – Pergunto com a cara emburrada.

— O dono da chave que você perdeu… Érico Martins

— É o meu pai, ele me deu a chave antes de… — A lem­brança dele ainda me causa dor. — …Morrer.

Os olhos dela se enchem de lagrima ao receber a notícia, meu pai foi um homem honrado, sempre fez o que era certo mesmo quando as coisas eram difíceis, morreu aos 54 anos vítima da violência. Pan fitou a fogueira por alguns instan­tes, ela parecia estar perdida em memorias de um passado há muito esquecido.

— Ele foi um grande homem. — Disse por fim. — Agora esse é o seu legado Jonas, ser um dos meus campeões e lutar em meu nome pela posse do reino.

— Meu legado? — Era muita informação jogada de uma vez só. Eu sou apenas um garoto de 10 anos com uma mente fértil demais para ser qualquer coisa. Eu não posso ser cam­peão de nada, não sou bom com esportes, nem jogos, nem nada do tipo. Não posso ser quem você procura!

— Realmente… — Ela fez uma pausa longa demais para o meu gosto. — Você não é quem eu procurava, mas é o possuidor da chave, e isso o torna meu campeão. E devido as circunstancias a única ajuda que virá.

— Como eu vou poder ajudar?  Não fui capaz de lutar com aquela coisa, olha o estado em que ele me deixou?

— Só quem possui a chave do desejo pode atravessar a porta e se tornar um campeão e infelizmente essa pessoa é você. Aceite isso! Vocês são a nossa última esperança – Pan­dora encostou-se junto a parede da caverna abraçando as pernas.

— Esperança de que?

— Delfian descobriu o paradeiro de uma das chaves do desejo e invadiu o mundo dos homens para encontrá-la. E você, o guardião responsável por protege-la a entregou de bandeja. Nos não temos muito mais tempo. Amanhã nos vamos até o castelo da luz, lá vamos encontrar os outros e partir para Hipnus antes do grande eclipse para lutar contra os campeões de Dharkus pelo domínio dos reinos de Pandora.

— PARA! – Gritei. – Pan, eu não pedi por isso. Então eu não posso ser responsabilizado por nada.

— Nenhum de nós pediu, — Ela revidou com os olhos cheios de lagrimas. – Mas não dá para voltar atrás. Só nos resta seguir viagem. É melhor dormirmos pois teremos uma longa viagem pela manhã.

Assim ela me deu as costas, chorou por um bom tempo antes de finalmente adormecer.

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