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Como tudo começou

Vivia enfurnado no quinto andar de um prédio que mais parecia uma pocilga. Foi o que consegui com o acerto de contas da minha demissão. Voltar a morar com meus pais… huh… Não suportava a pressão de faziam sobre mim quanto a ser um homem de sucesso. Tinha o meu próprio sonho: ter uma vida tranquila, do meu jeito, sem ter que provar nada a ninguém. No entanto, estava bem distante da vida pacífica que almejava. Depois do que vivi, daquela experiência, nunca mais fui o mesmo.

Lembro-me de cada detalhe daquela noite. Estava em profundo desespero. Chovia muito. Diante da janela, apontava uma pistola para a minha têmpora. Precisava esvaziar a mente das terríveis imagens que se sucediam continuamente, sem trégua alguma. Tensionei o dedo no gatilho. Hesitei. Desistir várias vezes, até que, com a mão já encharcada de suor, decidi. Dei uma última olhada pela janela e vi uma cena que contrastava daquele meu inferno pessoal. Uma família do prédio vizinho: Um homem, mulher e duas crianças. Conversavam e riam alheios à minha agonia. Incrível como a vida é; alguns se matam, uns são mortos e outros riem. E é incrível também como a desesperança pode ser mais forte do que a autopreservação. Rotina: pseudo sensação de segurança. Para a maioria, fundamental. Quebrá-la pode ser desastroso, exatamente como foi para mim.

Breve suspiro de desalento, uma contração muscular e acabei acionando o gatilho. Não sei como, mas a mente acelerou. O tempo pareceu congelar. Vi o projétil ejetando do cano ao mesmo tempo em que ouvi alguém subindo as escadas, o que julguei ser mais terrível do que o próprio tiro em si. Receava que aquilo pudesse acontecer novamente. Desejei que a bala me atingisse o mais rápido possível. “Por que eu, inferno? Tinha somente vinte e sete anos. Pra que passar por aquela experiência? Por que estavam atrás de mim?”

Enleado pelo estranho lapso de tempo, percebi a bala cada vez mais perto de mim. Foi quando ouvi alguém bater à porta. Jamais responderia. Faltava pouco pra tudo acabar. Que loucura era aquela? “Vá embora, vá embora.” Pensei. Ouvi um estrondo acompanhado de uma perturbadora gritaria. Enfim, perdi a consciência.

Pensei estar morto. Lembro-me de recobrar a consciência. Dois vultos assomavam-se em meio à sala doentiamente iluminada. Observavam-me de maneira ansiosa. Ouvi um deles dizer:

– Parece bem. Graças a Deus!

Pouco a pouco comecei a me mexer. Esfreguei os olhos na tentativa de melhorar o foco quando, para minha surpresa, identifiquei Frederico e Marcos, meus grandes amigos:

– Vamos tirá-lo daqui. – Disse Frederico. – Podemos levá-lo para minha casa.
– Não seria melhor ao hospital? – Sugeriu Marcos.
– Ele está bem. Só desmaiou.
– Tentou se matar. Um tiro foi deflagrado. Veja a arma. – Observou Marcos e completou: – Ainda bem que ele errou o alvo.
– Acredito que a arma tenha escapado da mão e ao bater no chão, acionou. Veja a direção da bala. Totalmente oposta. Sim, foi isso. Vamos levá-lo para casa.

Enquanto eu ainda tentava arranjar forças para falar, Marcos curvou-se sobre mim e disse:

– Fernando, por pouco. Seu sortudo!

Mal sabia ele que a boca da arma estava colada à minha cabeça, e que eu acionei sim o gatilho. Porém, como poderia a bala ter atingido o lado oposto? Acompanhei sua trajetória. Delírio? Quem sabe. Meus dois amigos me ergueram e me conduziram ao carro. Fui colocado na cama e adormeci.

Apesar da suave claridade da manhã, a modorra da tensão extrema da noite anterior ainda pesava-me sobre a cabeça e ombros.

– Aceita um café, Fernando? – Perguntou Joana, noiva de Frederico. Fiz que sim e permaneci quieto, absorto.
– Marquei um médico pra você – disse Frederico. – Um psiquiatra, conhecido nosso. A consulta será amanhã. – Continuei cabisbaixo a tomar meu café, sem forças para contra-argumentar. Um médico, àquela altura dos acontecimentos? Existiria uma pílula que pudesse resolver o que me assombrava?

Frederico sentou-se ao meu lado, olhou-me nos olhos e indagou:

– Fernando, somos amigos e por isso espero que confie em mim. O que está acontecendo? Quem sabe juntos possamos resolver o problema.

Alcei um olhar que traduzia, por si só, o pensamento de incapacidade de resolução daquela situação na qual me encontrava. Em total mutismo, dei outro gole de café. Porém, Frederico interpelou-me:
– Não consigo entender. Uma pessoa como você, com tudo nas mãos, noivo, graduado numa das melhores faculdades, excelente emprego… Desabar desta forma! Você está se drogando? Sim, pois, se este é o caso… – A colocação de Frederico, produziu em mim um poderoso fluxo de pensamentos a respeito de tudo que vivenciara antes de tentar dar cabo da minha vida. Não sabia ao certo se deveria confiar nele ou em qualquer pessoa. Sentia algo em minha cabeça, uma estranha sensação. Será que acreditaria em mim? Achei prudente permanecer calado. No entanto, a memória viva e impiedosa arremessou-me ao primeiro dia em que tudo começou.
Aquele foi um grande dia para mim: Uma inesquecível festa de formatura. Ao final, levei minha noiva Sara para casa. Felizes e às gargalhadas, fazíamos planos em todos os âmbitos de nossas vidas. Deixei-a em casa. Sob promessas de amor eterno e com um caloroso beijo nos despedimos. No trajeto de casa, decidi parar numa loja de conveniências para comprar um refrigerante. Depois de encontrar o que queria, retornei ao estacionamento quando fui paralisado por uma forte luz, tão intensa que sequer pude levar as mãos aos olhos para protegê-los. O ambiente mergulhou em profundo silêncio enquanto a luz branca aumentava de intensidade. Aquilo causou um efeito anestésico que enfraqueceu minhas pernas e fez-me cair de joelhos. Ofuscado, perdi os sentidos recuperando-os mais tarde no hospital local. O médico já havia me examinado e não foi capaz de estabelecer um diagnóstico preciso. Recebi alta em seguida.

Intrigado, retornei ao local onde o evento luminoso ocorreu. Conversei com um funcionário da loja de conveniências e indaguei-lhe sobre o ocorrido. Indiferente, deu as costas e continuou seus afazeres. Deve ter me achado maluco. Contudo, coisas estranhas começaram a acontecer. Imagens confusas, distorcidas, como pesadelos, emergiam com certa frequência. Tais imagens enleavam-se com o rosto de alguém não muito definido…

– Fernando, Fernando, você me ouve? – Interrompeu Frederico. – Em que está pensando? Você ainda não respondeu minha pergunta: É droga? Deve dinheiro a alguém? Perseguição?

Foi o bastante. Realmente, depois da luz, passei a ser seguido por indivíduos estranhos. Foi então que resolvi abrir o jogo. Tomei coragem e respondi:

– Sim, estou sendo perseguido.
– Por quem?
– Não sei. Eles não falam comigo. Andam armados. Monitoram tudo que faço. Escutam minhas ligações. Seguem cada passo que dou.
Com mãos trêmulas e olhar perdido, Frederico cofiou o cabelo enquanto Joana cochichava algo em seus ouvidos. Ele desvencilhou-se dela e voltou a atenção para mim.
– Se o perseguem, é porque fez algo errado ou estão interessados em alguma coisa. O que poderia ser? – Insistiu.
– Não sei… Não sei. – Jamais desejaria que ele soubesse sobre a luz no estacionamento. Provavelmente acharia estava louco.
– Desculpe, amigo, mas não me convenceu. Existe algo, sim. Machucaram você?
– Na verdade não sei. Vejo imagens deles me interrogando e fazendo exames horríveis.
– Que tipo de exames?
– Não sei, porém, perguntaram se eu havia recebido a designação de removido. Não faz sentido pra mim.

Frederico calou-se, mas sempre a me encarar. Parecia buscar algo que o convencesse de que eu falava a verdade. Até que não se conteve:

– Escuta aqui; somos amigos. Desculpe falar assim, mas ainda acho que está se drogando. São traficantes na certa e querem receber. Ou é delírio da sua cabeça? Vamos lá, bota pra fora. Diga a verdade.
Joana cruzou os braços e pernas, virou o rosto de lado e disse:
– Isso é papo de drogado… Com certeza é.
– Nada disso. Frederico, não dê ouvido a ela. Jamais usei drogas. Você me conhece. Só receio contar o que sei.
– Tudo bem. Desculpe o péssimo jeito. Descanse. Joana e eu vamos sair. Saiba que só queremos ajudar. Voltaremos logo.

Senti-me aliviado depois que saíram. Relutei em render-me ao sono. Fui ao banheiro e diante do espelho notei a lividez que cobria o meu rosto. Um sinal de que precisava cuidar da saúde. Fui à cozinha. Pintou um discreto apetite. Estendi o braço para apanhar o leite e notei uma mancha escura no punho. Havia outra semelhante no esquerdo. Não eram doloridas. Talvez causadas pela queda. Mas não me lembrava de ter caído. Enfim, desencanei. O telefone tocou. Não atendi. Deixei para a secretária eletrônica. Era Marcos. Queria saber se eu estava bem. Disse que viria para me fazer uma surpresa. Tomei um copo de leite e voltei para a cama. Finalmente adormeci e tive um sonho: Estava em pé na sala de estar, lá mesmo, no apartamento de Frederico. Ouvi passos no hall de entrada. Sabia que a porta estava trancada. Escutei meu amigo a conversar com outro homem. Parecia aflito, as vozes se misturavam em meio ao eco, o que dificultava compreender o teor da discussão. De repente (do jeito que só acontece em sonhos), um som insuportável, estridente, acompanhado de uma luz branca, atravessou as raias da porta e preencheu toda a sala.

A parede tornou-se diáfana e dois homens estranhos a atravessaram como se fosse uma simples neblina. Olhei para Frederico que não esboçou nenhuma reação e caiu morto. Tentei fugir. Um dos homens agarrou-me pelo braço e insistiu que confessasse se eu era ou não um dos removidos. Acordei sobressaltado e ofegante. Já devia ser início da noite.

Levantei e dirigi-me à sala. Ouvi vozes. Como no sonho, era Frederico a conversar com alguém. Não, aquilo não poderia estar acontecendo! Percebi que dois homens perguntavam algo. Senti um calafrio percorrer minha espinha. Tive o ímpeto de correr até a porta, mas o medo suprimiu a coragem. Escondi-me no quarto. A porta abriu e Frederico chamou-me pelo nome. Uma armadilha, quem sabe.

– Será que ele saiu? – Indagou Frederico em voz alta. O tom animado de sua voz, não me convencia a aparecer. Foi então que reuni o pingo de coragem que havia restado e decidi sair do esconderijo. Assim que me viu, Frederico foi logo dizendo:

– Calma, amigo, está tudo bem. São meus dois vizinhos. Esta noite acontece a nossa reunião semanal. Gostaria de vir?- Não obrigado. Prefiro descansar. – Respondi aliviado.
– Tem certeza? Fico preocupado em deixá-lo aqui sozinho.
– Ficarei bem. – Insisti. – Os dois vizinhos se despediram. Frederico, então, observou:

– Sabe, Fernando, não sei… Refleti sobre o que lhe aconteceu. Intriga o fato de você ser perseguido. Procuro

imaginar o motivo, mas não consigo. – Continuei calado sem saber o que dizer e sem nenhum ímpeto de me explicar. – Sei que uma hora falará, para seu próprio bem. Agora vou me arrumar. Caso queira aparecer, a reunião será no segundo andar, está bem?

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