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Oito horas da noite quando a campainha tocou. Relutante, fui ver quem poderia ser. Olhei pelo olho mágico. Era Marcos e estava acompanhado de uma moça que, a princípio, não reconheci. Ao abrir, fiquei alegremente surpreso.

– Não disse que faria uma surpresa? – Disse meu amigo com um grande sorriso no rosto.

– Oi, Fernando. Quanto tempo!

– Sara, você aqui! Eu pensei telefonar, mas…

– Combinamos de fazer uma surpresa.

– E que surpresa! Fico feliz de ter vindo. – Disse mal contendo a alegria no meu tom de voz.

– Posso entrar? – Perguntou Sara.

– Claro. Como sou desajeitado! Por favor, entre. A casa não é minha, mas sinta-se à vontade.

– Gostaria de saber como está. – Disse Sara a fitar-me com curiosidade.

– Bem, nem sei por onde começo. Sinto-me ainda um pouco estranho.

Selecionava as palavras enquanto meus olhos fugiam dos de Sara. Para nos deixar mais à vontade, Marcos propôs comprar uma pizza. Ofereci a Sara um vinho. Delicadamente recusou, pois, estava mais interessada em saber o que havia acontecido comigo.

– Fernando, tivemos um longo relacionamento.

– Tivemos? Ainda somos noivos, não?

– Confie em mim. Não é porque terminamos que deixei de me importar. Conte tudo o que sabe.

– Eu… Faz quanto tempo? Eu não sabia que tinha terminado comigo. Deveria ter ligado antes, mas eu… Nem sei o que dizer… – Meus olhos se encheram de lágrimas. Não foi fácil contê-las. Tudo ficou mais confuso ainda. Mas ela insistiu que eu lhe dissesse tudo o que sabia. Então, resolvi contar.

– Tudo começou quando a deixei em casa depois da festa de formatura, lembra?

– Claro!

– Pois bem, a caminho de casa, passei numa loja de conveniência. Comprei um refrigerante. Ao sair, vi-me envolvido por uma luz muito forte. – Notei a expressão congelada de Sara. Seu olhar vago indicava que não estava entendendo muito bem onde queria chegar, até que perguntou:

– Luz? Isso seria motivo para você tentar se matar? Todos nós somos passíveis de delírios em algum momento da vida.

– É que… O episódio da luz foi o começo de tudo. A partir daí muitas outras coisas começaram a acontecer. É que, não me sinto bem em…

– Vamos lá. Tente. É bom compartilhar. Desabafe.

Enchi uma taça de vinho e fui para a sacada do apartamento seguido de perto por ela. Dei um gole e comecei a expor o que sentia:

– Sara, é estranho como a vida pode tomar um rumo diferente, assim, num piscar de olhos. É algo que está além do nosso controle. É aí que buscamos lembranças que possam nos ancorar, uma tentativa efêmera de resgatarmos o que perdermos. Lembro-me do dia em que a conheci. Éramos felizes juntos. Gostávamos de música, curtíamos a faculdade, saíamos com os nossos amigos. Tudo parecia seguir um fluxo normal, imutável, eterno até que de repente… Nosso amor termina assim? Por quê? Não sou louco. Diga a verdade: Você acha que eu não bato bem?

– Fernando, você tentou se matar. Por favor, conte o que aconteceu.

– Segurei-a pelos braços, encarei-a nos olhos e perguntei:

– Você acha que o ser humano está preparado para a verdade?

– Que verdade? Do que é que você está falando?

– Você acha que esta realidade que vivemos é assim, é isso mesmo que se apresenta diante dos nossos olhos?

– Sei lá, que pergunta estranha, Fernando! Minha realidade é acordar, ir para o trabalho e ganhar meu sustento. Batalho todos os dias para me manter viva e é isso o que importa. Bem-vindo ao ciclo da vida.

“Que bom seria acreditar somente nisso!” – Pensei.

Abracei-a e inclinei-a delicadamente sobre o parapeito da sacada. Ela mostrou uma leve resistência.

– Não se preocupe, Sara, quero apenas mostrar-lhe a vista daqui de cima. Veja, tudo parece tão estável, imutável. Não creio que queira conhecer a verdade.

– Verdade? Que verdade?

– Nunca entenderá. – Disse enquanto Sara me encarava como se eu fosse um maluco.

– Já sei! Vamos tomar um café. Outro ambiente lhe fará muito bem.

– Sara, eu…

– Fernando, estou aqui para ajudá-lo. Prometo uma coisa: Não me surpreenderei com seja lá o que me disser, está bem?

Então, puxou-me para fora do apartamento. Só tive tempo de esticar o braço para agarrar minha jaqueta. Chegamos ao seu carro e antes de entrarmos, olhou-me com ternura e entregou as chaves. Dei a partida e rumamos para um bar. A noite estava fria. Finalmente chegamos. Escolhemos uma mesa num local discreto. Não demorou sermos atendidos.

Sara continuava calada, mas olhos cheios de curiosidade. Tomei fôlego para contar tudo o que sabia. Suspirei, hesitei: “Ah! Seja o que Deus quiser.” Não podia ser direto; talvez a amedrontasse:

– Interessante isso! Acabei de lembrar-me de minha mãe. Ela passava um bom tempo do dia a orar por mim. Ela queria que me tornasse uma pessoa inteligente, um cara cheio de sabedoria. No fundo, acho que ela não botava muita fé em mim. De certa forma, suas preces deram certo. Tornei-me um curioso, uma espécie de pesquisador inquieto. Um curioso bem informado. Busquei conhecer tudo, como as coisas funcionavam e do que eram feitas. Imaginava que, se os segredos da vida pudessem ser revelados, seria um cara mais feliz.

– O conhecimento engrandece, nos deixa conscientes do que nos cerca.

– É; cheguei a pensar assim. Hoje meu ponto de vista é outro. Para mim, a ignorância é a melhor anestesia. Observo pessoas nas ruas; elas expressam semblantes preocupados: o que farão amanhã, o que comerão ou mesmo vestirão. Outros ainda cogitam sobre que tipo de carro comprarão ou sobre a viagem que farão. No entanto, estão alheias sobre o que acontece bem debaixo de seus narizes. Sabe, no fundo é ruim saber demais.

Sara se esforçou para me acompanhar:

– O que você quer dizer?

– Muitas vezes olhei para as estrelas. Pensava que o céu pudesse desvendar segredos, segredos da vida. E foi nas estrelas que me perdi.

– Perdeu-se nas estrelas? Como assim?

– Veja bem, Sara, a humanidade vive num mundo que não lhe pertence. O futuro, o qual deveria seguir um curso natural de evolução, foi artificialmente modificado. Temos a ideia equivocada de que somos os senhores do nosso próprio destino, mas não é verdade. – Neste instante, fui interrompido pela garçonete que nos trouxe o café. Contive a explicação enquanto era servido. Sara segurou a xícara com as duas mãos e deu o primeiro gole sem tirar os olhos de mim. Notei-a incomodada:

– A conversa já derivou demais. Não entendo a que se refere. Acho melhor irmos embora.

Indaguei afetadamente:

– Você acha que estou louco, não é? É por isso que resolveu terminar, não foi?

– Nada disso! Só acho que você não está bem. É diferente. O papo está metafísico demais.

– Disse que não entenderia. Se pudesse ao menos me escutar sem julgamento…

Neste mesmo instante, dois homens altos, elegantemente vestidos, entraram e ocuparam dois lugares ao balcão. Fizeram um pedido. Um deles me olhou de esguelha. Tive péssima impressão. Pedi a Sara para se levantar. Larguei o dinheiro na mesa e saímos. Fomos para o carro e, sem pensar duas vezes, pedi para dirigir que, aliás, o fiz feito um desesperado. Sara, assustada, implorou:

– Pare o carro, já!

Entrei numa rua discreta e estacionei:

– Fernando, cansei disso. De uma vez por todas, o que está havendo?

– Você viu aqueles caras que chegaram?

– Sim, dois caras normais que entraram no bar para tomar um café.

– Não. Eles estavam me seguindo.

– Paranoia!

– Não me rotule. Deixe-me explicar. Você quer a verdade, não é? Pois bem, contarei o que houve: Aquela noite, aquela em que fui envolvido pela luz, entrei numa espécie de estado de suspensão. Não via e nem escutava absolutamente nada. Um silêncio profundo que, só o som do meu coração era o que me dava certeza de que não estava morto. A luz, apesar de ofuscante, não ofendia os olhos, ao contrário, era aconchegante. Senti uma tranquilidade que nunca havia experimentado antes. De repente, vi a silhueta de alguém emergindo da luz. Caminhou em minha direção. À medida que se aproximava, seus contornos se definiam. Era um ser. Ficamos frente a frente. Tinha um semblante andrógeno, bastante delicado, pele lisa e acobreada. Seus lábios bem desenhados demonstravam um sorriso discreto de boas-vindas. A roupa, colada ao corpo, parecia ter vida, pois pulsava e se ajustava aos seus movimentos. Os cabelos eram longos, claros e tremulavam como se uma brisa constante os soprasse. O que mais me impressionou foram os seus olhos. Deixavam escapar uma luz que só podia vir de sua alma. O ser mantinha os olhos fixados nos meus. Pareciam perscrutar a minha mente. Com voz melodiosa e calma disse que eu era um removido e que em breve saberia de mais coisas, e que meu tempo de permanência neste planeta já havia chegado ao fim.

– Que loucura! – Exclamou Sara. Ameaçou expulsar-me do carro, mas insisti:

– Espere, Sara, por favor, ouça. Perguntei àquele ser como ele havia chegado ali, naquele local. Outras pessoas poderiam estar nos vendo. O ser respondeu que não estávamos no lugar onde pensava estar, mas que fui deslocado milhares de anos luz de onde tinha estacionado o carro. Quem acreditaria nisso? É lógico que duvidei, porém, o ser ergueu a mão e um círculo se abriu na parede de luz, como uma janela. Foi quando vislumbrarei um mundo totalmente diferente. Um céu com quatro luas. Subitamente a janela se fechou. Senti uma espécie de vertigem e tive a impressão de que iria desmaiar. Não sei como, mas consegui me controlar. Perguntei como havia sido transportado sem ao menos ter entrado num veículo de transporte. O ser reservou a resposta para um próximo encontro. E ainda disse que eu deveria saber que o nosso mundo sofreu a interferência deles, e que algumas pessoas mutaram, à medida que a capacidade mental foi aumentando ao longo dos milênios.

Sara ficou perplexa até que explodiu:

– Que besteira! Você definitivamente não está bem. Fernando, olha cara, você é legal, sempre te admirei, mas você precisa de ajuda profissional.

– Não, Sara, não é isso… – Supliquei para que deixasse concluir.

– É isso mesmo. Este é o resultado de um forte estresse que acabou fazendo você reviver a infância, aquele menino sentado na frente da televisão, assistindo um monte de bobageiras de ficção científica.

– É muito pedir que me escute até o fim? – Sara cruzou os braços, baixou a cabeça e, contrariada, aquietou-se.

– Aquele ser alegou que a Terra é perfeita para alguns, mas dissonante para outros. A princípio não entendi. No entanto, não sei bem por que, de algum modo aquilo fez referência. Por último, alertou que, depois daquele nosso encontro, agentes começariam a fiscalizar todos os removidos e que poderiam me capturar. Agora, a troco de que fariam isso? Só sei que depois do contato, senti uma terrível sonolência. Adormeci. Ao abrir os olhos, estava no estacionamento como se nada tivesse acontecido. Meses após o contato, o inferno começou. Dois caras me sequestraram. Fui levado a uma espécie de cativeiro. Jogaram-me numa sala escura e me interrogaram. Um deles, sem mais nem menos, exigiu saber se o ser havia me designado como um removido.

– Ora, se ninguém mais o viu, como poderiam saber sobre o tal contato? – Perguntou Sara num tom pouco interessado.

– Não faço a mínima ideia. Porém, calei-me. Foi aí que me aplicaram uma injeção. A visão ficou turva. Suponho que fosse uma espécie de soro da verdade. Acho que é isso o que fazem quando querem extrair alguma informação. Repetiram a pergunta e mesmo sob a influência da droga, mantive a consciência e omiti o que havia conversado com o ser. Lembro ainda que um deles mencionou querer apagar minha memória. Não sei o que aconteceu a seguir. Tudo ficou nebuloso. Vi-me noutra sala. Senti o cheiro de produtos químicos. Fui deixado lá por algum tempo. O efeito da droga dissipou lentamente. Em resumo, fugi por uma pequena janela. Acabei caindo num beco e cambaleei pela rua. Um agente me viu e sem demora agarrei um pedaço de madeira e o esperei se aproximar. Golpeei-o fortemente na cabeça. Caiu desmaiado. Peguei sua arma e fugi. Felizmente vi um carro e implorei por socorro. O motorista, bastante desconfiado, acabou me levando ao pronto-socorro. Fui medicado e retornei ao apartamento onde tentei tirar minha vida.

Sara permaneceu parada a me olhar. Pelo visto, não acreditou em absolutamente nada. Deixou escapar uma observação cáustica em forma de sussurro:

– Já sei: o ser se desmaterializou, tinha orelhas pontudas e antes de sumir ergueu a mão direita e disse: “Vida longa…” Ora, Fernando, – disse em voz alta – dá um tempo! Você quase se matou por causa de uma idiotice dessas! Isso, é isso mesmo, é um caso de excesso de estórias em quadrinhos.

– Você me acha fraco, não é? Fique sabendo que a tentativa de me suicidar foi uma fraqueza motivada pelo desespero, pelo medo. Na verdade, foi por ter visto o que poderá nos acontecer no futuro.

– Fernando, chega.

– Não sei como a humanidade lidará com isso. Terei acesso a mais informações no próximo encontro. Acho que os agentes querem detalhes…

– Fernando, pare…

– Fujo como se fosse um bandido há mais de seis meses…

Sara interrompeu a conversa com frieza. Dirigi, então, calado até sua casa. Ao chegarmos, saí do carro e ela despediu-se com um olhar vazio de desapontamento. Finalizou dizendo:

– Sempre tive uma enorme admiração por você. Pena que nosso relacionamento acabou, mesmo assim continuo a te querer muito bem. Procure ajuda, Fernando. Não tenho condições psicológicas pra isso.

Simplesmente deu as costas.

Não havia mais a dizer. Tenho dúvidas se fiz certo em contar-lhe. Esperava seu apoio, mas o tiro saiu pela culatra. Arrependido, peguei um táxi e retornei ao apartamento de Frederico. Encontrei um bilhete de Marcos o qual dizia ter deixado uma fatia de pizza na geladeira. “Que recado importante!” – pensei. Joguei-me no sofá. Estava exausto. Cheguei até questionar: E se ela estiver certa? Tudo pode ser fruto de pura insanidade. Quem sabe a consulta com o psiquiatra venha a calhar.

 

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