O crime não compensa?

 

 

Dario saiu correndo e viu a irmã assustada e tampado as partes íntimas com as mãos. Dentro do galinheiro o Alfredo se contorcia querendo falar.

— Socorro! Ah! Socorro! Ladrão! Ladrão!

— Ester! — gritou o irmão.

Se ouviu as vozes de Seu Romão e dona Maria do Céu.

— O que tá acontecendo?

— Eu a voz da Ester e veio de lá de fora, homi.

O pistoleiro ao se aproximou da irmã e a entregou a tolha.

— Se veste, Ester.

Ela envergonhada se enrolou na toalha.

— O que significa isso? Quem é esse homem? O que ele faz no galinheiro, amarrado e amordaçado desse jeito?

— Vá pra casa.

— Não vou até você me responder.

— Ele fez alguma coisa com você?

— É claro que não. Ele está amarrado, o coitado.

— Por que estava nua na frente desse caba?

— Ora, porque eu estava tomando banho ouvi uns gemidos vindo do galinheiro e quando abrir a porta pra ver o que era me assustei e a toalha acabou caindo.

— Vá lá pra dentro se vestir.

— O que houve? Que gritaria é essa?

— Pai, o que esse homem está fazendo aqui amarrado e preso como um animal?

— Ele é doido. A gente encontrou ele por esses dias andando pelas redondezas. — o patriarca fechou a porta.

— Não pode manter ele aí dentro, pai. O que estão fazendo é crime.

Fia, entre tu tá de toalha e não é certo menina moça ficar assim na frente de homi nenhum nem mesmo sendo o próprio pai ou o irmão.

— Ele precisa ser levado para um hospital e devemos procurar algum familiar dele. Não podemos ficar com ele assim, não podemos.

— Menina, vá pra casa! Não se mete!

— Não! Eu vou chamar a polícia…

Seu Romão tirou a arma das calças e a mostrou.

— Tu não vai chamar poliça nenhuma, entendeu? Chispa pra casa, menina enxerida.

Ester deu um grito fino assustada com a arma nas mãos do pai e abraçou a mãe.

— O pai aprontou uma arma pra mim…eu não tô acreditando nisso…não tô. — chorava em estado de choque.

Fia, vamo entrar.

Saiu abraçada com a mãe.

 — Tá vendo que tu fez, peste? É por causa de tu que Ester descobriu esse sujeito e o pior que mostrei a arma pra ela.

— Culpa minha não, o senhor que tirou a arma das calça e a ameaçou quando ela disse que iria chamar a poliça.

— Se tivesse matado esse infeliz antes essa situação não teria acontecido. O que queria? Os poliça aqui em casa e prender nós dois, é?

— O senhor nunca assume o que faz. Precisava mostrar a arma pra menina? Ela é tua fia que tu não ver há anos.

— Eu só quis dá um susto nela pra evitar que fizesse alerde e chamar a poliça. E eu assumo sim o que faço ao contrário de você que é um covarde que fica arrumando desculpa e enrolando pra matar esse caba aí.

— Eu vou matar.

— Não vai! Se fosse matar já tinha matado. Eu quero ver como você vai se livrar desse probrema com quem mandou pra tu fazer esse serviço.

— Já disse que vou matar esse infeliz.

— Qual é o mistério com esse caba, hein? Por que ainda não o matou?

— É que…ele vai me ensinar a ler e a escrever.

— O quê? Que bobagem é essa menino? Tá doido da cabeça, é? Vou te dar uma surra pra ver se volta ao normal.

— Painho, eu quero ler e escrever…eu quero por causa de Rita e depois que esse caba me ensinar vou matar ele.

Seu Romão deu uma gargalhada.

— Tu acha que essas coisas se aprende rápido? Tu é burro, Dario, não vai conseguir aprender é nada. Não nasceu pra isso.

— Nasci pra quê, então? Ser como você: um pistoleiro?

— Sim, é minha continuidade. Se o sertão te teme é porque tudo que sabe foi eu que te ensinei.

— Já se passou por sua cabeça que se eu não quiser mais essa vida de bandido?

— Tu vai se entregar a poliça, vai? Morrer na cadeia? Tu perde tua liberdade pra sempre e a fia do Seu Felix nunca mais tu vai ver.

— Esse caba é o último que vou matar.

— Conversa fiada. Quando teu bucho roncar de novo quero ver se vai continuar dizendo isso.

— Fui bem pago e com o dinheiro dele vou construir uma casinha e colocar Maria Rita dentro.

— Vão viver de quê? De vento? Dinheiro acaba, menino.

— Vou plantar alguma coisa e criar umas galinhas…

— Essa terra é seca nada nasce. Tu vai morrer de fome com tua mulé e teus fios.

— Há de se ter um jeito, painho.

— Sonhador!

— Eu não vou ser um covarde como o senhor.

Oxente, o que disse, menino?

— O que ouviu. Não vou matar um pra colocar comida em casa. Tu não tem vergonha de ser quem tu é?

— E você é o quê, caba? Tu é como eu: bandido! Pistoleiro! Coisa ruim! Assassino! — o empurrou.

— Não! — caiu no chão. — Não foi porque eu quis! Você me obrigou, painho! Eu nunca quis essa vida, nunca!

— Fio, Ingrato! — deu um tapa no rosto dele. — Presta atenção, caba.o segurou pela gola da camisa. — Fui eu que te fiz de baixo daquela catingueira[1], te coloquei no mundo e ensinei o que tudo que sei. Tu pode abandonar a bandidagem, mas teu couro vai ser marcado pro resto da tua vida pra lembrar de onde veio e quem tu é. Venha cá, caba. — o puxou pelos cabelos o arrastando.

— Pra onde tu tá me levando, painho? Pra onde?

Seu Romão arrastou Dario para o curral com dois gados desnutridos.

— Entra! — empurrou o filho para dentro.

— O que tu vai fazer?

— Se ajoelhe e tire a camisa.

Dario se ajoelhou, tirou a camisa e viu o pai acendendo o fogo no carvão que estava dentro da forja.

— Tu vai aprender a me respeitar e engolir o covarde que você me chamou.

— Você pode fazer o que quiser comigo, painho, nada vai me fazer mudar…vou largar a pistolagem e me casar com Rita.

— Faça o quer fazer da tua vida, mas antes vou te ferrar como se faz com o gado e toda vez que ver essa marca vai lembrar que é um bandido e nunca se esqueça que me deve a vida. Foi esse vêio pai que matou muitos pra te dar o que comer. — colocou o ferro dentro do fogo.

— Um pai não marca o fio com o ferro e nem o ensina a matar.

— Quando tiver um menino com fome vai ver se é não será capaz de tudo até matar um pra encher o bucho do fio. Agora cale a boca. — o ferro já estava quente. — Não se atreva a gritar e seja caba macho. — tirou o ferro da forja e o aproximou no braço direito do filho. — Tu deve obediência é a mim! — colocou o ferro quente no braço de Dario que continha a dor insuportável. — Tu me pertence e tá sendo ferrado por sua rebeldia. Se atreva, caba, se atreva vim me desrespeitar de novo.

Dario aguentou a dor do ferro quente em seu braço direito e quando o Seu Romão retirou o ferro ele urrou.

— Engole o grito, macho, engole se não esse ferro vai ser na tua cara. — o deu um tapa.

O rapaz sentia a dor em silêncio.

— Eu vou lá pra dentro. Tu tem até amanhã cedo pra matar esse caba, caso contrário eu mesmo o mato. — soltou o ferro dentro de uma poça e saiu.

Dario tocava em sua pele marcada com a letra r de Romão e aquele ato de violência e humilhação simbolizava para seu pai que ele era sua propriedade. Apesar do pai não poder conter a sua liberdade de escolher sair da vida da pistolagem o queria marcar em seu corpo como lembrança da bandidagem.

Dario sentou na lama, vencido pela dor e com vários pensamentos rondando a sua mente enquanto a chuva molhava o seu corpo que desabou. Seria aquele ato o choque de realidade que Dario precisava para entender o perigo que viveu esses anos no crime a mando das ordens de seu pai? A chave virou pra ele? O seu orgulho pelo pai caiu por terra e nivelou pelas mais baixas camadas da vergonha e do desprezo. Ele negava ver a outra face de seu pai com o estado de anestesia em decorrência da acomodação que não o permitia abrir os olhos até que Maria Rita surgiu em seu caminho como um clarão de um raio que se lança em uma árvore e o fogo a consume.

Uma escuridão habitava dentro si e talvez escolheu ignorar essa realidade por medo, aliás, ver a verdade de seu pai também seria ver a sua. Dario sabia que é errado moralmente e que é crime matar o seu semelhante em troca de dinheiro, porém, a fome se tornou o véu que cobria a sua realidade como uma justificativa. Será que eles acreditavam que a sociedade entenderia que a fome é o motivo “cabível” para o exercício do crime? No caso positivo eles estavam enganados porque a fome neste caso não o tornam inocentes e aqui trago a reflexão ao leitor se tudo é aceitável para sobreviver? Pode ser considerado um excludente de ilicitude um indivíduo matar alguém por dinheiro por estado de necessidade que neste caso seria a fome? Acredito que nem o melhor criminalista conseguiria convencer um tribunal de júri a inocentar um bandido ao nível de Dario ou Seu Romão por ser muitos crimes a mando em troca de dinheiro apesar desse “comercio” está intimamente ligado a sobrevivência. Não é preciso ser uma pessoa estudada para compreender que a vida é o bem universal, basta apenas um indivíduo ter um mínimo possível de contato social para entender sobre o seu direito e do outro de viver. A sociedade não tolera o homicídio e de fato isso é o correto para combater um terrível caos e há de se considerar que existem crimes que são “pais” de outros crimes como, por exemplo, a corrupção que está disseminada há séculos e com suas variantes desde a alta cúpula política as demais classes sociais. Então, poderia ser a corrupção a mãe de todos os crimes previsto no Código Penal Brasileiro? Poderia, mas existe algo chamado livre-arbítrio, ou seja, nem todos que nascem em meio a violência significa que possa tender a se tornar criminoso como também quem nasce em berço de ouro não é justifica que o limita de se enveredar pelo crime.

Seu Romão e Dario são vítimas da sociedade? Por uma parte sim e por outra não e trago aqui duas razões como dois rios que se encontram e não se misturam: por um lado a corrupção que os roubou seus direitos como cidadão de viver com dignidade e por outro lado foram suas escolhas pela via do crime para conseguir chegar a ter um pouco desses direitos. Será que neste caso o crime compensa?

A chuva continuava a molhar aquelas terras noite adentro e Dario continuava deitado no curral, ele poderia ter revidado a tortura do pai, entretanto o respeito e o temor falaram mais alto. É de se compreender que Seu Romão não era apenas o homem que o deu a vida e sim seu mestre e quem sabe seu senhor algo que traz ares escravistas certamente.

Pela manhã, Ester abriu o galinheiro e viu Alfredo que continuava amarrado e amordaçado.

— Eu vim aqui saber como você está. — agachou. — Trouxe água e comida. — abriu um lençol branco e colocou sob uma garrafa e algumas frutas. — Fique em silêncio. Não grite. Se gritar vai ser pior pra nós dois. — tirou o pano da boca dele e lhe deu água. — Tadinho. — acarinhou os cabelos dele. — eu vou te ajudar a sair daqui, voltar pra tua casa e pra sua família.

De repente a porta do galinheiro se abriu.

[1] Catingueira é uma planta típica do sertão.

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