A prisão

 

O tiro espatifou o candeeiro pendurado no teto da sala e o silêncio tomou conta do lugar por alguns instantes quando se escutou a voz de Seu Romão.

— Acabou a baixaria. Eu vou levar Milton, Tereza e as crianças pra casa.

Dario permaneceu parado olhando nos olhos do cunhado.

— Solta ele, Dario. — ordenou o pai.

Ele soltou Milton e que imediatamente abraçou Tereza.

Vamo, homi, vamo pra casa, já chega por hoje. — o beijou.

— Tu gosta de apanhar, Tereza, um dia esse caba vai te matar e os teus menino vão ficar tudo sem mãe. — disse Dario.

— Não se meta, diacho! — o pai o empurrou.

— Foi o cão que mexeu com a minha cabeça! Jeová me libertou de novo! — o pastor ergueu os braços.

— Assim é fácil botar a culpa da cachaça no tinhoso.

As crianças olhavam assustadas para Dario que se sentiu comovido com aquela situação.

— Vão embora tudinho, vão, não perderam nada aqui, seus danados! — gritou Dario.

— Meninos, vamo. — disse Tereza.

As crianças rapidamente abraçaram a mãe e saíram junto com os pais e o avô.

— Eu já te disse várias vezes que não se meta no assunto de Tereza.

— Mainha, não quero ouvir reclamação. Bote a minha comida que tô varado de fome. — sentou à mesa.

— Você não tem mãos, Dario, pra colocar o próprio prato?

Oxente, tu não te mete, Ester, deixa eu queto.

Ester se dirigia ao quarto.

— Não vai comer, fia?

— Vou não, mãe, depois disso perdi a fome.

— Vou acender o outro candeeiro.

No quarto, Ester encontrou Alfredo sentado no chão e acuado.

— Não se assuste, mudinho, foi problema de família. — pegou o celular e começou a ler as mensagens. — Aproveitando que Dario tá lá na cozinha e antes de te levar de volta para o galinheiro — agachou ficando de frente para o jornalista. — Talvez você não seja tão bobo como pensei que fosse. — o olhou desconfiada. — Vamos jogar o jogo eu conto um segredo e te conto um outro?

Alfredo balançou a cabeça concordando.

— Você pegou o meu celular e leu a mensagem do Marlon, o meu noivo. Não adianta mentir porque eu não tinha lido ela antes.

Ele fechou os olhos e encostou a cabeça na parede.

— Eu li.

A voz dele surpreendeu Ester.

— Li e acho que você tem algo que esconde além do fato de ter vivido como uma criada com seus padrinhos paulistas, não é?

— Quem é você? Por que está aqui nesta casa? Por que fingiu esse tempo todo?

— Ester, ainda não percebeu que seu irmão e seu pai são dois criminosos de alta periculosidade? Seu irmão me trouxe à essa casa para depois me matar a mando de alguém que o pagou em troca disso.

— Agora entendo. Estou aflita, com medo e não deveria ter vindo pra cá.

— Porque você voltou?

— Não é da sua conta.

— Estamos jogando ou não?

— Quem quer te matar e por qual motivo?

— Desconfio que seja o Sargento, ele deve ter descoberto que eu sou amante da Onélia, a esposa dele. — riu.

— Você acha engraçado?

— Desde que cheguei na cidade que eu e Onélia temos um caso. Se ele só descobriu a pouco tempo demorou por demais.

— Até quando vai viver desse jeito mantendo um caso com uma mulher casada? Não acha essa atitude baixa e infeliz para um homem, ou melhor dizendo, para qualquer pessoa?

— O meu tempo de vida está nas mãos do teu irmão. Sobre se eu acho infeliz ou uma atitude baixa ser amante? Não acho porque resta à mim a melhor parte, não gosto de problemas e não é o meu dinheiro que ela gasta.

— Você prefere fugir das responsabilidades, não é? Afinal, qual é o seu nome?

— Já falei demais de mim e você ainda não me respondeu o porquê que voltou pra casa?

— Eu voltei pra tentar convencer aos meus pais a mentir na frente do Marlon que eles são empregados dos meus padrinhos. Foi um erro ter mentido esses anos todos que sou filha de uma amiga rica dos meus padrinhos, mas eu tive que inventar essa mentira porque…

— Porque você tem vergonha da sua família, da sua origem…

— Sim, lá fora ter nascido nordestina é um rótulo, é algo que te coloca em um lugar inferior.

— Você anulou completamente seu passado.

— Eu vivi em Maceió até os meus treze anos e eu fui obrigada pelos meus padrinhos a perder o meu sotaque quando formos morar em São Paulo.

— Eles não podiam ter feito isso com você, Ester.

— Eu não tinha escolha.

— Pelo pouco que conheço os seus pais acho que não vão aceitar mentir para o seu noivo.

— É por isso que vou embora amanhã antes que o Marlon chegue na cidade, ele me disse que vem na próxima semana. Quando retornar para São Paulo, eu vou dizer pra ele que os empregados dos meus padrinhos morreram. Eu não ponho mais os meus pés neste bendito lugar.

— Acha certo abandonar sua família? Vai viver uma mentira para sempre? Se você um dia for descoberta?

— Você não é diferente de mim, se deita com uma mulher que não é sua e sim de outro. Você soube bem disfarçar quem de verdade é: não é nenhum doido ou mudo pra ficar dentro do meu quarto e comigo. Esperto por demais da conta e vai lá saber o que poderia fazer e quais foram os seus pensamentos?

— Eu me chamo Alfredo.

Ela abriu a porta.

— O que vai fazer?

— Oh! Dario! Venha aqui!

— Que foi? — parou o lado da porta. — Oxente! O que esse caba tá fazendo no teu quarto, Ester?

Dona do Céu parou ao lado do filho.

— Ester! Perdeu o juízo menina?

— Já descobri que ele não é mudo e nem doido, mãe. Dario, o leve daqui.

— Ester. — falou Alfredo desapontado.

— Ele te contou tudo? — perguntou a mãe.

— Tudinho. Tire ele do meu quarto!

— Vem cá, caba, eu vou é me desfazer de tu de uma vez por todas. — o puxou pelo cabeço e o conduziu para a parte de fora da casa em frente ao cavalo.

Fia, eu já te disse que não se meta nos assuntos do teu pai e do teu irmão.

— Mãe, por que é tão omissa? — a olhou com desprezo e saiu para o quintal.

Na porteira, Dario amarrava Alfredo com uma corda.

— Dario, vamos conversar. Não me mate, por favor.

— Cala a boca que essa tua voz tá me enchendo. — subiu no cavalo e saiu com ele o arrastando.

Em cima de uma pedreira apenas as luzes das estrelas e o brilho da lua cheia iluminava o local, Dario desceu do cavalo e desamarrou Alfredo.

— Fique de costas. — apontou a arma nas costas dele. — caminhe.

Alfredo fechou os olhos e tremia de medo, pois havia chegado a sua hora. Dario o deu um chute nas costas e ele caiu.

— Te vira, caba, tu me deu trabaio demais. — subiu no cavalo.

O jornalista sentia a dor do chute.

— Não me deixe aqui, Dario, tá escuro, é perigoso, um animal pode me atacar…não sei onde estou…posso passar dias perdidos e morrer de sede e de fome.

Probrema teu, te vira. — saiu galopando com rapidez.

Amanheceu e na varanda, Dario com um saco nas costas e viu Ester deitada na rede.

— Pra onde vai, Dario?

— Vou simbora. Painho me botou pra fora de casa.

— Alfredo tem alguma coisa a ver com isso?

— Tem e não tem. Já não quero mais essa vida de bandidagem, vou buscar Maria Rita e sumir no mundo.

— Maria Rita, quem é?

— A mulé que amo.

— Eu também vou embora hoje mais tarde.

— Você ainda vai voltar?

— Não sei, talvez. O que você fez com o Alfredo?

De repente um carro estacionou na porteira da casa.

— Quem será? — perguntou Dario.

— Eu vou ver quem é.

— Espera, Ester! Não se sabe quem é e o que quer. — colocou a mão na arma que estava no cós das calças.

Logo, desceu do carro um homem alto, aparentava uns trinta e poucos anos, cabelos loiros encaracolados com uma badana, usava óculos escuros, calça jeans e camiseta.

— Não pode ser…é o Marlon.

— Quem é ele, Ester? Tu tá branca como papel.

— Meu noivo.

Dario estranhou a expressão de medo da irmã quando viu o noivo enquanto Marlon assobiou e bateu palmas na porteira da casa.

— Ester! Mon amour, c’est moi Marlon!

Dona do Céu entrou na varanda.

— Quem é?

— É o noivo dela, mainha.

— Oxente, fia, o que tá esperando pra abrir a porta pro seu noivo? Deixa que eu mesmo abro. — saiu contente. — Já vou abrir, fio!

A mentira estava prestes a ser revelada e ela permaneceu imóvel e não disse mais nenhuma palavra.

— O que foi, Ester? Fala, mulé! — perguntou o irmão preocupado.

A porteira foi aberta por dona do Céu que se deparou com Marlon que expôs um sorriso largo.

Bonjour, je suis le fiancé de Marlon et Ester. Où est-il?

— Não tô entendo nada que tu tá falando, moço.

Excuse. Me desculpe, sou Marlon, o noivo da Ester.

  • Sim, minha fia tá lá na varanda. Ela me falou muito de você.

Ester correu.

— Marlon! — o beijou.

Mon amour, gostou da surpresa?

Marlon percebeu o olhar de desespero de Ester.

Fia, não vai me apresentar o teu noivo?

Na varanda, Seu Romão se aproximou do filho.

— Quem é esse caba?

— Um tal de Marlon, o noivo da Ester.

— Hum, tô vendo que tu já arrumou tuas trouxas, né? Fica aqui, não vá simbora não que ainda não sei qual é desse sujeito.

Na porteira, Ester pensava num jeito de tirar Marlon da casa de sua família o mais rápido o possível.

— Marlon, vem comigo, precisamos conversar. — o puxava pela mão.

— Não, fia, deixe o menino tomar um cafezinho, conhecer a casa e a família. Vem, fio, é por aqui. — o conduziu em direção a casa. — Eu me chamo Do Céu.

Naquele momento Ester queria fugir dali, mas nada poderia fazer apenas aceitar o que viesse. Dona do Céu e Marlon subiram os degraus da varanda e encararam os olhares desconfiados de Seu Romão e Dario.

— Romão e Dario, este é o Marlon, o noivo de Ester.

— Tu veio de onde, caba? — perguntou o patriarca.

— Sou de São Paulo.

— Que munganga é essa na boca?

— O menino é de fora do Brasil, Romão. — disse risonha.

— Turista?

— Não, eu sou francês e faz alguns anos que moro no país.

— Eu sou Romão, o pai de Ester, e esse é Dario, o irmão caçula.

Marlon olhava para todos com estranheza e olhou para Ester parada atrás e cabisbaixa.

— Como assim? Não estou entendendo.

— Eu vou te explicar, fio, eu e Romão somos os pais da Ester e o Dario…

— Não é isso, la demoiselle. — virou-se e olhou para a noiva que estava com os olhos cheios de lágrimas. — Ester, me explica, por favor, essa gente diz que é tua família, mas você me disse que veio para Alagoas para encontrar os empregados dos seus padrinhos.

Ester deu um sussurro enquanto nos olhares de Dona do Céu, Seu Romão e Dario era visível a decepção após a revelação de que Ester havia mentido para o noivo sobre sua origem.

 – Me perdoe, Marlon. Me perdoe.

  – Fia, que estória é essa ? Você mentiu pro seu noivo sobre a gente?

– Vergonha, do Céu, nossa fia tem vergonha de nós. — disse Seu Romão saindo.

– Não pode ser verdade, fia, diga que não é verdade ! — gritava a mãe

-Sim, eu mentir pra o Marlon.

-Por qual motivo, fia?

-Vocês não vão entender, não vão.

-Ester, acabou. Não vai ter mais casamento.

-Marlon, espera, me deixa explicar. — o segurou.

-Não precisa explicar porque já entendi tudo.

-Eu te amo, Marlon, por favor. — se ajoelhou abraçando as pernas dele.

Marlon ignorou as suplicas de Ester e foi embora. Dario e dona do Céu continuaram a observá-la a chorar.

-Fia, tu tem vergonha da gente? — a perguntou chorando.

-Mãe…

-A culpa foi minha…eu não devia ter te dado…não devia. — entrou na casa.

-Se tem vergonha de nós, então porque apareceu, miséria ?

-Dario, eu não tive escolha…

-Teve a escolha de desaparecer pra sempre. — se sentou nos degraus e tragou um cigarro.

Ester entrou em casa e encontrou o pai sentado na cadeira de balanço e fumando um cigarro.

-Pai, onde está a mãe ?

-Pelo que eu saiba tu não tem pai e nem mãe. — evitava a olhar para filha.

-Só quero que me entendam, eu tive que mentir porque meus padrinhos me forçaram para não ter problemas com a justiça. O que vocês fizeram em ter me dado para os padrinhos foi ilegal, é crime…

-Eu sei, mas a ideia veio da tua mãe. Tu não tem culpa de nada não, fia. Eu se fosse você também teria vergonha de ter essa família porque tem muita coisa que tu não sabe.

-Sei do quê você e Dario vivem.

Seu Romão ficou em silêncio por alguns instantes e Dario entrou na sala.

-Já vai pegar teu rumo, caba?

-Vou só me despedi de mainha. — entrou no corredor.

Dario entrou no quarto e viu a mainha deitada que parecia que o peso do mundo havia excedido em seu corpo ao ponto de se sentir totalmente arrasada.

 

-Dario, eu não quero que brigue com a tua irmã Ester.

-Não vou. Eu vim me despedir. — sentou na cama.

-Pra onde tu vai, menino ?

-Ir simbora daqui. Painho me botou de casa pra fora.

-O quê ?

-Sim, mas o motivo é porque vou largar essa vida da pistolagem, pega Maria Rita e viver a minha vida longe daqui.

-Fio. — acarinhou o rosto dele. — as minhas preces foram ouvidas e você decidiu sair dessa vida ruim. Eu te abençoo, fio, você será feliz em outro lugar e não aqui ao lado dessa besta ferroz que é o Romão. A desgraça entrou na nossa família por causa dele.

-Por que não o deixa, mainha ? Por que não vai simbora?

-O lugar da mulé é o lado do marido seja onde ele estiver.

-Se cuida, mainha, amo a senhora. — a beijou na testa.

-Te cuida também, fio.

Dario segurava a emoção ao se despedir da mãe, afinal, ele era muito apegado a ela, pois era a única que acreditava que ele poderia se redimir apelando pela fé. Triste a imagem que o filho encontrou da mãe uma mulher sofrida pela vida e que se pôs cativa ao cabresto do marido, apesar das consequências, se tornando omissa ou sua cúmplice. A cama se tornou o conforto de Maria do Céu de suas culpas e suas lágrimas.

Na sala, Dario passou pelo pai que continuava sentado na cadeira de balanço e pela irmã. Ele caminhou pela varanda, desceu os degraus e desamarrava a corda do cavalo na árvore até que escuta a voz de Seu Romão.

-Dario !

Ele virou-se e viu o pai encostado na porta da sala.

-Não se esqueça que bandido bom é bandido morto!

O filho entendeu o que seu pai queria o dizer, subiu no cavalo e saiu em disparada pela estrada.

-Eu não dou muito tempo pro teu irmão, ele vai aparecer por aí morto ou preso. — olhou para a filha ao lado.

-Pai, esse seria o mesmo destino dele se continuasse no crime. O senhor deveria fazer como o Dario e largar essa vida de bandido.

-A senhorita se quer ainda comer do meu pirão não se meta nos meus assuntos.

-Vou ver como está a mamãe. — saiu.

             O patriarca retornou a sentar na cadeira e ligou o rádio.

 No centro da cidade, o Sargento caminhava ao redor do chafariz e havia algumas crianças e adolescentes de rua brincando de jogar futebol com uma garrafa pet e ao lado estava um pipoqueiro.

-Bom dia, Sargento.

-Bom dia, cidadão.

-Vai querer uma pipoca ?

-É pra já, patrão. — enchia o pacote. — Tá sabendo da última ?

-Não, acabei de chegar ontem a noite na cidade.

-De madrugada uns vaqueiros encontram o jornalista Alfredo longe da cidade, perto dos quênios. — entregou o pacote de pipoca.

-Não, encontram o caba desacordado, fraco, mas tá vivinho da Silva.

-Não é possível. — amassava o pacote de pipoca com ódio.

-Diz a boca miúda do povo que o viram com o tal de Dario, o besta ferroz, e que passou uns dias sumido e até acharam que o caba havia matado ele amando de alguém, mas quem teria interesse de matar o jornalista ?

-Eu vou te caçar, Dario. — amaçou o pacote, entrou na viatura e saiu cantando pneu.

-Vixe ! Saiu e não me pagou. Eu vou colocar na conta. — o pipoqueiro pegou um cardeninho no bolso da blusa e anotou.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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