O CONTADOR DE ESTÓRIAS

 

— Não! Não pode ser! Minha filha tá morta! Como foi isso? Como?

— Mataram ela.

— Quem? Fala logo, caba!

— Um caba de peia que matou ela por vingança.

— Não, meu Deus! Por que? Vingança de quê?

— Por causa de mim. O meu pai matou o irmão dele e por vingança ele matou o meu pai e matou Maria Rita.

— Não! Não! — caiu no chão. — Minha filha! Não! Você levou minha filha pra morte…pra morte…

— A culpa é toda minha, Seu Félix.

— Saia das minhas terras…eu nunca mais quero ver a tua cara seu besta feroz!

— Eu só vim te dizer o que aconteceu com Maria Rita e falar da tua neta.

— Minha neta? Onde ela está?

— Na minha casa. Por que o senhor mentiu dizendo que Maria Rita havia se casado e estava morando em Sertão de Maria?

— Por medo que poderia acontecer, porém, o que adiantou tentar afastar você dela? O que mais temia hoje se concretizou: minha filha tá morta!

— Eu amo a Rita, o que eu mais queria era fazer ela feliz.

— Feliz? Tô arrastou para a morte!

— O Seu Félix tem razão. A minha vida de pistoleiro tirou a mulé que amo. A única coisa que tenho de bom é a minha fia Maria Isabé.

— Eu quero ela.

— Não, ela é minha fia.

— Tu não passa de um bandido, morto de fome e analfabeto, como acha que vai cuidar da menina?

— Vou cuidar dela porque ela é minha.

— Dario, você não tem condições.

— Vou arrumar um jeito de pra criar.

— Matando em troca de dinheiro? É esse o futuro que você quer pra sua filha?

— Não! Vou procurar um outro jeito. Eu já dei a notícia da morte de Maria Rita, agora tenho que ir cuidar da vida. O senhor me dê licença. — saiu.

Na entrada da fazenda, Dario seguiu em direção à um cavalo e Seu Félix apareceu descendo os degraus da varanda.

— Espera, Dario! Espera, vamos conversar…

— Já disse que não vou dar a minha fia pro senhor. — desamarrava o cavalo preso com uma corda na árvore.

— Dario, eu tô velho, doente e quando morrer essas terras ficarão pra minha neta. Eu preciso que alguém a ensine a cuidar de tudo que vou deixar.

— Ninguém tira a minha fia de mim só se me matar primeiro.

— Eu tive uma ideia: você quer ficar aqui com ela? Me deixe te ensinar como administrar essa fazenda para quando a menina crescer, e eu não estiver mais aqui, você a ensinar.

— Não seio não, Seu Félix.

— Não seja orgulhoso, Dario, essas terras são da menina…quando eu morrer se ninguém cuidar vai ser comido pelas traças. Essa fazenda também tem um pedaço da Maria Rita como a menina carrega nas veias o meu sangue.

— Ela tem o meu sangue também.

— Sim, vamos deixar esse ressentimento de lado pela Maria Isabel.

— Me deixe pensar, Seu Félix. — subiu no cavalo e saiu.

Pela estrada, Dario cavalgava quando viu uma imensa fila de pessoas na beira da estrada e uma van onde Milton, Tereza, os filhos e outros fiéis da igreja distribuíam marmitas. Ele desceu do cavalo e se aproximou.

— Tio Dario. — disse a sobrinha o abraçando.

Fia, vai lá chamar a tua mãe.

A menina correu e alguns instantes surgiu Tereza.

— Dario, que bom ver você, irmão. — o abraçou. — estava com saudades. Manuela me ligou e já estou sabendo do que te aconteceu. Sinto muito por Rita. Fiquei sabendo que já tenho uma sobrinha.

— Ela se chama Maria Isabé. Eu fui falar com Seu Félix sobre Rita.

— Imagino que ele deve ter ficado arrasado.

— O que tá acontecendo? — olhava ao redor.

— É um trabalho da igreja estamos distribuímos marmitas para famílias carentes. Quando vejo essa gente me lembra a nossa família e a fome que passava.

— Pelo menos eles tem alguém pra ajudar.

— O que temos não é muito e são doações dos fiéis, mas dar pra encher as barrigas. Tenho uma novidade. — acarinhou o ventre. — Vem mais outro.

Eita boba! mais menino no mundo, Terê? — deu uma risada.

As crianças correram envolta deles.

— Meninos, cuidado!

Milton se aproximou da esposa e do cunhado.

— Dario!

— Milton!

— Pensei que tivesse morto. A Tereza me disse o que te aconteceu. E a tua menina?

— Tá em casa com mainha.

— Vai ficar de vez ou tá de passagem?

— Vou ficar de vez.

— É verdade que tu largou a vida da bandidagem?

— Sim, eu vou cuidar da minha fia.

— É o certo. Vai querer ajudar a distribuir as marmitas?

— Não, eu tenho que voltar pra casa de mainha porque a fia é minha e eu tenho que cuidar. Tchau.

— Tchau, Dario. — disse o casal quase ao mesmo tempo.

Dario caminhava em direção ao cavalo.

— Teu irmão é um caba invocado, porém, no fundo é um caba de respeito.

— Dario é uma das poucas pessoas que conheço que nunca se escondeu atrás de uma máscara ao contrário de você.

Tereza saiu deixando Milton em reflexivo.

De noite no bordel, no quarto Manuela estava nua na cama com Levi.

— Eu sempre fui apaixonado por tu. — a beijou. — Tu escolheu Cristiano…ele também era doidinho por você.

— Você se vingou…— o beijou. — valeu a pena?

— Valeu porque teu irmão vai carregar a culpa pela morte da mulé.

— Levi, não foi o suficiente ter matado o Romão?

— O teu pai.

— Sim. — andou até a penteadeira.

— A verdade é que terminei um serviço que era do Cristiano.

Manuela olhava para a gaveta da penteadeira.

— Qual?

Ele a abraçou por trás.

— Cristiano não queria mais ficar sob as ordens do teu pai e então pra ser chefe do bando resolveu que iria matar ele e o Dario, mas o vêio Romão foi experto e matou ele.

— O meu pai não foi contratado pra matar o Cristiano?

— Não, quem te disse isso?

— O Cristiano me disse quando estava morrendo no hospital.

— Ele mentiu pra você. — a beijou o ombro. — devia ter me escolhido, Manuela, estaria vivendo uma vida de rainha e não dentro deste cabaré sendo mulé de um e de outro. — a tomou um beijo.

Manuela sentia repulsa a cada toque de Levi em sua pele e controlava as lágrimas que insistiam em cair pela profunda dor de saber que o homem que amava a mentiu e a fez odiar por anos o seu pai e consequentemente ter caído na vida da prostituição.

Ao amanhecer, Levi deixou o bordel e no quarto se encontrava Manuela deitada na cama, nua e chorando entre os lençóis. Wandeca ao ouvir o choro dela, entrou.

— Patroa, tudo bem?

— Wandeca, o mundo está desabando sob mim.

— O que houve, patroa? — sentou na cama.

— Eu descobri que cometi o pior erro da minha vida…fui injusta com meu pai…— sentou. — Ele matou o Cristiano para salvar a vida dele e do Dario. O Cristiano iria matar os dois pra se tornar o chefe do bando.

— Patroa, eu sinto muito…

— Eu sou um lixo, fui capaz de deitar com o homem que matou o meu pai e minha cunhada.

— Eu te disse que não era uma boa ideia aceitar passar uma noite com aquele homem.

— Queria ter coragem de fazer o que pensei em fazer, mas eu não tive, fiquei com medo.

— O que a patroa iria fazer?

— Dentro daquela gaveta da penteadeira ter uma arma.

— Patroa!

— Eu sei que foi uma loucura ter pensado nisso, eu queria me vingar…

— Vingar do quê?

— A morte de Maria Rita…

— Esquece essa estória, patroa, levante tua cabeça e volte ser a mulher poderosa que é, a dona desse bordel.

— Ah! Wandeca, como eu queria poder voltar ao passado…— a abraça.

— Voltar ao passado é impossível, patroa.

Dario passava pela rua à caminho da fazenda Sertaneja quando na praça ouviu a conversa de quatro anciãos jogando dominó debaixo de uma árvore.

— Sabe o que todo mundo comenta?

— O quê?

— Que a fia do prefeito casou grávida de outro.

— Oxente, que conversa é essa, Biu?

— Tá o maior bafafá por aí é que o fio que ela tá esperando não é do marido e sim do Iago, o pistoleiro coisa ruim que o Zé Barbosa mandou matar.

Dario parou e retornou onde estavam os quatros anciãos.

— Repita, vêio, que conversa é essa que a fia do prefeito tá grávida do Iago?

— É o que tão comentando aí. Que antes do Iago partir dessa pra outra meior, deu uns pega na fia do prefeito a tal de Giovanna e deixou ela buchuda.

— A boca miúda do povo diz que foi o prefeito que mandou matar ele depois que o contratou pra matar o vereador JP Andrade.

— E aí, vai deixar barato, Dario? Não vai vingar a morte do teu primo?

— Vão procurar o que fazer seus vêios fofoqueiros. — saiu.

— Xi, afrouxou o caba.

Os anciões deram gargalhadas.

— É uma pena que não vamos ter o que comentar depois.

— Que nada. Tá sabendo do fio da dona Isaura?

— Quem o mais novo ou o mais vêio?

— O do meio tão dizendo por aí que é marica — riu. — nunca o viram com mulé.

Os anciões deram gargalhadas.

Ao chegar no casarão da fazenda, Dario encontrou Seu Félix na sala.

— Tu já se decidiu, sujeito?

— Já, pensei bem…Rita pedia pra eu largar a vida da pistolagem pra trabaiar com o senhor nestas terras. Eu vou aceitar por Rita e por minha fia porque essas terras também são dela.

— E a minha neta? Eu quero que ela venha morar comigo.

— Ela tá na minha casa e vai morar é comigo. Ou será do meu jeito ou não será.

— Tá, como você quiser. Eu tenho o direito de conhecer a minha neta.

— Amanhã eu trago ela pra cá.

— Então, Dario pra começar você vai ter que aprender o que é o peso de uma enxada e de saber laçar um gado para que vá evoluindo aos poucos e finalmente chegar a ser o meu braço direito. Vem comigo.

Seu Félix mostrou a Dario as plantações e os gados. Os dois pararam ao lado de uma plantação onde havia alguns trabalhadores arando a terra.

— Vai ganhar o mesmo salário dos peões. É pouco, mas é o justo.

— Isso é riqueza demais pra mim. — riu. — Quando começo?

— Quando você quiser.

Dario pegou uma enxada que estava encostada em uma cerca e começou a arar a terra junto com os trabalhadores repetindo o que eles faziam. Ele trabalhou até o anoitecer e retornou para casa.

No outro dia, na sala do casarão o Seu Félix conversava com Eugênia.

— O senhor está fazendo o certo, patrão, ensinar o Dario a cuidar das terras…

— Faço pela minha neta.

— Ela é tão linda, uma bonequinha.

— É cega?

— Aparenta que não.

— Menos mal. Menos uma preocupação.

— A Maria Isabel é tão esperta, o senhor quando ver vai ficar babando por ela.

De repente entraram Dario e Ester com Maria Isabel nos braços.

— Seu Félix, tô cumprindo o que prometi e trouxe Maria Isabé.

— Minha neta? Me dê ela aqui. Vem cá com o voinho. — a pegou no colo. — Como se parece com a mãe. — acalentou o bebê nos braços. — Maria Isabel, quando você crescer vai administrar essas terras, vai continuar o que construir. Me prometa, Dario, que vai ensinar tudo que sei. — olha para o genro.

— Sou homi de cumprir o que prometo, Seu Félix.

— O voinho Félix vai mostrar pra você a fazenda. — andou com o bebê para dentro do casarão.

— Eu tenho que trabaiar.

— Não se preocupe que vou ficar de olho neles. — disse Eugênia risonha.

— Eu vou para sala de aula, com licença. — falou Ester saindo junto com irmão.

Algumas semanas se passaram e aconteceu um abalo sísmico no bairro da Cajazeiras devido a extração de petróleo de uma empresa, os buracos das ruas abriram enormes crateras e o rio as invadiu inundando até os bairros adjacentes ocasionando mortes, famílias desabrigadas e comerciantes que perderam suas mercadorias e sem poder manter suas atividades. A cidade de Vila de São Cristóvão se tornou notícia nacional e chegou aos jornais internacionais.

Numa manhã, Dario cavalgava próximo as áreas e viu o cenário de destruição e as pessoas nas ruas desorientas, com fome e sede, então, ele teve uma ideia e subiu uma ladeira que levava para o final da cidade.

Ele chegou a uma imagem de padre Cícero já coberta pela vegetação, abriu uma tampa de baixo dos pés do santo, tirou um saco, abriu e havia dinheiro.

— Esse dinheiro foi uma parte que o Sargento me pagou pra matar Alfredo. — olhou para imagem. — Não há lugar meior de se guardar que de baixo dos pés de Padim Padi Cíço. Já sei como vou dar um destino.

Dario retornava cavalgando em disparada pelas ruas e jogava dinheiro para a população que corriam pegando as notas.

— Peguem! Oia! o dinheiro! Oia!

Após distribuir dinheiro pelas ruas, Dario retornou ao açude sentou de baixo da aroeira quando de repente chegou Alfredo.

— Dario.

— O que tu quer?

— Você andou sumido. Eu estava te procurando.

— Se tu vem com aquela conversa de livo sob minha vida pode esquecer…

— Dario, você é uma lenda nesse sertão e devia aproveitar a fama que tem e entrar na política.

— Pra quê? Pra morrer ou mandar matar? Prefiro tá como eu tô cuidando da minha fia e trabaiando na fazenda.

Oxe, virou gente descente foi? — riu. — tenho um serviço pra você.

— Eu não trabaio mais com isso.

— Vou te pagar bem é pra matar o fio da peste que anda se enxerido com Onélia.

— E tu virou o corno oficial? — gargalhou. — prove do teu veneno, macho. Não me meto mais com pistolagem e procure outro pra resolver teus probremas.

— Tem certeza?

— Tenho. — fez uma pausa — Sabe do Sargento?

— Ele tá solto, mas afastado. Se divorciou de Onélia e deixou pra ela uma pensão e a casa.

— E tu tá gostando disso, né? Aproveitando do que é do outro não só a mulé como também as coisas.

— Até acho que é se Onélia casar com esse amante vai ser bom pra mim porque volto pro meu lugar.

— O caba tem dinheiro?

— Muito, é um empresário que veio de Maceió.

— Tu gosta de viver do resto.

— Eu prefiro ser o locatário do que ser o locador, me entende, né?

— Macho, entender não entendo, a vida é sua e o probrema é teu.

— Bom, eu vou embora. Caso mude de ideia me procure seja pra ser matador de alugué ou político ou quem sabe os dois?

— Vá simbora e me deixe em paz. Vá!

— Ah! Antes de pega o beco, o livro que escrevi sobre a tua vida é um sucesso. Fui chamado pra dar uma entrevista lá em São Paulo. Não quer ir comigo? Meus leitores querem conhecer você.

— Vá pra baixo da égua com esse teu, livo, e não me apoquente mais!

— Dario, Dario, não negue o seu destino. — saiu.

Meses se passaram e Dario continuava a trabalhar nas terras da fazenda Sertaneja, quando um dia ele apareceu na sala de aula e encontrou sua irmã apagando o quadro negro.

— Possa entrar, Ester?

— Entre, Dario. A aula já acabou.

Dario olhava com receio à sua volta as carteiras e aquele ambiente que lhe parecia estranho.

— Ester…eu…queria saber…se tu pode me ensinar?

Ela se virou pra ele.

— Ensinar?

— Sim, a ler e a escrever…eu não seio nada…se não puder deixa pra lá.

— Dario, por favor, se sente. — apontou para uma cadeira em frente à sua mesa. — por que você quer aprender a ler e a escrever?

— Pela minha fia, eu não quero que ela tenha um pai burro.

— Que bom, Dario, é uma excelente motivação.

— Por Rita também. Ela morreu sem saber o que tem escrito nos livos da mãe. A bichinha era cega.

— Vamos começar. Será uma honra te ensinar a ler e a escrever, meu irmão. Pegue o lápis e o papel.

Ele pegou o lápis e o papel à mesa.

— Quanto tempo vou demorar pra aprender?

— Tudo no seu tempo, Dario, sem pressa.

Ester iniciou a dar aulas de alfabetização para Dario e por meses essas aulas se seguiram até que um dia ele conseguiu escrever seu próprio nome em um caderno.

— Parabéns, Dario, você escreveu seu nome!

— É assim que é meu nome?

— Sim!

— Foi eu mesmo que escrevi com a minha própria mãos e meu pensar.

— É o primeiro passo de muitos, irmão. Tô orgulhosa. — o abraçou.

Cinco anos se depois e Dario dividia sua vida entre os cuidado com seu filha Maria Isabel e seu trabalho na fazenda. Ele continuou os seus estudos e à medida que a menina crescia, descobria o mundo e entrava na fase dos porquês o pai na sua simplicidade tentava a explicar.

Em uma noite na varanda de sua casa estava Dario e a pequena Maria Isabel, de cabelos longos e negros, pele branca e olhos castanhos esverdeados como os olhos do pai. Os dois se encontravam deitados na rede, ela sentia os olhos pesar pelo sono sob o peito dele.

— Painho.

— Hum?

— Por que a gente não pode ir lá. — apontou para o céu coberto de estrelas. — onde tá a mainha?

— Por que não pode, Isabel. Um dia todos nós vamos nos encontrar.

— A mainha era bonita não era?

— Sim. — sorriu e acarinhou os cabelos da filha. — Tão bonita quanto você. — tocou no nariz dela. — Vamos dormir, filha, amanhã você tem aula. — beijou a testa dela.

Amanheceu e Dario antes de ir para a fazenda, aprontava Maria Isabel para ir à escola, ele a acordava, dava banho, a vestia o uniforme, a escovava os cabelos, alimentava e a levava para a aula, ele tinha satisfação de participar da vida da filha e atuava no papel de pai como também de mãe.

Sua irmã Ester e o marido se mudaram para outra casa, pois precisavam de mais espaço com a chegada do casal gêmeos. A dona do Céu já havia falecido há um ano e morreu de causas naturais em sua casa deixando seu filho caçula e sua neta Maria Isabel.

Na porta da escola, Dario deixava a filha que foi recebida por Ester.

— Boa aula, filha, e se comporte.

— Vou me comportar, painho.

— Ei, tá esquecendo de me pedir a benção?

— Bença, painho?

— Deus te abençoe, fia. — beijou a testa da menina e fez um sinal da cruz.

Maria Isabel entrou correndo na sala de aula.

— Bom dia, Dario.

— Bom dia, Ester. A Isabel está se comportando?

— Sim, ela é um amor e muito inteligente.

— Que Deus me dê muitos anos de vida pra ver minha filha doutora.

— Verá, irmão.

— Eu vou indo trabalhar. Qualquer coisa me chame.

— Pode deixar, Dario.

Vinte anos depois os raios do sol atravessavam os vidros da janela e iluminavam o escritório do casarão da fazenda e sob Dario que já era um homem de cinquenta e poucos anos, usava um terno branco, seus ouros, seus longos cabelos e a barba que possuíam fios grisalhos, que retirava um livro de dentro da estante e saiu.

No jardim havia uma multidão envolta de um grande pé de acácias-amarelas e Dario sentou em um banco à frente, abriu o livro e começou a ler.

— Ana Branca e Casemiro se beijaram naquele final de tarde debaixo do juazeiro que foi testemunha do amor entre eles que nasceu e se frutificou em seus filhos, na realização de seus sonhos em suas terras e das outras gerações que virão “porque ser feliz é uma escolha.”[1]fechou o livro. — esse é o fim do livro Senhora do Sertão.

As pessoas aplaudiam e se escutavam os burburinhos dos comentários sobre o desfecho do romance lido por Dario.

— Qual vai ser o próximo livro, Seu Dario? — perguntou um menino sentado no chão.

— Isso é surpresa. Quem sabe um romance lá do pantanal. — levantou. — Eu convido a todos a tomar um café. Podem se servirem e fique à vontade.

Havia uma mesa enorme e farta no jardim e as pessoas se serviam, um trio pé de serra começou a tocar quando de repente Dario escutou uma voz feminina.

— Painho?

Ele se virou e viu a filha, uma jovem que se parecia fisicamente com Maria Rita.

— Maria Isabel. — abraçou. — Filha! Que bom ver você.

— Faz um tempinho que cheguei na fazenda e eu estava escondida só ouvindo o final da estória.

— O que achou?

— Eu gostei, apesar de eu achar que Ana Branca deveria ter ficado com o vaqueiro Dagoberto. — riu.

Os dois caminhavam pelo jardim.

— Nem todo final é o que a gente espera.

— Tem razão, painho. Eu tenho muito orgulho do senhor pelo seu trabalho de tirar um pouco do seu tempo para ler as estórias para essa gente tão carente de comida e de cultura.

— Pelo menos esse povo esquece um pouco dos problemas quando escutam essas estórias. Quando eu estou lendo para eles é como se eu estivesse lendo para sua mãe.

Os dois pararam debaixo de um pé de acácias.

— Onde mainha estiver deve estar muito feliz de ver tudo isso.

— Filha, me perdoa.

— Perdoar do quê?

— Pela morte de sua mãe, aquele homem a matou para se vingar de mim e ele conseguiu me marcar com essa dor que vou carregar por resto da minha vida.

— Não há o que perdoar, painho. — acarinhou o rosto dele. — O senhor deu a minha mãe a coragem de sair do cabresto de voinho Félix, que Deus o tenha. — fez o sinal da cruz. — e conhecer o mundo lá fora.

— Eu fui um homem muito perverso e matei por dinheiro sem dor e sem piedade. Eu não devia ter me apaixonado por Maria Rita.

— O amor dos dois me deram a vida. — segurou as mãos dele. — eu já ouvir falar por aí do Dario, o pistoleiro mais temido do sertão de Alagoas, porém, eu só conheço um Dario que é o meu pai, um homem bondoso, um baita fazendeiro e excelente contador de causos e estórias. — riu.

— Esqueceu que sei fazer um bom café e dançar um arrasta-pé? Vem cá que eu te mostro. — puxou a filha para dançar ao lado de alguns casais.

No entardecer estavam Dario e Maria Isabel sentados no banco e debaixo do pé de acácias-amarelas e sozinhos.

— A festa tava boa.

— Como todas as suas festas. — fez uma pausa. — Painho, eu vim pra ficar.

— Você vai ficar, fia?

— Vou. — sorriu. — aqui tem muita gente precisando de uma boa médica.

Os olhos de Dario se encheram de lágrimas.

— O maior orgulho que eu tenho é ter feito minha filha doutora, eu prometi a tua mãe e cumpri. — segurou as mãos dela. — e o sangue que um dia tirou vidas é o mesmo que as salvará neste sertão.

 

 

FIM

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

[1] Trecho do livro Senhora do Sertão escrito pela autora Lyvia Peroba.

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