A graúna e o véu

 

 

Um raio de sol travessou um ramo das acácias-amarelas e tocou na face de Dario que se aproximava de Maria Rita quando de repente alguém o surpreende o puxando pelo braço e era Eugênia, uma senhora que trabalha há anos na fazenda, de estatura baixa, com um lenço estampando no cabelo, pele negra e vestia um vestido florido. Ela puxava Dario para o outro lado da varanda.

— O que tá fazendo? — olhou nervosa para longe onde estava Maria Rita e depois voltou a olhar para ele.

— Nada.

— Como nada? Eu vi tudo e tu não se atreva a se aproximar da menina Maria Rita.

— Cedo ou tarde ela vai me ver.

— Ela é cega.

— Cega? Não ver nadinha?

— Nadinha. A bichinha é cega de nascença e o Seu Félix não a deixa nem colocar os pés lá fora. A vida da pobrezinha é viver presa nessa fazenda.

— Ela é bonita por demais. — deu alguns passos se afastando e depois parou a olhar a jovem.

— Bonita ela é, mas tire os olhos dela porque Seu Félix não vai gostar de saber que você de olho no que é dele.

— Eu só quero dar uma olhadinha. Não é todo dia que…— encostou na árvore. — se ver um anjo neste inferno.

— Te cuida, caba, não queira arrumar problemas com o Seu Félix e depois não diga que não te avisei. Ora, menino cheio das presepadas. — saiu.

De repente na janela da sacada do casarão apareceu Seu Félix com um olhar imperioso e neste momento Dario decidiu disfarçar seu interesse por Maria Rita e ficou a observá-la de longe.

Anoiteceu nas terras da fazenda Sertaneja e no mato estavam Seu Romão e Iago em volta de uma fogueira.

— Espero que Seu Félix pague tão bem quanto pagou a gente pra matar os miseráveis dos retirantes. — falou Iago deitado no chão.

— Seu Félix paga bem e não te preocupe com isso. — falou Romão sentado ao lado da fogueira e comendo um pedaço de carne enrolado no espeto de pau.

Iago olhou para Dario que se encontrava em pé e um pouco distante.

— O que foi primo? Tá pensando na morte da bezerra? — riu.

— O que houve, Dario? Por que está aí pensando na morta da bezerra? Não vai comer, caba?

— É coisa minha das minhas particularidades. — sentou ao lado do pai.

— Seu Félix me pediu pra ir com ele até a cidade hoje pela manhã e o maior comentário que Quirino morreu.

— O quê? Como aquele diacho morreu, pai?

— Ele se matou.

— Por que se matou, tio?

— Dizem que foi porque não aguentou a morte do fio. O homem perdeu o juízo e se matou. Ele se enforcou em uma árvore igual Judas.

— O caba devia muito revoltado pra fazer algo assim de se matar. — disse Iago.

Seu Romão olha para Dario que se levantou.

— Iago pega mais carne pra assar. — ordenou o tio.

Dario caminhou até o seu cavalo e Seu Romão o seguiu.

— Dario! Fio!

— O que foi, pai?

— O que tu tem a ver com a morte do Quirino?

— Não tenho nada a ver, painho. — guiou o cavalo ao bebedouro. — Ele me contratou pra matar o Raimundo da borracharia por causa de coisa besta e aí pra me pagar o resto tirou o dinheiro dos remédios do fio, então, o fio piorou e veio me pedi que eu matasse ele e recusei. — falava de costas para o pai.

— Então, o fio morreu, ele não aguentou e se matou. É, a culpa é uma das piores fraquezas do homi.

— Nunca sentiu culpa, pai?

— E eu sou algum caba fraco? — deu uma gargalhada. — Qual culpa eu devia sentir, fio?

— Culpa por matar. — se virou para o pai. — Nunca sentiu?

Seu Romão encarou o filho.

— A única culpa que eu tenho é ter deixado teu irmão morrer de fome. — o encarou por alguns instantes e depois saiu.

Dario observou seu pai retornando para ao redor da fogueira.

— O infeliz do Quirino ficou fraco das ideias e se matou, oxente, probrema dele. Minha cabeça lá na morena, na minha ceguinha e eu ainda vou te mostrar ela, viu, Catamarã? Você vai ver ela e vai concordar comigo que parece mais que um anjo.  — falava com o cavalo e acarinhava sua crina.

De manhã nas terras da fazenda Sertaneja, Dario continuava a fazer a sua ronda de forma discreta e observava Maria Rita no mesmo lugar do dia anterior. Ele pisou em um galho caído no chão e chamou atenção da jovem.

— Quem está aqui? — levantou assustada.

Dario surpreso ficou em silêncio.

— Fale quem é? Eu sei que tem alguém aqui.

— Desculpa, eu, dona.

— Quem é você?

— Dario.

Ao vê-la a sua frente, Dario, percebeu o quanto a beleza de Maria Rita era algo pudico, porém, mantinha aquele traço da sensualidade que ansiava a descoberta. Ele olhou em seus olhos castanhos opacos e confirmou o que Eugênia o falou sobre sua cegueira.

— O que faz nas minhas terras?

Antes que Dario a respondesse surgiu Eugênia imediatamente sob tensão por vê-los juntos.

— Ele é o meu sobrinho que te falei. Dario, veio passar alguns dias, mas logo vai voltar para casa dele. — olhou sério para o rapaz.

— Me lembro que você falou do seu sobrinho.

— Dario, eu quero que você venha a cozinha, pois preciso que me ajude.

— Não, Eugênia, deixa o Dario ficar um pouco. Não é ele o seu sobrinho que é noviço?

Dario olhava confuso para Eugênia.

— Já que painho não me deixa sair de casa sozinha para ir à igreja me confessar com o padre, então, pode ser que Dario me ajude, já que em breve será um.

Eugênia e Dario ficaram nervosos sem saber como contornar aquela situação.

— Dario ainda não é padre e talvez não…

— Não se preocupe que eu posso ficar um pouco com. Como é mesmo que a dona se chama? — fingiu não saber o nome dela para manter o disfarce.

— Maria Rita.

— Sim, com Maria Rita.

— Por favor, Eugênia, me deixe sozinha com Dario.

Eugênia não queria ir, mas acabou os deixando sozinhos.

— Me dê suas mãos.

Ele aproximou as mãos sob as mãos dela que de repente as seguraram, as levaram até seus lábios e as beijaram. Os lábios de Maria Rita eram como duas pétalas de um rosa ao tocar no espinho de uma palma[1].

— Por que beijou minhas mãos?

— Ora, não é assim que se cumprimenta os padres? Sei que ainda não é um, mas preciso de um conselho.

Ela tocou levemente as mãos ásperas de Dario.

— Senta aqui comigo. — o apontou para o banco.

O casal se sentou.

— É tão difícil aparecer alguém por aqui. Me sinto tão sozinha nesta fazenda que as vezes parecem ser mais terrível essa solidão do que a escuridão dos meus olhos. Não sei se percebeu que sou cega.

— Sim, percebi e nem parece que tu é cega. Quem ver nem nota. — riu.

— Eu nasci assim. Bom, já que você é quase um padre, eu queria te confessar um desejo. Eu sei que é pecado ter desejos, é que esse cresceu dentro de mim e não consigo mais o controlar.

— Qual?

— Desejo ir embora dessa fazenda. O painho diz que me quer presa aqui pra poder me proteger, e eu não quero ficar. Eu não sou feliz aqui, não sou. — mostrou uma afeição de angústia.

— Se você quer simbora por que não vai?

— Sou cega, se eu pudesse ver as coisas poderiam ser diferentes. Me diz o que devo fazer? Estou cometendo algum pecado? Qual santo eu devo rezar?

— Pecado? — coçou a cabeça. — Santo? — levantou. — Eu não sei de nada disso não, dona, oxe. — riu.

— Pelo jeito eu não tenho saída, eu tenho é que me contentar é viver enfornada nessa fazenda. Ah! se eu tivesse uma chancezinha de sair pelo menos para sentir um ar fresco lá fora.

— Se a dona quiser eu posso te levar lá fora.

— Painho não vai deixar, ele nunca deixa…

— Quem te disse que ele vai saber? — falou próximo do ouvido dela. — isso fica entre a gente. — olhou nos lábios dela como se quisesse devorá-los.

— Quando?

— Hoje de tardezinha, o que acha?

— Eu tenho medo.

— Medo do teu pai pegar a gente? Não tenha medo não, ele nem vai perceber que a dona saiu, pode confiar.

— Não sei se é uma boa ideia, eu não quero que painho descubra e faça alguma malvadeza com você.

— É mais fácil eu fazer com ele.

— O que disse?

Dário percebeu que quase se revelou.

— A dona quer tanto ir lá fora não é?

— Quero. Então…eu vou.

Dario sorriu com ares de vitorioso.

— De tardezinha a dona me aguarde.

— Pra aonde vai me levar?

— É surpresa, mas não carece da dona ter medo, sou respeitador e sei que é moça de família.

— Antes de ir, não vai me abençoar?

— Abençoar? — a olhou receoso.

De repente Eugênia surgiu de longe.

— Dario!

— É melhor eu ir, a Eugênia está me chamado. A gente se ver mais tarde. — saiu com pressa.

Maria Rita não compreendeu a reação de Dario em não querer abençoá-la, mas ele apesar da sua ignorância sabia que seria um sacrilégio sua alma assassina se atrever a abençoar uma alma límpida como de Maria Rita. Aquele cenário dos dois ali sentados no banco de baixo das acácias-amarelas seria como se ele fosse uma raposa disfarçada de ovelha, o seu disfarce de noviço, a capturar as uvas, neste caso seria a Maria Rita. Onde será que Dario que chegar em querer infringir as regras de Seu Félix ao levá-la para fora da fazenda? O que havia era o desejo de Dario por Maria Rita que o levou pela primeira vez a tomar uma escolha individual estando em ação do seu serviço como pistoleiro e isso para ele se torno algo inédito mesmo ainda não percebido.

De tarde no jardim, Maria Rita esperava aflita por Dario.

— Dario.

— Como sabe que sou eu?

— Por sua respiração.

— É mesmo?

— Sim, como não enxergo eu consigo sentir melhor o cheiro das coisas e ouvir também.

Vamo? — segurou na mão dela.

— Painho?

lá no mercado. Vamo aproveitar só um instantezinho ir lá fora.

Maria Rita afirmou expondo um sorriso e seguiu de mãos dadas com Dario passando pela porteira da fazenda onde estava Catamarã, o seu cavalo. O casal cavalgou pela estrada a caminho do açude.

— Que lugar é esse?

Ele a desceu do cavalo.

— É um açude, essa é a minha segunda casa. Desde menino que venho aqui e fico de baixo daquela árvore. — apontou para a Aroeira.

— Me leve até ela.

— Ah! me lembrei que tu não enxerga. — a conduziu.

Ela tocou no tronco.

— Tu não enxerga nadinha mesmo?

— Não. Eu nasci assim, e não acho que tenha muita diferença com quem enxerga de verdade. Só me responda como você é noviço e fica nesse açude?

— É que…

— Dario, você não é noviço é coisa nenhuma e com certeza também não é sobrinho da Eugênia.

— Lascou, Diacho! eu vou falar a verdade me cansei de ficar fingindo. Você tem razão não sou essa coisa que você disse e nem parente da Eugênia.

— Suas mãos são ásperas demais para quem vive contando os terços. Quem você é Dario?

— Você é muito esperta. — riu.

— Pra você ver que não é o porque sou cega que não iria perceber que você e Eugênia mentiram pra mim. Me leve pra casa agora! Quem é você? O que quer comigo? — começou a chorar assustada.

— Calma, Rita, calma. — segurou o rosto dela. — Não tenha medo. Teu pai me contratou pra vigiar você.

— Por quê?

— Por causa de uns cabas que querem invadir a fazenda. Seu pai me pediu que eu não me aproximasse de você, mas…

— Você se aproximou! Quebrou as regras de painho e ele pode te matar por isso e ainda me deixar enclausurada num convento como a santa.

— Que santa?

— Santa Rita de Cássia. A mainha era devota dela por isso me colocou o nome de Rita.

— Ah! Você também quebrou as regras. Você veio porque quis e não veio arrastada. — falou próximo do ouvido dela.

— Aqui tá calor. — se afastou envergonhada.

— Vem cá. — a puxou pela mão em direção ao açude.

— Pra onde está me levando, Dario?

— Pro açude.

Ele a conduz para dentro do açude, ela demonstra certo temor.

— É fundo?

— Não muito. Não precisa ter medo, ceguinha, confie em mim.

— Vai acabar molhando minha roupa.

— No instante seca. Aproveita, Rita, aproveita que talvez amanhã não tenha mais essa chance de sair de casa.

Dario e Maria Rita entraram no açude e depois ficaram um de frente para o outro.

— Obrigada por tudo que está fazendo por mim, Dario.

— Não carece agradecer não.

— Preciso porque esses anos todos ninguém se importou comigo. Painho apenas…

— Rita. — tocou levemente os lábios dela com um dedo. — Não pense agora no teu pai. Pense…

— Em nós? Por que veio a mim, Dario? Teve pena?

— Não sei. Não acho que foi pena e por que teria?

— Por eu ser cega e sozinha?

— Queria você pra mim antes de saber que é cega e muito menos que vive trancada naquela fazenda igual um passarinho na gaiola.

— Você me quer pra você, Dario?

— É o que mais eu quero. — tocava nos lábios dela. — beijar tua boca, Rita, só penso nela a toda hora.

— Por sorte que você não é noviço, aliás, o que faz além de me vigiar?

— Se você souber vai me odiar e vai ter tanto medo de mim, Rita.

— Dario, por favor, não quero mais mentiras.

— Eu sou um matador, é o que chamam de matador de alugué, de pistoleiro, assassino.

— Não…não pode ser. — demonstrou afeição aterrorizada.

— Sim, essa é a verdade, Rita.

— Me leve pra casa agora!

Anoiteceu e no casarão da fazenda, Eugênia caminhava pelo corredor quando ouviu um choro vindo do quarto de Maria Rita.

— Menina Maria Rita? — abriu a porta. — O que aconteceu? — entrou.

A jovem estava sentada na cama e chorando.

— Eu já sei de tudo, Eugênia. Que Dario não é seu sobrinho noviço e que painho o contratou pra me vigiar por causa de invasores.

— Desculpa por ter mentido pra você, e aquele atrevido não devia ter se aproximado.

— Eu gosto dele.

— O quê? Que bobagem é essa que tu tá dizendo, Rita?

— Gosto e ele gosta de mim, ele me disse.

— Ave Maria! Sabia que isso não iria dar certo.

— Ele também me disse o que faz..que é um pistoleiro, um matador de aluguel. Por que tinha que ser assim, Eugênia? Me apaixonei por um bandido, um assassino?

— A fia ainda é nova e sabe nada do mundo…

— Não sei porque painho me proíbe de sair. Sou cega e não louca. Não posso viver a vida toda trancada nesta fazenda igual um monstro. O Painho tem vergonha de mim por eu ser cega.

— Não diga essas coisas. A menina são os olhos do Seu Félix.

— Eu amo o Dario.

— Como ama alguém que conheceu hoje?

— Não sei explicar. Eu o amo e mais aumenta a minha vontade de ser dele.

— Menina, cuidado, todo desejo tem um preço.

— Pois acho que vou pagar qual preço for para ser mulher de Dario.

— Tem certeza que quer ser mulé de pistoleiro? Isso não tem futuro não, fia, oxente.

— Vou ser dele.

— Meu Deus! Não faça isso, fia.

— O amo.

— Pense antes.

— Sinto um calor pelo meu corpo quando penso e estou com Dario. — passava as mãos pelo corpo com desejo.

— Se refresque e tome um banho gelado que as ideias voltam pro lugar.

— Me deixe sozinha, Eugênia.

A empregada saiu atordoada com as declarações de Maria Rita que estava completamente seduzida pela novidade. A vida eremita da jovem havia tomado um novo rumo com a chegada de Dario.

Na manhã posterior, Dario e Maria Rita se encontravam deitados na beira do açude e de mãos dadas.

— Pensei que não queria mais saber de mim, Rita.

— Não parei de pensar em você a noite toda só lembrando da tua voz, do toque da sua pele e do seu cheiro de aroeira.

— Aroeira? — deitou por cima dela e deu uma risada breve. — Deve ser porque a árvore é uma aroeira. Às vezes nem parece que tu é cega.

— Você respira tão forte, Dario, está sempre agitado como se o seu coração fosse sair pela boca. — tocou levemente sob o peito dele.

— Eu estou em alerta a todo momento até quando durmo. Quem faz o que faço nunca pode sossegar.

Maria Rita expôs um semblante sério.

— O que você tem pra me fazer cometer a loucura de querer ser sua, mesmo sendo quem você é?

— Nunca fui bom nessas coisas de sentir. Achava que isso de querer uma mulé fosse de homi besta, de homi frouxo. Com você eu fui capaz de quebrar a minha regra.

— Qual?

— De querer você pra mim, Maria Rita.

— Eu também te quero, Dario, e quero ser tua.

— É o que tu quer é?

— Sim, é o que mais quero. — sorriu.

Dario a beijou e aos poucos a despiu. Maria Rita se deixou envolver com cada beijo e o tocar das mãos grandes e ásperas de Dario em sua pele lívida e virginal. Chegou no instante que entre suas pernas a graúna atravessou o véu e se escuta o grito fino do cortar da senda anunciando ali a descoberta do prazer mais íntimo de ser uma mulher. A graúna se cobriu de sangue e os corpos dançavam em frenesi enquanto sussurros, suores e as areias trazidas pelo vento os cobriam até que o ritmo se tomou aos poucos lento e seus corpos retornaram a lucidez. Dario desabou ao seu lado e suas respirações tentavam se restabelecerem.

— Tu é minha mulé agora. Vou te levar comigo pra onde eu for, Rita.

— Painho não vai deixar…

— Teu pai não tem o que querer. Ele tem que ser caba muito macho pra mim enfrentar.

— Dario, não quero que faça algo contra painho. Não vou suportar os dois se matando por causa de mim.

— Há de ter um jeito, Rita, teu pai tem que aceitar porque não sou homi de tirar a pureza de mulé e não querer assumir ela.

— Só por isso que você vai enfrentar o painho?

— Não. — a beijou. — Te quero como minha mulé. Eu vou levantar uma casinha, te colocar dentro e te encher de meninos.

— Você vai continuar nesta tua vida de bandido?

— Vou.

Maria Rita ficou pensativa.

— É do que eu vivo. Se não trabaiar a gente morre de fome.

— Podemos viver com o que tenho. Talvez painho…

— Não, Rita, não sou homi de querer se aproveitar do dinheiro e dos bens da mulé. A gente vai viver do que posso te oferecer.

— Não seja tão orgulhoso, Dario, só acho que essa vida de pistolagem não é vida para nós dois e nem para nossos filhos.

— Eu sou o homi e decido as coisas. Vai ser assim ou cada um vai pro seu lado e acabou.

— Não, Dario, eu não quero ficar longe de você. — a beijou. — te amo.

— Aceite as coisas como são, Rita, eu te dou minha palavra de homi que não vou deixar nada faltar de dentro de casa. — a beijou.

Maria Rita demonstrou um semblante de preocupação porque a razão bateu a porta e trouxe com ela o preço de ter se entregado a Dario. Será que ainda era cedo para saber se ela o amava? Poderia o sentimento de Maria Rita ultrapassar a vida de pistolagem escolhida por Dario ou não? Respostas essas que só o tempo dirá.

Chegou a noite e Dario entrou no casarão da fazenda, olhou a sala principal constituída com móveis coloniais e uma longa escada de madeira maciça com acesso ao primeiro andar. Passou pelo corredor e no final havia um oratório com imagens barrocas de santos católicos, ele fez um sinal da cruz e entrou no corredor a direita quando ouviu a voz de Seu Félix vindo do escritório.

— Eu pedindo só alguns dias, será que não pode ter um pouco mais de paciência, oxente? — deu um soco na mesa.

Dario discretamente observava pelo vidro da porta do escritório onde viu Seu Félix e um padre que se chamava Jarbas, parenta uns quarenta anos, de cabelos negros e lisos, olhos castanhos que pareciam que penetravam a alma para sentenciar os pecados dos fiéis sem que eles precisassem ter lhe dito uma palavra. Ele usava uma batina preta, um relógio e um crucifixo de ouro, demonstrava ares de quietude e, ao mesmo tempo uma dose de vaidade, era um sacerdote bem quisto na cidade. Os dois estavam sentados à mesa e em pé atrás do sacerdote haviam dois capangas.

— Não dá mais pra esperar, Seu Félix, o senhor apostou no cavalo errado e perdeu a fazenda. Já estou sendo paciente demais acho que nem o profeta Jó teria tanta paciência como estou tendo com o senhor. Pague o que deve a igreja.

— Eu não posso perder essa fazenda é a única coisa que tenho.

— O problema é do senhor que não devia andar fazendo apostas e ser mais inteligente invés de ter colocado essa fazenda em cheque.

— É o sujo falando do mal lavado, hein, padre? Pelo que eu saiba jogos de azar é pecado principalmente para um homem que se diz ser servo de Deus como o senhor.

— É muito diferente. Apostei na vaquejada em favor da minha igreja, digo, da igreja do Senhor. — levantou as mãos. — O prazo é daqui a dois dias. — voltou olhar para o fazendeiro e abaixou as mãos. — Se não sair dessa fazenda por bem vai ter que sair por mal. Recado dado. — levantou. — Vamos rapazes.

Padre Jarbas saiu escoltado por seus capangas e Dario se escondeu rapidamente ao lado de uma cristaleira antiga.

— E agora o que eu faço? Não posso entregar essa fazenda de mãos beijadas para esse padreco. Não posso! Meu Deus tenha misericórdia desse infeliz que sou eu. — o fazendeiro juntava as mãos em aflição.

[1] Palma é uma espécie de cacto.

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