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— Dario! — enxugou as mãos com um pano e se aproximou do irmão. — Não acredito que é você. — o abraçou. — Onde tu andava, menino?

— Nos serviços por aí. Tu não deu mais as caras com os meninos lá em casa.

— É que você sabe que o Milton não gosta de que os meninos fique perto de você e de painho.

— Acha certo isso? Teus fios vevé longe da tua família por causa dele? É engraçado que o Milton antes de virar pastor só vevia em casa enchendo o meu juízo e de painho atrás de dinheiro pra comprar cachaça.

Tereza retornou para a pia e continuou a lavar os pratos.

— Essas coisas são do passado. O Milton hoje é um homem de Deus.

Dario percebeu um hematoma no braço direito da irmã.

— O que diacho foi isso no teu braço, Tereza?

— Nada não, foi eu atroada que bati em algum canto.

Ele ficou atrás dela e falou próximo ao seu ouvido.

— Espero mesmo que seja verdade porque se tu tiver escondendo que aquele fio de rapariga do Milton está batendo em você de novo…

— O que vai fazer? — virou-se pra ele. — Hein? Você não vai fazer é nada. Não se meta, Dario. Me deixe resolver minhas coisas sozinha.

— Tu não resolve é coisa alguma e até parece que gosta de apanhar de caba safado. Esse fio da molesta tem sorte que ainda não pegue ele batendo em você porque se eu pegar mato ele! — deu um soco na mesa. — eu mato!

— Não quero desgraça na família! Não quero! Vá simbora, Dario, vá antes que tu dê de cara com o Milton e comece a confusão.

— Cadê ele?

— Na igreja. O que vai fazer?

Ele seguiu em direção a porta.

— Ter uma conversa.

— Deixe o Milton quieto! Não se meta, Dario!

— Se cuida, Tereza. — saiu.

Ela viu o irmão subindo no cavalo.

— Não se esqueça que tu tem sobrinhos. Não faça as coisas com a cabeça quente.

Dario parou, respirou fundo e saiu em disparada. Em algumas quadras dali havia uma pequena igreja evangélica onde naquele momento o Milton realizava o culto em frente ao púlpito e falava ao microfone. Ele era uma figura típica do fiel com o passado tenebroso que encontrou na religião uma forma de se redimir de seus pecados, porém não bastava se arrepender e ser mais um na multidão de ovelhas. O Milton tinha um olhar mais ambicioso e estimulado pelas primeiras horas da paixão e é esse o acontecimento avassalador de quem é abatido na fé ao Criador, entretanto o tempo se faz a figura do questionador que desafiará o fiel em muitas vezes em duvidar se aquele sentimento era apenas um êxtase repentino ou se converterá em amor ao divino.

A visão dele o fez se achar o lugar de representante de Deus ao se tornar pastor e na tentava de seguir o que manda o figurino, que apesar do calor infernal em Vila de São Cristóvão, vestia um terno marrom, uma blusa social branca e uma gravata vermelha que marcavam sua sudorese por debaixo dos braços e pescoço, sapatos pretos envernizados, em uma mão segurava uma bíblia aberta e na outra o microfone prateado e descascado com um fio longo que percorria por todo o palco. O indivíduo tinha uma estatura baixa, pele branca com bochechas roseadas devido aos seus ímpetos durante as pregações, cabelos lisos e castanhos, olhos negros e aparentava uns quarenta e poucos anos. Outro detalhe que não poderia deixar passar é o comentário sobre a grossa aliança de casamento que ele tinha orgulho de mostrar e talvez seja essa a forma de demonstrar que sua fidelidade se estendia não somente a Deus como também a sua esposa Tereza.

— O crente precisa estar com Deus! Por que sem Ele! — olhava para o alto. — Não há salvação! Não há!

— Amém! Aleluia! Aleluia! — gritaram os fiéis.

De repente um ruído agudo vinha do equipamento de som e alguns fieis incomodados com o barulho tamparam os ouvidos.

— Assim como o apóstolo Paulo, eu também fui descrente! Eu virava a noite e o dia na cachaça e a maioria dos irmãos já ouviram eu dizer o meu testemunho, mas um dia o Senhor me chamou, me levantou daquela cova e hoje estou aqui em honra e glória do Senhor Jesus! Amém?

— Amém! Aleluia! Glória a Deus! — gritaram os fiéis.

Logo, Dario parou na porta da igreja, desceu do cavalo e Milton o viu.

— Vejam irmãos. — apontou para a entrada da igreja. — Vejam. — começou a chorar.

Os fiéis olharam para a porta e enquanto Dario entrava.

— Deus opera milagres! Aleluia!

— Aleluia!

Dario notou que todos olhavam para ele.

— O que foi, diacho? Tão olhando tudo pra mim por quê?

— Irmãos, esse é Dario, o meu cunhado, essa criatura é a prova de que Deus é capaz de chamar um assassino à sua casa e transformar a vida dele. Aleluia!

— Aleluia! — gritaram os fiéis.

— O céu se abre! — abriu os braços e olhou para o alto. — Dario se converta ao Pai enquanto é tempo antes que chegue o juízo final!

Milton começou a pronunciar umas palavras incompreendidas e a pular no palco assim outros fieis faziam o mesmo que ele, já Dario olhava confuso com aquela cena que parecia mais um surto de histerismo coletivo do que um louvor íntimo e natural.

— Que presepada é essa, oxe? Tá é tudo doido. — olhava ao redor. — Quer saber? Eu vou parar com essa palhaçada. — puxou o cunhado pela gola da camisa para fora da igreja.

— O que você está fazendo? Me solte! Eu sou um servo de Deus! Sou um pastor e você tem que me respeitar como se respeitavam os profetas.

— Cala a boca, cachaceiro de araque! Tu vai aprender a parar em bater em Tereza.

— Que loucura é essa que tu tá dizendo?

— Não se faça de besta comigo. — tirou a arma que estava no cós das calças e apontou pra cima.

— Ele está armado! Ele tá com o capeta no couro! — gritou um fiel.

Os fiéis começaram a gritar desesperados.

— Não mate o pastor Milton! Por Deus não faça isso! Pelo amor de Deus não nos matem! — gritaram os fiéis.

— Você está possuído pelo tinhoso! Eu ordeno que saia do corpo de Dario em nome do Senhor! — colocou as mãos na cabeça do cunhado.

— Tá apertando a minha cabeça, miséria! Oxente! Me solte!

— Sai tinhoso! Sai!

Milton segurava a cabeça de Dario, os dois se desequilibraram e acabaram caindo no meio da igreja enquanto os fiéis alguns gritavam assustados e outros falavam línguas totalmente estranhas e rodopiavam.

— Olha o que tu fez, seu merda. Me derrubou! Chega de loucura! Perdi a paciência. — levantou e deu um tiro para o alto. — Calem a boca!

Os fiéis ao redor olhavam assustados para Dario e apenas um ancião continuava a rodar.

— Ei! Alguém pare esse vêio aí que esse rodar dele me tira atenção das ideias que vou falar. — ordenou o pistoleiro.

Uma jovenzinha segurou o ancião.

Voinho, pare de rodar, pare.

A neta o conduz o avô à cadeira de plástico e o ajuda a sentar.

— O vêio roda igual a roleta do puteiro da Manu. — deu uma risada e apontou a arma para Milton.

— Faça o que tu veio fazer, Dario. — ajoelhou. — Atire em mim, vai atire. — abriu os braços. — Porque será uma honra morrer como os apóstolos do Senhor. Assim como Jesus disse a Judas, eu também te digo que faça o que tenha que fazer. Atire! Atire logo, Dario! — levantou o rosto e fechou os olhos.

Na casa do jornalista Alfredo, na varanda estava Onélia que fisicamente aparentava ter a idade por volta dos quarenta anos, cabelos longos negros e ondulados, usava um batom vermelho, um vestido preto camurça com um decote avantajado, uma bolsa de mão de couro vermelha e um sapato preto com o salto alto.

— Alfredo! — bateu na porta. — Alfredo! Alfredo!

Ela pegou o celular dentro da bolsa e fez uma ligação, mas ninguém atendia, afinal o pistoleiro havia quebrado o celular do jornalista.

 — Será que aconteceu alguma coisa com ele, meu Deus? — pegou a chave dentro do decote e abriu a porta.

Onélia se assustou ao ver Alfredo amarrado numa cadeira e amordaçado com um pano.

— Alfredo! Quem fez uma derrota dessas? — entrou e o tentava desamarrar.

Ele quando a viu Onélia ficou agitado.

— Quem te fez isso? Quem? Pobrezinho do meu love lindo. Como vou te tirar daqui?

Retornando a cena da igreja onde Milton estava de joelhos e com braços abertos esperando levar um tiro de Dario na frente dos fiéis. O pistoleiro continuou apontando a arma para o pastor.

— Tu é o capeta em pessoa. — disse uma anciã.

— Se eu sou o coisa ruim, ele também é. Eu pelo menos não escondo que eu sou um matador de alugué enquanto esse aí metido a pastor pode enganar vocês, mas não engana à Deus não.

— Lave tua boca imunda ao falar o nome de Deus! — gritou Milton.

— O que tu tá querendo dizer? — perguntou um fiel.

— O Milton continua o mesmo cachaceiro de sempre e quando tá quente bate na mulé.

Os fieis começaram a falar surpresos com aquela revelação.

— Mentira! Você não passa de um mentiroso, Dario! — levantou.

— É a verdade. Eu vi a roncha que tu deixou no braço dela. — o pegou pela gola da camisa e colocou a boca da arma no rosto dele. — Eu vou te dá esse último aviso se tu se atrever a bater em Tereza de novo e eu descobrir vou te matar, seu infeliz!

— Você está possuído! É o instrumento do pai da mentira! Não acreditem nele!

— É você que mente! Mente para esse povo fingindo ser gente descente e por de baixo dos panos na verdade é um safado e um covarde! Quer se meter a valente? Procure um homi e não a minha irmã Tereza. Me enfrenta, seu fio de rapariga! — deu um soco nele. — Da próxima vez vai ser uma bala na tua testa. — saiu.

Os fiéis olhavam assustados com aquela cena, o pastor se encontrava no chão sentindo a dor do soco no rosto.

Na sala da casa de Alfredo, a Onélia pegou uma faca e o desamarrava.

— Quem será que contratou esse pistoleiro pra te matar, love lindo? — o beijou.

— Suspeito que tenha sido o Sargento. Ele pode ter descoberto o que há entre nós dois.

— Pode ser. — sentou no colo dele e o beijou. — O Sargento anda muito estranho ultimamente. — colocou os braços envolta do pescoço do amante. — Ele viajou de repente e disse que vai passar uns dias em Penedo onde mora a família dele.

— Vamos fugir, Onélia? Deixa toda essa vida aqui em São Cristóvão, deixar para atrás o Sargento e viver nosso amor em outro lugar?

— Que lugar? — o beijou. — Se fugirmos o Sargento vai nós achar.

— O que vamos fazer?

— Vamos matar.

— O Sargento?

— O pistoleiro.

— Não, não, é muito perigoso e podemos ser presos por isso.

— Meu love lindo, quem vai sentir pela morte dele? É mais fácil as pessoas nos agradecerem por ter tirado um bandido de circulação.

— Onélia, esse pistoleiro não é qualquer um, ele é o Dario.

— Dario? — surpresa.

— Sim, o Dario.

— O pistoleiro mais temido do sertão de Alagoas? Uau! O Sargento se aliou ao inimigo para matar você, ele não tá de brincadeira.

— Não está mesmo. O Dario quase me matou.

— Por que não matou ainda?

— Ora, ele quer que o ensine a ler e a escrever e depois disso vai me matar.

Onélia deu uma risada.

— Que interessante. O pistoleiro quer que sua vítima o alfabetize para em seguida a matar. Nunca vi algo parecido. Essa mente assassina precisa ser estuda. — riu.

— Você ri porque não é com você. Esse cara pode me matar a qualquer momento.

— É por isso que vamos dar um jeito nisso ainda hoje, porém antes vamos matar essa saudade que tô de você, meu love lindo. — o beija.

Meia hora depois, Dario desceu do cavalo, abriu a porta e viu Alfredo ainda amarrado na cadeira, entretanto, avistou uma calcinha vermelha nos pés do jornalista.

— Que presepada é essa? — agachou e pegou a calcinha.

De repente Onélia saiu de trás da porta, agarrou Dario pelas costas e colocou a ponta do canivete em seu pescoço.

— Não se mova pistoleiro de araque senão corto tua garganta.

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