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Um filho para Sarah – Capítulo IV

Capítulo IV

Onofre trouxe o médico de Porto de Galinhas. Ele examinou a Senhorinha do D’Ouro por cerca de meia hora, receitando vitaminas e descanso. Disse não haver gravidez, que Sarah estava com menstruação desregulada. Depois pediu para que a mulher evitasse comidas gordurosas e banhos demorados.

_ Ela vai ficar bem _ o médico entregou um frasco de comprimidos para Pedro. _ Dê um por dia pela manhã. Não deixe que faça montaria por 15 dias. _ ele tocou nos ombros do Senhorzinho _ E lhe dê sossego, rapaz. Fique longe dela por no mínimo 10 dias.

Pedro assentiu com a cabeça sem muita convicção.

O médico os deixou sozinhos no quarto. Sarah ouviu a conversa, mas não dera assunto para o Doutor. Havia um bebê dentro dela. Podia senti-lo quanto tocava o ventre. Agora não havia mais nada. Ele se foi com o sangue de sua menstruação.

_ Você ouviu o que o médio disse: precisa de descanso _ Pedro segurou uma de suas mãos.

As lágrimas escorreram no travesseiro. Sarah não queria conversar.

_Preciso ir até a Fazenda Três Irmão resolver algumas coisas. Vai ficar bem sozinha com Onofre?

Ela soltou um suspiro de reprovação

_ Volto pela manhã. Vou trazer as coisas que você gosta.

Sarah sorriu. Não adiantava argumentar com ele.

_ Quero que faça amor comigo quando voltar.

_ 10 dias, querida, são as ordens do médico.

Sarah mordeu os lábios. Claro que não esperariam por 10 dias. O relógio biológico dela era um bichinho carpinteiro apressado. Já o de Pedro, tão incansável quanto gafanhotos no milharal. Eles se amariam assim que ele voltasse da viagem.

Passavam das três horas quando Pedro deixou-a aos cuidados de Onofre. Os negros continuavam com a cana, e o peão Sandro se livrara dos corpos da senzala.

_ Isso é coisa do tinhoso, do tinhoso! _ dizia enquanto botava fogo em Vassoura.

 Apenas Pedro, Sandro e Onofre sabiam da verdade sobre os mortos, de como tudo acontecera. Ninguém fez perguntas. Acreditaram no que o Senhorzinho contara, sobre o teto da senzala. Negros eram descartáveis como cachorros vira-latas: sentia-se a falta deles por um tempo, mais depois esquecia-se  até seus nomes. Eram apenas pretos. Tão insignificantes quanto a sola furada de um sapato.

***

Bem longe da Fazenda do D’Ouro, Josué prendia sua matula no jegue. Pernoitara no mato, para seguir viagem antes do sol nascer. A fazenda Três Irmãos ficava ao leste do Porto, um caminho longo em meia à caatinga. Um pingo de chuva molhou sua barba ruiva. Não se importava com a água. A mulher que deixara em casa gostava de dar filhos para ele, porque tinha dentes limpos e cheiro de melaço. Sempre fora assim, desde pequeno. Era bem-apessoado e de boa falácia. Não seria difícil arranjar aquele emprego. Tão fácil quanto mastigar fumo.

Deixando às cinzas da fogueira para trás, pegou o caminho mais íngreme – mesmo sabendo que seu jegue era de pouca lida, que ainda precisava de treinamento. Se conseguisse o emprego, alimentaria sua mulher e os três filhos por um bom tempo. Só precisava chegar lá inteiro, sem nenhum osso quebrado. Havia poucos caçadores de negros por aquelas bandas, e ele era um dos melhores.

O jegue refugou quando viu a neblina. Josué estranhou a passagem escura na caatinga. Já passara por aquelas bandas antes e nunca vira mudança no tempo. Sempre a mesma secura nas árvores e o sol quente na cabeça. Ele estapeou o jegue rumo ao nevoeiro que se estendia pela serrania mais à frente. O animal caminhou cabreiro, arredio, soltando baforadas pelo nariz. Quando avançou na bruma, o vento soprou forte, esparramando folhas e poeira. Josué apeou, com medo de que o jegue o derrubasse no chão. A neblina atrapalhava sua visão e o vento soprava forte na matula. O animal de pouca lida sobressaltou assustado quando do uivo de um lobo. Josué soltou as rédeas para segurar o chapéu. O jegue se afundou na bruma, sumindo das suas vistas. Por um tempo praguejou sua má sorte. Não tinha como continuar sem seus mantimentos. Teria que voltar para casa e aceitar a derrota.

_ Diacho! – Praguejou, batendo seu chapéu nas pernas.

Josué esperou pelo sol. Ele não veio. A neblina continuava sobre ele.

Sem saber o caminho certo, deu meia volta nos calcanhares. O uivo do lobo vinha de tempos em tempos, assustando as aves nas árvores. Só que não havia árvores. A caatinga havia sumido. Só sentia o chão árido nos pés e o vento na cara. Nada mais que isso. Josué não era homem covarde. Não proferia credo e nem fazia orações. Só acreditava no que via. E não existiam lobos naquelas glebas. Era o sol forte afundando seus miolos e fazendo-o ouvir coisas. Já presenciara neblina antes, mas não na caatinga. O que estava acontecendo naquelas terras não lhe dizia respeito. Era da natureza, e não do Coisa Ruim. Ele deu de ombros para seu infortúnio e continuou pisando firme no chão. Quando caminhou alguns metros, tropeçou em algo grande, duro e gosmento. Josué precisou se afundar no melaço para entender que aquilo era sangue. Seu jegue de pouca lida encontrava-se com as vísceras esparramadas pelo chão.  Josué se assustou com o uivo da besta. Ele tentou ficar de pé, mas escorregou nas tripas do animal. O barulho ficou mais próximo, exalando um cheiro de ovo podre. Mesmo sem saber que direção tomar, correu em meio a neblina, sem saber para onde ir, e muito menos se chegaria vivo. Dessa vez o uivo veio cadenciado, como numa matilha. Josué estatelou os olhos quando fora arremessado ao chão por uma pata poderosa. Algo sufocava seu peito e quebrava seus ossos. Os uivos finalmente engoliram o dia. Avistava-se os olhos vermelhos da criatura em meio a bruma.

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