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Um filho para Sarah – Capítulo V

Capítulo V

O dia amanheceu chuvoso na Fazenda do D’Ouro. Onofre desgostava dos urubus que sobrevoavam a plantação de cana de açúcar.  O que estava morto lá não era da fazenda. Os negros estavam na senzala, sendo vigiados por seus homens. O que tinha lá viera de fora, trazido pelo tempo ruim. Talvez fosse um carcará, ou até mesmo um cachorro do mato.  Um gato selvagem? Sabe-se lá. O capataz não ficaria na dúvida. Iria até lá para enterrar o maldito e evitar a carniça.

Com o chapéu enterrado na cabeça, chamou por dois dos seus homens:

_ Sandro e Pardinho – Gritou sisudo, com a chuva molhando suas roupas. – Vem comigo até a plantação.

_ O que aconteceu acolá, sinhô? – Pardinho apertava as mãos de encontro ao peito. _ Ninguém da Senzala foi pra lá, tamo vigiando.

_ Quero espantar os urubus. Traz o enxadão do Zé.

_ Sim sinhô.

Onofre aprumou seu cavalo, enquanto os outros o seguiam a pé. A chuva soprava um vento frio na cara dos peões, embaçando a vista e fazendo com que escorregassem na lama.

_ Diacho!

O capataz não deu assunto para o mau tempo, queria ver o que estava apodrecendo naquelas glebas. Pelo furdunço dos urubus, era algo grande, de tripas frescas.

Não havia sinal de briga no canavial, o que morrera viera arrastando de longe, esparramando sangue. Onofre olhou em volta, para os pés de cana. Ele coçou a cabeça. Depois do acontecido da senzala, ficara cabreiro com o D’Ouro. Já fora um homem de fé, mas nos últimos anos deixara isso de lado. Só que de uns dias para cá, reaprendera o Pai Nosso.

_ Seu Onofre, Seu Onofre _ a voz era de Sandro. _ corre aqui!

Pardinho vomitava mais à frente. O cheiro de carniça estava começando a se esparramar pela plantação.

_ O que foi, homê? Por que tá tão destemperado?

Ele apontou para o chão alguns metros a diante.

_ O que tem lá? _ Onofre não queria ver a porra de um carcará com as tripas para fora.

_ Acho melhor o sinhô dá uma olhada _ Sandro cuspiu no chão. _ Eu acho melhor chamar o Sinhô Pedro também.

Onofre apeou do cavalo. Toda vez que via uma varejeira lembrava de Berenice e de seu corpo murcho. Aquilo trazia de volta o que tinha no estômago.       Alguns urubus planavam bem baixo, outros mastigavam pedaços de carniça. Pardinho vinha logo atrás dele. Não era homem de refugar. Havia um trabalho para ser feito enquanto o enxadão descansava nas suas mãos.

Onofre quis se aproximar para ter certeza do que via ao lado de um jegue morto. O animal servia aos urubus, mas o homem de barba ruiva ainda respirava.

_ Sandro! _ Gritou com o chapéu nas mãos.

_ Pois não, sinhô.

_ Vá buscar o Sinhozinho Pedro _ Onofre pegou seu lenço no bolso. _ Fala pra ele que temos um ‘probreminha’ aqui.

***

Pedro chegou de madrugada. Não quis acordar Sarah. Sentia-se cansado e indisposto para o sexo. Quem não ficaria viajando de carroça por aqueles rincões? Por outro lado, a mulher dormia tranquila, sem os atropelos dos últimos dias. Que continuasse assim pelo menos até o amanhecer. Com um pouco de descanso, voltaria a ter ânimo para se enfiar nela novamente.

Assim que pegou no sono, alguém bateu na porta.

_ Sinhozinho, sinhozinho!

Pedro reconheceu a voz de Sandro. Que diabo queria aquele cabra? Nunca lhe dera asas para que batesse na sua porta. O que Onofre estava fazendo que não colocava freios nos seus homens?

Pedro vestiu as mesmas roupas de viagem. O homem o esperava com seu chapéu de palha nas mãos.

_ O que foi? _ Pedro fechou a porta do quarto. _ Cadê Onofre?

_ Ele pediu para que chamasse o sinhozinho _ Sandro amassava as abas do chapéu. _ Tem um ‘probrema’ na plantação.

_ Diacho! _ Pedro desceu as escadas. _ Espero que seja alguma coisa importante.

_ É importante, sinhozinho. O Patrãozinho a de ver com seus próprios olhos. Se eu contá, capaz do sinhô não acreditar.

_ Ai, ai, ai.

Pedro não arriou um cavalo, quis ir caminhando. Estava com os ‘quartos’ doloridos. Suas ancas não aguentariam uma montaria. Encontrou Onofre amuado num canto, com um lenço no nariz. Pardinho cavava um buraco do outro lado, bem longe da cana de açúcar.

_ O que aconteceu? Que seja importante.

Pedro renegou o cheiro de podre.

_ Encontramo ele logo cedo.

O capataz mostrou o jegue. Suas vísceras foram arrancadas por garras poderosos.

_ O que tem isso? Provavelmente um cachorro do mato o atacou. Se já mandou pardinho enterrá-lo, por que me chamou?

_ Não foi pelo Jegue, Sinhô, vem cá no canto.

Um homem agonizava no chão. Havia marcas de arranhões nas suas costas e pescoço. Ele ainda respirava, mesmo depois do frio da madrugada.

_ Meu Deus! O que aconteceu com esse cabra?

_ Foi atacado pelo mesmo bicho que comeu o jegue.

_ Misericórdia! _ Pedro fez o sinal da cruz.

_ O que o sinhô vai fazer com ele? _ Onofre tirou o lenço do nariz.

_ Esse aí é o Ruivo _ gritou Pardinho da cova. _ Um caçador de nego. Eu reconheci pela barba. Mora do outro lado do Porto. Não sei como veio parar aqui.

Onofre virou-o de costas. Ainda respirava. Precisava de cuidados na ferida, talvez até de um médico.

_ Vamos levá-lo para sede _ Pedro pediu para que Sandro trouxesse o cavalo de Onofre – Lá decido o que fazer com ele.

            Pardinho olhou para o céu.

            _ É meió a gente se apressa. Vem chuva braba por aí.

            Pedro ajudou-os com o Ruivo. O danado fedia a ovo podre.

***

            Sarah puxou o travesseiro de Pedro para perto do rosto. Ele havia voltado ou ela sonhara com isso? As coisas pareciam confusas. A cortina impedia a luz de entrar, deixando o ambiente mortiço. Sentia frio, mesmo com o suor escorrendo nas axilas.

Na lassidão do quarto, conseguia escutar o barulho na sala. Um burburinho estranho, um balançar nas portas. Talvez fosse o vento. A chuva trazia sons e mistérios.

            Sarah vestiu seu roupão de frio. Não havia roupas de Pedro esparramadas pelo quarto, sinal que não havia voltado. Ela desceu as escadas; a boca retorcida num bocejo e os olhos espremidos numa linha fina. Sentia sono, mas precisava se levantar e tomar um banho. Sem as escravas da cozinha, tinha coisas para se fazer. Precisava conversar com Onofre, seriam mais duas negrinhas para a Casa Grande. Pedro não se mostrou interessado em ajudar, então ela tomaria para si a responsabilidade de escolhê-las. Também era dona da fazenda, e não renunciaria a seus mimos por causa do açúcar.

            A sala estava escura e ventava forte do lado de fora. O café da manhã não fora posto, e não havia luz vindo da cozinha. Sarah procurou pelo relógio no canto da antessala. Ele marcava meia-noite. Ela olhou pela janela confusa. Apesar do clima soturno, o dia amanhecera. Ela deu de ombros para o atraso nas horas. Talvez o relógio precisasse ser levado para o Recife. Desde a morte de seu pai, não recebia uma boa regulagem.

O barulho de um copo sendo quebrado veio da copa. Provavelmente Conceição acordara atrasada, e na pressa de preparar seu desjejum, quebrara um copo.

            _ O que devo fazer com você, Conceição?

            A escrava mais velha do D’Ouro fora de seu pai. Com a morte dele, fez parte do espólio da família.

            _ Vistes Pedro chegar?

            Outro copo veio ao chão. Sarah franziu a testa. Conceição era desajeitada, mas não ao ponto de quebrar dois copos na mesma manhã.

            As lamparinas não tinham sido acesas. Somente a luz de fora iluminava o corredor. Sarah viu alguém de cócoras na dispensa.

            _ Conceição? O que aconteceu? Vistes Pedro chegando?

            O escravo cego lambeu os dedos sujos de sangue. Sarah se assustou, caindo para trás. Sua boca regurgitava moscas e pedaços de carne. Vassoura se alimentava das vísceras de um jegue. Seus dentes eram finos como de um predador. Ele sibilou para ela, que tentava sair da cozinha.

            _ O que desejas? Pedro! Pedro!

Vassoura se arrastava pelo chão com um caranguejo. Ele saltou sobre ela. A mulher tentou voltar para a cozinha, escorregando nos vincos do chão. Os insetos já estavam sobre ela quando sentiu o respirar da besta no cangote.

            _ A Senhorinha vai receber sua prenda. Quando o mestre chamar, se deite com ele.

            Sarah se estreitou pelo corredor, mas tropeçou na sujeira da cozinha. Quando conseguiu ficar de pé, fechou à porta.

            _ A Senhorinha é mulher tenaz _ a besta falava com ela da dispensa _ mas não pode fugir do seu destino.

            Uma lufada derrubou-a no chão. A besta pulou novamente sobre ela, apertando seu pescoço com as mãos.

            _ Vai receber o que pediu de bom grado _ o sorriso de dentes finos se misturou ao cheiro de enxofre. _ Quando Deus não dá, nóis dá.

            A besta lançou-a no ar. Copos e talheres rolaram pelo chão, facas a mantinham grudada no teto. As pernas de Sarah se abriram pela força do vento. Ela tentou juntá-las, forçando o joelho contra a força que a mantinha inerte. Um redemoinho de marimbondos entrou pela janela da cozinha, esparramando o que restara nas prateleiras da despensa. Elas voaram para cima de Sarah com num enxame de abelhas.

_ Não! – A Senhorinha do D’Ouro remexia braços e pernas na tentativa de se soltar Nãooooooo!

Os insetos entraram por seu sexo para preencher seu útero vazio.

            _ Ahhhhhhhh!!!!

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