Cyber trends – com Alessandro Fonseca

 

Oi meus amores!

Como estão?!

Hoje o nosso programa será um pouco festivo. Teremos arlequins, colombinas e muita purpurina!

Já sabem o que é?

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Sim! Hoje vamos falar de carnaval! Mas, acalmem-se. Carnaval não é só folia, fritação, pegação, pular carnaval. Hoje vamos falar especificamente dos desfiles de escolas de samba.

Mas, porém, devemos nos lembrar que os desfiles de escolas de samba não é só o que vemos na Televisão, com as pessoas fantasiadas pulando na Avenida Marquês de Sapucaí e vários destaques luxuosos nos carros alegóricos. Os desfiles de escolas de sambas envolve todo um trabalho em conjunto por milhares de pessoas nos bastidores dos barracões das agremiações carnavalescas, há a escolha do enredo, como ele será desenvolvido na avenida, a escrita dele, a palestra que os carnavalescos (responsável pela a arte plástica da escola nos quesitos fantasias e alegorias e adereços) dará a ala de compositores, onde eles estarão por dentro do enredo e produzirão sambas para concorrer nas disputas de sambas, onde um samba será escolhido e se tornará o samba-enredo oficial da escola no ano seguinte.

Ufa! Mas calma que não acabou!

Depois que o samba é escolhido, a escola imediatamente já começa os ensaios de canto da comunidade e desfilantes na semana seguinte, enquanto os carnavalescos ficam produzindo as fantasias e alegorias no barracão da escola na Cidade do Samba (Local onde as escolas de samba produzem os seus carnavais). Passa-se um ano e no ano seguinte, antes do dia dos desfiles oficiais das agremiações carnavalescas, as escolas fazem seus ensaios técnicos na Marquês de Sapucaí, para averiguar novos erros ou onde estão para resolvê-los.

Isso é apenas um pouco do que eles fazem. Da festa carioca, que é a mais famosa do mundo. E tem certos prefeitos que usam da fé dos evangélicos para atacar uma festa que traz tantos retornos financeiros aos cofres públicos. Acusam o carnaval de subtrair verba pública da saúde, educação, segurança, infraestrutura, entre outros. E, com isso, professa a sua fé e quer censurar uma festa do povo, só porque o seu “Deus” é contra o carnaval. Isso é só desculpa para enganar as trouxas da igreja dele, dizendo que é o “Arauto de Deus”, o “Bispo”. Para mim, isso é um malandro de quinta categoria, um diabo vestido de santo, um aproveitador da fé alheia.

Bem, atualmente temos algumas escolas que já conquistaram vários campeonatos no Grupo especial. Dentre elas, a maior campeã do carnaval é a Portela com 22 campeonatos. Em seguida vem Mangueira com 20 (Atual campeã de 2019) e Beija-flor de Nilópolis com 14 campeonatos (Minha escola de samba de coração).

Lista dos anos que elas conquistaram seus títulos.

Portela – 1935, 1939, 1941, 1942, 1943, 1944, 1945, 1946, 1947, 1951, 1953, 1957, 1958, 1959, 1960, 1962, 1964, 1966, 1970, 1980, 1984 e 2017.

Mangueira – 1932, 1933, 1934, 1940, 1949, 1950, 1954, 1960, 1961, 1967, 1968, 1973, 1984 (campeã), 1984 (supercampeã), 1986, 1987, 1998, 2002, 2016 e 2019.

Beija-flor – 1976, 1977, 1978, 1980, 1983, 1998, 2003, 2004, 2005, 2008, 2011, 2015 e 2018.

Salgueiro – 1960, 1963, 1965, 1969, 1971, 1974, 1975, 1993 e 2009.

Império Serrano – 1948, 1949, 1950, 1951, 1955, 1956, 1960, 1972 e 1982.

Imperatriz Leopoldinense – 1980, 1981, 1989, 1994, 1995, 1999, 2000 e 2001.

Mocidade Independente de Padre Miguel – 1979, 1985, 1990, 1991, 1996 e 2017

Unidos da Tijuca – 1936, 2010, 2012 e 2014.

Unidos de Vila Isabel – 1988, 2006 e 2013.

Unidos do Capela † – 1950 e 1960.

Estácio de Sá – 1992

Prazer da Serrinha † – 1950

Recreio de Ramos † –  1934

Unidos do Viradouro – 1997

Vizinha Faladeira – 1937

 

De tudo já esclarecido, vamos ao que interessa. Os enredos são textos que descrevem e deixa claro cada setor do desfile que a escola fará no ano seguinte no dia dos desfiles. Eles descreve o que será tocado, falado e posto. Quer ler os enredos e conhecer mais um pouco do que as escolas de samba do grupo especial do Rio de Janeiro irão pôr na Avenida Marquês de Sapucaí em 2020?

Enredo das escolas para o carnaval 2020 (Por ordem alfabética)

G.R.E.S. Beija-flor De Nilópolis

Enredo:Se essa rua fosse minha”

Carnavalescos: Alexandre Louzada e Cid Carvalho

Departamento de Carnaval: Bira, Léo Mídia, Rodrigo Pacheco e Victor Santos

Diretora Cultural: Bianca Behrends

Diretor Cênico: Anderson Müller

Diretor de Carnaval: Dudu Azevedo

Diretores Gerais de Harmonia: Simone Sant’Anna e Válber Frutuoso

Mestres de Bateria: Rodney e Plínio

Rainha de Bateria: Raíssa de Oliveira

Mestre-Sala e Porta-Bandeira: Claudinho e Selminha Sorriso

Comissão de Frente: Marcelo Misailidis

Presidente: Ricardo Abrão David

Presidente de Honra: Aniz Abrahão David

 

Introdução, sinopse e Enredo

Introdução

 

A nossa história é uma estrada percorrida e, certamente, imensurável, pela qual ainda temos tanto a caminhar…

​. Desde que o homem se pôs de pé, ereto sobre a terra, ele iniciou a sua extensa jornada migratória em eras imemoriais, quando os glaciares serviam de ponte, unindo os continentes. Sua natureza nômade o fez se lançar ao desconhecido, numa peregrinação, inventar trilhas na mira do horizonte e se espalhar, seguindo adiante, pelo mundo afora.

Desde as tribos andarilhas até o apogeu da civilização, com a invenção da roda, assim viajou a humanidade. Encurtou distâncias, traçou rotas, desbravou a terra, delimitou fronteiras ao vencer obstáculos. Arriscou-se, de forma aventureira, nas encruzilhadas do tempo e enfrentou os desvios do destino, estando à sorte na vastidão de incertezas, de abismos e labirintos, de caminhos e descaminhos, a percorrer as vias da vida do por vir, nas idas e vindas dessa história, estrada sem fim.

​A Beija-Flor de Nilópolis, no decorrer de sua trajetória, ao enveredar por inúmeras viagens a lugares mágicos, em voos lúdicos nos sonhos de carnaval, escreveu o seu caminho, a sua linda história de esplendor e conquistas, de alegrias e lágrimas, deixando, assim, um legado de glórias.

​Hoje, a “Deusa da Passarela” vem passear pela jornada épica da humanidade, ela que todo ano toma para si uma Rua, a Marquês de Sapucaí, como se fosse sua, para encantar e contar uma história, traçando nela o seu plano de voo sambista para mais uma vez nos deslumbrar, “ao ecoar o som de um tambor” e fazer derramar, outra vez, “um festival de prata em plena pista”.

 

Sinopse

 

​. Sob o véu da noite que nos envolve agora, céu e chão num turbilhão de estrelas, firma meu samba nessa encruzilhada, o seu ponto de partida, a esquina onde dobram sonhos de tantas vidas, onde os destinos são traçados na mágica Rua, na Rua do Marquês, que também é minha, é sua. Na hora em que a avenida se ilumina, a Lua, despida, torna-se vazia e então, para brincar o carnaval, põe-se a vestir-se de fantasia.

​Laroyê! Peço licença às entidades, bênçãos e passagem aos que nos regem do além e peço que nos iluminem com seu rastro de luz, nos guiem e nos façam brilhar também.

Hoje, meu “Pássaro Encantado” vem beijar o chão que pisa, ele, que é tão bem acostumado, vem contar mais histórias de rumos, rotas, trajetórias, caminhos e estradas por onde a humanidade passou.

Pelas vias riscadas na terra, minha gente por elas atravessou. Ainda sem fronteiras, conheceu reinos de Âmbar, de Prata, de Ouro e de Seda, seguindo os passos dos aventureiros viajantes com que o vasto mundo interligou. No balanço das ondas, bravos navegantes nos caminhos do mar aberto, ao sabor do vento, com o saber dos astros que apontam para o oriente, partiram, pois, navegar foi preciso rumo ao Cabo das Tormentas, destino impreciso que, por sua vez, acalma o oceano e conduz os viajantes ao Novo Mundo. Mundo por tantas lendas afamado, com tantos sonhos acalentados, de impérios longínquos, de tesouros escondidos, de estradas esculpidas no topo do mundo, de um mágico reino chamado Eldorado.

Eis que nova terra então se revela. No facão que fere a mata verdejante e impunha a bandeira donatária, ao desbravar a trilha dos índios, se faz Estrada Real, da Vila Rica, em chagas abertas no chão de onde brotaram ouro e diamantes, para a Corte de Portugal. E a nobre cidade sagrada, à São Sebastião, cobriu o barro de seus becos e vielas de pedras assentadas, pisadas por pés de moleques.

​Ruas que assim também se fizeram rumos de devoção, estradas de passos peregrinos, “Paços” de milagres, andanças de louvação, vias dolorosas de flagelos e martírios, caminhos de pedidos e promessas, de graças e de perdão, no andar com fé em procissões e romarias, que seguem andores e altares, de Josés e Marias, no fervor das tochas e velas que acendem almas e corações.

​Ruas sem fim que contam histórias. Ruas que conhecemos sem sequer passar por elas. Ruas do mundo afora que são cartões-postais, ou que simplesmente são lembradas por quem nelas moram. Ruas de desejos, de saudades, de lembranças de seus recantos e encantos. Ruas de todo canto, sejam elas as mais belas ou aquelas que nos atraem, simplesmente pelo seu vem e vai. Sejam elas a avenida elegante de Paris ou de Nova York, sei lá, talvez uma mão inversa de Londres ou “El Caminito”, em Buenos Aires, para “un tango bailar”; ou, melhor ainda, aquelas onde a brisa sopra de um “eterno cantor” em suas ondas ao quebrar, que espalham beleza e calor, nas calçadas famosas onde se declara amor à “Princesinha do Mar”.

Mas, afinal, são estradas fantásticas, lendárias, de se ouvir falar, ou, melhor, são elas talvez frutos que só a imaginação alcança, tão impossíveis de se chegar. Para que isso aconteça, basta querer e sonhar. E por que não deixar se levar nessa viagem que a mente pode criar, seja pela Via Láctea passear, ou a Torre de Babel alçar, e a morada de Deus visitar. Ou, quem sabe, desafiar a mitologia e, no Labirinto do Minotauro, a tão desejada saída encontrar; ou, talvez, num passe de mágica, na estrada de tijolos de ouro, no final do arco-íris, poder chegar.

Enfim, são tantos caminhos a percorrer, tantas estradas que se mostram naturais, virtuais ou do destino, estradas da vida de cada um de nós. Mas eis que chega ao fim essa viagem. É aqui o caminho do sonhar, na Rua das Ruas, a razão desse meu caminhar, onde mora nossa missão de vida, onde o samba escolheu habitar e de onde o meu povo chega de seu próprio caminho vindo do seu lugar. É a Rua de Todos no seu momento de por aqui passar. Mas, agora, é a minha hora, a minha vez de lhes mostrar que essa Rua, nesse instante, é só minha e, como o sonho me permite, essa Rua eu vou ladrilhar com pedrinhas de brilhantes para o meu Beija-Flor voar.

Alexandre Louzada e Cid Carvalho

G.R.E.S. Estácio de Sá

Enredo: “Pedra

 

“A pedra, para o ser humano, representa a permanência do tempo. A camada externa e dura da Terra, a rocha.

A beleza sólida desse material é a essência de nosso planeta. E foi essa beleza sólida que nossos ancestrais usaram como caminho para registrar suas passagens pelo mundo.

Descobriu-se a beleza dos diamantes, de tantas pedras preciosas ou semipreciosas e do ouro. Foi esta uma das primeiras atividades de exploração dos homens no Brasil, mais precisamente em Minas Gerais, no século XVIII. A partir de 1771, criou-se a Real Extração, sob o controle da Coroa portuguesa, decreto que durou até mesmo depois da Proclamação da Independência. Foram as primeiras pedras que trilhamos no nosso caminho.

E vamos seguir pela estrada de Minas, pedregosa…

O poeta Carlos Drummond de Andrade nasceu e cresceu em Itabira, em Minas. Da janela de seu quarto, costumava observar o perfil montanhoso cujo destaque era o pico do Cauê.

‘’chego à sacada e vejo minha serra, a serra de meu pai e meu avô, a serra que não passa … essa manhã acordo e não a encontro britada em bilhões de lascas…”

Fora-se a Pedra, engolida pelo enorme trem, fora-se a pedra do poeta.

Outro escritor mineiro, Guimarães Rosa, enfocou “a biodiversidade do cerrado e o relevo constituído pelo calcário, rocha maleável e moldável pela ação das águas. O Morro da Garça só emite recados porque é uma pirâmide no meio de Minas e de uma história imemorial do garimpo, da pecuária, dos boiadeiros viajantes e da surda vidência sertaneja. ”

Outra pedra que faz parte do nosso caminho é a Serra dos Carajás. Recebeu o nome de seus antigos moradores – os índios Carajás. Segundo suas crenças, eles nasciam do interior do solo – solo rico e pedregoso, repleto de grutas. Quando nasciam, saíam desse mundo subterrâneo para ir habitar a superfície.

A região é uma pedra enorme toda feita de ferro, e em seu entorno nascem pequenas cidades. Segundo uma artesã do Centro Mulheres de Barro, na cidade de Parauapebas, surgiram muitos conflitos por aquele rico pedaço de chão.

A própria cidade é um amálgama de pessoas vindas de todos os cantos do Brasil. Vêm do Norte e do Nordeste, do Sul e do Sudeste, vêm do centro e vêm do Leste. Todas sonhando em extrair daquela terra as muitas riquezas que ela guarda. E acabam também formando uma amostra da variedade do povo brasileiro.

A rocha mais antiga que conhecemos uma lasca com pouco mais de dois centímetros, foi coletada na Lua pelos astronautas da nave Apollo. Tem quatro bilhões de anos.

A nossa Terra, vista da Lua, ainda é linda, azulzinha… até quando?

 

Rosa Magalhães

 

BIBLIOGRAFIA CONSULTADA

 

Cosmologia e Sociedade Karaja – Andre Amaral de Toral – Universidade Federal do Rio de Janeiro – Museu Nacional – 1992 – pags 145 a 162.

Pedra – O Universo Escondido – Denise Milan – S. Paulo – Bei Comunicação – 2018

Maquinação do Mundo – Drummond e a mineração-Wisnik, José Miguel – 1a. edição-S. Paulo – Companhia das Letras- 2018

Peret, João Américo – Mitos e Lendas Karajás – Rio de Janeiro 1979

A margem do projeto ferro carajas-uoma pequena contribuição a história social e cultural de Parauopebas 1980 – 2009 Rocha, Avon Jose Araújo.

A história de Parauopebas Força e Trabalho em Carajá -Miguel Angelo Braga Reis – 2016”

G.R.E.S. Grande Rio

Enredo: “Tatalondirá – O canto do caboclo no quilombo de Caxias”

 

“APRESENTAÇÃO

 

Jorge Amado, Obá de Xangô, escreveu, em Bahia de Todos-os-Santos:

“Porém nenhuma macumba é tão espetacular como essa da roça da Gomeia, ora Nagô, ora Angola, candomblé de caboclo quando das festas de Pedra Preta, um dos patronos da casa. Nos ritos nagôs, os santos do pai de santo da Gomeia são Oxóssi e Iemanjá; do pai de santo Joãozinho da Gomeia ou da Pedra Preta, um maravilhoso bailarino, digno de palcos de grandes teatros. Esse caminho de São Caetano, que leva à estrada difícil da Gomeia, é percorrido por quanto artista, quanto escritor e quanto sábio passa por essa cidade. Sou ogã desse candomblé, levantado por Iansã”.

Roger Bastide, um dos mais influentes sociólogos do século XX, explicou:

“Essa coexistência não deixa de causar certa confusão: não haveria oposição entre o caráter do orixá e o do caboclo que disputam a mesma pessoa? Joãozinho da Gomeia responde a essa dificuldade estabelecendo uma série de correspondências entre orixás e caboclos (o mesmo tipo de correspondência, aliás, que se estabeleceu entre os orixás e os santos do catolicismo), de modo que o mesmo ‘poder’ é que, com nomes diferentes, possuiria a mesma pessoa. ”

E Abdias do Nascimento, em texto para o Quilombo, relatou o seguinte achado:

“Caxias se transformará num grande, imenso quilombo. Seu povo é todo negro. Cada fundo de casa é um terreiro, em cada encruzilhada se topa com um despacho pra Exu. Não é sem motivo que já chamaram Caxias de ‘Roma sem torre de igrejas…’ (…) Era dia de São João em Caxias. Os terreiros embandeirados; o lugar dos atabaques ocupado pelos músicos (…). Nos Cartolinhas de Caxias a festa transcorreu animadíssima. (…). Dançamos também no terreiro do famoso pai-de-santo Joãozinho da Gomeia, que, apesar de ser filho de Oxóssi, é um fervoroso devoto de São João. ”

É com as bênçãos dos deuses apregoados que o GRES Acadêmicos do Grande Rio, nas águas correntes do sonho, levará ao asfalto sagrado uma história dos Brasis profundos. Um olhar para o nosso passado e para o legado de um líder negro, homossexual e nordestino, bailarino que ousou dançar com o poder instituído e enfrentou, queixo alto e voz potente, as navalhas do preconceito. A comunidade de Caxias se veste para o xirê: cheguem todos, vamos juntos! Nas tintas de Djanira, nos retratos de Pierre Verger!

 

Saudemos, unidos, Joãozinho da Gomeia!

 

SINOPSE DO ENREDO

 

Tata Londirá

O Canto do Caboclo no Quilombo de Caxias

Chega de violência, sofrimento e dor

O pelourinho ainda não findou para os ocultos opressores da nação.

Martins, Adão Conceição, Barberinho, Queirós, e Nilson Kanema

– Águas claras para um rei negro

Pandeiro quando toca

Faz Pedra Preta chegar

Viola quando toca

Faz Pedra Preta sambar

Baden Powell e Vinícius de Moraes –

Canto do Caboclo Pedra Preta

 

Rio é orixá, vento é inquice, maré é vodum, pedra de riacho é encantamento de bugre.

Luiz Antonio Simas – A morada do rei dos índios

Okolofé!

Xetruá! Maromba Xeto!

Jurema, Jibóia, Peri, Jupiara, Flecheiro, Jaciara, Aimoré, Tupiaçu, Campina-Grande, Cobra-Coral, Sete-Flechas, Sete-Encruzilhadas, Girassol, Sultão-das-Matas, Guiné, Jaguará, Pena-Branca, Araranguá, Tabajara, Cachoeira, Tupaíba, Rompe-Mato, Guaraná, Mata-Virgem, Sete-Estrelas, Folha-Verde, Treme-Terra, Tira-Teima, Tupinambá, Ubirajara, Águia-Branca, Ventania, Arranca-Toco, Vira-Mundo… em verde, vermelho e branco, as cores dos seus cocares.

 

Em verde, vermelho e branco, as cores que nos irmanam.

Sambemos!

O samba é o dono do corpo. Exu, o pó das estradas: Laroyê!

 

Clareia, Dindinha… As noites sem-fim da Bahia, já dizia Jorge Amado, guardam os sonhos daqueles que ousam varrer o mundo. Fumaça, perfume, poeira no redemunho. No fundo, no escuro da casa, as aparições teciam destinos emaranhados. Causos, sopros, quebrantos. Olhos pretos de carvão! Rede que balançava a Lua nas lamparinas. Um clarão e o vulto ali: era homem? era bicho? Voo de vaga-lumes, raízes tão retorcidas. As vozes dos devaneios indicavam o desenredo: deixar para trás os medos, nos passos do Conselheiro; seguir em direção ao mar e reinar no Trono de Angola. João Alves de Torres Filho, menino, vestiu-se em asas de pássaro.

 

Deu-se o fogo no mato!

Até parece mentira, até parece milagre.

O samba é o dono do corpo. Ao Sol de São Salvador: Agô!

 

Flores aquareladas, folhas no chão do mercado. Coube ao velho Jubiabá, feiticeiro de muitas histórias, raspar a cabeça do moço. No alto do Morro da Cruz, sorveu o saber dos encantos. Nas festas de Dois de julho, vestiu-se em mantos de penas. Vou-me embora pro sertão; viola, meu bem, viola! Foi na roça da Gomeia, aos pés de uma gameleira, que João da Pedra Preta firmou o seu Candomblé. Foi na roça da Gomeia, caminho de São Caetano, que as gentes mais afamadas fizeram mandinga e fuzarca. Dendezeiros, mesa farta. Axoxô e aluá. Quem não viu o bailado forte da Corte dos Orixás?

 

O samba é o dono do corpo. Oxóssi, o Rei caçador: Okê Arô!

 

Deu-se, então, a navegação. Para ser livre, nunca é tarde demais. Búzios, cauim, juremeira. Cascas, flechas de Keto. Perseguido por suas crenças e por sua visão libertária, João seguiu mar afora, aos braços do Redentor. Encontrou no chão de Caxias o ponto da nova Gomeia. Plantou os ensinamentos colhidos na roça baiana. Aldeia contemporânea, evocação ancestral. Baixavam os caboclos na Baixada, Auê! No mesmo transe dos deuses d’África (oceanos de travessias). Bravos guerreiros daqui saberes do ventre da mata. Do lugar, Oxóssi era o dono. Iansã, a mãe zeladora. Lambaranguange Mutalambô! Caça na Aruanda, ô coroa!

 

O samba é o dono do corpo. A carne é de carnaval: Evoé!

 

João, malandro e vedete, abraçou o fuzuê das ruas – e no frenesi dos bailes causou o maior dos espantos. O pavão é um “passo” bonito; com suas penas douradas! Deuses de todos os credos reinavam nas passarelas. Qual não foi o bafafá quando ousou se vestir de Cleópatra? Foi ainda Faraó – “Saravá, meu pai Ramsés! ” Do Teatro de Revista, herdou os leques de plumas. E nas escolas de samba foi “herói da liberdade”: Ganga Zumba, líder quilombola da saga de Palmares! Fama e notoriedade, luxo e raro esplendor. Oropa, França e Bahia bordadas em fantasias. Sob um céu de decorações, desfilou a sua grandeza. Alfinetou nos jornais: os olhos o procuravam!

 

O samba é o dono do corpo. O show não pode parar: Bravo!

 

João, bailarino brilhante, rompeu as fronteiras do rito. A arte o transfigurava: nos palcos da Zona Sul, nas luzes de hotéis e cassinos. Deixou no Municipal o aroma de benjoim. Deixou com Mercedes Baptista o sumo do seu bailado. Do Catete ao Katendê: foram muitos os notáveis que a ele entregaram a fé. Câmara Cascudo e Edison Carneiro beberam do axé caxiense – e podiam tranquilamente girar com Getúlio Vargas. Dos tragos com JK adveio a missão secreta: arriar mais de cem ebós em um eixo profetizado. Dizem que veio dela, a Rainha da Inglaterra, o título maioral: Joãozinho da Gomeia, o “Rei do Candomblé”! A ele enviava presentes e à distância se consultava – graças ao amigo Chatô, nos ecos dos carnavais…

O samba é o dono do corpo. Oyá, nas rosas vermelhas: Eparrei!

O vento que corta, arrepia. O raio que estoura, ensurdece. Nas folhas não maceradas, João avoou encantado – e pode ser redesenhado, andorinha no arrebol; e pode ser reinventado, enfim Labá-Labá. Na batida dos tambores, no Eruexim de Iansã, na espada de Kaiangô. Afefé! Podem ser revisitados os encontros na Gomeia, podem ser reinstalados o desejo e a magia. De ver os terreiros floridos nas tardes de luz e festa. De ver as estrelas candentes no espelho das noites de gala. Fitas e franjas balançam e dançam nas festas juninas. Pinturas de jenipapo, grafismos de urucum. Nos traços do mestre Abdias, no abô de Omindarewá.

 

João de Inhambupe.

Do barro encarnado, o chão de Caxias.

Da terra que clama o chão de Zumbi.

Do Brasil que se faz cortejo. Do Brasil-contradições.

São negras memórias que se entrelaçam, em ciranda, com o tempo. Tempo Rei, compositor. Nzara, Senhor Kitembo!

São negras vitórias que moram nos roncós das nossas almas – e que na avenida explodem num grito de pertencimento. Respeito!

São negras histórias marcadas nos pés do nosso passado – e que num presente tão duro resistem feito mocambos. Não quebram!

Vibra novamente o couro do atabaque!

Verde em cada menino o tronco do Quilombismo!

Porque há sempre de ecoar mais forte o canto de cada Caboclo.

Viva o Povo-de-Santo e salve o Brasil-Terreiro!

Xetruá! Maromba Xeto!

Axé, Tata Londirá!

Eu sou jongueiro, baiana

Sapucaí, eu vou passar

E a Grande Rio vem comigo, saravá!

 

Carnavalescos: Gabriel Haddad e Leonardo Bora

G.R.E.S. Estação Primeira de Mangueira – Campeã do carnaval de 2019

Enredo: “A verdade vos fará livre”

“SINOPSE DO ENREDO 2020

Vou pedir que me levem lá para o céu

Que cada dia chega mais perto do morro

E onde já viram Deus compondo

Um samba para escola desfilar”

(SAMBA de Hermínio Bello de Carvalho e Maurício Tapajós)

 

A VERDADE VOS FARÁ LIVRE

Nasceu pobre e sua pele nunca foi tão branca quanto sugere sua imagem mais popular. Sem posses e mais retinto do que lhe foi apresentado, andou ao lado daqueles que a sociedade virou as costas oferecendo-lhes sua face mais amorosa e desprovida de intolerância. Sábio, separou o joio do trigo, semeou terrenos férteis e jamais deixou uma ovelha sequer para trás.

Exaltou os humildes e condenou o acúmulo de riqueza. Insurgiu-se contra o comércio da fé e desafiou a hipocrisia dos líderes religiosos de seu tempo. Questionou o poder do império romano e condenou a opressão. Seu comportamento pacifista e suas ideias revolucionárias inflamaram o discurso dos algozes que passaram a excitar o estado a decretar sua sentença. O fim todos sabemos: Foi torturado, padeceu e morreu.

Séculos depois, sua trajetória ainda anda na boca dos homens e em seu nome, para o maldito “de bem” – e com rígido contorno de moralidade – muito já foi realizado de forma estanque ao sentido mais completo do AMOR por ele difundido. O amor incondicional, irrestrito e ágape.

Por isso, quando preso à cruz, ele não pode ser apresentado como um. Ser um, exclui os demais. Preso à cruz, ele é a extensão de tantos, inclusive daqueles que a escolha pelo modelo “oficial” quis esconder. Sendo assim, sua imagem humana não pode ser apenas branca e masculina. Na cruz, ele é homem e é também mulher. Ele é o corpo indígena nu que a igreja viu tanto pecado e nenhuma humanidade. Ele é a ialorixá que professa a fé apedrejada e vilipendiada. Ele é corpo franzino e sujo do menor que você teme no momento em que ele lhe estende a mão nas calçadas. Na cruz, ele é também a pele preta de cabelo crespo. Queiram ou não queiram, o corpo andrógino que te causa estranheza, também é a extensão de seu corpo.

Sem anunciar o inferno, ele prometeu que voltaria. Acredito que, se ele voltasse à terra por uma encosta que toca o céu – para nascer da mesma forma: pobre e mais retinto, criado por pai e mãe humilde, para viver ao lado dos oprimidos e dar-lhes acolhimento – ele desceria pela parte mais íngreme de uma favela qualquer dessa cidade. Talvez na Vila Miséria*, região mais alta e habitada do Morro de Mangueira. Ali, uma estrela iluminaria a sala sem emboço onde ele nasceria menino outra vez. Então, ele cresceria entre os becos da Travessa Saião Lobato*, correria junto das crianças da Candelária*, espalharia suas palavras no Chalé* e no “Pindura” Saia*. Impediria que atirassem pedras contra os que vivem nas quebradas e nos becos do Buraco Quente*. Estaria do lado dos sem eira e nem beira estranhando ver sua imagem erguida para a foto postal tão distante, dando as costas para aqueles onde seu abraço é tão necessário.

Se sobrevivesse às estatísticas destinadas aos pobres que nascem em comunidades, chegaria aos 33 anos para morrer da mesma forma. Teria a morte incentivada pelas velhas ideias que ainda habitam os homens. O amor irrestrito ainda assusta. A diferença jamais foi entendida. Estender a mão ao oprimido ainda causa estranheza. Seria torturado com base nas mesmas ideias.

Morto, ressuscitaria mais uma vez e, por ter voltado em Mangueira, saudaríamos a possibilidade de vermos seu sorriso amoroso novamente com o que aqui fazemos de melhor. Louvaríamos sua presença afetuosa com samba e batucada. Vestiríamos toda nossa roupa mais cara. Aquela de paetês e purpurina. De cetim com joias falsas. Desfilaríamos diante dele e, em seu louvor, instauraríamos a lei que rege nossos três dias de folia. Sem pecado, irmanados e em pleno estado de graça.

Explicaríamos nessa ocasião que a cruz pesada que carregamos como fardo ao longo do ano nos é tirada das costas no carnaval. Por ter vencido a morte e sem ter o peso de sua cruz nas costas, ele sorri para a baiana que desce para se apresentar. Ele acena com a mão direita para a passista que amarra a sandália, enquanto a mão esquerda dá a benção para o ritmista que rompe o silencio com a levada de seu tamborim.

Fitando o céu, ele parece ver algo ou alguém acima da linha do horizonte. Sorri, como se pego em meio a brincadeira e se soubesse humano também. Entendendo que ali ele é rebento e que todos, sem exceção, são seu rebanho; ciente de que o pecado, por vezes, é invenção para garantir medo e servidão, ele pede para que toda essa gente que brinca anuncie enquanto canta sorrindo: A VERDADE VOS FARÁ LIVRE.

Vila Miséria* Travessa Saião Lobato* Candelária* Chalé* Pindura Saia* Buraco Quente* – Todos os nomes referem-se a localidades ocupadas pela comunidade do Morro da Mangueira.

 

Rio de Janeiro, julho de 2019.

 

PESQUISA, DESENVOLVIMENTO E TEXTO: LEANDRO VIEIRA (Carnavalesco) ”

G.R.E.S. Mocidade Independente de Padre Miguel

Enredo: “Elza Deusa Soares”

 

Enredo: “A menina magricela nascida no distante bairro de Padre Miguel, menos de 40 quilos de pura insistência em sobreviver, desembarca no badalado programa de calouros de Ary Barroso. Equilibrava bom punhado de alfinetes para conter os panos todos do conjunto que sobrava e sambava no corpo. O sonho de ser a moça bonita do rádio determinava as cantorias da pequena – lata d’água na cabeça – cuja infância havia sido subtraída pelo suor de sol a sol dos afazeres domésticos. Já em posição debutante no palco transmitido em ondas aos ouvintes, as lembranças de pueris duetos com o som do louva-a-deus e as espiadelas no pai violeiro garantiam relativa técnica. Mas a força para transcender o destino foi a autêntica locomotiva. O autor de “Aquarela do Brasil” fez as honras sem nenhum pingo de honra quando mirou o pedacinho de gente posicionado bem na boca de cena da História: “de que planeta você veio, minha filha? ”. Gargalhadas histéricas na plateia, só que por breves segundos. Na aquarela de Ary, não havia destaque para a cor da resposta visceral, raio cósmico, cortina do passado dilacerada ante a metamorfose de uma divindade em flor: “eu vim do planeta fome”. Desvario. Apoteose. A primeira.

Com o pedestal voltado à glória, soltou o talento até raspar o fundo do tacho d’alma para, ao fim, desabar nos braços daquele gênio letrado bem menos sabedor desse chão do que a sua humanidade supunha. Ora, o apresentador jamais imaginaria negra e pobre a arte-final esquecida pelo maior clássico que compusera. Próxima ao gongo em silêncio, e mergulhada na letra de “Lama”, estava, possivelmente, a imagem de Deus. Deusa – corrijamos – de joelhos e em adoração. Mulher. Que irrompeu a pergunta insensível, o direito que tinham para humilhá-la, as dificuldades do berço, o preconceito castrador e invasor do íntimo feminino, o racismo. A partir dali, nasceu uma estrela. Voz das vozes abafadas. Microfone de potente rouquidão rascante para os ais dos humildes. Água santa a revalidar existências e também as reminiscências ligadas à mãe lavadeira, ofício da roupa batida que faz marcar o ritmo de um futuro quase sempre estéril.

Curiosa a sina de se inserir e a outras carnes pretas no mapa oligarca branco forjado na marra e na régua. Numa só frase, desvelou o fogo de realidade que intelectuais com canudos enrolados nas grandes universidades mal conseguiram reconhecer brasa. Sua música se tornou trono matriarcal para denunciar as contradições da gigante “mátria” pouco gentil. Obrigada a trocar alianças quando a companhia eram as bonecas, deu à luz muito cedo, mas leite também aos que não pariu: holofote sobre os brasis ancestralmente invisíveis. E foi, justamente, da ordem do invisível, ou etéreo, certa passagem marcante e definidora – ainda nos tempos da dureza primordial. Prestes a ser atacada por uma vaca que pastava no entorno de casa, tratou de encarar o bicho bravo olho no olho. A coragem intuitiva reconfigurou a quase tragédia: recebeu uma inacreditável lambida do queixo à testa, passeio lingual com o aparente tamanho da eternidade.

Afogada na saliva e surpresa por esta viva, entendeu o banho viscoso como a unção protetora que a conduziria adiante. Seguiu. Limite? O céu, é claro. Pitoresco batismo em religião própria, cuja tábua de mandamento único ostentava a interpretação pessoal dos segredos de cima, lá onde mora o Guerreiro. Bruxa, mandingueira, sacerdotisa de poderes e sentimentos indomados. Fada canção. Feiticeira a macerar folhas de inspiração e fé no eu iluminado. Unguento, incenso, veneno. Movimento. O real e a quimera em qualquer batuque – do terreiro ao bar, do culto ao cabaré, da intimidade do chatô ao infinito da nação profunda. Suingue de credo, cruz ou cura.

E aí não tardou, monumento vocal velozmente consagrado, para brilhar mundo afora e país adentro. Ergueu-se samba sincopado de trejeito característico, o jazz agridoce banhado na pimenta da terra que tudo dá, nosso divã social, espelho e síntese no mesmo metro e meio de entidade. Bossa nossa. Sobre o palco de asfalto da folia, encontrou outra estrela, de milhares em cortejo e também filha de Padre Miguel – a Mocidade –, tão independente quanto ela. E mergulhou na bênção mística da percussão, que alforria os corpos domesticados e faz do festival do couro a alegria de uma cidade ao celebrar a dádiva do pertencimento. Mas foi a obsessão por cantar o amor sem pudores a sua forma categórica de pertencer. Amor à arte, às escolhas, à distância. Ao guri. Ao malandro. Ao Mané. Amou e foi amada. Sem medo e sem vergonha. Sem limites. Ou quase: apesar da vocação para inspirar gentes no embalo da natureza passional, pagou o preço ao escolher decolar no torrão que censura as asas dos filhos. Tombou. Cadente estrela. Solitária.

Bailarina equilibrista que sempre teceu a vida a partir do fio da liberdade, experimentou o da navalha quando os malabares com os quais distribuiu encanto viraram pedras contra si. A redentora passou a algoz no picadeiro moral dos supostos bons costumes. Sentiu o tapa, a ferida, o esquecimento. E pedaços arrancados. De novo. Porém, o trapézio que lança ao Olimpo, e vê desabar se as mãos deslizam no voo em cego dos mistérios de existir, tem no final do abismo uma rede de proteção fraternal. Dura na queda, conseguiu ser devolvida do fosso da orquestra. Mais forte. Tal qual a língua – aqui, a humana – que roça a nuca e reacende o arrepio. Diva sensorial a nos ensinar sobre a delícia de cultuar a própria carne mal taxada e o espírito, na cruzada em desafio aos intolerantes. Pele e osso que sentem lava escorrer e exclamam política transgressora, para inferno e desnudar dos caretas. Cóccix, peito, nervos, coração, pescoço. Garganta.

Ela, então, coloca desordem na preconceituosa ordem vigente, dando ré no apocalipse com o dito planeta fome completamente desgovernado. Pula o muro, alastra-se no proibido e perfuma a missão – herdada desde o show seminal – de fazer multidão frenética os carimbados como minoria. Eis a incendiária porta-estandarte de quem inclui, desafia, abraça, respeita, desatina, desata, transforma e se transforma. Do protagonismo feminino radicalmente contrário à mão levantada para a mulher. Dos amantes que, na embriaguez libertária, gozam sensualmente o afeto sem mordaça e constelam aflição pelo beijo ardente. O ato de transmutação do fazer artístico em grito dos incontroláveis por todos os milênios.

 

No altar do samba brasileiro, a Mocidade encontra o elo fundamental perdido e celebra a apoteose de uma estrela da canção ao reinventar o agora. O seu nome é agora – menina, senhora, doutora do tempo. A mensagem que deixamos para o próximo carnaval pinta o Black e tem o Power, traz a revolução de um abalo sísmico, a urgência explosiva de um novo Big Bang, põe Exu nas rodas, nas escolas, na prosa, é rua, nua e crua:

 

Deus é mesmo mulher. Deus é negra.

Ouçam a sua palavra que nos invade.

Salve a Mulher do Fim do Mundo.

Salve Elza Deusa Soares. ”

 

Carnavalesco: Jack Vasconcelos

 

Sinopse: Fábio Fabato

Pesquisa e Colaboração: André Luís Junior

Referências (além da discografia de nossa Elza Deusa Soares):

CAMARGO, Zeca. Elza. Rio de Janeiro: Leya Casa da Palavra, 2018

CASTRO, Rui. Estrela solitária – um brasileiro chamado Garrincha. Rio de Janeiro: Cia das Letras, 1995.

DINIZ, Alan; FABATO, Fábio; MEDEIROS, Alexandre. As três irmãs: como um trio de penetras “arrombou a festa”. Rio de Janeiro: NovaTerra, 2012, Família do Carnaval.

LOUZEIRO, José. Elza Soares: Cantando para não enlouquecer. Rio de Janeiro: Editora Globo, 2010.

PEREIRA, Bárbara. Estrela que me faz sonhar. Rio de Janeiro: Verso Brasil, 2013, Cadernos de Samba.

SUARES, Gerson. De pernas para o ar: minhas memórias com Garrincha. Rio de Janeiro: Oficina Raquel. ”

G.R.E.S. Paraíso do Tuiuti

Enredo: “O santo e o rei: encantarias de Sebastião”

 

“Em honra e glória a São Sebastião, valoroso padroeiro e defensor da cidade do Rio de Janeiro e da nossa escola, o G.R.E.S. PARAÍSO DO TUIUTI tem a honra de apresentar:

 

O SANTO E O REI: ENCANTARIAS DE SEBASTIÃO

“Oh, meu rei de fantástica memória

Passo a vida a rezar tua história.

Tão verdadeira e sobrenatural…

Eu rezo a tua infância aventureira

Tua morte num trágico areal.

Rezo a tua existência transcendente

Numa ilha de névoa, ao Sol nascente,

Encantada nos longes da Natura…

E rezo tua vinda anunciada,

Dentre as brumas daquela madrugada

Que virá dissipar a noite escura”

 

Oração Sebastianista (Teixeira de Pascoaes)

I – O SANTO VENERÁVEL E O REI DESEJADO

Que venha Sebastião, O DESEJADO, assim nomeado por ser a esperança de sucessão da dinastia que guiou o reino lusitano ao apogeu.

Que venha o divino rei-menino de Portugal, futuro regente do Império Mundial Cristão!

MAJESTOSO, GUERREIRO, PUJANTE!

Que venha Sebastião, ornado de FESTAS DO POVO e de JÚBILO DOS DEUSES. Cumpram-se todas as profecias, abram-se os livros da boa aventurança.

O REI NASCEU! O REI NASCEU!

Na data mística de 20 de janeiro, Sebastião foi ENCANTADO pelo espírito de coragem e fé do venerável Santo que lhe deu o nome.

Assim traçaram-se as flechas de bom e mau auguro sobre DOM SEBASTIÃO.

O jovem Rei cresceu ouvindo as histórias de bravura e martírio em nome da reconquista da Península Ibérica.

Um dia, conduziu seu exército rumo à última cruzada.

Marrocos era o destino. Vencer os mouros, uma obsessão

 

II – O REI ENCOBERTO

Em súplicas, Sebastião, o Rei, rogou proteção ao padroeiro.

Sebastião, o Santo, concedeu-lhe coragem para prosseguir: “Tua glória correrá muito além da própria vida. Irá se espalhar por mundos e eras que nunca sonhaste”.

Fez-se então ungido com os paramentos banhados pelas glórias dos antepassados.

E assim foi mapeada a incerta campanha. Era hora de partir com a sua esquadra rumo a ALCÁCER QUIBIR.

Deu-se a sangrenta batalha no deserto do Norte africano contra o exército do Sultão.

Destemidos, Santo e Rei empunharam a cruz contra a cimitarra.

Postas frente a frente, tropas ergueram o pavilhão da ordem de Cristo contra a bandeira da crescente lua e brilhante estrela.

Cavalarias avançaram-se em mortal conflito. Armas ao céu, o rei se lançou à glória derradeira.

Nas areias do Marrocos, Dom Sebastião desapareceu…

E veio o nevoeiro. Com ele, a esperança de que um dia o Rei iria regressar para reviver o apogeu do seu povo.

“Ele há de voltar! Ele há de voltar…”

 

III – O REI SUBMERSO

E o Rei fez morada no mar…

Navegou em triunfo a bordo da nau mística com a tropa que, com seu líder, sumiu no areal marroquino.

Aportou nas águas do Maranhão, em imponente cortejo arrebatado.

Ergueu seus domínios na costa do Atlântico, indo tomar lugar na corte dos encantados.

Com barbatanas bordadas de escamas cintilantes, ascendeu ao régio trono marinho.

No suntuoso PALÁCIO DE CRISTAL, suas joias reais eram cravejadas de pérolas, conchas e búzios.

Seu paraíso marinho era cercado de majestosos seres encantados que habitavam o fundo do oceano.

A lenda do Rei submerso inundou o imaginário do povo que vivia na beira do mar.

Na busca pelo Encoberto, foi o povo que se encantou em névoa de maré…

 

IV – O REI ENCANTADO

Nas torrentes das águas sagradas, a lenda sobre o Rei se espalhou.

Entre batuques vindos dos terreiros de mina se dizia que, em noite de lua cheia, andava pela praia um TOURO NEGRO. E esse touro era Dom Sebastião.

O bravo que se atrevesse a fincar uma espada reluzente na testa do animal desfaria o encanto, cumprindo a profecia:

“REI / É REI DOM SEBASTIÃO / QUEM DESENCANTAR LENÇÓIS / BOTA ABAIXO O MARANHÃO”

Mas o desfazimento do encanto era em si outro encanto.

Assim, na crença, na magia e nos cânticos, o Rei foi coroado no couro do tambor.

Dançou com os deuses, macerou as ervas e bebeu dos segredos das matas. Incorporou-se aos cultos afro-ameríndios.

Entranhou-se, em alumbramento, na alma dos cantadores e poetas populares.

Da sua capa real, ornada de brilho e sonho, veio a inspiração para tecerem as vestes do bumba-meu-boi.

Encantado, Dom Sebastião se fez o espírito que o povo desejava para conduzi-lo por novas cruzadas…

 

V – O REI DOS FLAGELADOS

 

Nos areais do sertão nordestino, o Rei Encoberto regressou com o encanto de um monarca restaurador.

O povo, roto nas batalhas de existir, nada esperava dos homens. Confiava tudo a um milagre de Deus.

Na busca pelo paraíso terreal, a crença dos sertanejos esculpiu o espírito do Rei em alma de santo.

Na Serra do Rodeador, em Pernambuco, a insurreição se deu. Mas foi esmagada pelo poder implacável da Coroa.

Anos mais tarde, na localidade da Pedra Bonita, em São José do Belmonte, o beato João Antônio ocultou-se no alto da montanha com seu séquito de flagelados.

Acreditavam que Dom Sebastião iria ressurgir das fendas das pedras para restaurar a justiça social sempre prometida e nunca alcançada.

Mas para isso era preciso lavar as rochas com sangue para desencantar o Rei.

Houve nova batalha. O terror se espalhou no lajedo. Morreu-se para não matar.

O Rei não veio. Ressurgiu n’outro arraial.

Em Canudos, Antônio Conselheiro liderou seu povo que o seguia no limite entre a fé e o delírio messiânico, evocando a volta do monarca.

“O SERTÃO VAI VIRAR MAR E HAVERÁ UMA GRANDE CHUVA DE ESTRELAS”

Canudos, Pedra Bonita, Rodeador… tudo sucumbiu. Mas não a glória do Santo-Rei Sebastião, que renasce ao poder do encanto de quem nele acreditar.

 

VI – O SANTO PADROEIRO E O POVO-REI LIBERTADOR

 

A cada episódio de luta e dor, eis a certeza de que o espírito sebastianista continua a guiar o povo na eterna busca pelo seu próprio rumo.

Dizem que o Rei vive adormecido nos domínios encantados de São Sebastião, terra emergida a flecha e fogo.

A muy-heroica cidade fundada durante o reinado de Sebastião, o Desejado.

Na data mística de 20 de janeiro, o nobre Estácio de Sá foi flechado em batalha com os índios.

Conta a lenda que São Sebastião lutava ao seu lado.

O bravo guerreiro lusitano se encantou junto com sua cidade, que um dia se partiu. E hoje se retalhou…

Recanto ferido, que precisa se regenerar.

Mas um dia há de vir o verdadeiro Rei.

Que das brumas da memória se levanta e se ergue

MAJESTOSO, GUERREIRO, PUJANTE!

É o POVO, senhor de si, enfim desencantado

Que na bravura do Rei por ele mesmo despertado,

Arrancará as flechas do peito do padroeiro

E Sebastião, enfim, há de restaurar o que lhe é devido:

O trono do Rei e o altar do Santo.

E a paz enfim triunfará

Na cidade cansada de tantas batalhas…

Mas nunca da luta!

(Ele há de vir. Ele há de vir…)

 

Carnavalesco: João Vitor Araújo

Texto: João Gustavo Melo

 

Inspirado no poema “O Rei que Mora no Mar”, de Ferreira Gullar e nas encantarias e brasilidades de Luiz Antônio Simas.

 

REFERÊNCIAS:

 

FERRETI, Sérgio F. Encantaria maranhense de Dom Sebastião. Lisboa: Revista Lusófona de Estudos Culturais. Vol. 1, n.1, pp. 108-125, 2013.

GULLAR, Ferreira. O Rei que mora no mar. São Paulo: Global Editora, 2002.

MARINHO, Luisa. Desencanto. Rio de Janeiro: Funarte, 2015.

RORIZ, Aydano. O Desejado: a fascinante história de Dom Sebastião. São Paulo: Editora Europa, 2015.

SIMAS, Luiz Antônio. Almanaque brasilidades: um inventário do Brasil popular. Rio de Janeiro: Bazar do Tempo, 2018.

G.R.E.S. Portela

Enredo: “Guajupiá – Terra sem males”

 

“GUAJUPIÁ, TERRA SEM MALES

 

IRIN-MAGÉ, PAJÉ DO MEL, POVOADOR DA TERRA…

Todas as bênçãos criadas por Monã (o Deus dos Tupinambás) trariam felicidade e contentamento a todos os seres aqui existentes, menos para o homem. Insurgentes, desprezaram tudo o que generosamente lhes fora dado.

Então veio castigo. O fogo desceu do céu e destruiu tudo sobre a terra. Apenas um homem considerado digno, foi poupado desse castigo. Seu nome era Irin-Magé.

Levado para o céu ele, aos prantos, diz à Monã, que seria difícil viver sem pares nesse imenso vazio. Comovido, Monã reverte a situação, e fez com que caísse um dilúvio sobre a terra. Dessa água surgiram os oceanos, os rios e tudo frutificou.

Monã então deu a Irin-Magé uma mulher e o mandou de volta à terra para que ele a repovoasse de homens melhores. Dentre os muitos de seus filhos, nasce um em especial que se tornaria o grande guru, o grande karaíba, “o profeta transformador”, chamado Maíramûana.

Familiar de Monã, Maíramûana aprendera a arte de transformar tudo o que quisesse de acordo com sua vontade nas mais diversas formas; de animais, pássaros, peixes e para punir os homens podia transformá-los também ao seu bel-prazer.

É esse profeta-guru, dotado de poderes e conhecimentos “sobrenaturais” e misteriosos, quem ensinará todas as práticas sagradas, todos os costumes e regras da organização social das tribos tupinambás.

BAÍA DA GUANABARA, NOSSO GUAJUPIÁ

Na beleza do azul sobre o azul, da calma sobre a calma, um curso d’água serpenteia num vale de árvores verdes e frondosas. Em todas as direções a floresta é vívida. Há que se fiar no Sol, a luz é cultivada e tudo deve ser puro.

O rio é o caminho, é sagrado, tem peixe, tem marisco. As aves voam livres, colorindo o céu. Temos tudo ao alcance das mãos, água de beber, de lavar e de se banhar. Vivemos a vida em profunda gratidão.

Mas além de pescar e caçar, somos também bravos guerreiros. Só aqueles que enfrentam a morte, sem medo, conseguem encontrar o Guajupiá. Os tupinambás representavam esse paraíso como um lugar idílico, recoberto de flores e regado por um maravilhoso rio, em cujas margens viam-se enormes árvores.

E nenhum lugar poderia ser tão igual ao imaginado Guajupiá eterno do que um Rio de Janeiro ainda virgem.

NASCE UM KARIÓKA

Chemembuira rakuritim, chemebuira rakuritim (eu já vou parir, eu já vou parir)

Nasce um tupinambá. Ritos e tradições serão seguidos, para assegurar bons presságios. Unhas de onça e garras de águia, ornarão o berço-rede, para garantir que nada de mal lhe aconteça.

Pai, mãe, filhos, avós, tios, tias, primos e primas, se juntam, está formada a maloca, a casa coletiva da tribo. Cercando o okara (grande quintal) se construía uma taba. Karióka, a lendária taba tupinambá, surge majestosa à esquerda da paradisíaca baía de kûánãpará.

O homem roçava a terra, plantava, fabricava canoas, arcos, flechas, tacapes, adornos de penas multicoloridas. Eram eles os responsáveis pela segurança das tabas.  E sua função primordial era a de ensinar a arte da guerra.

Às mulheres eram imputadas as rígidas tradições e responsabilidades tribais, cuidavam da horta, participavam da pesca, fiavam algodão, teciam redes, fitas para amarrar nos cabelos e faixas para amarrar as crianças, trançavam cestos em junco e vime, manuseavam o barro para produzir panelas, vasilhas e potes, e mantinham acesos os dois fogos junto a rede do chefe da família. Eram o sustentáculo para o “esforço de guerra” tão cultivado pelos tupinambás.

Aos mais velhos cabiam repassar oralmente as histórias, o saber, e as orientações do que deveriam fazer, aos ainda jovens, em cada fase de sua vida.

Os tupinambás acreditavam que o homem tinha duas substâncias essenciais: uma eterna e outra transitória e ambas, o corpo e a alma, estavam ligados.

KAÛÍ, A BEBIDA “DOS DEUSES”

 

Ó vinho, ó bom vinho! Jamais existiu outro igual!

Ó vinho, ó bom vinho! Vamos beber à vontade.

Ó vinho, ó bom vinho! Ó bebida que não dá preguiça!

 

Peguem as canoas! Passem pelas tabas: Yabebira – a aldeia maracanã, a do Peixe Pirá, de Eiraiá – atual Irajá – e seguem em direção a Guirá Guaçu, a aldeia com nome de águia, porque a festa vai começar!

Ao som dos marakás, chocalhos, flautas, tambores, pífanos e apitos, cantamos e dançamos. Tem que ter Kaûi ou Cauim, o licor sagrado que tanto adoramos.

A bebida era feita de raízes e frutos. As propriedades inebriantes do cauim eram feitas pela mastigação, e esse processo era considerado místico. Só mulheres, as mais lindas e puras, podiam participar da fabricação do “vinho”. Os tupinambás eram beberrões respeitados e era difícil acompanhá-los. A festa poderia durar vários dias, enquanto houvesse bebida, porque disposição para consumi-la não faltaria.

… E todas as bênçãos criadas por Monã (o Deus dos Tupinambás) trariam felicidade e contentamento a todos os seres aqui existentes, menos para o homem. Insurgentes desprezaram tudo o que generosamente lhes fora dado. Então veio castigo…

Um Rio teve que acabar para que outro pudesse surgir. Como poderia ter sido se tivéssemos respeitado a diversidade étnico-cultural? Enterrados no esquecimento perdemos o elo com nossa ancestralidade primal, perderam eles, perdemos nós, absurdamente privados dessa experiência!

 

GUAJUPIÁ, O QUE FIZEMOS DE TI?

 

Essa coisa do azul sobre o azul

Da calma sobre a calma

Às vezes me cansa

Às vezes me acalma

Eu paro no sinal vermelho

Uns pedem dinheiro

Uns sacam o revólver

Um outro expõe a própria dor

Segue o asfalto

Metálico fluxo

Saudade é um retrovisor

Há que se fiar no sol

E cultivar a luz

Purificar o pus

Deus

Assisto a vitória do bronco, do bruto

Do sínico e da servidão

Segue o espetáculo

No estádio, na tela

Parlamentam sobre a escrotidão

Mas quando a tribo invadir a floresta

Subindo até o Sumaré

E deslinkar a torre, o Brasil

Meu mano então como é que é?

 

Há que se firmar na terra

O teto, o viaduto

Proliferar o fruto

Deus

(Em memória – letra da música “Palas Superficiais”, de Marco Jabu)

 

“Cavam em busca de uma coisa

Que se sente estar profunda

Mas que foge e se esquiva

Quando chega à superfície

Uma coisa que está ali

Numa terra de mistério”.

 

(Poema de Joaquim Cardozo)

 

Autores e carnavalescos: Renato Lage e Márcia Lage

BIBLIOGRAFIA:

 

– O RIO ANTES DO RIO

Autor: Rafael Freitas da Silva

Editora: Babilônia

 

– O POVO BRASILEIRO

Autor: Darcy Ribeiro

Editora: Companhia de Bolso

 

– DUAS VIAGENS AO BRASIL

Autor: Hans Staden

Editora: L&PM Pocket Descobertas

 

– Documentário Guerras do Brasil.doc – episódio 1 (NETFLIX)

Criação: Luiz Bolognesi”

G.R.E.S. Salgueiro

Enredo: “O rei negro do picadeiro”

 Enredo: SINOPSE

O REI NEGRO DO PICADEIRO

Nasci livre! 01

 

Sou filho do “Negro Malaquias”, sujeito danado de brabo, que caçava os “fujão” da fazenda do

Sinhô e da sinhá, que até eram “bão”. E minha mãe, Leandra, era cativa de estimação.

Um dia o circo chegou lá na Vila 02, eu levava broa de milho para vender na entrada; tinha uns

Doze anos e resolvi fugir. O picadeiro representava liberdade, sonho e fantasia. Antes que me

Esqueça, meu nome é Benjamim Chaves, mas meu pai me chamava de “Beijo”, “Moleque

Beijo”.

Parti no Circo Sotero. Lá, a obrigação da meninada, era aprender desde cedo, todas as tarefas.

Mesmo eu, que era um agregado, aprendi debaixo de castigo, a cuidar dos animais; todas as

Acrobacias e outras coisas mais…

“A mãe da arte de todos os números é o salto” e eu dei um salto na vida. Tem que aprender a

Cair, para saber levantar.

Aprendi muito com o “Mestre Severino” e adotei seu sobrenome, agora pode me chamar de

Benjamim de Oliveira. Mas entre sonho e realidade, vida de “beijo” é difícil, é difícil como o

Quê… E de tanto apanhar, fugi de novo. Meu destino era fugir, destino de negro…

 

Fui atrás de uma caravana de ciganos, mas “quá” 03, “num” é que o “ladino” 04 queriam me

Trocar por cavalo?

Fugi e fui pego por um fazendeiro, provei que era circense e ele me deixou seguir viagem.

E de circo em circo, substituí o palhaço principal, que estava doente, no Circo frutuoso,

Começando aí minha história…

A noite começava a fervilhar nas cidades grandes, eram novos tempos, teatros, café-concerto,

A elite buscava o teatro sério e o “Zé Povo”, o que fosse mais ligeiro, encontrava no circo o

Divertimento que queriam. “Todo artista tem de ir aonde o povo está! ”

Minha popularidade crescia, uma vez até o presidente, o marechal de ferro, Floriano Peixoto,

Por eu cantar e dançar chulas 05 foi lá me cumprimentar 06.

No Spinelli lancei a forma de teatro combinado com circo que chamariam pavilhão. Comédias,

Paródias e a arte de representar por gestos, sem palavras. Fizemos clássicos, como Otello 07;

Farsas, melodramas, operetas como A Viúva Alegre 08, até uma paródia de O Guarani 09, que

Acabou projetado nas telas, o cinema surgia na bela época 10. O primeiro Momo, que seria mais tarde, a representação do “Rei da Folia”, foi pela primeira vez, representado por mim, na minha opereta fantástica O Cupido do Oriente. Assim como inúmeras peças, de minha autoria.

Fui ator, diretor, autor, produtor, dançarino, compositor, cantor (até gravei discos), e palhaço

Sim senhor! O PRIMEIRO PALHAÇO NEGRO DO BRASIL! E o palhaço o que é? E o que fui? Uai?!

Acima de tudo: Um artista brasileiro!!!

Abram as cortinas, acendam as luzes, que o show tem que continuar! Respeitável público,

Minhas senhoras e meus senhores, nessa passarela/picadeiro, o meu querido Salgueiro vai

Apresentar: Novos Benjamins do circo, teatro, cinema e televisão, com o aplauso “d’ocês”!

Despeço-me com um “Beijo” do “Moleque” e o meu muito obrigado!!!”

Carnavalesco: Alex de Sousa

G.R.E.S.  São Clemente

Enredo: ‘O Conto do Vigário’

 

“A regra é clara”: nesta terra inventada, é certo o desacerto.

 

Frase forte. Porém, é mais forte ainda o histórico de malandragem que assola Pindorama. O tempo passa e fica cada vez mais difícil enxergar uma luz no fim do túnel.  A capacidade da malandragem de se reinventar encontrou sombra e água fresca no Brasil: já faz tempo que tem gente tirando proveito da gente, ficando com a fatia maior do bolo. A inocência e esperteza travam um duelo secular por essas bandas. Do peixe pequeno ao espadaúdo, a arte de se dar bem sem muito esforço se proliferou em nossa nação sem noção. O engano é oficial: e isso vem de longe…

Nossa história começa cercada pelas Minas Gerais. Na Minas dourada, barroca, ao som de sinos nas torres de igrejas e carroças rangendo pelas vielas e ladeiras – lá pelos idos do século XVIII, mais precisamente na rica Ouro Preto. Uma terra de tanta fartura mineral que despertou a atenção de pessoas dispostas a desfrutar de tamanha prosperidade sem muito esforço. Mas digo que o ponto inicial de nossa saga não começa com a cobiça pelo ouro. Nosso marco inicial é pitoresco e envolve os personagens mais improváveis: uma santa, um burro e um vigário.

Naquela ocasião, duas igrejas disputavam uma imagem de Nossa Senhora. A animada querela era entre as paróquias do Pilar e da Conceição. Para resolver a questão, um dos dois vigários – o da igreja do Pilar – propôs uma forma no mínimo criativa de solucionar o problema: “Amarrem a santa num burrico. Coloquem-na entre as duas paróquias. Deus guiará o inocente animal até a casa que deverá abrigar a Santa Imagem! ”

Assim foi feito. Lá vai o burrico pelas ladeiras de Ouro Preto, carregando no lombo a imagem da Mãe de Deus e a fé da boa gente do lugar. No entanto, o povo não contava com a astúcia do vigário: era esperto o santo homem! O pároco que teve a ideia fez a proposta com tudo já planejado, uma vez que já era seu o burro apostado! O bichinho só seguiu o caminho de casa! Muitas outras versões existem para esse caso, mas para nós fica esse como o registro mais válido, já que é por causa disso que toda vez que alguém é por uma boa história enganado, diz a pessoa ter caído no “conto do Vigário”.

O episódio acima ilustra de maneira bem jocosa o espirito da coisa. Essa malandragem encontrou terreno fértil na colônia controversa, sem rumo e sem lei, onde essa vigarice criou raiz. Desde que os portugueses aqui chegaram, sempre teve alguém dando um jeito de se dar bem em cima da inocência alheia. Do mais humilde ao mais poderoso, sempre surge uma história bem contada, de alguém querendo levar vantagem. Sem orgulho, carregamos essa chaga da enganação, é verdade. Sempre surge um novo malandro reinventando a malandragem – e foi com o crescimento das grandes cidades, cheias de novas oportunidades, que os vigaristas encontraram terreno fértil para aplicar seus golpes sobre os incautos. Do “bilhete premiado” à “máquina de fazer dinheiro”, a criatividade dos enganadores em aplicar golpes em nosso país desafia o bom senso. Até quando o homem pisou na Lua teve gente dobrando o povo no papo, anunciando a corretagem: “não perca essa chance! Vende-se um terreno na Lua! Na minha mão é mais barato! ” Seria cômico, se não fosse trágico. É fato contado e documentado. Os folhetins do século passado registraram os feitos em manchetes, como aqueles datados de julho de 1969 que, enquanto a Apollo 11 tocava o solo lunar, um sergipano chegou a fechar negócio com dois fazendeiros de Minas Gerais, que ficaram animados com a possibilidade de ter a posse de ótimos logradouros vizinhos a São Jorge. Olhai por nós, oh pai!

E por falar no Gerente Celeste, nessa jornada é preciso ter fé. E como tem gente fazendo uso da boa-fé do brasileiro.  O papel do interlocutor com o Divino profissionalizou-se, capitalizou-se e burocratizou-se. Está cheio de esperto, se dizendo santo, cobrando taxa e sobretaxa por um lugar no céu: verdadeiros lobos em pele de cordeiro. O milagre tem seu preço! No mercado da fé, ganha mais quem vender mais promessas. O povo, coitado, sofrido e sem opção, é isca fácil para aqueles que fazem de ofício a oração. “Trago a pessoa amada em três dias! ” Mas não seja por isso: “Ele” está vendo tudo com atenção. Um dia a Casa Celeste cai!

No Brasil, a malandragem é institucional, carimbada, registrada e homologada em 10 vias no cartório. Este rincão não é para amadores: de dois em dois anos o povo tem que escolher a melhor promessa. Toda vez a esperança se renova, até a primeira curva torta: depois de eleito, o malandro deixa o povo à deriva. Pelo voto, se vende as maiores ilusões. E como sabem contar histórias esses candidatos a “malandro oficial”. Antes de ter seu voto, prometem mundos e fundos; depois de eleitos, cada um vai cuidar dos seus próprios interesses. Já o povo, por sua vez, insiste em trocar seu voto por dentadura.

Passa o tempo, mas não passa a vigarice do malandro. Ele se adapta, se “atualiza”, viraliza, cai na rede. E o povo vai na onda. Compra gato por lebre, perde o sustento suado, é feito de gato e sapato. A modernidade não assusta a malandragem: o vigarista se adapta! Vende inverdades à rodo, sem temer o amanhã. Vende o produto que nunca se viu: “Fake News”! “Fake News”! “Fake News”!

O papo é reto, direto e franco: abra o olho brasileiro. Já dizia o saudoso Bezerra da Silva que “malandro é malandro e mané é mané”. Nesta terra inventada, é certo o desacerto, mas cabe a nós dar um freio. O certo é o certo; fora disso, é alheio. ”

Carnavalesco: Jorge Silveira

G.R.E.S. Unidos da Tijuca

Enredo: “Arquitetura e urbanismo”

“Onde moram os sonhos…

 

RESUMO

 

A Unidos da Tijuca escolheu, como tema para o enredo de 2020, a Arquitetura e o Urbanismo. Cenário do Carnaval carioca, que é um dos maiores espetáculos a céu aberto do planeta, o Rio de Janeiro é Patrimônio Cultural Mundial, na categoria paisagem urbana, desde 2012. A cidade recebeu, ainda, recentemente, o título de primeira Capital Mundial da Arquitetura, concedido pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) e pela União Internacional dos Arquitetos (UIA). No ano em que o Rio será a sede de importantes eventos internacionais, como o 27º Congresso Mundial de Arquitetos e o Fórum Mundial de Cidades, além de exposições e concursos públicos, a Tijuca projetou seu desfile para explorar o passado, entender o presente e arquitetar o futuro. O enredo vai mostrar a incrível capacidade do homem de criar espaços que possam servir de abrigo para diferentes atividades. Ao realizar o seu trabalho, os arquitetos deixam registros que nos ajudam a compreender a nossa história. Templos, castelos, monumentos, casas, prédios, conjuntos habitacionais, parques, praças, ruas e avenidas revelam a contribuição de uma das mais antigas profissões. Das edificações da Antiguidade às cidades modernas, cada espaço ensina a cultura de seu tempo. Mas muitos são os desafios. É preciso conservar o patrimônio cultural da humanidade, além de resolver os problemas gerados pelo crescimento desordenado, que se agrava nos centros urbanos. Arquitetar a vida é assegurar o testemunho do passado, intervir no presente e traçar para o futuro uma cidade sustentável a que todos tenham direito…

Abertura

O que move homens e mulheres que se dedicam a pensar na arte de viver, projetar, organizar e produzir o lugar da moradia, do trabalho, da diversão, do lazer e da religião?

A sensibilidade do artista procura e encontra soluções, ao erguer palácios, igrejas, casas, vilas, cidadelas e metrópoles que desafiem o tempo e o espaço. Esse é um processo que acontece há milênios, todos os dias.

A Tijuca percorre a Avenida da Capital Mundial da Arquitetura apresentando algumas de suas grandes realizações do passado até chegar às modernas metrópoles da atualidade. E convida a todos para participar do projeto de um futuro em que haja qualidade de vida e justiça social para todos. Que venham os arquitetos do mundo! Vamos planejar o amanhã… porque os sonhos vivem dentro de nós e é possível torná-los realidade, se trabalharmos juntos.

 

Setor 1 – Em busca da eternidade…

Na Antiguidade, os que governaram as primeiras civilizações construíram edifícios monumentais para cultuar suas divindades, abrigar seus sarcófagos, proteger suas cidades, divertir seus povos. Maravilhas arquitetônicas do Mundo Antigo resistiram há milhares de anos, para que suas ruínas nos revelassem histórias perdidas no tempo, onde faraós e imperadores homenageavam os deuses e construíam templos que são testemunhos da avançada cultura das sociedades daquele período. O refinado conhecimento dos povos antigos, com suas construções simétricas e harmoniosas, foi resgatado de suas ruínas e inspira, até hoje, a arquitetura mundial.

 

Setor 2 – Arquitetando a história

Cada edifício da história guarda os registros do trabalho de seus arquitetos. A vida das cortes medievais pode ser conhecida em seus castelos, verdadeiras fortificações, com grossas paredes de pedra e poucas janelas, levantadas para defender os feudos dos ataques dos inimigos externos e, mesmo, das guerras civis e revoltas populares dentro dos próprios reinos. E as obras de igrejas? Algumas levam séculos para serem concluídas! Em torno delas, crescem as grandes cidades e seus projetos diferenciados de poder. Alguns artistas da era moderna retomam a simplicidade das primeiras soluções influenciadas pelas formas contidas na natureza e nos surpreendem com obras singulares e inconfundíveis. A leveza do traço do genial arquiteto brasileiro, que projetou o Brasil para o mundo inteiro, pousou a capital no centro do país. E, no deserto tão distante de nós, são erguidas cidades inteiras de desenho arrojado e impetuoso, com seus arranha-céus futuristas.

 

Setor 3 – O sonho que se perde todos os dias

No entanto, com o passar do tempo, crescem as populações das grandes cidades, de forma desordenada, e, com isso, surgem os problemas que afetam a maioria das metrópoles. O desmatamento avança, sem nenhum controle, provocando o esgotamento dos solos, o desaparecimento das águas e o desequilíbrio climático, com graves consequências para todo o planeta. A enorme quantidade de lixo, originado pelo consumo desenfreado, afeta os rios, os mares e a terra. São toneladas diárias de detritos contaminando tudo ao redor. Morrem os pássaros e os peixes atingidos por vazamentos de petróleo e resíduos das indústrias. Enchentes e falta de saneamento atingem, principalmente, as comunidades de baixa renda. O trânsito caótico imobiliza as pessoas, os milhares de automóveis poluem o ar, a violência se espalha e a desigualdade social ameaça a vida. Nas cidades de hoje, esquecemos o futuro todos os dias.

Setor 4 – A cidade que pode ser maravilhosa

 

Pense em uma cidade onde é possível abrir as janelas para contemplar o verde, passear nos parques, circular nas ruas, sentir a brisa quente que vem das praias e traz o cheiro da maresia… respire o ar puro da floresta. Imagine um lugar onde os rios correm livremente para o mar e é possível mergulhar na baía e nadar na lagoa. Em que casas seguras e confortáveis, construídas em suas colinas, contemplam a paisagem e repousam tranquilas. Aqui, se pode acordar mais tarde e chegar do trabalho mais cedo, porque o trânsito flui e o transporte é acessível. O ar é puro, a vida é boa. Tem escola, universidade, teatro, cinema, hospital e moradia para todos. Essa cidade existe e está nos sonhos de milhares de pessoas. Ela também vem sendo construída no trabalho cotidiano de quem dedica sua existência a buscar soluções para criar uma cidade sustentável. Mas é preciso conquistá-la, alimentar os sonhos todos os dias. A Tijuca quer arquitetar o futuro na Avenida do Samba, provocando o encontro com aqueles que sabem que ele é possível. Conhecer o passado, reagir ao presente e tramar o futuro nos traz a certeza de que não devemos retroceder. Porque o sonho que se sonha junto é realidade e a cidade maravilhosa ainda precisa ser conquistada!

Paulo Barros, Isabel Azevedo, Ana Paula Trindade e Simone Martins.

 

Carnavalescos: Paulo Barros, Marcus Paulo e Helcio Paim

G.R.E.S. Unidos do Vila Isabel

 

Enredo: “Gigante pela a própria Natureza: Jaçanã e um índio chamado Brasil”

“Abriram-se as margens do rio ao sol nascente, que esverdeava ainda mais a mata e azulava o céu incandescente, para desvendar uma lenda indígena que falaria a um pequeno índio-menino sobre uma relíquia.

E com o menino começamos a caminhada…

Perto do rio, o curumim levantou-se cedo – a pesca o esperava!

Animado na alma com a vida na mata, bebeu escondido aluá e fartou-se com a pupunha da sua mãe que sempre o alimentava.

Beijou-a e sozinho, fingindo ser o homem que ainda não era, pulou em sua canoa sem destino rumo à peripécia que, os grandes, espera.

Pelo rio, com riso nos lábios e vontade de alegria na pescaria e na jornada, o curumim gritava alto às águas para espantar Boiúna , ou tudo, ou nada:

 

“Eu sou Brasil! Tenha medo de mim!

Aqui quem fala é um pequeno gigante que já pesca com vontade danada de gente grande! ”

A canoa em frente, a flecha armada, curumim pescava e brincava baixinho para conseguir pegar a jatuarana sem espantá-la.

Com o sol forte da manhã, entretanto,

Brasil resolveu descansar do seu gracejo.

O pequeno deitou-se na canoa embalada pelo banzeiro e adormeceu para sonhar o sonho dado ao miúdo bravo guerreiro…

A canoa, no mundo da fantasia, transformou-se em Jaçanã e partiu…

Levantou voo do rio e Brasil a tudo assistiu:

“Pequeno menino, quero lhe contar sobre a sua irmã tão mais nova que é quase filha!

Será forte e esperançosa, um ponto de luz no universo que nascerá em abril.

Sabe-se que ela terá muito a dar aos homens e mulheres de boa vontade na terra, e que será grande, gigante, reta, moderna, só podendo ser entendida se soubermos sobre sua pátria-família, a verdadeira mãe e geradora da sua irmã nessa cantiga”.

A Jaçanã, montada pelo menino e com asas batendo forte, foi primeiro para baixo cruzando serras no céu anil.

Mostrou ao pequeno Brasil um pampa aberto sob as estrelas, enorme!

Lá, irmãos brancos de cabeças amarelas montavam seres mágicos e galopavam amarrando com laços outros bichos encantados.

Tomavam bebida quente em cuias e, Brasil, espantado, ouviu deles o recado:

“Mas o pranto, afinal, que essa cólera encerra tomba: é a chuva que cai e que, o Paranoá, rega; e a cada gota, ali, cada gérmen se apega fecundando, a minar modernamente, toda a terra”.

Jaçanã levantou-se de novo voando para longe dando adeus aos cabeças-amarelas que apontavam para outro fronte.

Brasil desconfiado não entendia o sonho: seria um delírio?

“Não, pequeno menino meu…” – disse Jaçanã. “É uma profecia! ”.

Chegando em outro pedaço daquele mundão, Brasil viu irmãos orando e rodando pedindo clemência pela dança a Deuses que o índio desconhecia.

O povo preto clamava igualdade e liberdade, e na dor sofria sem esquecer nunca a força ancestral que para sempre na resistência lhe caberia.

O povo preto um beijo deu na Jaçanã e ao Brasil declamou um pouco de crença afinando a profecia:

“São duas asas unidas de dois pajés construtores nascidos.

Talvez do mesmo arrebol, vivendo toda a gente no mesmo chão arado e concretado, da mesma gota de orvalho, do mesmo raio de sol”.

O menino ainda não entendia… O que era essa tal profecia?

Jaçanã com pressa, pois sonhos têm prazo certo, decolou e ali perto encontraram outro pedaço de terra que misturava areia, água salgada e pedra.

A gente irmã suada do litoral também apontava para outro local e embebida nas cantorias e Novas Bossas suas sinas, misturando-as com palavras das Minas, profetizou o futuro do seu passado para o menino:

“‘No princípio era o ermo eram antigas solidões sem mágoa.

O altiplano, o infinito descampado no princípio era o agreste: o céu azul, a terra vermelho-pungente e o verde triste do cerrado.

Eram antigas solidões banhadas de mansos rios inocentes por entre as matas recortadas.

Não havia ninguém. A solidão mais parecia um povo inexistente dizendo coisas sobre nada’.

Mas…

‘Para cantar, pelas Duas Asas, de amor tenros cuidados,

Tomem entre vós, do mineiro cacique, a vontade e o instrumento;

Ouvi, pois, dos Candangos, o fúnebre lamento;

Se é que de compaixão sois animados’” …

Jaçanã enfim pronunciou:

“Está vendo, menino Brasil, o que essa gente toda conta?

Querem amor e união em uma nova casa pronta!

Modelada por dois pajés, realizada pelo cacique e feita por nobres sofredores Candangos, com a ajuda e a idealização de tantos outros de agora e de outrora, será o projeto moderno centro desse chão!

Nova pindorama de árvores retorcidas nascida porque filha dos filhos dessa terra em confraternização! ”.

Voou então a ave para outro rincão para mostrar uma família que tanto padecia no sol lascado braseiro de testas, Vidas Secas e Severina!

Pés marcados no chão rachado e as mãos apertadas sem brecha,

todos da família oravam de joelhos pedindo esperança e bom agouro,

alguns dos futuros Candangos esses cabras-da-peste.

Quando viram Jaçanã e o menino Brasil, logo correram e apontaram para o Oeste:

 

“Ave Musa incandescente

do deserto do Sertão!

Forje, no Sol do meu Sangue,

o Trono do meu clarão:

cante as Pedras encantadas

e a Catedral Soterrada,

Castelo deste meu Chão!”.

 

E, rápida, para o longínquo Centro-Oeste,

onde outros Candangos de lá já aguardavam,

Jaçanã levou o pequeno Brasil.

Pousou no meio daquele cerrado e ela mesma, antes de sumir, sorriu:

“Brasil, no futuro essa profecia se revelará a um Padre-Santo

em outro sonho para se realizar em moderno Piloto Plano!

O que os cabeças-amarelas, os pretos,

os filhos do mar, das Minas e os futuros Candangos recitavam e apontavam

será aqui: sua irmã, o lugar de fé que unirá aquela gente, aquele povo todo,

para o mundo jorrando leite e mel com gosto…

A terra mística no alto desse Planalto

que se levantará tentando nos dar ‘sessenta’ anos em cinco de avanço sem percalço

com tanta gente junta que se esparramarão para além das Asas da casa,

deitando-se até em seu entorno

com as cores das suas culturas servindo de reboco!

Vem, menino Brasil, anime-se! Sua irmã Brasília será ave que voa e rodopia!”.

 

Deitou-se então no seu jazigo e, abrindo as duas asas,

Jaçanã ao chão se fundiu, o corpo inteiro tornando-se asfalto e magia.

Um pássaro que viraria casa para o Brasil, quem diria?!…

Daí a queda! A volta! Um clarão!

Uma marola sacudiu a canoa e acordou o bravo menino de supetão!

Brasil navegou ligeiro de volta não mais à toa

deixando as jatuaranas animadas na água boa.

Pé na margem, foi correndo contar para sua mãe o sonho da canoa!

“Mamãe, Mamãe! Sonhei com uma profecia!”.

A mãe no chão, sisuda de terra, ouvia…

Pediu calma ao menino, pois também tinha uma linda notícia,

e sorria:

 

“Filho meu, Brasil pequenino…

Descobri hoje com o xamã que você terá uma irmã!

Em sua homenagem se chamará Brasília!

Uma menina-Brasília que será gigante pela própria natureza!”.

 

Alma cheia d´água, o menino pressentiu:

sabia que cedo ou tarde sua irmã seria grande como aquele rio

e no futuro a filha da profecia!

Pensou na Jaçanã e feliz decidiu ir brincar:

quem sabe se o destino de todo mundo não é sempre para uma casa voltar?

Mas, se tudo isso é estória,

fato mais bonito (re)inventado do sonho de um curumim lendário talhado na memória,

a realidade é outra coisa…

Contudo, pede-se licença para imaginar contos de límpida felicidade no Carnaval

para nesses dias acalmar o sofrimento incessante do doloroso real.

Assim, Vila Isabel, canta essa Brasília irmã com o pequeno Brasil e sua Jaçanã,

a doce morada nos dada de encomenda

pelas bênçãos do céu azulado orvalhando o cerrado!

Bênçãos da Aparecida Nossa Senhora,

Padroeira dos filhos do Brasil e da nossa Brasília, desejosas de igualdade generosa!

Livrai-nos, Santa, da dor e do mal,

cravando nas retas da cidade as curvas do coração

desse povo bravo, heroico, sofrido,

estopim da chama da cidade candente de migração…

Ah, Brasília! Pois honrando tua inspiração

que caibam no teu seio muitos Brasis forjados pela oração!

Recebe-nos, Irmã, com lágrimas de misericórdia então

e cuida, enfim, dos gemidos da nação em oferenda,

pois na Sapucaí, só por hoje, saibam todos,

o resto tudo é tudo lenda…

 

Autores: Edson Pereira, Clark Mangabeira, Victor Marques

Texto e pesquisa: Clark Mangabeira e Victor Marques

 

Bebida refrigerante de origem indígena(https://luzdameianoite.wordpress.com/2015/11/14/alua-bebida-de-origem-indigena/).

Fruto amazônico consumido por muitos grupos (http://www.cifor.org/publications/pdf_files/books/bshanley1001/209_214.pdf).

“Figura da mitologia indígena representada por uma enorme cobra, muito temida por sua crueldade, que pode tomar a forma de uma embarcação ou, às vezes, de uma mulher, que faz virar os barcos. Etimologia: tupi mboi-úna” (michaelis.uol.com.bre www.ufmg.br/cienciaparatodos/wp-content/uploads/2012/08/leituraparatodos/e5_30-alendaamazonicadeboiuna.pdf). Para fins de esclareci-mento e curiosidade: “Dados linguísticos (e.g. Migliazza 1982; Rodrigues 1964; Walker et al. 2012), resultantes de análises léxi-co-estatísticas, são unânimes em apontar o sudoeste da Amazônia, na bacia do alto rio Madeira, como o centro de dispersão dos povos Tupi” (ALMEIDA & NEVES. Evidências arqueológicas para a origem dos Tupi-Guarani no Leste da Amazônia. MANA 21(3): 499-525, 2015) e (www.museudoindio.org.br/indios-da-amazonia/).

Para pesca com arco-e-flecha, ver: (g1.globo.com/sp/campinas-regiao/terra-da-gente/noticia/2016/02/indios-da-amazonia-ensinam-arte-da-pescaria-com-arco-e-flecha.html). Ademais, para fins de esclarecimento e curiosidade, conforme mapa constante na obra “The Amazonian Languages”, editado por R. M. W. Dixon e Alexandra Y. Aikhenvald, publicado pela Cambridge University Press, em 1999, houve etnias que falavam Tupi e Tupi-Guarani na Macrorregião Amazônica. No mesmo sentido, ver: NEVES, Walter Alves; BERNARDO, Danilo Vicensotto; OKUMURA, Mercedes; ALMEIDA, Tatiana Ferreira de; STRAUSS, André Menezes. Origem e dispersão dos Tupiguarani: o que diz a morfologia craniana? Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi. Ciências Humanas, v. 6, n. 1, p. 95-122, jan.-abr. 2011.

Peixe encontrado na Bacia Amazônica.

Espécie de ave encontrada em várias partes do Brasil, do Sul ao Norte, e em terras amazônicas: (https://www.wikiaves.com.br/mapaRegistros_jacana).

Do poema “Germinal”, do poeta paranaense Emílio de Meneses (1866-1918), citado, no enredo, como homenagem a todo o Sul do Brasil, com pequenas mudanças e acréscimos para fins única e exclusivamente de condução da estória, de maneira a conectar o tema descrito na passagem do poeta àquele grupo que o enredo comenta, e retratado como parte da profecia de Brasília, dada, no sonho, ao menino Brasil (MARTINS, W. História da inteligência brasileira, vol. 5, São Paulo: Cultrix & Edusp, 1978. Poema originalmente publicado em 1901).

“Pajé é uma palavra de origem tupi-guarani utilizada para denominar a figura do conselheiro, curandeiro, feiticeiro e intermediário espiritual de uma comunidade indígena” (ref.: https://www.significados.com.br/paje/).

Do poema “A Duas Flores”, do poeta baiano Castro Alves (1847-1871), relacionado aos negros do Brasil no enredo, com pequenas mudanças e acréscimos para fins única e exclusivamente da estória, de maneira a conectar o tema descrito na passagem do poeta àquele grupo que o enredo comenta, e retratado como parte da profecia de Brasília, dada, no sonho, ao menino Brasil.

Citam-se “cantorias e Novas Bossas” para se referir ao período musical dos anos 1960, em especial carioca, com relação à Bossa Nova, que é o ritmo com o qual se entoa, no enredo, a profecia de Brasília e que se relaciona ao período modernizante de JK: “Neste espaço de tempo, surgiu o movimento Bossa Nova, numa realidade sócio-política e econômica distinta, com o advento do governo de JK (1956-1961), que tinha um projeto político para o Brasil de um aceleramento dos processos modernizantes, objetivando avançar cinquenta anos em cinco” (LUIZ, D. NASCIMENTO, L. Minha terra tem palmeiras – Imagens do Brasil na bossa nova. DARANDINA revisteletrônica – Programa de Pós-Graduação em Letras / UFJF – volume 4 – número 1).

A ideia de “futuro do passado”, cantada pelo “povo do litoral”, diz respeito a cariocas estarem declamando que o futuro, ou seja, a nova capital Brasília, é seu próprio passado, pois o Rio de Janeiro foi a capital anterior. Ademais, “Minas”, citada em referência a voz do poeta Cláudio Manuel da Costa, estabelece a relação com as Minas Gerais, onde nasceu Juscelino Kubistchek (Diamantina, 1902), retratado como o “cacique” do enredo, e com os Inconfidentes mineiros, que já haviam pensado na possibilidade de mudança da capital para o interior.

Trecho da obra “Brasília, Sinfonia da Alvorada”, com música e orquestra sinfônica sob a regência de Antônio Carlos Jobim

e poesia de Vinícius de Moraes (museuvirtualbrasil.com.br/museu_brasilia/modules/news3/article.php?storyid=24).

Refere-se aos chefes políticos ameríndios. Aqui, alusão metafórica a Juscelino Kubistchek.

Do soneto “Para cantar de amor tenros cuidados”, das “Obras Poéticas de Glauceste Satúrnio”, do poeta mineiro Cláudio Manuel da Costa (1729-1789), com pequenas mudanças e acréscimos para fins única e exclusivamente da estória, de maneira a conectar o tema descrito na passagem do poeta àqueles grupos que o enredo comenta – mineiros e “do litoral” –, e retratado como parte da profecia de Brasília, dada, no sonho, ao menino Brasil.

Referência metafórica a Lucio Costa e Oscar Niemeyer, retratados como os dois pajés que planejarão Brasília no enredo.

A possibilidade de interiorização da capital já havia sido ventilada pelo Marquês de Pombal e foi retomada pelos Inconfidentes mineiros. Ademais, o verso se relaciona a outros personagens envolvidos na construção de Brasília, como Joaquim Cardozo, arquiteto e engenheiro que também contribuiu com monumentos arquitetônicos da cidade. Para isso, ver: VIANA, Enaildo Gonçalves. Brasília, epopeia do povo brasileiro: uma reflexão constitucional. REPATS, Brasília, V. 5, nº 2, p 781-798, Jul-Dez, 2018.

Pindorama: do tupi, uma das acepções da palavra é uma terra mítica e livre de males. No enredo, Brasília aparece como a nova Pindorama, agora, ao invés de palmeiras, com árvores retorcidas em razão do cerrado. (Fonte: vortex-mag.net/pindorama-o-verdadeiro-nome-do-brasil-antes-de-chegarem-os-portugueses & diariodori-o.com/brasil-o-pais-de-nome-vermelho).

Referência aos romances “Vidas Secas”, de Graciliano Ramos, e “Morte e Vida Severina”, de João Cabral de Melo Neto, no sentido de enfatizar o sofrimento e a migração do povo nordestino, tal qual descrito nessas obras.

Vale ressaltar que parte da Catedral de Brasília está abaixo do nível do solo, daí, no enredo, ser colocada como “Catedral Soterrada”. Ademais, o “Trono” deve ser entendido como a própria cidade, metaforicamente referenciada.

Trecho de Ariano Suassuna, escritor paraibano, relacionado aos nordestinos e retratado como parte da profecia de Brasília no enredo, dada, no sonho, ao menino Brasil. Disponível em: SUASSUNA, A. Romance d’A Pedra do Reino e o príncipe do sangue do vai-e-volta. Rio de Janeiro: José Olympio, 2006.

Grade parte dos trabalhadores que construíram Brasília vieram do Nordeste, conforme a Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, intitulada “Cidade, trabalho e memória: os trabalhadores da construção de Brasília (1956-1960)”, de autoria de Reinaldo de Lima Reis Júnior, defendida em 2008. Contudo, houve trabalhadores também de outras localidades do Brasil, como Goiás, São Paulo e Minas Gerais.

Referência à profecia de Dom Bosco sobre Brasília que fala sobre “a terra prometida, de onde jorrará leite e mel”.

Referência ao bordão de JK “cinquenta anos em cinco”, alterado para “’sessenta’ anos em cinco”, em homenagem ao aniversário de sessenta anos de Brasília.

Homenagem às cidades-satélites no entorno de Brasília, que, com ela, mantêm relações históricas, sociais, afetivas e culturais.

“Pássaro” é uma referência comum ao formato do Plano Piloto (QUEIROZ, Ana. O Plano Piloto de Brasília e a busca da cidade ideal: utopia, arte e mitologia. ArtCultura, Uberlândia, v. 9, n. 14, p. 157-167, jan.-jun. 2007).

“Xamã” é palavra análoga à pajé (ref.: https://pib.socioambiental.org/pt/Xamanismo).”

Carnavalesco: Edson Vieira

G.R.E.S. União da Ilha do Governador

Enredo: “Nas encruzilhadas da vida, entre becos, ruas e vielas a sorte está lançada: Salve-se quem puder!”

A agremiação carnavalesca preferiu não ter sinopse de enredo.

G.R.E.S. Unidos do Viradouro

Enredo: “Viradouro de alma lavada”

SINOPSE COMPLETA

VIRADOURO DE ALMA LAVADA

 

SOU MARIA… DE PAIXÃO VERMELHA, CÉU DE NUVENS BRANCAS DOS SANTOS ANJOS… DE XINDÓ, A ALMA CAFUZA, DO PAI PESCADOR E MÃE LAVADEIRA. ALMA QUE SE UNE ÀS ESCRAVAS, CABOCLAS E CRIOULAS NUMA REDE DE SENTIMENTOS QUE EMANAM O MESMO IDEAL: A LUTA PELA ALFORRIA DO POVO NEGRO. TRAGO A MEMÓRIA ANCESTRAL DE OUTRAS MARIAS DA MINHA PEQUENA ITAPUÃ. A ITAPUÃ DO MAR ABERTO, LEITO PARA A MÍSTICA DOÇURA DO ABAETÉ.

A AURORA DO DIA REFLETE O OURO NAS ÁGUAS ESCURAS DA LAGOA, ÁGUAS CIRCUNDADAS POR DUNAS DE FINAS AREIAS BRANCAS. NO ALVO VÉU DA NOIVA, A COMUNHÃO DAS LAVADEIRAS QUE OUVEM CÂNTICOS LENDÁRIOS QUE VÊM À TONA DAS PROFUNDEZAS. À SOMBRA DO ANGELIM, AS SACERDOTISAS DO SOL ENSAIAM CANTORIAS ADOCICADAS POR CACHUNDÉS E GUAJIRÚS. VARAIS DE RESISTÊNCIA CRUZAM AS RESTINGAS NO QUARAR DAS IMPUREZAS DE SEUS SENHORES.

NO MAR, A SIMPLICIDADE NO GANHO DE OUTRAS HEROÍNAS. JANGADAS E SAVEIRINHOS REPLETOS DE FEITORIAS POR SEREIA-RAINHA QUE OFERTA O QUINHÃO (XARÉU, ROBALO, GUARICEMA E PEIXE-GALO). O MAREAR DAS ONDAS PRELUDIA O BALÉ DAS REDES AO COMPASSO FEMININO DAS PUXADAS. CANTOS BRAVIOS QUE AMENIZAM O PESO DE CONTÍNUOS CAMINHOS TRAÇADOS. AREAIS TESTEMUNHOS DE GRANDES LIÇÕES DE VIDA QUE, CALADAS, ALCANÇARAM O PECÚLIO FAMILIAR.

TERREIROS DA BAIXA DO DENDÊ REVELAM O PREPARO DO GANHO. NAS MALHADAS, A SECURA DOS PESCADOS, A COLHEITA DO PLANTIO, O PREPARO DO QUITUTE E O MANEJO DAS ARTESÃS. A BICA DE ITAPUÃ FOI O PRINCIPAL PONTO DE ENCONTRO DO BANDO DAS GANHADEIRAS. ÓPERA NEGRA DO MERCADEJO: DOS BANHOS SEM PUDOR, DOS NEGROS CAMARÁS E DA COMUNHÃO DAS ESCRAVAS EM TORNO DA COMPRA DE SUAS ALFORRIAS.

“E QUE TODA MARIA PASSE NA FRENTE!”.

E LÁ VAI MARIA… E LÁ VÃO AS MARIAS… DE SAIAS FLORAIS, BLUSAS DE CRIVO, COLARES DE CONTAS E ERÊS NOS PANOS DE DORSO. APOIADAS EM TORSOS, SEGUE A PROCISSÃO DE BALAIOS, BANDEJAS E GAMELAS EM RITUAL DE LONGAS TRAJETÓRIAS. MARÉ BAIXA QUE REVELA NO LITORAL MARGEANTE MILHARES DE PASSOS A CAMINHO DE SÃO SALVADOR – O PORTO DAS FREGUESIAS. AGUADEIRAS REFRESCAM A SEDE DOS BECOS PERFUMADOS DE DENDÊ. LARGOS GANHAM O COLORIDO DAS BARRACAS MERCANTES DE FRUTAS. VENTO QUE ORQUESTRA A SINFONIA DOS BALANGANDÃS DAS CAIXOTEIRAS. FOGARÉUS ACESOS E VOZES REGADAS A GOLES DE CACHAÇA NO FUÁ DA ESTRIDENTE MERCAÇÃO.

À BEIRA-MAR, UM FAROL VERMELHO E BRANCO DE LUZ POENTE ILUMINA O LIVRE CAMINHAR. DE PÉS CANSADOS, AGORA CALÇADOS. PUNHOS CERRADOS, ENFEITADOS COM JOIAS DE CRIOULA. MULHERES QUE NÃO SE CURVARAM E HOJE CANTAM A SUA LIBERDADE. SAIAS DE RODA PARA SAMBAR; SAMBA DE AREIA PARA CIRANDAR. NAS CHEGANÇAS, A NEGRA DANÇA AO SOM MALÊ. ATABAQUES QUE UNEM ORUN – AYÊ. PEDRA QUE RONCA AO VENTO QUE BALANÇA. MERGULHO PROFUNDO DE PEITO ABERTO NO SAMBA DE MAR ABERTO.

ÁGUAS QUE PURIFICAM A LAVAGEM DAS ESCADARIAS DE NOSSA SENHORA DA CONCEIÇÃO – NOSSA DEVOÇÃO! MÃE DA MÃE QUE DESATA TODOS OS NÓS. FÉ QUE EMANA ROMARIAS AO MAR: ESCADARIAS, PÉTALAS EM FLOR E O CHEIRO DA AROEIRA. IRMANDADES REMONTAM A FESTEJOS PASSADOS NA FESTA DA BALEIA. O SAGRADO ABRAÇA A MATRIZ SOB O VÉU QUE DESCORTINA A IGUALDADE.

“TODA MULHER BRASILEIRA EM SUA ESSÊNCIA É GANHADEIRA!”.

O BRASIL DE HOJE REVELA A VOZ DE OUTRAS MULHERES QUE, EM CONSONÂNCIA, RITMAM O TRABALHO E O SUSTENTO DE SUAS VIDAS. ELAS SÃO DE VERDADE! SOU UM POUCO DE MIM, EM UMA FALANGE DE NÓS. PERTENÇO À QUINTA GERAÇÃO DAS GANHADEIRAS HISTÓRICAS QUE REMETEM À SAGA DE NOSSAS AVÓS, DE NOSSAS MÃES E DE OUTRAS MARIAS QUE CONTRIBUÍRAM PARA A FORTIFICAÇÃO DO POVO BRASILEIRO. HISTÓRIAS QUE SE CRUZAM À BEIRA DA BAÍA E REFLETEM NO ESPELHO D’ÁGUA O FUTURO, SEM SE ESQUECER DA LUTA DE UM PASSADO RECENTE. DE MÃOS DADAS, GANZÁS EMBALAM CHOCALHOS, ATABAQUES VERSAM CAIXAS, PANDEIROS CADENCIAM O CHORO DAS CUÍCAS. LÁGRIMAS QUE SE REVIGORAM NO SAGRADO ALTAR DO SAMBA SOB AS BÊNÇÃOS DE XANGÔ E SÃO JOÃO BATISTA – PROTETORES DA MINHA VIRADOURO. VIRADOURO QUE, DE ALMA LAVADA, ABRAÇA AS GANHADEIRAS DE ITAPUÃ, ESPELHO DA MULHER BRASILEIRA.

 

DONAS DO MEU CARNAVAL!

 

MARIA DA PAIXÃO DOS SANTOS ANJOS OU MARIA DE XINDÓ.

 

(LAVADEIRA E UMA DAS MATRIARCAS DO GRUPO MUSICAL AS GANHADEIRAS DE ITAPUÃ. VIRADOURENSE DE CORAÇÃO, NASCIDA EM 1946 – ANO DE FUNDAÇÃO DA UNIDOS DO VIRADOURO.)

 

MARCUS FERREIRA, TARCÍSIO ZANON E IGOR RICARDO (PESQUISA, DESENVOLVIMENTO E TEXTO);

HENRIQUE PESSOA (REVISÃO TEXTUAL).”

Carnavalescos: Tarcísio Zanon e Marcus Ferreira.

 

 

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Isso é tudo por hoje, pessoal!

Gostaram?

Essa foi a primeira parte. Semana que vem trarei os samba-enredos de cada escola e um comentário de um torcedor-sambista  sobre o enredo e o samba de enredo de cada escola.

Bjs e até semana que vem!

 

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