Boa noite, leitor(a)! No programa de hoje tem resenha sobre uma das novas atrações da OnTV e a quinta parte do Manual do Roteiro. Preparado(a)? Vamos lá!

 


Vamos dar continuidade ao Manual do Roteiro. Que tal analisarmos a formatação de três roteiros disponíveis no Mundo Virtual, um em cada webemissora? Como cada autor desenvolve a história através da linguagem específica deste gênero textual? É o que veremos a partir de já em pequenos excertos.

 

1 – GATO PRETO, de Cristina Ravela (Cyber TV)

Olha quantos elementos podemos verificar apenas neste trecho inicial da minissérie! Por se tratar de uma trama com requintes cinematográficos, a autora usa e abusa — no bom sentido — dos termos específicos de roteiro, mas sem exageros que possam poluir a leitura e a beleza da disposição textual na tela (a literatura o chama de mancha no papel), assim como o espaçamento deixado por ela.

  1. Ravela divide os episódios de suas minisséries em atos;

  2. Um FADE IN abre a “tela” para a história. Comentei sobre ele no programa 64;

  3. Isto indica que a primeira cena se passa num tempo posterior à ação principal;

  4. O cabeçalho, bem construído, indica o tempo e o espaço em que a cena se passa;

  5. Na descrição, a autora destaca as mudanças de cômodo. Como a ação se passa em um único cenário e transmite uma continuidade temporal e espacial das ações, não é necessário abrir uma nova cena;

  6. A caminhonete é fundamental para a cena, tanto que está em caixa alta, justamente para despertar a atenção do leitor, do diretor e da câmera;

  7. Uma garota, ainda não identificada, fala algo;

  8. Atenção para a forma com que Ravela destaca, na descrição, o ato de saltar da personagem;

  9. Só depois que o interlocutor a chama de Alice, ela passa a ser “creditada” nas falas;

  10. A passagem direta para a cena seguinte sugere que há um corte simples. Por ser o tipo de transição mais utilizado, alguns escritores preferem omitir o comando CORTA PARA. Por este motivo, usá-lo ou não é questão de preferência.

Outras observações: a roteirista utiliza a formatação em Courier New, a mais utilizada profissionalmente. Outras opções, mais correntes em novelas de TV, são Arial e Times New Roman. Nos textos para o Mundo Virtual, é possível notar outras fontes além dessas. O importante é manter a harmonia visual e a fluidez da leitura, como dito antes.

Para ler o episódio inteiro, clique aqui.

 

2 – AMADA FAMÍLIA, de Everton Brandão (Megapro)

(…)

O autor abre com uma sequência de ações e efeitos de introdução: um dos protagonistas surge em cena, dança e atrai a atenção de todos à sua volta. A primeira fala vem apenas no fim. Por ser uma novela e ter menos ação, os recursos técnicos não são tão necessários em quantidade: Brandão utiliza poucos elementos, preferindo descrições mais diretas e objetivas.

  1. Mais uma vez, o FADE IN inicia uma obra. Importante ressaltar que você pode abrir uma história com ele, com outro efeito de transição ou mesmo sem nada;

  2. O cabeçalho completo e informativo;

  3. A legenda em destaque, mostrando o que aparece escrito na tela;

  4. O autor destaca a sonoplastia em vermelho. O uso de cores é válido no Mundo Virtual, mas não as use num roteiro profissional, ok? Neste, só preto;

  5. Outra formatação bastante utilizada para falas, embora o modelo de Gato Preto seja mais utilizado em textos oficiais;

  6. Como a legenda está ligada à descrição, neste trecho, Brandão destacou o nome a aparecer na tela;

  7. O autor interrompe a música com este comando: SONOPLASTIA OFF;

  8. A rubrica OFF indica que o personagem não aparece na tela. Neste caso, outra opção é O.S. (out of screen — fora da tela);

  9. Outra rubrica, desta vez aparecendo no meio da fala de Adolfo, outro protagonista da trama.

Note como ocorre a descrição de personagens: com características simples entre parênteses. Outra opção, especialmente quando se trata de personagens centrais, é fazê-lo em texto corrente, tomando apenas o cuidado para não tornar a descrição muito “literária”. Isto é feito para o leitor imaginar o personagem a partir da visão do roteirista e para o facilitar o processo de escalação de elenco, quando é o caso de um texto oficial. No Mundo Virtual, não é obrigatório usar tal recurso, embora muitos autores gostem de fazê-lo.

Para ler o capítulo completo, clique aqui.

 

3 – PASSOS DA PAIXÃO, de Édy Dutra (WebTV)

  

Édy inicia a novela sem recorrer ao fade, ao contrário dos roteiristas anteriores. Abre a primeira cena com uma panorâmica e outra já num cenário específico. Usa menos comandos técnicos ainda do que Everton, justamente para manter a simplicidade cênica no trecho apresentado. Os personagens também são introduzidos através de descrições entre parênteses, mas seus nomes só passam a integrar as falas após a primeira citação no diálogo — antes são apenas “homens” e “mulheres”. O estilo é bem difundido entre diversos roteiristas. Já outros preferem já indicar os nomes desde o início, sem qualquer “suspense” na hora de situar o leitor. Questão de gosto e de intenção, mais uma vez.

  1. O cabeçalho da primeira cena, destacando que é uma panorâmica;

  2. Descrição sucinta do que aparece na “tela”, sem artifícios nem complicações desnecessárias;

  3. Legenda destacada em negrito;

  4. Cabeçalho da próxima cena, indicando mudança de cenário;

  5. Descrição dos itens que se sucedem na cena até que entra o bar com alguns personagens. A sonoplastia aparentemente amontoada em meio à descrição. Isso, para alguns, poderia soar mal escrito ou formatado, mas os parênteses dão o destaque necessário à música;

  6. As falas são apresentadas “lado a lado”, ou seja, junto ao nome do emissor e não por baixo. Outro detalhe: Janice é chamada de “mulher” até que seu nome é citado pela primeira vez numa fala; o “homem” em questão se chama Almir;

  7. Corte simples, já que não foi indicado nenhum efeito de transição;

  8. O autor coloca um stocking shot — panorâmica exibida entre uma cena e outra — como introdução da sequência seguinte, sob um mesmo cabeçalho. Também há quem prefira colocá-la separada da próxima cena, usando cabeçalhos e descrições distintas.

Além disso, perceba a escrita fluida de Édy nas descrições. Embora alguns parágrafos podem parecer grandes e “amontoados”, em nenhum momento eles se tornam cansativos e literários. O vocabulário cotidiano e informal também é um grande atrativo.

Para ler o capítulo inteiro, clique aqui.

 

O tema da próxima semana é o gênero roteiro-literário, tendência entre muitos escritores no Mundo Virtual de alguns anos pra cá. Que características tem esse formato? O que ele tem de roteiro e o que tem de literário? Ele pode ser empregado em uma produção profissional? Responderemos a estas perguntas no Manual do Roteiro.

 


Sente falta de algo na logomarca?

Há cerca de duas semanas, Glaydson Silva (A Invasão) lançou sua nova novela na OnTV. Segunda Família conta a história de Jonas Ricardo e Jonas Ricardo. Isso mesmo que você leu: os inseparáveis amigos têm exatamente o mesmo nome e foram criados assim desde o nascimento. Para facilitar, vamos chamá-los de Jonas (Felipe Simas) e Ricardo (Daniel Blanco). Eles são tão agarrados um ao outro, que muitos já os consideram como um casal… até que surge uma garota entre eles. Em meio à vida que tiveram até então, com altos e baixos, com idas e vindas, eles pensam — por que não formar entre eles uma nova família, a segunda família do título? Vamos aos destaques do primeiro capítulo:

A história começa numa festa de aniversário de 18 anos dos jovens Jonas e Ricardo. Eles cumprimentam os vários convidados. Júlio, irmão de Jonas, parece distante e troca olhares nada agradáveis com o pai deles, Jair. Enquanto isso, ocorre uma primeira demonstração de carinho entre os aniversariantes, mas é cortada por Jonas, com medo do que os outros vão pensar. Elisa se aproveita da situação para tirar uma casquinha de Ricardo, numa sequência de pura descontração. Ela é filha do controlador Mário e da ponderada Rita. Após este quase causar um escândalo só pra menina voltar mais cedo pra casa, a festa entra na parte mais forte: o canto dos parabéns. Nessa hora, Jonas e Ricardo são expostos como um casal. Todos lidam bem, mas os rapazes não escondem o constrangimento.

Nas outras cenas são apresentados outros personagens, como Amador e os gêmeos adotados Bernardo e Ronaldo, além da estudante Maíra, preocupada com o escolha da faculdade. Daí pula para Jéssica e Larissa, as mães da dupla principal, que relembram os preparativos para a vinda dos meninos, numa cena muito bonita de se ler. Júlio, na época com cinco anos, contava o medo de ficar sozinho após a chegada do irmão. Em seguida, o moralista Vicente critica o fato de a neta Cíntia dormir com o namorado, o homofóbico César, acreditando que as intenções deste são puramente sexuais. Outros personagens importantes são Neto, um adolescente à beira do alcoolismo, e o germânico Zurique.

Jair, pai de Jonas, espera receber o primeiro pedaço de bolo. Em vão: Júlio é o presenteado da vez; ganha até um pomposo depoimento de parceria e gratidão. Jair não se conforma. Então Larissa relembra o assassinato de Adriano, pai de Ricardo. Teria Jair participado desse evento de alguma forma, a ponto de causar o ódio de Júlio? Mistério! Na última cena, Júlio conhece a recém-chegada Carolina e troca olhares com ela. Será que ela vai conseguir amolecer o coração do rapaz? Assunto para os próximos capítulos.

Em Segunda Família, Glaydson promete abordar temas contemporâneos, como a homossexualidade, a gravidez na adolescência, o alcoolismo juvenil e o conflito de gerações. O primeiro capítulo já dá uma amostra disso. O roteiro é bem escrito, sem exageros e com boa formatação no papel (arquivo PDF). Não há o que citar de negativo nessa parte. A parte gramatical também está bem adequada. A condução das cenas é bem fluida e chamativa da primeira até quase a última cena; só o final ficou um pouco cansativo, mas nada que comprometa a leitura. A apresentação de alguns personagens importantes — entre eles, Jair e as mães dos protagonistas — me pareceu um tanto truncada, prejudicada, e só se completou já com o capítulo adiantado; a não ser que tenha sido mesmo a intenção do autor de construí-los por partes entre uma cena ou outra, para dar um suspense. De todo jeito, considero o resultado acima da média. Desejo que continue assim e que seja mais um grande sucesso do autor e da OnTV. Bem, é isso.

 


O Observatório da Escrita fica por aqui, mas daqui a pouco tem o Cyber Backstage. Fique ligado(a)!

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