Boa noite, querido(a) leitor(a)! Que tal um pouco mais do Manual da Escrita? O tema de hoje está em dose dupla: a criação de personagens e a montagem de fichas e escaletas de apoio.

 

1 – CONSTRUÇÃO DE PERSONAGENS:

Como é possível desenvolver os personagens numa obra literária, seja ela em roteiro ou narrativa? Alguns passos podem ser traçados nessa fase:

  1. Dados funcionais:

    1. Qual é a ideia a ser transmitida pelo personagem na obra?
      Um resumo bem curto sobre a missão do personagem. Especialmente se for o caso de um protagonista, antagonista, vilão ou outro personagem de destaque, a ideia deve causar curiosidade e expectativa tanto nos leitores quanto no próprio autor. É a primeira impressão que se passa sobre aquele ser.
      Exemplo: adolescente entra em conflito interior ao ter que lidar com uma mudança de cidade com a mãe (Lucas, de A Difícil Arte de Ser Eu, Lucas).

    2. Qual é a função desse personagem?
      Protagonista, antagonista, vilão, opositor, co-protagonista, coadjuvante, figurante, “orelha” (coadjuvante cuja função é apenas interagir com outro personagem mais essencial).

    3. Qual é o tom desse personagem?

      • Dramático: possui um conflito que afeta a sua vida e que será resolvido no clímax. Exemplos: Liz, de E Vamos À Luta!, e Simone, da telenovela Selva de Pedra;

      • Trágico: o conflito desse personagem tende a levá-lo a um final negativo, mortal e/ou macabro. Exemplo: Mick, de O Vazio Que Habita em Mim;

      • Cômico: vivencia o conflito de forma positiva e com esperança de resolvê-lo da melhor forma possível. Não necessariamente levará o leitor ao riso. Exemplo: Poliana, do clássico da literatura internacional;

      • Farsesco: apresentado com tons exagerados e caricatos, a fim de fazer uma crítica ou uma sátira sobre alguma situação cotidiana, sobre sua desgraça ou afins. Exemplo: Enroladinho, de Debaixo dos Panos (Megapro).

  2. Dados humanos ou antropomorfos:
    Aqui se incluem pessoas, animais, vegetais, entidades religiosas (santos, orixás e entes negativos, entre outros), seres mitológicos e folclóricos e outros personagens com características humanas.

    1. Identificação e características físicas: nome, estado civil, altura, peso, presença ou não de cicatrizes ou marcas, forma física etc.;

    2. Personalidade: traços positivos e negativos mais marcantes do personagem (virtudes e defeitos), expressões faciais e corporais, postura;

    3. Aspectos sociais: estudos, trabalho, profissão, status econômico, moradia etc.;

    4. Aspectos familiares: relacionamento com cada um dos parentes;

    5. Aspectos de crença: espiritismo, esoterismo, signo, religião, filosofia, ideologia, abordagem política, preferências e preconceitos;

    6. Cultura e intelectualidade: temas de interesse e de desinteresse, relações interpessoais em geral, capacidade de comunicação, grau de formalidade pessoal e na comunicação, dotes e preferências artísticas etc.;

    7. Saúde: vigor físico, alimentação, prática de atividades, sedentarismo, doenças ou predisposições, fatores genéticos, vícios, sono, uso de medicamentos, acesso a médicos, psicólogos, fisioterapeutas e terapias afins, transtornos mentais e emocionais etc.;

    8. Lazer e esporte: preferências e práticas;

    9. Sexualidade: orientação, preferências, vícios, doenças, hábitos etc.;

    10. Desejos, expectativas e motivações;

    11. Medos e traumas;

    12. Detalhes importantes ou interessantes sobre o passado;

    13. Poder, autoridade e status social;

    14. Poderes sobre-humanos: paranormalidade, mediunidade, capacidades fantásticas (exemplo: tornar-se invisível) etc;.

    15. Outros contextos que considere importantes.

  3. Dados não antropomorfos:

    1. Classificação: animal, objeto, entidade ou o que for;

    2. Características relevantes para a presença dele na obra;

    3. Poderes aplicados a esse personagem;

    4. Relação com os outros personagens: o que estes querem com este ser?

    5. Outros contextos que considere importantes.

 

Com esta ficha, já é possível fazer uma construção um pouco detalhada sobre cada ente da história. Obviamente, mais perguntas serão respondidas e preenchidas mais com relação do protagonista do que a um coadjuvante sem muito destaque, por questões óbvias. Além disso, existem pela internet modelos mais resumidos ou até com dezenas de páginas, dependendo da escolha do(a) autor(a) em lhe dar o maior número de camadas que desejar. A intuição é o que importa nessa hora. Há até quem crie personagens utilizando apenas a imaginação e, incrivelmente, conseguem torná-los fascinantes em sua construção; mas os teóricos recomendam, até por experiência de uso, o desenvolvimento através de anotações e interligações de elementos.

 

2 – ORGANIZAÇÃO DO ROTEIRO:

Esta parte é dedicada mais àqueles que escrevem roteiros. Até pode ser utilizada para escritores narrativos, dependendo do seu estilo de produção, mas há outras técnicas mais direcionadas a esse grupo, e isso será abordado em outro programa.

Muitos roteiristas gostam de organizar seu trabalho através de anotações estruturadas em forma de escaletas. Esse nome pode assustar, mas é uma dinâmica relativamente simples de ser feita.

Sabe aquelas listas de “coisas para fazer” que costumamos preparar todos os dias, com a ordem das atividades e compromissos, detalhados ou não? A escaleta é exatamente isso, só que com as cenas que vão ser escritas em cada capítulo, como um guia ou um rascunho. Não tem validade técnica para a trama em si, embora possa ser objeto de estudo e análise para outros roteiristas.

O grau de detalhamento varia de escritor(a) para escritor(a). É comum que se insiram detalhes dos cabeçalhos, de sonoplastia ou trilha sonora, de efeitos especiais, mas o recomendado é o famoso “menos é mais”: apenas uma descrição básica de cada cena. Veja um exemplo:

 

CAPÍTULO 201

Cena 1: Mercedes chega do trabalho de carro. Abre o portão eletrônico com o controle remoto e entra com o carro na garagem. É noite.
Cena 2: Mercedes entra em casa. Tenta acender a luz da sala, mas a lâmpada está queimada. Mercedes pega uma lanterna na bolsa e acende. Ouve passos no corredor do andar de cima. Anda devagar até a escada e sobe.
Cena 3: Mercedes entra no corredor e anda lentamente e com medo. Close nela. Surge uma mão pela direita a atacar a moça pelo pescoço.
E assim por diante até a última cena.

 

O modelo acima foi feito de forma textual. Débora Costa e Henzo Viturino são dois dos adeptos desse formato. Também é possível fazer a organização através de tabela (meu caso), mapa mental, fichas ordenadas, sequência de adesivos Post-it, balõezinhos “bagunçados” numa folha branca ou de outro jeito que considerar facilitador. Há também quem goste mais de elaborar as cenas já na escrita dos capítulos propriamente ditos. Embora seja mais complicado e passível de deixar furos na trama (o que não necessariamente irá acontecer), esses autores consideram lidar bem com a arrumação mental. Outros relacionam as escaletas a maior exatidão e rapidez na produção do episódio. Sintetizando: nada é proibido nem obrigatório. O mais importante é o(a) roteirista se sentir à vontade ao escrever sua obra.

 


O Observatório fica por aqui, mas daqui a pouco tem o Cyber Backstage. Até já!

minissérie de MELQUI RODRIGUES
estreia nesta terça, às 23h

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