Antes que ela se desse conta, tudo havia acabado. Aquele grupo de guerreiros desconhecidos venceu em poucos segundos com uma matilha de mais ou menos 70 lobos de uma vez.
Foi impressionante como aqueles jovens garotos haviam conseguido tal proeza. Era uma boa dose do que faltava em seu reino, o trabalho em equipe. Trabalho esse coordenado por um garoto de 16 anos de idade, ou talvez menos, Aredhel não sabia ao certo. Ali por maior que fosse o inimigo, os seis homens lutavam juntos, protegendo uns aos outros, num misto de coragem, esperteza e sincronia.
Lucca estava um pouco afastado dos outros, o que não fazia dele um covarde querendo se afastar da briga, pelo contrário. Era ele quem dava as ordens ali como o grande estrategista que era.
Um mapa mental surgiu em sua mente, e em questão de segundos ele já não via mais os amigos como pessoas reais, mas sim como as peças de um jogo de xadrez, onde cada movimento feito decidiria uma vitória importante.
Ele deu uma rápida olhada e em seguida deu um peteleco no ar, com movimentos sincronizados ele posicionou o cajado na frente do corpo com ambas as mãos, arrancou uma das bolas de vidro em sua Cintra com um liquido de cor verde. Proferindo algumas palavras esquisitas, que nenhum deles entendeu, fez com que houvesse uma mudança no conteúdo daquele frasco.
O liquido verde tornara-se amarelado de uma hora para outra.
— O que você quer com ela?
— o novo rei de Ézius, emitiu um mandado de captura para ela. Eu devo leva-la viva a presença dele, mas eu posso acabar me esquecendo desse detalhe.
— Em dez segundos você vai estar acabada. — Disse ele, olhando fixamente para um ponto a cima de onde as garotas estavam. — ARCO!
O garoto arremessou para o ar aquela bomba de brilho intenso.
Apontando o arco para onde Lucca havia olhado por poucos segundos Drew, desviou-se de sua batalha e disparou uma flecha certeira, fazendo todo o conteúdo daquele frasco se espalhar em uma chuva de gotículas prateadas, cobrindo as arvores com uma película prateada.
No fim todos os lobos ainda vivos acabaram em uma cratera aberta, enquanto aquele que parecia ser o líder matilha acabou congelado por uma magia proferida pelo mago.
Aredhel estava agora segura, e sendo escoltada por um grupo de garotos um tanto diferentes do que ela estava habituada a ver, uma formação incomum naquela sociedade. Um elfo, um mago, um sereano, um gnomo e um humano trabalhando juntos.
Aquela era uma coisa rara de se ver, em geral as raças nunca se misturavam. Agora isso pouco importava para ela. O que realmente importava era entregar a mensagem ao seu destino final, para que pudesse se livrar de uma vez por todas do peso que ela carregava.
— O que você fazia no meio de uma floresta tão perigosa assim sozinha. — Lucca perguntou estendendo a mão para ajudá-la a se levantar.
— Eu preciso entregar uma mensagem no vilarejo do início. — Disse ela limpando a sujeira do vestido rasgado.
— Nós viemos de lá; — Disse Adam com um sorriso estampado no rosto. — Estamos indo para o castelo de Ézius a procura do rei.
— A jornada da vocês é inútil agora. — Disse ela com a voz embargada. — O castelo de Ézius não existe mais, e o rei de Ézius está morto!
— Não… Não, não. Isso não pode ser verdade. — Disse Adam quase em prantos — Ézius era nossa única chance de vitória.
— Para onde nós vamos agora? — Jimmy perguntou sentando-se na grama.
Ela podia ver a tristeza em seus rostos.
Cada um deles, a seu modo, deixou transparecer a frustração pela perda de seu pai.
Ao receber aquela triste notícia Artur pareceu entrar em um momentâneo estado de choque, seu corpo simplesmente parou de se mexer e desabando no chão, tremia feito uma criança amedrontada.
Era possível ver nitidamente o misto de tristeza e ódio em seus olhos, para ela, parecia que aquele homem conhecia seu pai intimamente. Ele era mais que um mero súdito.
— Como ele morreu? — Ele perguntou depois de um tempo com a voz embargada deixando uma lagrima cair.
— Meu pai morreu com honra. — Respondeu ela chorosa. — Em meio a uma batalha contra os lacaios dos reis feras.
— Ele morreu como um verdadeiro rei. — Disse Lucca sentando-se ao seu lado.
— Qual o conteúdo da mensagem? — Perguntou Jimmy sem nenhuma cerimônia.
— Eu não posso revelar tal segredo, meu senhor. A não ser para a pessoa a quem a mensagem é direcionada. — Ela disse tirando um pouco da poeira do vestido um tanto já rasgado.
— Sim, você pode. — Disse o homem enquanto limpava o machado. — Pois, está diante dele.
— Eu devo entregar essa mensagem…
— Você deve entrega-la a Anakin, não é? — Ele a interrompeu.
— Sim. — Ela respondeu surpresa. — Como você sabe dele.
— Eu sei disso por que você deve entregar essa mensagem a mim, Artur Anakin, príncipe regente do reino de Ézius, sucessor do trono no lugar de meu irmão.
— O que? …
Milla não conseguiu proferir mais nenhuma palavra.
— Eu não sei por que eles iniciaram uma guerra, mas ela logo chegará aos confins deste reino. E isso eu jamais irei permitir.
***
Aquela seria a última parada antes deles encontrarem o vilarejo próximo ao castelo, onde a princesa havia perdido o pai e o noivo, ─ não que ela estivesse disposta a se casar com ele, mas aquele era um destino cruel mesmo ele, que dera sua vida para que ela estivesse ali viva. Artur estendera o mapa no chão mais uma vez tentando repassar o plano pela enésima vez antes deles realmente partirem para a guerra. Ali havia uma chance de vitória, mesmo que mínima eles tinham que apostar nelas.
— Nós temos essas duas entradas principais. — Ele disse apontando para elas no mapa. — Aqui…, e aqui.
— Essa foi por onde eu saí. — E apontou para uma formação rochosa um pouco depois do vilarejo, que dava lugar a uma caverna que levava água para o interior do castelo. — As harpias me seguiram para fora. Se não fosse a ajuda do Ícaro, eu nem sei se estaria viva agora.
— Então os dutos estão fora de cogitação. — Disse Artur preocupado.
— Hum… O que nós temos abaixo do castelo…, além desses dutos? — Lucca perguntou ajeitando os óculos apontando para um ponto do mapa.
— Além dos tuneis subterrâneos que eu usei para a fuga e da prisão, existe apenas uma réplica em tamanho um pouco menor de cada templo onde as feras foram originalmente presas. — Aredhel respondeu de longe sem olhar o mapa.
— É possível que elas tenham passagens secretas, não? — Lucca perguntou tentando bolar um novo plano.
— Eu conheço uma. — Disse Artur pegando o mapa nas mãos. — Bem aqui.
Artur estendeu novamente o mapa no chão e apontou para um ponto vazio no mapa.
— Não tem nada ai. — Aredhel disse receosa. — Nada a não ser um pântano onde papai costumava jogar os homens sentenciados a morte.
— Quando eu era criança, eu e seu pai brincávamos o tempo todo ali, um pouco antes do lugar virar o que é hoje havia uma passagem de ar que leva direto para uma ala especial da prisão. Ela havia sido fechada um pouco antes da nossa separação, por conta da fuga que eu e seu pai iniciamos.
— Como assim. Você ajudou prisioneiros a fugir. — Milla perguntou abismada com o que acabara de ouvir.
— Prisioneiros não. — Ele respondeu olhando para a garota com carinho. — Eu ajudei sua mãe a fugir do sacrifício. Assim como eles fizeram com você.
A garota sorriu.
— Sempre fui contra a esse sacrifício sem sentido, apenas para garantir que a magia antiga fosse restaurada. — Concluiu ele retribuindo o sorriso.
— O que aconteceu depois.
— Eu fugi junto com a sua mãe e meu irmão voltou para assumir o trono.
— O que o vovô fez quando descobriu?
— Seu avô não fez nada, pois nossa separação já estava preparada há muito tempo. — O homem respondeu com lagrimas nos olhos. ─ Ele apenas garantiu que eu encontrasse as pessoas certas nos momentos certos para terminar meu treinamento.
— É possível que o Orfeu esteja nessa prisão? — Jimmy perguntou olhando para ele.
— Eu não sei! — Ele respondeu sem esperança. — É possível que a pessoa que vocês procuram possa ter sido levada como sacrifício para um dos templos.
— Quem é esse? — Aredhel perguntou.
— Meu pai. É possível que uma pessoa tenha aprisionado meu pai aqui nesse mundo e nos forçado a vir pra cá. — Disse Lucca levantando-se.
— Se der tudo certo, amanhã nos teremos nossas respostas e recuperado o castelo e poderemos saber qual a localização dos quatro reis definitivamente. — Disse Artur.
— Eu acho isso muito difícil! — Disse Anhará sorrindo ainda amarrada
— O que você sabe sobre tudo isso? — Milla perguntou ainda sentada ao lado de Aredhel.
— Sei que amanhã antes do meio dia todos vocês estarão mortos.
A noite transcorreu calma e tranquila, apenas se ouvia certos ruídos vindos de uma noite sem lua. Um acampamento simples fora montado ali, eles estavam a poucos metros da entrada da cidade real. Um coelho foi preparado por Artur e devorado em poucos segundos. Uma escala de vigília foi montada, a cada três horas os homens se revezavam para manter o local seguro, dois vigiavam o acampamento improvisado e dois a prisioneira, que apesar de tudo estava se comportando muito bem para quem acabara de ser detida.
Milla e Aredhel dormiam profundamente aninhadas próximas ao resto de uma fogueira ainda em brasas, os outros garotos dormiam próximos a prisioneira com Adam e Jimmy de guarda. Já estava quase amanhecendo quando Lucca e o rei Arthur assumiram o posto de guarda na copa das arvores para o caso de algum monstro querer ataca-los de surpresa. Nada havia saído do normal, durante aquela noite, porém, o mesmo não poderia ser dito daquele novo dia que acabara de apontar no horizonte. E mesmo que eles não quisessem acreditar o tempo estava acabando, e, em poucas horas, talvez minutos, Az sairia vitorioso, a menos que aquele plano desse certo.
***
O som de uma campainha lhe acabara de atingir os ouvidos para anunciar a chegada de novos fregueses em sua loja. Aquele homem de meia idade saiu detrás do balcão para receber seus novos clientes com toda a pompa que a ocasião exigia. O lugar era simples apesar de se mostrar luxuosa como toda aquela cidade ostentava. O chão de madeira rangeu enquanto aquele senhor caminhava na direção dos visitantes. A loja parecia há muito tempo intocada, as prateleiras abarrotadas de livros antigos e frascos empoeirados contendo substancias desconhecidas para a maioria das pessoas que entravam ali. Nenhum deles sabia ao certo porque Artur os tinha guiado até aquele lugar apertado e cheio de tralhas sem utilidade.
— Em que posso lhes ser útil meus jovens senhores? — Perguntou ele fazendo uma reverencia aos visitantes.
— Estou aqui para visitar um velho amigo. — Respondeu Artur devolvendo o sorriso amigável. — Você não mudou muito nestes anos meu caro.
Ao ouvir aquela saudação, o olhar daquele ancião se encheu de um brilho diferente, era como se aquele homem se enchesse de esperança com o ressoar da voz de Artur no ambiente, suas feições antes serias e cordiais tornaram-se mais amenas.
— Os anos tem castigado este velho servo com as lembranças do passado glorioso que um dia eu vivi, ao lado de seu pai. — Respondeu o homem estendendo os braços a espera de um abraço.
Sem pensar duas vezes Artur deu alguns poucos passos ao encontro do ancião dando-lhe um caloroso abraço de boas-vindas. Os dois eram amigos de longa data, ou talvez algo mais, Lucca apenas observou aquela cena transcorrer imaginando quais as intenções de Artur ao leva-los para aquele lugar.
— Este é Likan, meu mestre. — Ele disse enquanto olhava para os garotos. — E estes são os guerreiros da profecia.
— É uma honra para eu conhecer tão grandes guerreiros. — disse o homem baixando a cabeça em uma reverencia contida. — Nunca imaginei viver para poder ver esse dia.
Os três garotos o saudaram da mesma forma em sinal de respeito, sem entender muito bem o que estava acontecendo ali. Eles pareciam estar sendo aguardados há muito tempo por aquele senhor.
— É chegada a hora. — Disse Artur com o olhar severo. — Nosso tempo é pouco, logo os reis fera despertarão e nós não teremos força suficiente para esta batalha.
Fazendo um sinal para que eles o acompanhassem, Likan os guiou até os fundos de sua loja, onde uma entrada revelava os fundos da casa ligado por um pequeno cômodo onde eram guardadas caixas e mais caixas de mercadorias empoeiradas.
— Está loja é um mero disfarce. — Disse o velho percebendo uma inquietação nos olhos dos garotos. — Eu vivo aqui apenas para dar uma passagem segura para meus mestres.
— Depois de tantos anos você continua no posto que meu pai lhe resignasse, acreditando em uma lenda maluca contada desde os primórdios de nossa era.
— Hoje essa profecia se mostra verdadeira. E eu estou feliz em poder fazer parte dela. — Disse ele parando diante de um amontoado de caixas. — Me ajudem com isso.
Likan contou algumas caixas mentalmente antes de começar a empurra-las para o lado, revelando um túnel escuro, sujo e cheio de teias de aranha. O cheiro úmido do mofo invadiu suas narinas misturado ao odor de fezes e urina de animais menores que certamente estavam escondidos ali.
— Não me diga que nós temos que entrar ai? — Perguntou Adam em meio a um calafrio.
— Receio que sim meu senhor! — Respondeu o velho abrindo caminho para que eles passassem.
— O que tem lá? — Lucca Perguntou.
— As respostas que vocês procuram estão em baixo do castelo de Ézius. — Respondeu Artur adentrando no túnel. — Se ainda procuram por elas, é melhor me seguirem.
Vendo que aquele era um caminho sem volta Lucca se deu por vencido e caminhou rumo ao desconhecido junto com seus amigos.





