Capítulo 2
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Capítulo 2

Escrito por: Alessandro Fonseca10/06/2026 - 20:00

A notícia não veio como grito.
Veio como um silêncio que não cabia na sala.

André estava sentado quando disseram. Não levantou. Não perguntou “como?”. Não correu. Só ficou olhando para a própria mão, como se esperasse que ela explicasse alguma coisa.

— Você estava com ele ontem, não estava?

A pergunta não foi acusação. Foi curiosidade mal colocada. Mas ficou pairando.

Ele respirou fundo.

— Estava.

Só isso.

Não disse que tinham brigado.
Não disse que Eric gritou.
Não disse que a palavra “vagabundo” ainda ecoava dentro do peito.

A lembrança veio em pedaços.

O copo quebrando na parede.
O cheiro forte de bebida.
Eric rindo de um jeito torto.

— Você pode tirar o garoto de programa da rua, André… mas não tira a rua de você.

A frase tinha vindo baixa. Controlada. Quase elegante. Era assim que Eric fazia. Nunca precisava gritar. Ele desmontava com voz firme e olhar limpo.

André sentiu o maxilar travar.

Ele conhecia aquele jogo.

Eric sempre começava pelo passado.

Como se fosse sujeira acumulada. Como se não tivesse sido ele mesmo quem, no começo, disse que admirava a coragem de André. Que achava “forte” alguém que sobreviveu dançando em boate, vendendo o próprio corpo para pagar aluguel e silêncio.

Antes de Eric, a vida era direta. Crua.
Boate escura. Luz vermelha. Mãos desconhecidas. Dinheiro contado na madrugada.

E a cocaína.

Primeiro para aguentar a noite.
Depois para aguentar o vazio.

Não era glamour. Era anestesia.

Eric sabia disso.
E usava.

— Você não passa de um viciado que teve sorte de eu me apaixonar.

Apaixonar.
Eric adorava essa palavra.

André lembrava do dia em que contou tudo. Sem esconder nada. A prostituição. As transas pagas. Os homens casados. A vergonha. A abstinência mal resolvida.

Eric tinha segurado o rosto dele com delicadeza.

— Eu aceito você inteiro.

Mentira bonita. Estratégica.

Porque meses depois, toda vez que queria ferir, ele puxava o passado como faca.

E André ficava.

Sempre ficava.

Mesmo quando Eric sumia por horas.
Mesmo quando mensagens apagadas apareciam tarde demais.
Mesmo quando o noivado parecia mais um troféu do que uma promessa.

André sabia das traições.

E Eric sabia que ele sabia.

Era um acordo silencioso de humilhação.

— Vocês discutiram?

A pergunta o trouxe de volta.

Ele demorou um segundo a mais para responder.

— Todo casal discute.

Resposta neutra demais.

As mãos dele estavam limpas. Ele tinha lavado três vezes desde que acordou. Não lembrava exatamente o motivo da primeira.

Só lembrava da sensação de algo grudado na pele.

Talvez fosse impressão.

Talvez não.

O pior era que ele ainda conseguia pensar no lado bom de Eric.

No jeito como ajeitava o cabelo dele antes de sair.
No cuidado quase possessivo.
Na voz baixa quando dizia “fica”.

Era doentio admitir, mas André sentia falta até das brigas.

Porque brigar significava que ainda havia algo ali.

Ele fechou os olhos por um instante.

A última frase de Eric voltou inteira agora.

— Você nunca vai conseguir ser mais do que isso.

Aquilo tinha queimado.

E André lembrava de ter respondido.

Só não lembrava exatamente o quê.

— Você acha que alguém teria motivo para fazer isso com ele?

A pergunta veio direta dessa vez.

André ergueu o olhar.

Demorou. Calculou.

— Muita gente não gostava do Eric.

Verdade.

Mas não toda.

Ele sentiu o peito apertar. Não de culpa. De exaustão.

Se eu tivesse ido embora naquela noite, talvez nada disso tivesse acontecido.

Ele pensou. Não falou.

E ficou ali, parado demais para quem acabou de perder o noivo.

Ou talvez exatamente parado como alguém que já vinha perdendo há muito tempo.

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