CAPÍTULO 8 
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CAPÍTULO 8 

Escrito por: Alessandro Fonseca24/06/2026 - 20:00

 

André não dormia.

O quarto estava escuro, mas a mente dele era um corredor aceso demais. Cada pensamento gritava. Cada memória vinha como um flash mal editado.

Rafael estava vivo.

Ele repetia isso como se a frase pudesse se dissolver se não fosse dita em silêncio.

Vivo.

Mas por que escondido?
Por que ninguém sabia?
Por que aquela sensação constante de que havia algo maior se movendo por trás das cortinas?

O celular vibrou.

Mensagem de número desconhecido.

“Você não está pronto para a verdade.”

O estômago dele virou.

Apagou a mensagem. Bloqueou o número. Mas a frase ficou ali, ecoando.

Ele precisava de ar.

Na manhã seguinte, a cidade parecia normal demais para alguém que estava desmoronando por dentro.

Eric percebeu antes de qualquer um.

— Você tá estranho.

— Eu tô cansado.

— Não. Você tá com medo.

A palavra ficou entre eles.

André desviou o olhar.

Eric se aproximou, mais firme.

— Desde que essa história do Rafael voltou, você mudou. Você anda olhando por cima do ombro.

— Talvez eu devesse — André respondeu seco.

A tensão entre os dois era quase palpável. Havia algo além da preocupação. Havia desconfiança.

— Você não confia em mim? — Eric perguntou.

Silêncio.

Isso doeu mais que qualquer resposta.

Lucas entrou na cena como quem não quer nada.

Mas queria.

Ele observava André há dias. Estudando horários. Padrões. Fragilidades.

A aproximação foi casual.

— Você parece que não dorme há semanas.

André forçou um sorriso.

— Impressão sua.

Lucas inclinou levemente a cabeça. Aproximou-se o suficiente para invadir espaço, mas não o bastante para parecer invasivo.

— Eu sei reconhecer quando alguém está carregando coisa demais sozinho.

A voz dele era baixa. Controlada. Cálculo disfarçado de empatia.

André sentiu algo estranho ali. Conforto… e alerta ao mesmo tempo.

— Não é da sua conta.

— Pode ser. Mas eu posso ajudar.

A palavra “ajudar” soou quase íntima.

Naquela noite, André recebeu outra mensagem.

“Você confia nas pessoas erradas.”

O coração disparou.

Ele pensou em Eric.
Pensou em Rafael.
Pensou… em Lucas.

E foi exatamente Lucas quem apareceu logo depois, como se tivesse sido chamado pelo pensamento.

— Eu tava por perto — ele disse. — Achei que você pudesse precisar de companhia.

André hesitou.

Ele não queria ficar sozinho.

Mas também não sabia se queria companhia.

Lucas percebeu a brecha.

— Só conversar. Nada demais.

O apartamento de Lucas era minimalista. Frio. Organizado demais.

André sentou no sofá, inquieto.

— Você já sentiu que tudo ao seu redor é uma encenação? — André perguntou, quase num desabafo involuntário.

Lucas sentou ao lado dele. Perto.

— Já.

O silêncio entre os dois ficou diferente.

Mais pesado.

Lucas tocou o braço de André. Um toque leve. Demorado o suficiente para ser notado.

— Você precisa confiar em alguém.

O toque subiu pelo braço como eletricidade.

André não recuou.

Esse foi o primeiro erro.

A conversa ficou mais lenta. Mais próxima. Mais pessoal.

Lucas falava pouco, mas sempre o suficiente para manter André falando mais.

E quanto mais André falava, mais exposto ficava.

— Você acha que eu tô ficando paranoico? — André perguntou.

Lucas sorriu de leve.

— Eu acho que você está vulnerável.

A diferença é enorme.

André riu nervoso.

O segundo erro foi não perceber que Lucas nunca respondia nada diretamente.

Quando André percebeu, estavam próximos demais.

O ar estava diferente.

Lucas passou os dedos pela linha do maxilar dele, devagar.

— Você precisa parar de lutar contra tudo.

O toque era quase um convite. Quase uma armadilha.

André fechou os olhos por um segundo.

Só um segundo.

Foi o suficiente.

Na manhã seguinte, André acordou desorientado.

A cabeça pesada. A memória confusa.

Ele estava no quarto de Lucas.

Sozinho.

O celular não estava onde ele lembrava ter deixado.

O coração disparou.

Ele pegou o aparelho.

Várias chamadas perdidas de Eric.

E uma mensagem nova.

“Agora você faz parte do jogo.”

O sangue gelou.

Ele correu até a sala.

Lucas estava lá, calmo demais, preparando café.

— Bom dia.

André o encarou.

— O que você fez?

Lucas ergueu os olhos lentamente.

— Eu? Nada.

Um sorriso mínimo.

— Você que escolheu confiar.

E foi nesse momento que André percebeu:

Não tinha sido sedução.

Tinha sido estratégia.

E ele tinha caído.

Mais tarde, Eric apareceu furioso.

— Você sumiu! Eu fiquei ligando!

— Eu estava ocupado.

— Com ele?

A discussão explodiu.

— Você não manda em mim! — André gritou.

— Eu estou tentando te proteger!

— De quê?!

Eric ficou em silêncio.

Isso foi pior.

— Você não faz ideia de quem ele é — Eric disse, finalmente.

O mundo pareceu parar.

André sentiu o chão fugir sob os pés.

— Do que você tá falando?

Mas Eric não respondeu.

Porque alguém observava da rua.

E essa pessoa sorriu ao ver o caos começar.

No fundo de tudo, uma verdade começava a se formar:

Rafael estava vivo.

Lucas não estava ali por acaso.

E André estava sendo empurrado, passo a passo, para um lugar onde talvez não conseguisse voltar.

O mistério não estava no sobrenatural.

Estava nas pessoas.

E pessoas mentem melhor que qualquer sombra.

Eric não gritava quando estava furioso.

Ele falava baixo.

E isso era pior.

— Você dormiu lá?

André não respondeu.

O silêncio foi suficiente.

Eric riu. Um riso curto, seco.

— Eu te avisei sobre ele.

— Você não manda em mim.

— Eu não mando. Eu conheço.

André encarou.

— Conhece o quê?

Eric demorou alguns segundos antes de responder.

— Eu conheço o tipo.

A frase ficou ambígua. Provocadora.

André sentiu o golpe.

— Você também tem um tipo, não tem? — ele rebateu. — Homens quebrados. Homens que você pode manipular.

Eric se aproximou.

— Você nunca foi manipulável.

Mentira.

Os dois sabiam.

O nome de Rafael voltou para a conversa como uma faca esquecida sobre a mesa.

— Desde que você descobriu que ele está vivo, você virou outra pessoa — Eric disse.

— Você sabia?

O silêncio de Eric respondeu antes da boca.

André empalideceu.

— Você sabia que ele estava vivo?

— Não como você está pensando.

— Então como?!

Eric desviou o olhar.

E ali, naquele pequeno gesto, André viu algo que nunca tinha visto antes:

Culpa.

A polícia já observava André com atenção.

Ele era amante.
Tinha histórico instável.
Discussões públicas.
Mensagens agressivas.
Ciúmes.

Motivo não faltava.

O delegado citou o nome dele três vezes numa reunião.

E alguém da família de Eric não contestou.

A mãe apenas ouviu.

Silenciosa.

Observando.

Lucas, enquanto isso, não se afastava.

Ele aparecia nos momentos certos.
Falava as coisas certas.
Olhava demais.

— Você está sendo empurrado para um papel — Lucas disse numa tarde, sentado ao lado de André. — E nem percebe.

— Que papel?

— O de culpado.

André ficou imóvel.

Lucas inclinou-se mais perto.

— E sabe o pior? Você facilita.

Rafael reapareceu de forma mais concreta.

Um encontro rápido. Reservado. Tenso.

— Você está se metendo com gente errada — Rafael disse.

— Vocês dois falam a mesma coisa — André respondeu.

— Porque talvez seja verdade.

Rafael parecia diferente. Mais frio. Mais estratégico.

— Você confia em Eric?

André não soube responder.

E isso dizia tudo.

O capítulo termina com um detalhe pequeno, mas corrosivo:

A mãe de Eric encontra André sozinha no corredor da casa da família.

— Você o amava?

Pergunta simples.

Mas os olhos dela não estavam tristes.

Estavam avaliando.

— Amava.

Ela sustentou o olhar por longos segundos.

— Às vezes o amor cria monstros.

E saiu.

André ficou parado.

Sem saber se aquilo foi acusação.

Ou aviso.

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