Conto: SABER AMAR (parte 1)
Autora: Isa Miranda
Quando o amor vira uma doença,
dói como uma ferida aberta
machucando a alma dos seres em sua presença.
Quando deixa de ser cura e vira uma doença,
maltrata os corações e faz de você má influência.
Quando o amor vira pavor,
vira temor, amargor.
Não é mais amor.
Repense seus sentimentos,
olhe-se por dentro, pare por um momento
e descobrirá que amor mesmo é o que vem de dentro.
Ame-se primeiro,
e todos você amará sem sofreguidão.
(Ellen dos Santos)
O tictac do relógio era o único som que quebrava a quietude do ambiente. Ainda enrolada nos lençóis dormia tranquilamente, quando ouviu o som distante começar a se aproximar.
— Hum, só mais um minuto… – Sonolenta, murmurou puxando o lençol e cobrindo a cabeça.
Alguns minutos se passaram quando finalmente o lençol voou no ar e a jovem dorminhoca acordou; olhando à sua volta, procurava por algo, quando finalmente encontrou sobre o amontoado de caixas encostado na parede de seu quarto no novo apartamento o seu smartphone desligado.
Rapidamente se levantou, tropeçando pelo caminho, quando pegou o aparelho e ligou.
— Ahhhhhh… Eu vou chegar atrasada no meu primeiro dia na empresa. – Correu pelo quarto tirando de dentro de uma mala a toalha e pegando a roupa que na noite passada havia separado para não correr o risco de se atrasar. Ledo engano. Se perdesse o trem das 6h20, com certeza se atrasaria.
Correu pelo quarto, entrou no banheiro e depois de um banho rápido se vestiu com calça social e blusa branca de manga curta em cetim; pegou seus scarpins de salto baixo, colocou-o dentro de uma bolsa e calçou suas Havaianas rosa. Decidiu terminar de se arrumar durante o trajeto à nova empresa.
Olhava para o relógio a cada 5 minutos, e o motorista da van parecia entender bem da necessidade dos passageiros. Acelerando o veículo, finalmente chegou à estação de trem. A jovem voltou a correr, subiu a rampa para assim chegar à catraca e passar o cartão de passagem. O trem já sinalizava a partida quando ela desceu a escadaria acenando para esperar.
— Espere, tenho que ir nesse trem.
No entanto, as portas se fecharam diante dos seus olhos. Segundos. Foi questão de segundos, e ela entraria naquele vagão. Desolada, olhava a porta fechada e o amontoado de passageiros se espremendo dentro do vagão.
— Ei, moça, anda logo… – Uma voz gritou do seu lado.
Quando virou o rosto, viu três rapazes segurarem a porta, impedindo e arriscando-se machucarem para que ela entrasse. O sorriso brotou de imediato, e sem pestanejar ela correu para entrar no vagão. O guarda da estação já se aproximava para advertir os rapazes quando a porta se fechou e a jovem sorriu para ele do outro lado da porta.
O guarda balançou o rosto negativamente para todos os quartos. A jovem se desculpou, mesmo que o homem não a ouvisse, mas compreenderia. Em resposta recebeu uma piscadela e o viu acenar para o maquinista sair com o trem.
Ela olhou os três rapazes e agradeceu. Inspirou fundo e aliviada por pegar o trem. Segurou-se na barra de ferro entre o amontoado de passageiros espremidos naquele vagão.
“Ainda bem que consegui. Primeiro dia no trabalho e atrasada? Vida nova tem que começar com pé direito, exatamente isso. Eva Cristiana, hoje é o primeiro dia do resto de sua vida nova.”
Virou-se e colocou o fone de ouvido, selecionando na sua playlist das bandas de rock nacional: Jota Quest, Titãs, Paralamas do Sucesso, Skank, Legião Urbana, entre outras.
****
O dia tinha começado mal. Mesmo com toda aquela correria, conseguiu pegar o trem. No entanto o mesmo atrasou com problemas técnicos em uma estação. Eva chegou à empresa com cinco minutos de atraso. Chateada chegou à recepção e, após informar que estava em seu primeiro dia, pediram para aguardar. Pacientemente sentou em um dos largos sofás que tinha na ampla recepção daquela empresa de call center e aguardou.
Alguns minutos depois uma jovem alta e bem vestida se aproximou sorridente e demonstrava estar sem jeito.
— Olá, deve ser Eva Cristiana. Sou Jessica. Desculpe o atraso, hoje cheguei atrasada.
— Olá, Jessica, não se preocupe, não esperei muito. – Eva, sorridente, sentia um alívio por não ser a única atrasada. — Segunda-feira sempre há esse tumulto.
— É verdade, em toda segunda-feira acontece algo, maldito trem que atrasou – sorriu e acenou para Eva lhe seguir. – Vamos. Sou sua instrutora e irei preparar para entrar na operação. Então, pronta?
— Certamente que sim.
Eva seguiu Jessica. Ambas passaram pela recepção e seguiram para o elevador principal; após alguns andares chegaram ao setor de treinamento. Enquanto caminhavam pelo enorme corredor onde na lateral direita havia enormes janelas mostrando a vista da cidade do alto do décimo andar, fez Eva suspirar.
— Espero que se adapte rápido, Eva. Nós faremos um treinamento de uma semana. O serviço não é complicado. Basicamente aprenderá a utilizar o nosso sistema e atender os clientes que necessitam de reparo nas redes de monitoramento de veículos de carga de que cuidamos – Jessica instruía Eva.
— Acredito que sim. Aliás sou toda ouvidos, aprendo rápido.
— Ótimo.
Jessica explicava sobre todos os procedimentos, mostrando os departamentos da empresa. Uma porta se abriu e três rapazes saíram rindo e falando de alguns procedimentos operacionais. Esses passaram por ambas e cumprimentaram Jessica.
— Essa é a nova garota que ficará no lugar de Elena? – O rapaz moreno olhava para Eva de cima a baixo.
— Sim, Eva Cristiana vai substituir Elena durante a licença maternidade. – Jessica apontou o trio a Eva. – Eva, esses são os nossos T.I. Jeferson, Evaldo e Pedro – sorriu. – Se o seu computador der um “bug”, são eles que resolvem… bom, tentam… – Olhou o trio estreitando os olhos.
— Ei, somos os caras que resolvem, mas algumas vezes o problema está entre a tela e a cadeira. – Jeferson, que inicialmente perguntara quem era Eva, era o mais engraçadinho, cheio de piadinhas.
— Engraçadinho! – Jessica fez uma expressão de desdém.
Evaldo era o mais antigo e riu, indo até Eva.
— Precisando, é só abrir um chamado no sistema que vamos até seu terminal.
Eva somente sorria, achando tudo bem divertido.
— Obrigada, Sr. Evaldo.
— Senhor não, por favor… – Evaldo fez uma expressão desapontado. – Só Evaldo.
Jeferson começou a rir do velho amigo.
O homem de cabelos grisalhos virou-se para o terceiro rapaz, que estava um tanto desligado mexendo em seu smartphone, mas antes que ele falasse algo foi interrompido pela voz curiosa de Eva.
— Pedro?! – Eva já havia notado algo familiar no rapaz alto de óculos e calado.
Ele tirou finalmente os olhos da tela do aparelho e ficou um tempo olhando para Eva; tinha uma expressão pensativa, até que se transformou em curiosidade.
— Eva?!
— Ué, vocês se conhecem? – Jeferson aproximou-se curioso juntamente com Evaldo e Jessica.
— Pedro! Minha nossa, quanto tempo! – Eva sorriu abertamente.
— Nossa, Eva, realmente…
Jeferson parecia ter visto algo assustador e andou até Pedro, passando o braço no ombro do outro.
— Meu Deus, Pedro riu… Corre, Evaldo! Vai comprar um guarda-chuva, vai ter um dilúvio.
Pedro olhou para Jeferson e inspirou baixo.
— Que legal! – Jessica aproximou-se deles. – Vocês se conhecem, e pelo visto não é algo recente. – As palavras de Jessica tinham um tom de curiosidade.
— Sim, eu e o Pedro éramos amigos de infância. Crescemos no mesmo bairro e estudamos nas mesmas escolas até o ensino médio – Eva tagarelou sem parar quando percebeu todos olhando-a, inclusive Pedro, que estava tenso com o outro pendurado em seu ombro. – Desculpa, empolguei-me. – Ficou sem jeito.
— Tudo bem. Bom, vamos todos voltar ao trabalho. – Jessica fez um gesto de quem estava enxotando o trio do T.I. e virou-se para Eva. – Eva, vamos ao seu treinamento. – Apontou o corredor para ela continuar a segui-la.
Evaldo e Jeferson ficaram encarando Pedro com curiosidade.
— Mundo pequeno. – Pedro virou-se e continuou pelo corredor sem antes dar uma última olhada em Eva.
****
Aquela manhã passara rápido demais, e Eva estava exausta com tantas instruções que recebera. Apesar de ser algo aparentemente simples, ela tinha que conhecer de todos os processos operacionais da empresa, e eram muitos. A hora do almoço chegou, e ela pegou sua bolsa térmica e caminhou para a área de refeições no andar abaixo daquele que trabalhava.
Assim que chegou notou que havia muitas pessoas e sentiu-se deslocada. Procurou por Pedro, que ao menos era um conhecido, mas não o viu. Notou então Jessica sentada em uma mesa sozinha e se aproximou.
— Jessica, posso sentar aqui?
— Claro – Jessica sorriu e confirmou.
— Está cheio aqui.
— Sim, hoje fizeram uma reunião com as equipes que terminou ainda há pouco. Enfim, todos saíram ao mesmo tempo para o almoço.
Eva olhava em volta; tinha ainda esperança de ver Pedro.
Jessica notou enquanto via as mensagens na tela de seu smartphone.
— O trio T.I. entra em horários diferentes para almoçar.
— Hum? – Eva mastigava um pedaço de frango quando parou olhando-a sem jeito. – Ah, que pena!
— Hum, então, Pedro e você são amigos de infância.
— Sim. Éramos muito unidos, mas depois que fui para faculdade nunca mais tivemos contato. Já faz uns oito ou nove anos.
— Nove anos. – A voz de Pedro surgiu de trás delas.
Ambas chegaram a dar um leve pulo da cadeira por serem surpreendidas.
— Nossa, Pedro! Faz um sinal de que está chegando. – Jessica colocou a mão sobre o peito para se recuperar do leve susto que levou.
— Desculpa, Jessica. – Pedro olhou para Eva.
— Eu desci para fumar quando vi ambas aqui sentadas, achei que tinham me visto. – Pedro tinha uma expressão suave. Apesar de não ser muito de sorrir, esboçou um leve sorriso a sua velha amiga.
— Que bom, digo… – Eva pigarreou. – Então, nove anos. Minha nossa! É muito tempo.
— Realmente.
Jessica olhava ambos, e sua mente trabalhou rapidamente.
— Que tal chamarmos o Jeferson e o Evaldo para beber uma cerveja na sexta-feira, depois do expediente?
— Ah! – Eva olhou para ela e depois para Pedro.
— Por mim, tudo bem.
— Eu não bebo. – Eva respondeu baixinho.
— Beba refrigerante. Vamos jogar conversa fora. Horário do rush é complicado. Ficar trancada dentro de um trem lotado já me basta pela manhã. – Jessica decidiu por eles.
— Avisarei a eles. – Pedro ainda olhava Eva. – Eu encontro você na portaria.
O rapaz virou-se, acenou levemente e se direcionou para a área de fumantes.
Eva seguiu-o com olhar mastigando um pouco do arroz com legumes que trouxera na marmita.
— Uma curiosidade. Eva. Pedro sempre foi assim, de falar pouco com essa expressão apática? Porque em três anos que ele trabalha aqui, foi a primeira vez que vimos ele insinuar uma expressão de sorriso quando lembrou de você.
Eva olhou a instrutora e sorriu balançando a cabeça sem jeito, confirmando.
— Ele é assim calado mesmo. Adorava ficar mexendo em equipamentos eletrônicos e vídeo games. Sempre foi na dele. Nunca vi o Pedro perder a calma com ninguém. – Virou o rosto para a direção da área de fumantes, vendo-o encostar na parede e acender o cigarro. – Não mudou pelo visto.
****
Final do dia, e Eva, logo que entrou no vagão, conseguiu um canto em meio ao amontoado de pessoas para pegar seu smartphone e ouvir a mensagem. Colocou o fone de ouvido e tocou na tela um pouco apreensiva.
“— Eva, pela última vez, para de ligar para minha casa, para de mandar mensagens em todo lugar. Será que ainda não entendeu que não pode chegar perto de nós.” – A voz masculina em um tom irritado, quase gritando, era de Rodrigo, seu ex-marido.
Eva sentiu os olhos lacrimejarem e tentou prender o choro. Engolindo em seco, tocou no segundo áudio.
“— Desapareça de uma vez. Nunca mais quero ver sua cara e, se eu souber que chegou perto de mim e da Bia, vou acionar a polícia. Sabe bem que não pode chegar a 200 metros de nós.”
Eva sentiu uma terrível dor no peito e fungou. Disfarçando para as pessoas não notarem que estava prestes a chorar, encolheu-se perto da porta de saída do vagão e virou o rosto para olhar pelo vidro a paisagem da cidade noturna que passava apressada pelo movimento do trem.
“Eu só queria ver a Bia.”
Eva e Rodrigo haviam se separado definitivamente alguns meses depois de um casamento de 6 anos fracassado. Perdeu a guarda de sua filha por conta de um incidente que ela tinha certeza que não fora sua culpa. Toda sua vida sofreu uma enorme e drástica mudança depois desse momento lamentável.
Eva quase matou a própria filha no apartamento, quando se encheu de remédios calmantes e esqueceu o fogareiro aberto. Se não fosse um vizinho, ambas teriam morrido sufocadas pelo gás.
Eva vivia em pé de guerra com o marido. Ciumenta ao extremo, sempre questionando e com raiva de toda mulher que se aproximava de Rodrigo. Havia momentos em que ficava tão descontrolada, que fazia ameaças; chantagens emocionais eram constantes.
“— Você não me ama.”
Rodrigo a princípio acreditava que estava falhando com a esposa e no começo cedia às suas chantagens e pedidos de ficar sempre ao lado dela. Faziam tudo juntos. A liberdade de ir e vir começou a ficar restrita, chegando a ser quase uma prisão.
“— Eu não aguento mais Eva. Não posso ir nem à esquina, que vem milhares que perguntas. Tenho que passar relatórios diários do que faço a todo momento. Isso aqui não é um casamento; virou uma prisão.”
Brigas cada vez maiores que em mais de quatro anos saturou Rodrigo. Claro que ele nunca poderia imaginar que uma traição descoberta por Eva transformaria sua esposa em uma neurótica que sempre lhe jogava na cara o deslize.
As crises de ciúmes e as chantagens emocionais finalmente tiveram seu ápice, e Eva em um descuido acabou ferindo o marido com uma faca, na tentativa de fazê-lo ficar em casa. Ela o segurou, mas estava com o objeto em mão, o que gerou o acidente.
Rodrigo não sabia mais o que fazer. Ele tinha certeza de que Eva estava doente, de que precisava de ajuda. Muitas vezes pedia para ir falar com psicólogo, mas ela negava dizendo que estava bem e que iria mudar. Depois daquele acidente, ela realmente conseguiu se controlar, e tiveram alguns meses de paz. Rodrigo acreditava que finalmente a sua esposa havia melhorado e que tudo voltaria ao normal.
A paz durou pouco, e tudo foi por água abaixo quando Eva começou a reclamar da própria filha, alegando que Rodrigo ficava mais tempo com a menina em vez de lhe dar atenção. Para Rodrigo, aquele era um absurdo, e chegou a sentir muita raiva de Eva, que ficava dia e noite reclamando por atenção.
Rodrigo já não sabia mais como agir com ela, e todos a sua volta começaram a alegar que Eva havia se tornado um perigo tanto para ele quanto para a própria filha. Achavam um absurdo uma mãe demonstrar ciúmes da própria filha.
Todos os dias ele tentava inutilmente fazer algo para que Eva mudasse; tentava pacientemente persuadi-la a ir se tratar, buscar ajuda e conversar com psicólogo. Talvez isso ajudasse a melhorar. Eva sempre se negava e ficava muito irritada com as acusações de todos.
“— Eu amo a Bia, vocês não têm o direito de me acusar de ter ciúmes de minha filha.”
Eva sentia raiva e, por mais que tentasse fazer que entendessem seu ponto de vista, já tinha uma imagem forte de neurótica construída na mente de todos. Sua família já não acreditava nela. Chocada com tudo que estava acontecendo, passou a tomar calmantes por conta própria para fugir de todo o inferno que estava vivendo.
E esse foi o seu erro. Tomou uma dose extremamente forte e dormiu, deixando o gás aberto, o que quase levou Beatriz à morte. A menina ficou alguns dias internada com estado delicado, enquanto Eva foi internada na área psiquiátrica.
Rodrigo estava apavorado. Motivado por familiares, pediu a separação e depois a guarda de Beatriz; o que foi concedido, já que tinha provas suficientes de que Eva era perigosa para si e para a filha.
Depois de alguns meses de cuidados no hospital, Eva saiu e voltou para casa de seus pais. Tentou algumas vezes ver a filha, o que não foi permitido por Rodrigo. Desolada e sem chão, entrou em uma profunda depressão. Perdeu tudo e se sentia a pior das mulheres. Uma tentativa de suicídio foi o cume de tudo, e novamente internada desistiu de viver.
A paisagem noturna vista pela janela do vagão distraiu Eva fazendo-a recordar desse passado sofrido. Ela se lembra bem do momento exato em que foi salva desse sofrimento.
“— Mamãe, estou com saudades. Quando você vem me ver?”
A voz de Bia, que chorosa ecoava do aparelho de telefone, atingiu o coração de Eva e, como um estalo, a despertou daquele estado vegetativo.
“— Em breve, meu anjo. Vamos ficar juntas, em breve…”
Desde aquele dia, Eva decidiu que sua vida mudaria e que teria a guarda de sua filha de volta. Começou a aceitar o tratamento na clínica em que os pais haviam-na internado por ordem do juiz. Alguns meses depois, ela recebeu alta e, determinada a retomar sua vida, voltou para casa dos pais, começando sua nova jornada.
Quando saltou na estação de Campo Grande, inspirou fundo e correu para pegar a van para a residência onde morava. Conseguira comprar aquele apartamento quando recebeu uma boa “recompensa” em dinheiro na separação do Rodrigo. Ela entendia que aquele dinheiro era um “cala boca” para se manter longe da filha e dele.
****
— Eva, hoje é sexta. Vamos a um bar de música ao vivo na Lapa. – Jessica sempre decidia os programas de todos.
— Claro, vai ser divertido.
— Pedro vai; aliás ele só disse que sim quando falei que você iria. – Piscou maliciosamente para Eva.
— Ah, que legal! – Sem jeito, sorriu e voltou ao seu trabalho.
No final do expediente, Jeferson, Pedro e Evaldo estavam na portaria esperando por Jessica e Eva. Ambas não demoraram muito e logo chegaram.
— Vamos curtir um pouco, pessoal. – Jessica segurou no braço de Jeferson.
— Vem, gata. Hoje só chegamos em casa ao amanhecer.
— Eu não vou ficar muito tempo, sabe? Moro longe. – Eva olhou para Pedro. — Ficarei até as 21h. É o máximo que dá; se não fica difícil chegar em Campo Grande.
Pedro ouviu Eva falando enquanto estava com Evaldo, que tagarelava sem parar sobre uns procedimentos do setor deles que tinha que fazer na segunda-feira.
— Eva, se ficar muito tarde, pode ir para meu apartamento. Melhor que ir para um lugar longe sozinha. – Pedro disse tão naturalmente, que não percebeu o olhar de todos para ele.
— Nossa, Pedro. Nem pagou a bebida para a moça e já chamou para o crime. – Jeferson foi quem quebrou o clima surpreso de todos com aquela piadinha. – Calma. amigo. Vai ao menos convidando para beber, conversar e depois leva para casa. – Jeferson riu.
Eva imediatamente ficou sem jeito. Ela sabia, ou ao menos pelo que conhecia de seu amigo de infância, que aquele convite não tinha nenhuma maldade ou conotação amorosa. Ela notou que Pedro ficou sério. Sabia que ele tinha ficado sem jeito. Com base em algumas coisas que conhecia da personalidade do amigo, ela entendia aquele silêncio e expressão séria e contida.
— Eu sei… – Eva cortou as brincadeiras de Jeferson. – Ele não tem essa maldade, Jeferson. Minha nossa! – Andou até Pedro e segurou seu braço. – Somos amigos e, nesse caso, já dormi muitas vezes em sua casa. – Olhou para Pedro pedindo um olhar de confirmação.
— Desculpe o Jeferson, Eva. Esse idiota vê maldade em tudo. – Jessica foi logo repreendendo o “namorido”.
— Ahhh, qual é? Foi uma piada. Vocês são sem graça, isso sim.
— Pedro, eu gostei do convite, mas prefiro ir para casa.
Pedro olhou um tempo, e voltaram a andar direto para o bar na Lapa.
A noite estava realmente animada, e Eva vez ou outra olhava para o relógio. Pedro se aproximou e chamou a atenção.
— Preocupada com a hora?
— Sim. Acho que vou embora agora. Ainda tenho que fazer uma boa caminhada até o ônibus.
— Eu vou também; acompanho-a até o ponto.
Ambos se despediram de todos e seguiram caminhando até o ponto do ônibus que Eva tomaria para sua casa. Durante esse trajeto, ficaram em silêncio, até que Pedro puxou assunto.
— Eva, seria intromissão minha se te perguntasse algo pessoal?
— Ah, que coisa! Claro que pode perguntar.
— Vejo sempre você olhando uma foto de uma menina. Sua filha, presumo.
— Sim. Bia, minha filha.
— Eu notei que olha a foto com tristeza.
— Ela não vive comigo. Mora com Rodrigo. Você deve se lembrar dele. Fomos para faculdade juntos e depois nos casamos. Em um ano engravidei, e minha filha hoje tem sete anos. – Eva tinha um tom de voz triste ao relatar aquele momento ao amigo.
— E ela não quis ficar com você?
— Na verdade perdi a guarda dela. Estou tentando reaver, mas me foi negada duas vezes.
— Que coisa! – Pedro ficou imaginando o que Eva teria feito para perder a guarda da filha.
— Olha, deve estar se perguntando o que eu fiz de tão grave para perder a guarda dela, não é? – Eva parou de frente ao ponto final do ônibus, e Pedro esperou ao seu lado ainda olhando-a. — Eu quase a matei.
Surpreso, não fez mais perguntas. Silencioso ao lado de sua amiga de infância, esperou o ônibus chegar.
— Deve estar achando que sou uma maluca.
— Não, só pensando que, se um dia você quiser contar, estarei aqui para ouvir.
Eva rapidamente olhou-o, e ambos ficaram se encarando até que o ônibus chegou. Ambos se despediram sem mais nada dizer.
****
— Domingo de sol. Dia lindo, e aqui estamos as duas nessa praia maravilhosa tomando sol e uma cerveja gelada. – Jessica se ajeitava na espreguiçadeira ao lado de Eva.
— Eu não bebo, mas confesso que o dia está realmente lindo. Vir a praia foi uma boa ideia.
— Eu disse. – Jessica olhava-a por cima do óculos escuros. – E lá vem a dupla com nossos lanches.
Eva olhou na direção que a amiga olhava e inspirou, percebendo que Pedro estava junto de Jeferson.
— Vocês o convidaram? Achei que era só eu. – Ela parecia sem jeito. Desde a sexta-feira passada que não falara mais com Pedro.
— Ah. deixa de ser boba. Notamos uma certa tensão entre vocês dois. Acho que formariam um belo casal.
— Não, não, não… – Eva se ajeitou na cadeira de praia tentando disfarçar seu estado desconcertado, quando Pedro e Jeferson chegaram e sentaram sobre o chinelo na areia ao lado delas.
— Ele não queria vir. Arrastei de dentro do apartamento, quase um sequestro. – Jeferson sorria, divertindo-se ao lembrar a cena.
— Sabe que adoro paria… – Pedro, sério, somente abriu uma lata de cerveja e tomou um longo gole olhando para o mar.
— Ficar em casa em um dia desses é besteira. – Jessica pegou uma lata de cerveja da mão de Jeferson, tomou um gole e devolveu. – Vou lá à beira. Vem, Jeferson. – Ela levantou-se sem antes dar uma piscadela a Eva.
Jeferson a seguiu brincando com ela até chegarem às ondas quebrando na beira da areia.
— Esse dois não têm jeito, não é? – Eva estava tensa e quis quebrar o clima focando a conversa no casal de amigos.
— Eu não ligo. Fico feliz de te ver de novo. Só vim porque estaria aqui. – Pedro acendeu um cigarro e levantou para mudar de posição e para o vento não levar a fumaça até Eva. — E além do mais, o dia está mesmo lindo para ficar trancado dentro de um apartamento.
Ambos olharam para o céu, e Eva suspirou.
— Pedro, estou sem jeito.
— Eu também.
Se olharam uns segundos e por fim começaram a rir.
— Desculpa, mas parece que querem nos juntar de qualquer jeito.
— Eu sei. Jessica fica toda hora me cutucando.
— Jeferson faz a mesma coisa.
— Somos amigos. Que coisa! Era tão mais fácil quando estávamos no ensino médio. – Eva recordou.
— Era mesmo, mas pode voltar a ser.
— Será? Acho que a vida mudou tanto nesses últimos nove anos. Eu mesma nem me lembro mais de como era naquela época.
— Era decidida e corajosa.
— Sério? – Eva sorriu, colocando a mão no queixo apoiando o cotovelo na perna.
— Sim, ao menos me defendia. Afinal eu era motivo de piadinhas.
— Ah, mas aqueles garotos eram maldosos.
— Verdade…
Eva sorriu, quando de repente pequenas mãos cobriram seus olhos. Surpresa com aquele ato, ela congelou engolindo em seco.
Pedro reconheceu a dona daquelas mãos e sorriu.
— Adivinha quem é? – A voz infantil tinha um tom divertido ao fazer aquela pergunta.
Eva engoliu em seco, e seu corpo reagiu. Trêmula, ela gaguejou ao responder.
— B-Bia…?
— Mamãe… – A menina abraçou-a pelas costas e a apertou forte. — Você não veio me ver.
Eva se virou rapidamente e levantou abraçando a filha ainda mais.
— Quem? Espera, você está com quem aqui? Com seu pai? – Receosa, ficou procurando em volta até deparar com a face de Regina, que estava de braços cruzados olhando-as. — Regina.
— Tia Regina. Viemos à praia juntas. – Bia olhou para a tia e acenou. – Mamãe, chegou de viagem e nem veio me ver. Quando você chegou?
— Viagem? – Confusa, Eva olhou para Pedro e depois para a filha. – Eu… Disse que em breve iria te ver…
Regina se aproximou. Séria, chamou a sobrinha.
— Anda logo Beatriz! Vamos para casa.
— Não vai falar comigo, Regina?
— Olá, Eva. – Regina tinha uma expressão séria e pegou a mão da sobrinha. – Vamos logo, seu pai já ligou duas vezes. Vamos ter um sério problema se não formos encontrá-lo agora.
— Regina, não brigue com ela.
Regina olhou-a de cima a baixo e se foi, quando percebeu Pedro ao lado de Eva.
— Adeus, Eva.
— Vem me ver, mamãe. – Bia acenou sendo arrastada pela mão por sua tia até o calçadão. Ela olhava para a mãe com certa tristeza acenando em despedida.
Pedro ficou o tempo todo somente observando a cena. Eva estava prestes a explodir em lágrimas, quando virou-se, juntou a canga e a jogou na bolsa. Pegou o vestido e o colocou, ajeitando o cabelo.
— Eu vou embora – ela falou gaguejando nitidamente chorosa.
— Vou com você. – Pedro não a deixaria sair sozinha naquele estado. – Espera, ok? Vou avisar a Jeferson e Jessica que vou levá-la.
Eva ficou parada. Estava tão desnorteada com aquele encontro que não sabia o que fazer. Somente balançou a cabeça concordando. No entanto, antes que ele se virasse para ir falar com casal amigo, a dupla estava de volta. Ambos sorriam e conversavam.
— Gente, Eva não está bem. Vou levá-la para casa.
— O que aconteceu? – Jessica se aproximou dela, preocupada.
— Estou bem.
— Não está, e não vou deixá-la ir embora sozinha. – Pedro pegou sua camisa e vestiu.
— Eu, hein?! Não vai mesmo sozinha por aí se sentindo mal. Vamos todos.
— Não precisa, gente. Não quero estragar o dia de praia de todos.
— Eva! – Pedro se aproximou e tocou seus ombros fazendo-a encará-lo. —Você não está sozinha.
Ao ouvir essas palavras e os olhares de seus amigos, Eva não se segurou mais e as lágrimas começaram a rolar sem parar. Pedro a puxou e abraçou;passava a mão em seus cabelos, confortando-a.
— Jeferson, pega o carro. Vamos para meu apartamento. – Entregou ao amigo.
— Agora mesmo.
Jessica ficou ao lado da dupla, preocupada demais.
— O que aconteceu?
— Eva encontrou a filha que não via desde algum tempo.
— Minha nossa! – Jessica olhou em volta, quando viu o carro de Pedro guiado por Jeferson parar no meio fio do calçadão. — Jeferson chegou. Vamos!
CONTINUA…






Ah, cadê o final da história??? Estou louca p saber o que vai acontecer… Rsrs
Sexta vem o final e um bônus para todos os autores <3
Ah, cadê o final da história??? Estou louca p saber o que vai acontecer… Rsrs
Sexta vem o final e um bônus para todos os autores <3