A delegacia já não tratava André como certeza.
Tratava como dúvida.
Clara entrou na sala de Monteiro com um novo relatório.
— O horário do disparo não coincide com o pico de localização do celular do André.
— Ele poderia ter deixado o celular em outro lugar.
— Poderia. Mas o trajeto registrado pelo carro dele também não fecha com o tempo necessário para executar o crime.
Monteiro ficou em silêncio por alguns segundos.
— Então alguém queria que ele fosse a solução perfeita.
Clara assentiu.
— E alguém tecnicamente competente plantou aquela arma.
—
Lucas foi chamado novamente.
Dessa vez, o tom mudou.
— O senhor acessou arquivos da empresa da família após o crime.
— Já respondi isso.
— O senhor também esteve na residência do senhor André na semana anterior à apreensão da arma.
Lucas manteve a postura.
— Eu frequentava a casa.
— Com acesso livre?
— Sim.
Clara o encarou diretamente.
— O senhor tinha conhecimento de armas?
A primeira microexpressão de irritação apareceu.
— Isso é ridículo.
Monteiro foi direto:
— Ridículo é alguém tentar manipular uma investigação.
Lucas saiu mais pressionado do que entrou.
—
Rafael decidiu agir.
Ele entregou à polícia registros antigos de transferências financeiras.
— Por que está fazendo isso agora? — Clara perguntou.
— Porque alguém precisa parar essa merda.
— Está tentando proteger o André?
Rafael não desviou.
— Estou tentando impedir que matem ele por dentro antes de provar qualquer coisa.
—
Na casa da família, a mãe tomou uma decisão silenciosa.
Ela chamou um antigo funcionário da propriedade rural.
— Você não esteve lá naquela semana.
— Mas eu estive, senhora.
Ela o encarou.
— Você não esteve.
O homem entendeu.
A mentira estava sendo comprada.
—
Clara recebeu a informação do novo “álibi”.
E não acreditou.
— Isso foi arranjado — disse.
Monteiro respondeu:
— Ainda não podemos provar.
—
Enquanto isso, no hospital, André recebeu alta.
Frágil.
Mais magro.
Mais quieto.
Rafael estava lá.
Lucas também.
O silêncio entre os três era quase físico.
No apartamento de André, a tensão explodiu.
— Você quase morreu! — Rafael gritou. — Você entende isso?!
— Eu não queria morrer! — André rebateu. — Eu só queria parar de sentir essa porra toda!
Lucas interrompeu:
— Isso não resolve nada. Você só deu mais munição pra eles.
André virou-se para ele.
— Munição? É isso que você enxerga?!
Lucas respondeu frio:
— Eu enxergo consequência.
Rafael avançou.
— Você só enxerga controle!
— E você só enxerga ele como algo pra salvar! — Lucas devolveu.
O clima ficou pesado.
— Eu amo ele — Rafael disse.
A frase caiu como uma bomba.
Lucas riu, nervoso.
— Você ama a culpa que sente por não ter impedido o Eric.
— Vai se foder.
— Fala a verdade!
André começou a tremer de novo.
— Para… para…
Mas nenhum dos dois parava.
— Você usou ele tanto quanto o Eric! — Rafael gritou para Lucas.
— E você nunca teve coragem de assumir nada!
— Eu nunca precisei manipular ninguém pra ficar na cama dele!
Silêncio brutal.
André fechou os olhos.
— Vocês dois usaram meu corpo como se fosse território.
Os dois ficaram imóveis.
Ele continuou:
— Um pra ter controle. O outro pra aliviar culpa.
A voz falhava.
— Eu virei o campo de batalha de vocês.
Rafael tentou se aproximar.
— André…
— Não encosta em mim!
Lucas deu um passo atrás pela primeira vez.
André encostou na parede.
Olhos marejados.
— Eu não sei mais quem eu sou sem essa merda toda.
O silêncio que se seguiu foi diferente.
Não era tensão sexual.
Era ruína emocional.
—
Capítulo 18 termina com Clara recebendo uma denúncia anônima:
“Procure na propriedade rural. O que foi jogado lá ainda está lá.”
Ela encara Monteiro.
— Se isso for verdade, o jogo muda.












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