A manchete saiu antes do laudo.
“Amante é principal suspeito na morte de herd00eiro.”
André leu três vezes.
Amante.
A palavra estava ali, escancarada, como se fosse sinônimo de culpa. Não usaram “companheiro”. Não usaram “relacionamento”. Usaram amante — o que invade, o que desestrutura, o que ameaça o que é legítimo.
Ele desligou o celular.
Tarde demais.
A campainha tocou minutos depois.
Não era polícia. Era imprensa.
A vizinha do andar de baixo abriu a porta só o suficiente para observar. O olhar já não era o mesmo de antes. Não havia solidariedade ali. Havia curiosidade.
E julgamento.
—
Na delegacia, o investigador não perdeu tempo.
— Encontramos impressões digitais suas no copo quebrado.
André assentiu.
— Eu estava lá.
— E marcas no braço da vítima.
A palavra vítima soou técnica demais.
— Nós discutimos.
— O senhor o segurou?
Silêncio.
A memória veio como fotografia desfocada.
A mão fechando em tecido.
O braço quente sob seus dedos.
Eric tentando se soltar.
— Segurei.
— Com força?
Ele respirou fundo.
— Eu estava nervoso.
A caneta do investigador deslizou pelo papel.
Nervoso.
Palavra pequena. Perigosa.
—
O laudo preliminar indicava morte por disparo de arma de fogo.
Tiro único.
À queima-roupa.
André sentiu o estômago contrair quando ouviu.
Ele não tinha arma.
Nunca teve.
Mas isso ainda não era prova de nada.
— A arma não foi encontrada — disse o investigador. — E isso complica as coisas.
Complica para quem?, André quis perguntar.
Mas ficou em silêncio.
—
Horas depois, um novo detalhe.
Uma testemunha.
O porteiro do prédio afirmou ter visto André sair apressado naquela noite. Disse que ele parecia alterado.
— Alterado como? — perguntou o advogado.
— Agitado. Andando rápido.
André quase riu.
Andar rápido agora era indício de assassinato.
Mas sabia que, somado ao resto, construía narrativa.
Discussão.
Marcas no braço.
Saída apressada.
Passado instável.
Uso de drogas.
Motivo.
O quebra-cabeça estava ficando conveniente demais.
—
Na casa da família Vasconcelos, o clima era outro.
Formal. Organizado.
A mãe recebia visitas com postura impecável. Rosto controlado. Voz baixa. Olhos vermelhos no ponto exato entre sofrimento e dignidade.
— Meu filho não merecia isso — dizia.
Nunca mencionava André pelo nome.
Chamava-o de “aquela relação”.
O pai era mais direto.
— Sempre soubemos que isso acabaria mal.
Sempre soubemos.
André sentiu o peso dessa frase quando lhe contaram.
Era como se a morte fosse consequência inevitável da própria existência dele na vida de Eric.
—
Naquela noite, sozinho, ele tentou reconstruir a linha do tempo.
Chegou ao apartamento por volta das oito.
A discussão começou perto das nove.
O copo foi arremessado.
Ele segurou Eric.
Eric disse algo sobre nunca assumir aquele relacionamento publicamente.
“Você é o que eu escondo, André.”
A frase atravessou como punhal.
Depois?
Depois vinha o vazio.
Ele lembrava de sair.
Lembrava do elevador.
Lembrava do porteiro evitando contato visual.
Mas não lembrava de ter ouvido disparo.
Não lembrava de sangue.
Não lembrava de arma.
—
O telefone tocou.
Número desconhecido novamente.
— Você não sabe de tudo.
A voz era feminina.
Baixa. Controlada.
André sentiu o corpo inteiro ficar alerta.
— Quem está falando?
Silêncio.
— Ele não era quem você pensava.
A ligação caiu.
O coração dele acelerou.
Não era ameaça.
Era aviso.
—
No dia seguinte, a polícia voltou ao apartamento de Eric.
Dessa vez, mais minuciosa.
Encontraram algo que não havia sido registrado no primeiro momento.
Um fragmento de tecido preso na quina da mesa.
Não era da roupa que Eric usava.
Era semelhante à camisa que André vestia na noite anterior.
Semelhante.
Não idêntico.
Mas suficiente para levantar sobrancelhas.
—
— O senhor voltou ao apartamento depois de sair? — perguntou o investigador.
— Não.
Resposta imediata.
— Tem certeza?
— Tenho.
Ele sustentou o olhar.
Mas dentro dele havia um ruído.
E se ele tivesse voltado?
E se a memória estivesse protegendo algo?
A dúvida era mais perigosa que qualquer acusação.
—
À tarde, a mãe de Eric pediu para vê-lo.
O encontro foi breve. Privado.
Ela estava vestida de preto. Simples. Elegante.
— Você o amava? — perguntou, sem preâmbulo.
André não hesitou.
— Amava.
Ela o estudou por alguns segundos.
— Amar não impede ninguém de matar.
A frase veio suave.
Quase doce.
Mas havia algo no olhar dela.
Algo que não combinava com fragilidade.
— Eu não matei o seu filho.
Ela inclinou levemente a cabeça.
— Espero que consiga provar.
Esperança não soava como desejo de justiça.
Soava como desafio.
Quando ela saiu, André percebeu que suas mãos estavam suando.
Não de culpa.
De sensação.
Aquela mulher sabia mais do que estava dizendo.
Muito mais.
—
Naquela noite, o noticiário repetiu a palavra suspeito três vezes em menos de dois minutos.
André desligou a televisão.
Sentou no chão da sala.
Apoiou a cabeça na parede.
Ele não tinha arma.
Não tinha lembrança do disparo.
Não tinha prova contra si — apenas circunstâncias.
Mas começava a entender algo cruel.
Às vezes, não é preciso ter cometido o crime.
Basta parecer capaz de cometê-lo.
E ele parecia.
Muito.












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