CAPÍTULO 6
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CAPÍTULO 6

Escrito por: Alessandro Fonseca19/06/2026 - 20:00

O rio parecia mais escuro do que deveria.

Não pela profundidade.

Mas pela memória que carregava.

André não sabia exatamente por que tinha voltado ali antes da polícia. Talvez fosse culpa. Talvez fosse a esperança infantil de que a água pudesse devolver alguma resposta.

O vento cortava leve. Frio demais para a época.

Ele fechou os olhos por um instante.

Água.
Discussão.
Voz elevada.

E depois… nada.

— Senhor André?

A voz do delegado Matos o puxou de volta.

A equipe já estava posicionada. O mergulhador ajustava o cilindro de oxigênio. Rafael Neves observava a margem com um olhar técnico demais para ser apenas profissional.

— Não precisamos que o senhor fique — disse o delegado.

— Eu preciso — André respondeu.

Rafael olhou para ele.

Aquele olhar não era julgamento.

Era estudo.

A Descoberta

O mergulhador sumiu sob a superfície.

O tempo ficou elástico.

André sentia o coração bater no maxilar.

Quando o homem voltou à tona, algo pesado estava preso em sua mão.

A arma emergiu coberta de lodo, mas inconfundível.

Um brilho frio.

Um objeto pequeno demais para ter causado algo tão irreversível.

— Encontramos — Rafael anunciou.

A voz dele era baixa. Controlada.

Quase serena.

Serena demais.

A arma foi colocada sobre a lona plástica.

André deu um passo para trás.

— É compatível com o calibre — Rafael acrescentou.

— Compatível não é confirmação — o delegado retrucou.

Rafael apenas assentiu.

Mas seus olhos permaneceram em André.

Sempre em André.

A Sala de Perícia

Três dias depois.

Luzes frias.
Cheiro de café velho.
Computadores ligados.

Rafael ajustava o áudio recuperado do celular de Eric.

— Está fragmentado — ele explicou. — A água danificou parte do arquivo. Mas conseguimos restaurar alguns segundos.

— Coloca — disse o delegado.

Chiado.

Barulho de água correndo.

A voz de Eric irrompeu pela sala:

— Você não pode controlar a minha vida!

André sentiu o chão se deslocar.

Não era apenas o que foi dito.

Era o tom.

Fúria.

Desespero.

Uma voz feminina respondeu, abafada:

— Você vai destruir tudo!

— Eu não sou seu projeto!

Disparo.

Estática.

Silêncio.

— Reconhece essa segunda voz? — o delegado perguntou.

André abriu a boca.

Fechou.

Abriu de novo.

— Eu… não sei.

Era verdade?

Ou medo?

Rafael inclinou levemente a cabeça.

— Às vezes a mente apaga trechos específicos para proteger o indivíduo de traumas extremos.

— Você está sugerindo o quê?! — André elevou a voz.

— Estou explicando um fenômeno psicológico.

— Você acha que eu fiz isso?!

Rafael sustentou o olhar.

— Eu não acho nada. Eu analiso padrões.

O tom não subiu.

E isso foi pior do que um grito.

Flashback — Apartamento de André

Eric caminhava de um lado para o outro.

Cabelos negros desalinhados. Mandíbula tensa.

— Eu não posso viver assim, André!

— Assim como?!

— Escondido! Mentindo!

André se aproximou.

Segurou o rosto dele com firmeza.

— Eu nunca te escondi.

— Escondeu sim! — Eric empurrou o peito dele. — Você quer me ter, mas não quer enfrentar o mundo!

— Eu enfrento qualquer coisa por você!

— Então enfrenta agora!

O silêncio ficou denso.

E então o beijo veio.

Não suave.

Não romântico.

Foi colisão.

Eric puxou André pela cintura. André segurou a nuca dele. A respiração se misturou. Os corpos se encaixaram como se brigassem para decidir quem dominava.

— Você é meu maior erro — Eric murmurou contra os lábios dele.

— Então erra comigo.

As mãos percorriam. Apertavam. Exigiam.

Havia desejo, mas havia raiva também.

Amor que queima é perigoso.

E aquele amor queimava.

Presente — Academia

Rafael estava lá.

De regata escura. Movimentos controlados. Corpo disciplinado.

— Coincidência? — André perguntou.

— Eu treino aqui há anos.

— Você conhecia ele.

Não era pergunta.

— Conhecia de vista.

Mentira leve.

André percebeu.

— Você está me analisando o tempo todo?

Rafael respirou fundo.

— Você está sendo analisado por todos.

Silêncio.

Rafael se aproximou um pouco.

— Você ainda o sente aqui?

André engoliu seco.

— Sinto.

— Então talvez você precise aceitar que algumas respostas não vão vir da polícia.

Aquilo não era consolo.

Era convite.

A Mãe

Helena ouviu o áudio em casa.

Sozinha.

Repetiu três vezes.

A própria voz parecia distante.

Ou era só a consciência tentando editar a memória?

Quando André entrou na sala, ela desligou o aparelho.

— Você estava no rio? — ele perguntou.

— Eu estava procurando meu filho.

— Àquela hora?

— E você estava fazendo o quê lá?!

— Eu fui encontrar ele!

— Para quê?!

— Para resolver!

— Resolver ou acabar?!

O grito ecoou.

Silêncio.

Helena respirava pesado.

— Você não lembra direito das coisas, André.

A frase caiu como lâmina.

Gaslighting sutil.

Preciso.

O Laudo

A confirmação veio dois dias depois.

— A arma encontrada no rio não corresponde ao projétil — anunciou o delegado.

— Como assim?! — André perguntou.

— Assinatura balística diferente.

Silêncio pesado.

Rafael cruzou os braços.

— Isso significa que há outra arma.

Ou outra manipulação.

Ou outra cena.

Ou outra pessoa.

O caso se expandiu.

O Retorno ao Rio

Naquela noite, André voltou sozinho.

A lua refletia na água.

Ele fechou os olhos.

Repetiu mentalmente o áudio.

— Você não pode controlar a minha vida!

— Você vai destruir tudo!

Disparo.

Mas agora…

Algo diferente.

Um som antes do tiro.

Passos na vegetação.

Ele forçou a memória.

Viu Eric.

Viu o brilho metálico.

Mas viu também—

Um vulto.

Não feminino.

Não claramente masculino.

Uma presença parada a alguns metros.

Observando.

Esperando.

Ele abriu os olhos bruscamente.

A respiração acelerada.

Talvez nunca tenha sido apenas três pessoas naquela margem.

Talvez alguém tenha assistido.

Talvez alguém tenha esperado o momento certo.

E talvez…

Essa pessoa ainda esteja por perto.

Corte.

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