CENA 1. INTERNA |DIA |ESCRITÓRIO – GOUVEIA ARQUITETURA & ASSOCIADOS.
{Começa a tocar: A Vida Quis Assim – Oswaldo Montenegro}
Pedro olha pela janela do seu escritório, com um olhar perdido e pensativo… Lá embaixo, a poucos quilômetros dali ele vê as belezas da praia de Ipanema. E um filme começa a passar pela sua cabeça, da primeira vez que ele viu Helô e como eles se conheceram. Depois de algum tempo olhando a praia, ele volta a olhar a para a fotografia que ele guarda a sete chaves dentro da carteira… A única recordação que ele tem de Helô, o grande, único e verdadeiro amor de sua vida, fora as eternas lembranças…
PEDRO (Triste, pensa alto) – Como você era linda, meu amor… Minha Garota de Ipanema. Como será que você esta agora? Eu daria tudo só pra te ver de novo, Helô. (Diz sorrindo).
Nesse momento, Dona Neusa a secretária, o interrompe batendo na porta…
NEUSA – Da licença seu Pedro. A dona Beatriz esta ao telefone e ela insiste em falar com o senhor.
PEDRO (Impaciente) – Poxa dona Neusa, eu não disse pra senhora que não queria ser interrompido nem por telefone? (Indaga enquanto pega a carteira em cima da mesa e guarda a foto de Helô dentro).
NEUSA – Disse sim seu Pedro, me desculpe. Mas acontece que ela já ligou cinco vezes, e o senhor sabe como a dona Beatriz é insistente. Ela disse que senão falar com o senhor agora, ela vai baixar aqui e vai interromper reunião, ou seja, lá o que for que o senhor esteja fazendo.
PEDRO – É hoje, meu Deus! Dai-me paciência. Pode passar que eu vou atender… Alô, Beatriz… Que foi que aconteceu dessa vez?
BEATRIZ – Por enquanto nada, meu amor… Ia acontecer se eu não conseguisse falar com você nesse quinto telefonema. Será mesmo que você estava tão ocupado assim, que não podia falar comigo cinco minutos? Eu tenho mais o que fazer do que ficar pendurada ao telefone a manhã inteira, por favor, né!
PEDRO – Acontece que eu trabalho Beatriz, e eu levo o meu trabalho muito a sério. Eu não posso ficar te atendendo toda hora não. Mas fala logo o que você tem pra me falar, que eu tenho que visitar um cliente daqui a pouco e ainda tenho que entrevistar um rapaz mais tarde para a vaga de arquiteto que abriu aqui…
BEATRIZ – Então… Eu queria te avisar pra não demorar, que eu decidi oferecer um jantar aqui em casa hoje. Seremos nós aqui de casa, o papai e a Celina, a Leila e a Betina só… Enfim, nada muito formal, é mais para falarmos da nova campanha da marca Garota de Ipanema, que se Deus quiser dessa vez irá bombar. Eu estou apostando todas as minhas fichas nisso. (Diz sorrindo).
PEDRO – E eu tenho mesmo que comparecer nesse jantar Beatriz? Você sabe que eu não entendendo nada dessas coisas, acho tudo muito chato, eu não tenho saco pra esse tipo de coisa. Apesar de adorar a Leila e a Betina.
BEATRIZ – Sabe Pedro, tem muitas coisas que eu também não suporto, mas eu disfarço, sorrio e faço com gosto e sabe por quê? Por você, porque eu te amo. Agora custa fazer uma vez na vida o que eu te peço? É demais pra você me apoiar no que eu amo fazer, hein?
PEDRO – Ta ok. Eu estarei ai Beatriz… Mas sem conversinha e jogos depois do jantar hein? Eu janto, faço uma social como você diz, depois peço licença e me retiro.
BEATRIZ – Ta bom… Esteja aqui as oito, que o jantar será servido às oito e meia em ponto. Eu te amo, meu amor. Beijo…
PEDRO (Indiferente) – Ta bom. Tchau.
{Começa a tocar: Combustível – Ana Carolina}
Beatriz desliga o telefone e fica pensativa, com lágrimas nos olhos… Ela não se conformava em como Pedro estava distante dela e queria trazer o marido a todo custo para perto de si, o tempo todo…
MAROCA – Dona Bia… Eu já arrumei tudo…
BEATRIZ – Ai que susto, Maroca! (Fala limpando o rosto) – Quantas vezes eu já te pedi pra não chegar assim, de repente? E também já cansei de dizer pra não me chamar de Bia mais… Agora eu sou uma empresária de sucesso, uma estilista conhecida no mundo da moda, e Bia é muito insignificante, não cai bem. Beatriz sim é digno e impõe mais respeito.
MAROCA – Que seja… Eu vim avisar que eu já terminei de arrumar tudo e estou indo para cobertura do seu pai agora, que eu tenho que servir o café da manhã.
BEATRIZ – Ta bom pode ir… À noite você vem ajudar a Chica no jantar né?
MAROCA – Venho sim, o seu Anselmo já me pediu e por ele eu venho. Tchau.
BEATRIZ – Mulherzinha intragável… Se não fizesse tão bem o serviço, além de ser paga pelo papai, eu jamais iria suportá-la enfiada aqui dentro da minha casa…
CORTA PARA:
CENA 2. INTERNA |DIA |COBERTUA DE BEATRIZ – QUARTO DE PALOMA.
Paloma esta terminando de se arrumar para sair com Betina e a amiga chega…
BETINA – Toc toc… Cheguei e to entrando.
PALOMA – Oi amiga, bom-dia. (Diz dando um beijo em Betina, que se joga em sua cama logo depois).
BETINA – Bom-dia. Nossa eu cruzei com a sua mãe lá embaixo, e ela ta com aquela cara… Deu até medo. Aconteceu alguma coisa?
PALOMA – Que eu saiba nada. Ela deve estar assim por causa do lançamento da nova coleção. Ela geralmente fica uma pilha uns dias antes, eu já estou até acostumada…
BETINA – Também não é pra menos né? Faz tempo que a marca Garota de Ipanema vai mal das pernas e ela ainda insiste em não acabar de vez com a empresa. Minha mãe disse que essa é a última campanha publicitária que ela pega pra fazer da marca, que depois a Beatriz fica culpando até ela pelo fracasso da coleção.
PALOMA – E a Leila faz muito bem. Eu no lugar dela já tinha parado com essa parceria faz tempo. Se a minha tia Helô tivesse no Rio até hoje, a marca seria um sucesso. Ela sempre foi a alma da Garota de Ipanema… E sabe que até hoje as pessoas perguntam dela. Eu morro de vontade conhecer a minha tia, ela era linda quando jovem, de vez em quando a Celina me mostra umas fotos dela, que ela esconde do meu avô… Eu só não entendo até hoje o porquê, de ela ter ido embora e nunca mais ter voltado. É um mistério que ninguém na família comenta. O meu avô nem toca no nome dela, parece que ela o magoou bastante… Enfim, voltando ao assunto, a dona Beatriz não perde por esperar o desfile da nova coleção semana que vem. Eu deixarei de desenhar para a marca definitivamente, enquanto ela leva os créditos por mim, e darei o meu grito de liberdade… Chega! Cansei! Eu vou pular fora desse barco, antes que ele afunde de vez.
BETINA – Faz muito bem. Pula fora desse Titanic enquanto é tempo amiga… Agora vamos então, que a minha mãe marcou as dez pra falar com você… Me diz uma coisa, o gatinho do Edu vem pra esse jantar hoje também? (Fala sorrindo).
PALOMA – Eu não sei, pode ser que sim. E pode parar com esse sorrisinho malicioso viu dona Betina. Eu e o Edu somo só amigos e é assim que vai continuar sendo. Eu to muito bem solteira, e minha vida, meu tempo e dedicação de agora pra frente, serão exclusivamente para a faculdade de moda e nada mais. E vamos indo… (Fala e puxa a amiga pra fora do quarto).
CORTA PARA:
CENA 3. INTERNA |DIA |COBERTURA DE ANSELMO – SALA DE JANTAR.
Anselmo, Celina e Liah estão sentados a mesa tomando café, antes de Liah ir para o colégio.
ANSELMO – E então Liah, como vai o colégio? É o seu último ano hein, já pensou qual carreira seguir? (Indaga enquanto toma uma xícara de café).
LIAH – Pra falar a verdade eu to em dúvida vô, entre jornalismo e letras. Eu gosto muito dessa área de humanas.
CELINA – É a área que eu sempre gostei também. Tanto que sou formada em serviço social, apesar de nunca ter exercido a profissão, o que é uma pena…
LIAH – E a senhora não sente falta vó de trabalhar fora, ter uma ocupação?
ANSELMO – Vai sentir falta do que? Ela tem tudo, eu não deixo faltar nada pra ela…
CELINA – Ela não ta falando de coisas materiais Anselmo e sim de ocupar a cabeça, distrair um pouco… O trabalho é bom pra isso também, sem contar na dignidade e independência que adquirimos com ele. E respondendo a sua pergunta Liah, eu sinto falta sim, de trabalhar com o que eu gosto, ajudando as pessoas, de ter o meu próprio salário… Mas o cabeça dura do seu avô nunca mais me deixou trabalhar, depois que casamos.
ANSELMO – E não deixei mesmo. Pra que? Eu tenho dinheiro, a gente vive bem, não nos falta nada graças a Deus! Nossa mas esse bolo de cenoura com chocolate esta uma delícia, vê mais uma fatia pra mim meu amor…
CELINA – A Maroca faz cada coisa viu… E pra acabar com qualquer dieta. Come um pedaço Liah?
LIAH – Melhor não Celina. Se a minha mãe fica sabendo que eu comi esse bolo, ela me mata. Ela já nem gosta que eu tome café da manhã aqui, vocês sabem… Depois eu to precisando perder peso…
CELINA – Eu não vou contar nada. Muito menos o Anselmo, eu te garanto. Depois você ta linda assim meu amor, não esta gorda não. Portanto, pode comer e sem culpa. (Fala sorrindo).
LIAH – Tudo bem, mas um pedacinho pequeno…
Liah come um pedaço do bolo, mas fica com medo de engordar e a mãe perceber. Com sentimento de culpa, ela se levanta e decide ir embora…
LIAH (Apressada) – Bom eu já vou indo…
CELINA (Surpresa) – Calma Liah, você nem terminou de comer o seu bolo. Senta ai… Ta tudo bem com você?
LIAH – Ta sim vó. Tchau, beijos.
ANSELMO – Mas o que será que deu nessa menina pra ela sair daqui que nem foguete?
CELINA – Eu não faço idéia. Estava tudo tão bem, ela parecia feliz em estar tomando café da manhã conosco, de repente parece que ela mudou… Me pareceu até transtornada, como se algo a tivesse incomodando…
MAROCA – Eu sei bem o que é isso… (Fala Maroca aparecendo na sala) – Isso é reflexo da Beatriz que pega tanto no pé da menina, pra não comer isso e aquilo e acabar engordando. Eu já vi a dona Beatriz dizer horrores lá na casa dela, pra essa menina… Coitada, eu morro de dó. Ela não sabe o que fazer pra agradar a mãe. Qualquer dia a Liah acaba surtando…
Celina e Anselmo se olham preocupados e não dizem nada. (Closes alternados).
CORTA PARA:
CENA 4. EXTERNA |DIA |CLIPE DE IMAGENS – CIDADE DE AMERICANA – SÃO PAULO.
{Começa a tocar: Um Amor Puro – Djavan}
Cam pega a fachada de um hospital, onde é possível ver o nome com escritas em azul: Hospital Municipal de Americana. Depois corta direto para dentro do hospital, onde Helô que é obstetra sai desesperada de dentro da sala de cirurgia… Ela arranca a máscara, touca, luva e o jaleco e jogo tudo dentro de uma lixeira do lado de fora da sala… E sai agoniada.
CORTA DIRETO PARA – SALA DE HELÔ.
{Começa a tocar: Instrumental Triste}
Helô esta abalada e começa a chorar, enquanto anda desinquieta pela sala, de uma lado para o outro. A morte da criança durante o parto, a fez relembrar ainda mais sua filha e tudo o que ela passou há mais de vinte anos atrás. Ela senta na poltrona do lado do telefone, e depois pega a jarra de água ao lado na mesinha, serve um pouco e bebe para se acalmar… Logo em seguida ela pega o telefone e faz uma ligação…
HELÔ – Alô Flávia… Ah que bom que você atendeu amiga. Eu estava precisando falar com alguém… Eu acabei de perder um bebê no parto, to arrasada… Sim, eu sei que faz parte da nossa profissão. Mas a gente nunca se acostuma né? Ainda mais no meu caso, você sabe… Me lembra muito a minha filha que eu perdi, e o pior de tudo é que foi quase igual o caso dela. Sim o cordão umbilical ficou muito tempo enrolado ao pescoço do bebê e ele acabou morrendo por asfixia. Era um menino… Não agora eu to bem melhor. Só de ter falado com você e desabafado um pouco, eu melhorei. Obrigada por me ouvir sempre amiga… E como estão as coisas ai no Rio? Eu imagino mesmo… (Comenta rindo) – Nossa quanto tempo que eu não vou pra ai… Já tem mais de vinte anos. Eu sei e confesso que a proposta é tentadora Flávia, mas eu tenho que pensar direito, tem a minha vida aqui agora, a família que eu construi… Mas eu prometo que irei pensar com carinho viu amiga…
Nesse momento, Daniel marido de Helô, entra de supetão e fica parado na porta inquieto e com cara de preocupado…
HELÔ (Preocupada) – Flávia olha só eu vou ter que desligar agora, mas a noite eu te ligo ta bom? Pode deixar, ligo sim, outro pra você. Tchau… Que cara é essa Daniel aconteceu alguma coisa?
DANIEL – Aconteceu… É o Bruno. Ele foi preso Helô.
HELÔ – Como é que é? Me explica essa história direito, como assim preso? Em que delegacia, ele esta? (Fala se levantando).
DANIEL – Eu também não sei muita coisa ainda, acabaram de me ligar. Mas parece que pegaram ele com droga… Vem que no caminho conversamos melhor. Nós temos que ir pra lá agora.
HELÔ – Claro. Deixa eu só pegar a minha bolsa… Vamos. O meu filho… Eu não to acreditando nisso… (Diz transtornada).
CORTA PARA:
CENA 5. EXTERNA |DIA |RIO DE JANEIRO – CLIPE DE IMAGENS.
{Começa a tocar: O Barquinho – Paula Toller}
Cam fade in – Abre mostrando o Cristo redentor, o mar, a praia, o calçadão, o trânsito, Ipanema… Fachada do Edifício Bela Vista.
CORTA DIRETO PARA – COBERTURA DE BEATRIZ – QUARTO DE LIAH.
{Começa a tocar: Instrumental Tensão}
Liah chega ao quarto correndo e bate a porta… Ela entra no banheiro e tranca a porta. Depois ela se olha no espelho e começa a chorar, não gostando do que vê. Ela imediatamente abre a tampa do vaso, depois se ajoelha no chão e enfia o dedo na goela, a fim de provocar o vômito. E consegue… Depois ela se levanta e vai até a pia e se lava. Olha novamente para o espelho, limpa a boca e continua chorando. Liah então sai do banheiro e já no quarto se joga em sua cama, ficando encolhida e pensativa.
CORTA PARA:
CENA 6. INTERNA |DIA |FACHADA – INSIGHT PUBLICIDADE.
Betina e Paloma estão na sala de Leila e conversam francamente sobre a nova campanha publicitária da marca Garota de Ipanema…
LEILA – Bom com você eu me sinto a vontade de falar sem rodeios, Paloma. Eu não vejo mais futuro no mercado para a Garota de Ipanema. A marca vem se arrastando há anos, e nada do que a Insight e eu fazemos da certo. Eu em consideração a sua mãe e até mesmo a sua tia, a Helô a quem eu conheci anos atrás e por quem eu tinha uma profunda estima, venho fazendo concessões, mas agora não da mais, acabou… A marca deixou de existir quando a Helô foi embora, e nunca mais se reergueu. E a Beatriz vai ter que aceitar isso. Afinal, o nome da minha empresa também esta em jogo aqui.
PALOMA – Você tem toda razão Leila. Eu concordo com você… Agora o difícil vai ser a dona Beatriz colocar isso na cabeça e largar esse osso. Mas nós não temos obrigação nenhuma de embarcar com ela nessa furada né? Se ela insistir nisso, que arrume outra agência de publicidade pra fazer a divulgação, e outra estilista também. Por que eu não vou continuar fazendo os desenhos pra ela levar a fama, e ainda ter que ficar posando de modelo da marca, que, aliás, eu detesto. Minha relação com a moda sempre foi criar, ser estilista e não desfilar.
BETINA – Sabe que até hoje eu não entendo como você foi cair nessa Paloma? Se anular dessa maneira, deixando a sua mãe brilhar no seu lugar… Sim porque os desfiles, os desenhos e o nome dela sempre foram sucesso de critica e público, só mesmo a marca e os modelos que não vendem mais como antes. Pra mim amiga você já devia estar assinando seus desenhos há muito tempo e sozinha, porque com o seu talento, nem de marca você precisa. O seu nome é a sua marca.
PALOMA (Sorri) – Obrigada pela injeção de ânimo amiga, eu tava mesmo precisando… Tudo aconteceu de maneira tão rápida, que quando eu me dei conta, a bola de neve já havia crescido e muito. Eu era muito jovem, sempre fui louca por desenho desde pequena. Um dia com apenas quinze anos, eu fiz uma coleção inteira de desenhos de moda e praia… Na mesma época a Garota de Ipanema entrou em crise, começou a não fazer mais sucesso. E eu na maior inocência, disse que queria ajudar, mostrei os desenhos pra minha mãe e ela quase enlouqueceu… Disse que eles eram ótimos, que eu tinha talento, e que eu poderia ajudar ela a salvar a empresa… A partir daquele dia, eu passei a assumir os croquis da marca, e como eu era menor de idade ainda, a minha mãe os assinava. E assim ficou combinado até que eu completasse a maior idade… O que obviamente não aconteceu, porque a minha mãe não queria deixar de sentir o gostinho da fama, que, aliás, ela só conquistou através do meu talento.
LEILA – Que história horrível Paloma! De certa forma, ela te usou esse tempo todo… Usou do seu talento pra se dar bem… E o seu pai, o que ele fala disso tudo?
PALOMA – Já brigou, discutiu, proibiu… Mas vocês conhecem a dona Beatriz né? Nada resolve e a última palavra é sempre a dela. Quando eu completei dezoito anos, ele disse que dali pra frente o negócio era comigo e que me apoiaria em qualquer decisão que eu tomasse… Enfim, eu fui protelando essa decisão até hoje, pra evitar mais brigas lá em casa e acabar piorando o convívio. Mas agora basta, já deu… Eu, o meu pai e a Liah já estamos estafados com os caprichos da minha mãe, e não vamos mais viver para agradá-la de forma alguma. Ela que segure os pepinos agora, que eu só quero me formar e assim que der me mudar de lá o quanto antes, morar sozinha e ter paz… Eu só tenho pena mesmo é da Liah, que não tem coragem de enfrentá-la e aceita tudo calada, coitada.
Leila, Betina e Paloma se entreolham caladas. (Close no rosto de Paloma pensativa).
CORTA PARA:
CENA 7. EXTERNA |DIA |CIDADE DE AMERICANA – SÃO PAULO.
Daniel e Helô conseguiram sair com Bruno da delegacia depois de pagarem fiança… Ainda no carro com Daniel dirigindo calado a caminho de casa, Helô decidiu quebrar o gelo.
HELÔ (Emocionada) – Por que Bruno? Eu só queria entender… O que você estava fazendo no meio daqueles jovens… Você sabia que dois deles estavam traficando? Eles devem ficar presos durante um bom tempo agora, já que o crime é inafiançável… Você sempre foi um menino tão bom, tranqüilo, educado, sempre tirou as melhores notas no colégio, sempre teve tudo que quis, eu o seu pai nunca deixamos te faltar nada meu filho… E agora de uns tempos pra cá, você mudou e se tornou usuário de drogas? Você estava com algum problema? Por que não nos pediu ajuda meu filho?
Bruno olha de relance para a mãe com uma cara fechada e nada diz. Depois respira fundo, como se tivesse de saco cheio e responde:
BRUNO (Tom irônico) – Porque o céu é azul mãe? Por que insistimos tanto em buscar a felicidade, se quando a conquistamos não damos valor? Por que existe o certo e o errado? E quem pode julgar o que é certo ou errado nesse mundo? Eu também as vezes queria ter as respostas para todas as perguntas mãe… Mas adivinha só, no fim das contas, nós não temos… Ninguém as tem. E só o que precisamos muitas vezes é de algo que nos ajude atravessar o dia. Algo que nos faça esquecer a grande merda que se tornou as nossas vidas… E eu devo isso a vocês dois. A grande merda que esta a minha vida… Parabéns! Agora vocês já tem a quem culpar. (Diz saindo do carro e batendo a porta, pois já chegaram em casa).
Daniel e Helô se olham sem saber o que dizer um para o outro… Bruno espera o portão eletrônico se abrir, depois entra correndo para dentro de casa.
FIM DO CAPÍTULO.
(A imagem congela. Depois se transforma em um cartão postal, jogado sobre Ipanema).
{O capítulo se encerra com a música: Not Today – Imagine Dragons}.





