O adiantado da hora não permitiria uma viagem tão longa até a corte sem que o grupo tivesse de enfrentar grandes perigos ao desbravar a floresta escura. Ézius era um lugar maravilhoso para se viver porem, muito perigoso.

Sem dúvida aquele era um caminho sem volta, assim foi de comum acordo que os homens daquela diligencia decidiram esperar o amanhecer para seguir uma viagem segura, resolvendo montar acampamento a poucos metros da entrada da cidade.

Os cavalos foram amarrados e alimentados com frutas frescas e uma espécie de capim rasteiro da região, a fogueira acesa tinha o intuito de manter aqueles cinco homens aquecidos, como também manter qualquer perigo longe daquele lugar.

Um pouco mais afastado daquele pequeno grupo uma imponente carruagem estava estacionada a portas trancadas e os dois homens responsáveis por conduzi-la estavam de vigia na porta para qualquer eventualidade que pudesse surgir.

O grupo teve ordens expressas para deixarem sozinhos o lorde e sua convidada especial que em hipótese alguma deveria ser incomodado por qualquer que fosse o motivo. Sendo assim, eles acabaram por respeitar a decisão “daquele Lorde engomadinho”, — como eles o chamavam em segredo, — Para não terem problemas mais tarde.

Despreocupados e sem muito que fazer para passar o tempo, a tranquilidade do ambiente acabou trazendo à tona as grandes histórias passadas de pai para filho sobre bravos homens enfrentando o desconhecido para salvar o reino de Ézius de um grande mal.

Um porco do mato foi abatido, seu couro curtido e sua carne temperada grosseiramente com ervas encontradas ali perto, e agora sua gordura escorria sobre a carne que descansava atiçando as chamas ao entrar em contato com o fogo.

— Meu pai me contou essa história uma única vez, e eu não fui capaz de esquecê-la um único dia se quer.

Abrindo um velho odre que sempre carregava consigo Augusto sentou-se num tronco grande junto a fogueira, bebendo um gole de vinho iniciou sua narrativa:

 

As antigas lendas contam que antes da existência de Ézius o mundo era governado por quatro feras malignas dotadas de grande poder. Os seres humanos viviam confinados em masmorras como escravos, aqueles que ousassem desobedecer eram punidos com a morte.

Após dois mil anos de escravidão e sofrimento, heróis de outra terra apareceram com a promessa de salvar este mundo do sofrimento.

Uma feroz batalha se seguiu, por dez longos anos os seres humanos lutaram no campo de batalha, guiados pela esperança de uma vida melhor.

Houveram muitas perdas tanto de um lado quanto de outro antes dos homens aprisionarem magicamente essas quatro feras cada uma em seu reino.

Dizem, que a magia que os aprisionou está se enfraquecendo com o passar dos séculos e que um dia essas feras retornarão para reclamar o reino novamente e aprisionar novamente os humanos que se rebelaram contra elas.

Quando esse dia chegar, e o mundo de nós precisar, estaremos mais uma vez aqui para esta terra reclamar, protejam a profecia, até que esta terra precise de nos mais uma vez.

Cinco guerreiros, vindos de além mar, trarão consigo a luz que guiara o caminho da humanidade e libertará a terra da sombra etérea.

 

— Meu avó me contava ela também…

Antes que ele pudesse concluir algo aconteceu, os três cavaleiros caíram em um profundo sono.

 

***

 

Aquilo parecia ser impossível de acontecer, magicamente os quatro homens na entrada da cidade desmaiaram sem ter a chance de soar qualquer alerta para seus moradores, uma densa cortina de fumaça tomou conta do lugar encobrindo qualquer rastro do que estava acontecendo ali.

— Fique aqui em segurança. E se algo acontecer corra. — Ordenou ele para Arthur ainda escondido.

Lucca saiu disparado em direção a floresta, tomando cuidado para não ser visto pelos ocupantes daquela diligencia. Se eles estivessem com a garota e seu plano desse certo logo, logo pai e filha estariam juntos em casa.

— Onde estão vocês? — Ele perguntou mentalmente para ninguém.

Aquele era um encantamento simples. Lucca aprendera a executa-lo ainda nos primeiros anos de treinamento com o pai, bastava que ele pensasse em alguém para estabelecer contato direto com a pessoa telepaticamente.

Orfeu sempre o usava para transmitir instruções para ele quando estavam na presença de alguém ou precisava se comunicar com ele de alguma forma sem que outras pessoas soubessem do teor da mensagem, mas sempre era algo relacionado ao seu aprendizado como alquimista.

O único problema era que eles precisavam estar a pelo menos um quilometro de distância um do outro para que a comunicação funcionasse. Com o passar do tempo o menino aprendera a usar a técnica com os amigos. Com os quatro aquilo funcionava. Bastava ele pensar em qualquer um deles e na mensagem que ele queria transmitir e tempos depois ouvia-se a resposta. O mesmo valeria para o grupo.

O que acabou sendo de grande ajuda naquele momento.

— Indo em direção a floresta anjo. — Respondeu Jimmy em sua cabeça. — O que aconteceu?

— Acho que encontrei alguma coisa.

— Onde você está? — Perguntou Adam telepaticamente.

— Estou na entrada da cidade, e tem um comboio de quatro soldados e dois vigias em uma carruagem.

— Chegaremos ai em 5 minutos.

Ele reconheceria aquelas vozes em qualquer lugar, mesmo estando longe, o elo mental entre eles estava forte, que eles pareciam estar lado.

Escondido em uma das torres de observação, ele esperou algum sinal dos amigos para que pudesse continuar.

— Qual o seu plano? — Perguntou Jimmy. — Primeiro eu preciso ter certeza que a garota está realmente lá. — Ele respondeu de imediato.

— Isso é fácil. — Respondeu Jimmy — Podem deixar isso comigo.

— Ok! Apenas veja se ela está lá, e bem.

— Ok.

Alguns poucos minutos se passaram antes dele receber uma resposta telepática do garoto.

— Tem uma menina na carruagem sim Lucca. ─ Disse ele em tom de urgência. — E ela não está sozinha.

— O que faremos? — Perguntou Adam.

— Vamos ao resgate pessoal. — Lucca parecia bem animado. ─ É hora de coloca-los para dormir, então saiam do meu campo de visão, e cubram bem os narizes ou vocês vão dormir por semanas.

— Iniciando a fase bela adormecida. — Disse Tonny sorrindo.

Lucca apanhou em seu cinto quatro frascos com líquidos de cores diferentes e começou a misturá-los ali mesmo ao relento em um quinto frasco um pouco maior que os outros.

Um quarto do liquido de cor azul, um quarto do de cor amarela, e mais um quarto do liquido de cor verde.

— Depressa Lucca. — Disse Jimmy impaciente.

— Alquimia não se faz de uma hora pra outra sabia. — Disse ele misturando o conteúdo inteiro do quarto frasco de cor azul.

A junção dos quatro frascos fez seu conteúdo do quinto frasco assumir uma cor arroxeada que Lucca chacoalhou sem paciência até que borbulhando soltasse uma fumaça adocicada.

— Está pronta. — Disse ele tampando o vidro.

— É só você dar o sinal.

Sem muita noção do que tinha acabado de fazer, Lucca arremessou aquele pequeno frasco cilíndrico com toda a força que possuía, esperando que tivesse feito tudo corretamente.

Mais ao longe os homens ao redor da fogueira caíram misteriosamente em uma espécie de sono profundo, se estavam mortos ou apenas dormindo, daquela distancia não era possível dizer.

— Fiquem juntos e esperem o meu sinal, e cubram os olhos. — Ordenou Lucca atirando o frasco no meio da fogueira acesa.

Em contato com o fogo, o liquido produziu uma espécie de big-Bangu luminoso tão intenso que era impossível visualizar um palmo a frente do nariz.

Alguns minutos se passaram em completo silencio.

— Vocês já podem ir. — Disse ele por fim.

— O que foi aquilo cara! — Jimmy não se conteve em perguntar.

— Alquimia. — Ele respondeu voltando sua atenção ao comboio a sua frente.

— Show cara. — Disse Adam admirado.

— Vamos logo com isso, pelos meus cálculos nós temos menos de cinco minutos antes deles acordarem. — Disse Lucca correndo em direção ao acampamento. — Eu acho.

— Como assim, eu acho? — Perguntou Tonny.

— Se eu errei na dosagem dos componentes, eles podem dormir para sempre. — O garoto respondeu.

— Sinistro véi.

Lá estavam eles reunidos novamente, como se não tivessem se separado um único minuto se quer desde que entraram em Ézius.

— Eles são um grupo de sete, contando com a menina. — Disse ele assim que viu os amigos.

— Então vai ser fácil. — Concluiu Lucca.

— Ué, cadê ele? — Disse Adam, querendo saber onde o dono da estalagem estava.

— Eu mandei ele se esconder e procurar ajuda caso algo aconteça. — Respondeu Lucca.

— Vocês podem ir na frente. — Disse Jimmy — Eu tenho algo para fazer.

Era um acampamento pequeno, e seus ocupantes não tinham muitas bagagens ou objetos preciosos, mas tinham armas e para eles aqueles artefatos seriam de grande ajuda um pouco mais a frente.

Deixando os amigos irem na frente Jimmy começou a vasculhar o acampamento em busca de pequenos tesouros. Não demorou muito para ele alcançar os amigos que o esperavam do lado de fora da carruagem para poder seguir com o plano já traçado por Lucca.

— São três armas para cinco pessoas. — Ele concluiu ao jogar as coisas aos pés da carruagem. — Temos que decidir quem fica com o que.

— Nós vemos isso depois. — Disse Lucca apontando para a porta da carruagem.

Entendendo sua deixa, Jimmy tirou do bolso interno de suas vestes um pequeno embrulho amarrado com uma fina tira de seda.

Dispondo o artefato no chão, ele desembrulhou, e para a surpresa de todos revelou o conteúdo do pacote. Analisando um a um escolheu um dos vários instrumentos que trazia ali. Pegando o menor e mais fino de todos, introduziu na delicada fechadura.

Com movimentos milimetricamente calculados, ele parecia procurar a posição correta para colocar aqueles artefatos ali. Em alguns segundos de trabalho, ouviu-se um CREC abafado vindo do interior da porta.

Voilà meus amigos. — Disse ele empurrando a porta para que os amigos entrassem.

— Vamos tira-la daqui enquanto ainda podemos. — Disse Lucca entrando na carruagem.

 

***

 

Diante da torre de observação a cima das grossas muralhas do castelo de Tardos era possível ver ao longe uma extensa cadeia de montanhas conhecida apenas como o vale do silencio. O céu noturno tornava aquela visão ainda mais bela. De onde ele estava, era possível ver uma pequena lua cheia cercada por pequenos pontos brilhantes, que pareciam brincar de esconder com o véu noturno.

Aqueles homens nunca imaginaram em suas simplórias vidas de servos que passariam por uma situação daquela algum dia em suas vidas.

Eric era um garoto se comparado ao seu companheiro de guarda, aos 30 anos fora recrutado como vigilante real com a única missão de proteger o senhor de Ézius de qualquer que fosse o perigo eminente. Dispensado da presença do rei por conta do dia de festa ele e o velho Argos foram lotados a torre de vigilância naquela noite em especial.

Aquela seria uma noite comemorativa como outra qualquer, animada pela música vinda do interior do palácio regada a vinhos e queijos, se não fosse pela inquietude vinda das montanhas.

Desde as primeiras horas daquele dia, toda a floresta estava se comportando de maneira esquisita, animais que se escondiam durante o dia começaram a aparecer pelas proximidades do castelo, querendo se apoderar de um território que não lhes pertencia. Para falar a verdade, ele se sentira estranho durante todo aquele dia, como se um espírito agourento da floresta tentasse lhe dar um sinal de que algo ruim estava prestes a acontecer.

No início de sua ronda aquele estranho pressentimento o fez admirar a paisagem mais uma vez e perceber lá em baixo um brilho vermelho se movendo rapidamente na direção da grande muralha, primeiro aqueles vários pontinhos descendo a montanha, depois se esgueirando para dentro da floresta.

“— Estou sob o efeito do vinho.” — Ele disse ao perceber que aqueles pontinhos desapareceram ao entrar na floresta.

Tentando chegar mais perto com a lente do pequeno telescópio, o guarda esticou ainda mais o objeto apontando para os pequenos pontos vermelhos visto ao longe. Para sua surpresa, o homem se deparou com uma horda de pequenos guerreiros marchando em direção ao castelo. Aqueles homens foram pegos de surpresa, pois não esperavam uma diligencia tão grande numa hora como aquela.

Aquela visão aterradora congelara seus sentidos de tal forma, que sua única reação foi largar a luneta e apontando naquela direção aquele soldado engoliu as palavras que teimavam em ficar presas em sua garganta.

Com as pernas tremendo, o homem simplesmente caiu sentado na torre de observação, fazendo seu único companheiro de guarnição rir das atitudes de um homem feito.

— O que foi homem, não consegue se aguentar em pé?

Atordoado, o homem apenas apontava o horizonte na esperança de que suas palavras saíssem de alguma maneira.

— Vamos ver do que você tem medo, meu abobalhado colega.

Assim, aquele homem partilhou da mesma visão do amigo, que continuava ali ainda tremendo, porem diferente dele, Argus teve coragem de anunciar o que acabara de ver.

Já próximo à entrada do castelo, ele pode contar no mínimo doze pelotões de incontáveis criaturas vindo na direção do castelo.

— Aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaarh! — Ouviu-se por fim o grito antes abafado pelo medo.

Atordoado, Argus correu junto a porta e pegando uma tocha embebida em uma mistura estranha de vinho e azeite, acendendo-a ele deu sinal para a segunda torre que também fez o mesmo, até que as doze torres daquele lado estivessem acesas.

— Preparem as nossas defesas! — Ouviu-se alguém gritar lá em baixo. — Avisem o rei que estamos sob ataque!

Por fim ouviram-se as badaladas de aviso, e todos aqueles homens se puseram de prontidão esperando pelo pior.-” ”>-‘.’ ”>

A Widcyber está devidamente autorizada pelo autor(a) para publicar este conteúdo. Não copie ou distribua conteúdos originais sem obter os direitos, plágio é crime.

Pesquisa de satisfação: Nos ajude a entender como estamos nos saindo por aqui.

Publicidade

Inscreva-se no WIDCYBER+

O novo canal da Widcyber no Youtube traz conteúdos exclusivos da plataforma em vídeo!

Inscreva-se já, e garanta acesso a nossas promocionais, trailers, aberturas e contos narrados.

Leia mais Histórias

>
Rolar para o topo