— Me solta, seu babaca!
A garota gritava, chutava e esperneava, na esperança de que aquele homem grotesco a deixasse em paz. Por um acaso do destino, Milla estava no lugar errado e na hora errada.
O olhar inocente e sonhador fazia dela uma garota mais que especial aos olhos de todos, em seus 15 anos ela não se parecia em nada com as moças de sua idade, moleca e faceira, Milla usava um vestido simples rodado na altura dos joelhos, tinha a pele morena e olhos tão negros quanto duas jabuticabas presas ao pé, os cabelos presos em trança única e nos pés nada além da poeira da rua calçada com pedras rudimentares.
Antes que ela se desse conta em meio a uma brincadeira de esconde – esconde ela foi pega de surpresa por um grupo de soldados vindo em sua direção seguida pela carruagem real logo atrás. Todas as pessoas que transitavam tranquilas pela rua foram tomadas pelo desespero saíram correndo em busca de um local seguro para se proteger do tão temido dia de coleta.
Duas vezes a cada mês uma diligencia real vinha a cidade do início coletar parte de sua produção para levar ao castelo onde a família real morava, e era responsável pela produção de tecnologia para a cidade do início. Até então tudo era normal, naquele dia entretanto tudo estava diferente. Aquele seria o ano do sacrifício, onde quatro jovens virgens seriam obrigadas a se tornarem sacerdotisas nos quatro templos sagrados para acalmar as feras reis em seu sono milenar.
Algumas moças no fim sempre se ofereciam quando o rei aparecia em busca das garotas, porem naquele ano o rei não havia aparecido e sim mandado seu pior lacaio para escolta-las.
Ao saber disso, algumas horas antes, todas as garotas, temendo que algo de ruim acontecesse com elas decidiram se esconder até que aquele homem fosse embora. Assim Milla não pensou duas vezes antes de se jogar no meio dos arbustos para não ser vista pelos viajantes.
Escondida entre a vegetação local por trás de um banco de praça, a garota esperou pacientemente até que aqueles homens deixassem as ruas da cidade antes de voltar para casa. Infelizmente aquele era um dia de coleta, e como tal, aqueles homens não sairiam dali sem alguma coisa a oferecer ao rei de Ézius, sendo assim, ela e qualquer garota naquela faixa de idade estaria em perigo.
A carruagem havia parado a poucos metros de onde ela estava. Seu coração acelerara ao ponto de quase sair pela boca, era possível ver o subir e descer das batidas em seu tórax. Sua respiração estava falha, Milla procurava desesperadamente por uma rota de fuga, mas parecia impossível naquela situação, seria muita sorte se ela conseguisse sair dali sem ser notada.
Infelizmente o que ela temia aconteceu.
Por um triste acaso do destino um dos homens que protegiam aquela carruagem havia parado seu cavalo a poucos centímetros dela.
Descendo do cavalo, O homem negro, alto e imponente parecia fazer uma força tremenda para não deixar que algo acontecesse antes do previsto.
— Porque você parou homem? — Perguntou o outro que seguia ao lado esquerdo da carruagem.
— A natureza me chama meu caro. — Disse ele seguindo as pressas para detrás do banco onde a moita ficava.
Um tanto atrapalhado com a armadura que vestia, o homem cambaleou um pouco na esperança de conter a urina em sua bexiga para que não fizesse nas calças.
Em uma última tentativa de manter a decência ele olhou de um lado a outro da praça antes de arriar as calças e dar vazão a um jato constante, saindo com tanta força que parecia rasgar seu corpo.
— Aaaaaaaaaah! — Ele exclamou aliviado.
De repente um farfalhar de folhas próximo chamou sua atenção.
Rapidamente o homem levantou as calças apressado e correu em direção ao barulho.
— Ora, ora, ora, o que nós temos aqui? — Disse o forasteiro em um salto, surpreso pelo que acabara de encontrar. — Um homem não pode ter nem um minuto de paz.
Segurando a vontade por mais um tempo o homem simplesmente a agarrou pelo braço a menina que não teve tempo algum de lutar por sua liberdade.
— Uma espiã. — Disse ele segurando as calças com uma das mãos.
— Ei… Eu não sou espiã coisa nenhuma. — Ela disse de olhos fechados.
— Ah não? E o que você fazia escondida nesse arbusto. — Perguntou.
— Eu estava apenas brincando. — A garota se limitou a responder com os olhos em lagrimas. — Por favor, senhor, eu imploro.
— Vejam homens, o que eu acabo de encontrar. — Disse ele saindo detrás da moita puxando a menina pelo braço.
— Mais vejam só. — Disse o primeiro cavaleiro ao pôr os olhos nela. — O que ela fazia no meio do mato?
— Ela estava brincando, vejam só. — Respondeu ele trazendo-a para junto dos amigos.
— Não é muito cedo para você ter esse tipo de brincadeiras menina? — Perguntou o terceiro caindo na gargalhada.
Confusa, Milla tentava se livrar das mãos daquele homem e correr o máximo que ela podia.
— O que faremos com você? — Perguntou ele com um sorriso malicioso em seu rosto.
— Vamos leva-la ao lorde Leon. Ele saberá o que fazer.
***
— Qual é o seu nome minha querida? — Ele perguntou lhe oferecendo um lugar para eu ela se sentasse.
— É Milla senhor. — Ela respondeu com lagrima nos olhos.
— É um bonito nome. — Ele disse sentando-se ao seu lado dentro da carruagem. — Deixem-nos a sós.
Os três homens se entreolharam, como se dissessem: “Eu sabia que isso ia acontecer.”.
Sem dizer uma só palavra os três se curvaram perante ele e saíram deixando os dois a sós no meio de uma praça vazia.
— Agora que estamos a sós minha querida. — Ele continuou. — Você pode me dizer o que queria escondida.
— Eu estava apenas brincando senhor. ─ Ela respondeu tentando conter as lagrimas.
— Sozinha? — Ele perguntou intrigado.
— Não senhor.
— E onde estão seus amigos agora minha querida?
— Eu não sei.
— Você é encontrada em atitude suspeita por um de meus homens, trazida a mim, e me diz que está brincando com seus amigos?
— É verdade senhor. Eu juro
— Apenas brincando?
— Sim senhor.
— Não me faça rir garota. — Disse o lorde saindo de dentro da carruagem. — Acha que eu não sei o que você estava tramando?
— Eu não estava fazendo nada senhor. Eu juro por minha mãe. — Disse a menina tentando não olhar diretamente para ele.
— Um atentado contra a coroa! — Ele esbravejou furioso.
— Não senhor. Eu juro
— Seus juramentos não me valem de nada, menina insolente! — Esbravejou lorde Leon ao puxar seu rosto para ver o medo brilhar em seus olhos.
— Por favor, senhor. Eu não fiz nada.
— Em quem você acha que o rei acreditaria?
— Eu sou inocente senhor. — Disse ela não contendo o choro. — Por favor.
— Você sabe que eu posso prendê-la ou libertá-la não é? — Perguntou ele.
— Sim senhor.
— Mas isso dependerá de como você vai agir daqui para frente. — Ele respondeu acariciando suas belas pernas.
— Você sabe qual a sentença para quem comete um atentado contra a vida de um enviado da coroa não é?
— Por favor, senhor. — Disse a garota em pranto.
Leon olhou fixamente a menina mais uma vez acariciando sua pele enquanto ela simplesmente chorava.
— Hoje minha querida, você me servirá em meus aposentos.
***
Já era tarde da noite quando os dois chegaram ao portão de entrada daquela cidadezinha procurando por pistas do paradeiro de Milla. Escondido entre as ruelas escuras e mal iluminadas os dois seguiram se esgueirando na escuridão a procura da garota desaparecida. No portal do vilarejo, uma placa de boas-vindas saudava a todos os que vinham de outros lugares em busca de aventura para pernoitar ali, descansar e seguir com suas missões a um custo baixo ou pela simples troca de serviços.
Duas torres de madeira serviam como pilares de sustentação para a enorme placa pendurada em uma estrutura de metal que ligava as duas formando uma espécie de portal de entrada. Em cada uma das torres dois aldeões vestindo armaduras de zinco retorcido, — o que claramente indicava a presença de um ferreiro que os fabricava ou pelo menos um local de venda daqueles objetos, — os dois vigiavam a parte exterior do lugar que dava acesso a uma densa floresta escura, um na parte de cima usando uma luneta, vigiava e um homem em baixo o caminho que seguia além dela. No topo de cada torre encontrava-se um grande sino de metal fundido, muito bem trabalhado, cheio de inscrições em uma língua estranha que Lucca não podia distinguir daquela distancia apesar de ter seus sentidos aguçados ao máximo graças aos poderes de sua classe, aquele objeto rudimentar certamente servia de aviso se algum perigo se aproximasse do lugar.
Para sua surpresa, seus olhos captaram ao longe, próximo a mata fechada uma carruagem luxuosa, que estava estacionada do lado de fora do portão de entrada quase que imperceptível, a não ser pela luz vinda da direção de um ponto cego dos guardas das duas torres. Cinco homens haviam armado acampamento a poucos metros de onde a carruagem estava certamente havia alguém naquela carruagem, pois as luzes acesas denunciavam a presença de alguém da alta classe.
— Quem são aqueles? — Lucca perguntou observando atentamente o comportamento do grupo enquanto se aproximavam.
— São os guardas noturnos, — Disse o homem olhando também para a entrada.
— Não esses homens. — Disse Lucca de imediato. — Aqueles, um pouco mais à frente do lado esquerdo.
Ele apontou na direção da torre esquerda.
— Onde? — Artur forçou um pouco a vista procurando onde o menino apontara. — Amanhã é dia de coleta. Aqueles homens são os subordinados do rei, que vem para saquear em seu nome.
— Dia de coleta?
— Aqui é sempre assim. — Ele respondeu sem tirar os olhos dos forasteiros. — A cada quinze dias eles vêm nos tirar o pouco que ganhamos com o nosso trabalho dizendo que temos que pagar pela proteção que recebemos do rei.
— Hum…, o que acontece com quem não paga os impostos? — Ele perguntou interessado.
— Ou se paga os pela proteção, ou eles levam pessoas para trabalharem como escravos para a corte. — Disse o dono da taberna ao encontrarem aquele acampamento. — De preferência garotas.
Aquilo certamente não podia significar boa coisa.
— O que acontece com as garotas que são levadas para a corte? — Essa era uma pergunta óbvia, mas, o garoto queria ter certeza antes de tomar qualquer providencia.
Lucca já previa o que aconteceria a seguir. E na pior das hipóteses ele teria de salvar a garota e no fim das contas ganharia algum item mágico do dono da taverna por ter ajudado e a menina lhes ajudaria a atravessar a floresta.
— Elas simplesmente são levadas e não voltam mais para casa. — O homem disse com um olhar triste.
Suas suspeitas haviam se confirmado. Lucca tinha certeza de que algo de ruim aconteceria de uma hora para outra.
— Será que minha filha pode estar com eles? — Indagou o homem surpreso com a ideia que lhe acabara de ocorrer. Se sua filha tivesse sido pega por aqueles homens ele não saberia o que fazer.
— Eu não sei. — Lucca respondeu dando uma olhada em volta esperando ver algo mais naquela estranha cena.
Aqueles homens não representavam perigo nenhum para ele, depois do intenso treinamento que recebera de Sam, o garoto estava pronto para enfrentar qualquer coisa que aparecesse porem todo cuidado era pouco no que se referia ao homem ao seu lado, mesmo sendo um jogo, aquele homem não tinha a mínima consciência do que estava acontecendo, e dava claros indícios de que estava sofrendo, e Lucca não podia mais ignorar aquilo. Ele deveria, mais do que ninguém, zelar pela vida de seu companheiro, mesmo que este fosse apenas atrapalhar o seu caminho.
— Nós faremos o seguinte. — Disse ele de imediato. — Eu vou até lá verificar se há algo suspeito. Você tenta distrair os guardas para que eu possa passar sem ser notado.
— Ok.
Ele respirou fundo, fechou os olhos e visualizou em sua mente gigantescas labaredas de fogo saindo de suas mãos prontas para serem arremessadas. Ao abrir os olhos novamente lá estavam elas, dançando em suas mãos estendidas para o nada.
Sem entender muito bem o que acabara de acontecer o homem ao seu lado deu um salto para trás, surpreso com o que acabara de presenciar, mas, antes que eles pudessem pôr em pratica qualquer plano bolado naquela hora, algo repentinamente estranho aconteceu com aquela comitiva.-” ”>-‘.’ ”>





