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O tempo…

Mais uma vez ele é o responsável pelo controle de tudo.

Se fizermos exatamente como é pra ser feito, tudo vai seguir bem.

Mas se tentarmos mudar algo, tudo desanda.

Da mesma forma que o tempo é responsável pelo controle de tudo, ele também será responsável pelo descontrole do universo.

O planeta Terra e vários outros planetas e galáxias distantes podem estar vivendo em tempos diferentes, se levarmos em consideração a velocidade da luz. Se a velocidade da luz dura uma fração diferente da nossa velocidade normal, então significa que se alguém viajou para outra galáxia por anos nessa velocidade, essa pessoa não irá envelhecer igual outra pessoa que fez uma viagem de ônibus pra outro estado por anos?

Um paradoxo, não é? É provável que isso aconteça? Claro que sim! Também é improvável? Claro, a física nos apresenta probabilidades e/ou estimativas. Você consegue contar quantos grãos de areia existem em todas as praias do mundo? Melhor, vamos facilitar… Das praias do Brasil! Sabemos o quão é impossível para uma pessoa comum chegar a contar quantos grãos de areia existem em todas as praias brasileiras.

Ou também você conseguiria contar todas as estrelas que há no universo? Pra facilitar, você vai até um cume da montanha em uma noite de céu estrelado, provavelmente sentirá vontade de contar as estrelas, certo? Mas conseguirá chegar a um número exato? Creio que não.

Então vem a pergunta: Os números são infinitos ou finitos? Se você conseguir pegar todas as estrelas do céu e colocar dentro de uma garrafa, e depois começar a contar uma por uma, com certeza você terá um número definitivo de estrelas. Mas quanto tempo isso iria levar? Uma semana? 1 mês? 1 ano? Vale mesmo a pena sacrificar o seu tempo precioso apenas para tentar provar o número exato de estrelas que podem caber dentro de uma garrafa? É claro que não!

Assim como os grãos de areia na praia, o sofrimento e a dor também são finitos; em algum momento tudo acaba, tudo encontra o seu fim. O tempo foi cruel com esses jovens? Talvez, mas provavelmente a vida se encarrega de nos marcar em determinadas épocas do ano sem precisar ter feito uma viagem no tempo pra isso.

Questionamos os motivos de tanta coisa ruim acontecer conosco e às vezes esquecemos que o erro pode estar na nossa própria família, na nossa própria casa, no nosso próprio círculo de amigos. Essa história de uma mão lava a outra só é válida quando há um acordo entre as duas partes. Já ouviu aquele ditado? “Quando um não quer, dois não brigam”? Então por que é mais fácil a provocação? Por que é mais fácil fazer o errado do que o certo?

Existem maldições familiares? Claro que existem! O erro de um pai ou de uma mãe pode mudar o destino de seus filhos e netos? Claro que pode, depende de como o atingido vai lidar com isso.

Todos esses jovens tiveram um passado, assim como os pais deles também, e talvez eles estão pagando pelos erros de seus antepassados e possivelmente o tempo está castigando os filhos pelos erros de seus pais. Você se pergunta: “Mas que culpa eles tiveram? Eles são inocentes! Não são responsáveis pelos atos de seus pais”. De fato eu concordo, mas… Quem disse que o tempo pensa dessa forma? Enquanto você estiver aqui, o tempo fará o que quiser contigo. Seja pra te beneficiar, ou seja pra te prejudicar, veremos o quão disposto você vai estar para enfrenta-lo.


 

OPENING:

 

 



                         EPISÓDIO 6:

                       “TERREMOTO”

                                               (SEASON FINALE)


 

                         ATO I


BRASÍLIA, DF- 07 DE JULHO DE 2005.

Uma partida de futebol escolar juvenil está acontecendo. Vemos garotos na faixa etária de seus 8 a 10 anos ali na disputa e vemos na arquibancada juntamente com outras pessoas, Victor, o pai de Adrian. Com quase 30 anos, ele continua um homem extremamente charmoso, até demais para o padrão dos homens de meia idade em Brasília naquela época, não importa onde ele esteja, ele sempre vai chamar a atenção das mulheres e quiçá, dos homens também.

Em 1993, Victor chegou a se agenciar para seguir uma carreira de modelo. Sua mãe Regina sempre deu o apoio que ele precisava para seguir o seu sonho. Ele estava feliz naquela época, chegou a fazer alguns desfiles, viajou para outros estados para desfilar, estava há um passo de se tornar capa de uma revista de prestígio, mas a vida… Ah! A vida… Ela também se encarregou de arruinar o seu sonho.

Na época em que modelava, Victor tinha um cabelo comprido, às vezes fazia penteado coque samurai. Sua beleza era de fato “assombrosa” para aquela época.

EVENTO DA HIGH MODEL BRASIL, 1994.

Victor está no camarim terminando de se arrumar. Uma das promoters chega até ele.

— Victor? Já vamos dar abertura ao desfile! Vá pra trás da cortina, você vai encerrar com chave de ouro.

— Tudo bem.

Apesar de sempre ficar feliz em fazer o seu trabalho, naquele dia, Victor sentiu que aquele desfile seria a sua despedida. Ele só não sabia ainda como.

O anfitrião do evento está no auditório e avisa ao público.

— Senhoras e senhores… Com vocês… Nossos modelos que vão dar a honra de debutar a nova linha de Outono Inverno da High Model.

O público aplaude, as luzes se apagam. Um telão é ligado e vemos Victor ali em uma espécie de clipe promocional. Ele não era só um dos modelos principais da agência como também era o garoto propaganda de várias marcas do país e também cantava.

A canção “E Agora” de Syro começa a ser tocada. Victor está interpretando a canção enquanto passam outros modelos no telão mostrando looks exóticos e conceituais. O público fica com os olhos brilhando ao ver o trabalho impecável que a agência produziu.

O clipe continuou a passar por mais alguns segundos, até que a música para por instantes. O telão apaga, tudo fica escuro. Burburinhos começam, pois o público não sabe ao certo o que aconteceu.

Após quase 30 segundos de espera. Uma fumaça colorida começa a tomar conta da passarela, as luzes se acendem e as modelos começam a vir pela passarela enquanto a música volta a ser entoada.

O público começa a ficar eufórico. O mundo da moda naquela época estava começando a ganhar muito mais notoriedade. Cada um dos modelos, homens e mulheres mostrando os seus impecáveis looks naquele desfile. Os holofotes, a fama e o glamour batendo na porta deles.

Após a última modelo se apresentar, Victor sai de traz das cortinas com um traje de rei impecável, com uma capa vermelha imensa. Ele começa a desfilar, a capa cortando o vento, o público indo ao delírio, se levantando, era impossível ficar sentado após o que estava diante de seus olhos.

Victor chega na ponta da passarela. Para. Faz o famoso “carão”, aquele olhar que desestabiliza qualquer pessoa. Passa a mão no seu cabelo, o joga pra trás, segura a capa e dá meia volta retornando ao início da passarela. O público ovacionando, homens e mulheres completamente impactados.

Após chegar ao início do palco, todos os outros modelos vão para a passarela de uma só vez, formando um “L” ali. Victor vem em seguida e fica no meio deles. Outra modelo se aproxima, rodeia ele duas vezes, depois ela cai em seus braços, ele a segura e depois ambos olham para frente concluindo o show.

A plateia que já estava eufórica, vai a um delírio inimaginável, aquele foi o melhor desfile da carreira de Victor, e dali ele receberia várias e várias propostas.

Entretanto, nem tudo é tão fácil quanto parece. Após voltar do desfile, o pai de Victor já estava há um bom tempo incomodado com o tipo de carreira que o filho queria seguir e imediatamente fez de tudo para destruir o seu sonho.

Victor veio de uma família extremamente conservadora, o seu pai Ernesto era coronel e odiava qualquer coisa que fugisse dos “padrões da família tradicional brasileira”. Enquanto seu filho mais velho, Fagner, estava disposto a seguir a carreira do pai… Seu caçula, Victor, queria seguir outros rumos.

“Seria um pecado ter um filho modelo!”, dizia o coronel Ernesto! Mas o maior problema é que além de ter um sonho muito a frente dos costumes de seu pai, Victor também tinha um segredo… Segredo esse que não poderia ser jamais revelado à sua família: Victor estava apaixonado, mas por outro homem.

E agora? Sabendo que tem um pai ditador dentro de casa, como ele reagiria a isso? Nem mesmo Regina jamais desconfiou do interesse amoroso que seu filho tinha por outra pessoa do mesmo sexo. Na verdade ele sempre foi rodeado por namoradinhas na adolescência, mas com este outro homem, o sentimento foi diferente.

E se vocês estão achando toda essa história mirabolante, segura mais um pouco que tem mais. Este homem por qual Victor estava apaixonado é Marcelo, nada mais e nada menos que o pai de Samuel. Exatamente isso! Claro que ambos nunca pensavam em ter filhos naquela época e assim como aconteceu com Victor, o Marcelo também não tinha sentido isso antes por outro homem. A diferença é que a família de Marcelo era muito mais compreensível e não iria desprezá-lo caso ele quisesse assumir esse relacionamento.

Apesar de amar o Marcelo, Victor estava muito mais preocupado era com o teu sonho, ele queria se tornar um modelo internacional a qualquer custo.

BRASÍLIA, DF- 06 DE SETEMBRO DE 1995.

Victor e sua mãe Regina estão discutindo sobre a veemência de seu pai contra o plano de carreira dele.

— Eu não entendo, mãe! Por que meu pai não deixa eu seguir o meu sonho? Eu sempre fiz tudo certo, nunca desobedeci vocês, o meu irmão pinta e borda e meu pai não fala nada, por que essa implicância comigo?

— Filho, precisa entender que teu pai é um homem de princípios, seguiu com rigidez durante a ditadura pra impedir o governo comunista de infiltrar no Brasil, ele é um membro muito importante para o militarismo daqui e você sabe disso.

— Tá, mas e eu? O que eu sou, mãe? Apenas o filho do coronel? Eu já tenho mais de 20 anos e continuo aqui apenas nas dependências de vocês sem poder fazer o que eu quero.

— Meu filho, você é lindo! E eu quero muito que você tenha uma carreira de sucesso. Mas até lá, tente segurar mais um pouco até você conseguir comprar um apartamento pra você e aí poderá fazer o que quiser.

— Se eu já tivesse ganhando muito dinheiro como modelo, já teria comprado um apartamento e teria levado a senhora comigo.

— Filho, mas essa é a minha casa, por mais que teu pai seja esse homem rude, eu me sinto bem na minha casa.

— Eu não ia suportar ver você aqui comendo das migalhas que meu pai e meu irmão te dão.

Neste momento, Ernesto entra no quarto e parece ter escutado a conversa deles.

— É curioso você falar isso quando a vida inteira nunca te faltou um pão na tua mesa.

— Ernesto, por favor, não começa.

— Não me peça pra parar, Regina! É por tua culpa que temos um filho assim… Rebelde, desobediente…

— … Espera, espera! Rebelde? Desobediente? Só porque eu não quero fazer o que você quer?

— Você sempre foi a ovelha negra dessa família. Queria ver você no exército, se esses olhinhos verdes teus iriam garantir a tua sobrevivência, ia virar mocinha no quartel.

— Ernesto, por favor.

— Cale a boca, Regina!

— Não manda a minha mãe calar a boca!

— Ora, ora, agora resolveu levantar o tom de voz pra mim, rapazinho? Decidiu virar homem de verdade?

Ambos estão cara a cara, com o nariz a poucos centímetros um do outro.

— Não fale… Assim de mim.

— Você é uma vergonha, Victor! Eu na tua idade já tinha saído com várias garotas e você fica querendo desfilar que nem uma mocinha por aí.

— Esse é o problema! Eu não sou como você, papai. E nunca vou ser, sabe por quê? Porque você paga de moralista dentro de casa, mas não pode ver uma vizinha de saia curta que fica se assanhando pra elas.

— Como se atreve?

— Já contou pra mamãe que você usa o seu cargo de prestígio pra que as novinhas de Brasília venham chupar teu saco?

Ernesto desce um tapa com toda a força em Victor.

— Respeita teu pai, seu vagabundo!

— Ernesto, para, por favor!

— CHEGA! Olha o que o teu mimo fez com esse moleque. Você tem até o final de semana pra caçar outro teto pra morar. Nunca mais você vai pisar os pés nessa casa novamente, tá ouvindo?

— Ótimo! Por mim está ótimo. Sabe de uma coisa? Se algum dia eu for pai… Eu jamais serei como você… Eu darei ao meu filho tudo aquilo que eu não tive. Vou amá-lo, vou respeitar as decisões dele e acima de tudo… Eu serei um pai muito melhor do que você.

Victor dá de ombros e sai do quarto deixando o clima de tensão no ar.

Horas depois, ele marca pra se encontrar com Marcelo no parque da cidade.

— Irmão, o que houve?

— Meu pai me expulsou de casa, Marcelo. Ele nem se importou com nada.

— Espera, você contou pra ele… Bom, sobre nós?

— Não, não, imagine se eu tivesse contado, ele me mataria. Ele já lançou tantas ofensas pra cima de mim sem saber que… Bom, que eu gosto de você.

— Acho que nunca vamos dar certo, não é?

— Eu queria muito, Marcelo… Eu me sinto bem com você, mas… Eu não quero magoar a minha mãe, ela sempre sonhou em ter netos e tal…

— É, eu sei. Meus pais também… E assim como você, não quero decepcioná-los.

— Nós podemos continuar a ser o que sempre fomos: Grandes amigos. Não precisamos nos afastar um do outro por conta disso, mas… Acho que é melhor a gente dar oportunidade de conduzir a nossa vida sentimental por outro rumo.

— É, eu já estava querendo conversar isso contigo, mas fiquei com medo de você ficar magoado.

— Meu pai me bateu hoje, isso já me magoou o suficiente.

— E o que vai fazer agora? Quer passar lá em casa? Eu posso conversar com meu pai pra te dar uma ajuda até… Bom, até você encontrar um lugar pra morar.

— Eu agradeço muito, mas… Eu preciso parar de ficar nas dependências das pessoas, e eu não vou conseguir ficar na tua casa sabendo do que eu sinto por você, ainda tá muito recente pra isso.

— É, eu sei, então… Te desejo sorte, Victor! Espero que tudo dê certo na tua vida.

— É, eu também espero.

— Aí! Os amigos se abraçam… Será que a gente…?

— É claro que sim.

Ambos se abraçam, Marcelo é um pouco mais alto que Victor, um homem negro belo com um físico atlético, de fato Samuel teve a quem puxar, os dois permanecem abraçados por alguns segundos. Aquela será a última vez que eles terão uma conexão tão próxima assim.

07 DE SETEMBRO DE 1995.

A dona Regina conseguiu juntar um bom dinheiro na poupança durante todos esses anos e sentiu que era o momento de entregar ao teu filho.

— Mãe, eu não posso aceitar isso, é o teu dinheiro.

— Não, meu Victor! Pegue! Vá ser feliz! Escuta, consegui uma vaga pra você trabalhar no restaurante de uma amiga minha pra você conseguir pagar o aluguel, mas isso aqui vai te ajudar a manter por vários meses. Depois disso… Siga a tua vida, filho! Torne-se o modelo mais lindo do Brasil, quero te ver nas revistas e nos comerciais de TV, você é o meu menino de ouro.

— Obrigado, mãe!

Victor a abraça.

Após isso, ele conseguiu alugar uma casa e começou a trabalhar como garçom em um restaurante na Asa Sul. Foi um início complicado, mas ele não parecia se importar. Precisou cortar o cabelo enorme que tinha pra deixar conforme os “padrões da sociedade”. Após alguns meses trabalhando nesse restaurante, ele conhece uma moça, Victor ficou encantado por ela desde então. Mal sabia ele que aquela mulher seria a futura mãe de seu filho.

Tânia realmente mexeu com os sentimentos de Victor, ele até esqueceu do que sentia pelo melhor amigo, e isso foi bom, pois Marcelo já estava namorando uma outra mulher nesse meio tempo.

Começaram a namorar, no passar do tempo foram comemorando 1 mês, dois meses, três meses de namoro… Até que enfim eles decidiram selar sua união em matrimônio. Há muito tempo, Victor não sentia tamanha felicidade em seu interior. O mais irônico foi a hipocrisia de seu pai que fez questão de estar presente no momento mais importante da vida do filho que ele rejeitou. Mas é claro! Ele precisava mostrar para a sua elite que seu filho estava se casando e queria continuar servindo de exemplo pra sociedade brasileira.

Em 1997, Adrian nasce. O sentimento paterno de Victor tomou conta dele de uma forma que ele não estava esperando. Foi emocionante pra ele pegar o seu filho no colo pela primeira vez e assim ele poderia cumprir a sua promessa… Ele iria se tornar um pai muito melhor que o pai dele e assim realmente aconteceu.

Todas essas lembranças se passaram na cabeça de Victor como um filme enquanto ele estava assistindo a partida de futebol de Adrian, agora com 8 anos de idade. Ainda preso em seus pensamentos, seu filho marca um gol e o placar zera tornando o time dele vencedor. Victor acorda de seu “transe” e se levanta aplaudindo, em seguida Adrian vem correndo para os braços do pai.

— Papai, papai. Eu consegui! Eu marquei o gol da vitória, papai!

— Eu sabia que você ia conseguir, filhão! Eu sempre soube que meu filho é um verdadeiro campeão. E agora? Vamos pra casa contar pra mamãe?

— VAMOS!!

Victor pega Adrian no colo e eles saem dali pra voltar pra casa.

Algum tempo depois, eles chegam até lá e Victor estaciona o carro. Adrian desce do veículo e já vai direto pra porta.

— Adrian, espera! Dá a volta pelos fundos e tira a chuteira e lava os pés, se você entrar pela sala com os pés assim, tua mãe te mata!

— Tá bom, papai!

Victor entra na casa e deixa seu casaco no sofá. Ele estranha em não ver a sua esposa por ali, então ele sobe as escadas. Ao subir, ele para diante do corredor e vê uma cena que gostaria de nunca ter visto: Sua mulher agarrada aos beijos com Caio, o pai da Angélica.

— Tânia?

— Victor? Eu… Eu posso explicar, é que…

— … Então é isso? Por isso que você não tem mais se preocupado com a minha ausência quando eu preciso trabalhar fora, né? Esse cretino estava te satisfazendo.

— Victor, brother, não é bem…

— … Eu não sou o teu brother, cara! Como pode fazer isso com a Esther? Ela largou o emprego há anos atrás pra se dedicar a você e a tua filha… E você, Tania? E toda aquela baboseira de felizes para sempre? Isso poderia ter acontecido em qualquer lugar, em qualquer lugar! Mas tinha que ser justo na minha casa? Na minha casa? Vocês me dão nojo, eu não quero olhar pra cara de vocês nunca mais!

Victor desce as escadas, furioso e triste ao mesmo tempo.

— Espera, Victor! Victor!

Victor vai até a cozinha.

— ADRIAN! ADRIAN!

— Oi, pai!

— Vem, vamos pra casa da vovó.

— Mas…

— … Anda, vamos logo!

Victor pega na mão de Adrian e o leva pra fora de casa. Tânia e Caio tentam segui-lo.

— Victor, espera, por favor!

Victor diz a Adrian:

— Adrian, vá pra dentro do carro e me espera lá.

— Tá bom, papai.

Adrian corre pra dentro do carro. Victor para pra ouvir Tânia.

— Por favor, eu… Eu…

— Eu o quê, Tânia? Não existe explicação pra isso. Você me traiu! Dentro da minha própria casa com o marido da sua melhor amiga! Você é uma cobra, eu tenho nojo de você… Olha só o que eu pago por vir de uma família conservadora de merda.

— Não, Victor! Volta aqui!

— Pode esquecer de querer ver o Adrian de novo. Eu vou recorrer na justiça e ficarei com a guarda definitiva dele, vou embora com o meu filho e nunca mais você vai nos ver de novo.

— Não! Victor! Victor! Não leva o Adrian, por favor! Não leva ele!

O que Victor fez de errado pra ter merecido isso? Ele fez exatamente o que uma pessoa normal faria. Seguiu os costumes familiares, criou bem o seu filho, amou a sua esposa… Por que o destino fez isso com ele sendo que ele era um homem tão bom?

Dois anos se passaram, e como sabemos que nem tudo o que reluz é ouro, Victor não conseguiu a guarda definitiva de Adrian, mas ao menos conseguiu ficar com a guarda compartilhada. Ele nunca perdoou Tânia pela traição, apesar de seu filho ter ido morar com a mãe, a relação era como se fossem dois estranhos, Victor chegava lá apenas para buscar o Adrian e sequer trocava mais que duas palavras com Tânia.

Por incrível que pareça, Tânia se arrependeu do que fez, ela passou vários anos traindo o marido e de repente perdeu tudo. Caio, o pai de Angélica, por sua vez, se saiu muito bem nisso tudo, conheceu uma estrangeira e abandonou Esther quando Angélica estava com 9 anos.

10 de NOVEMBRO DE 2007.

Adrian está com 10 anos de idade, ele sente falta do pai assim como qualquer garoto dessa faixa etária. Victor precisava fazer mais uma viagem a trabalho. Devido as dificuldades que passou, precisou vender seu carro pra tentar se manter estável financeiramente por um tempo, ele não sabia que no dia 10 de Novembro de 2007 seria a última vez que ele iria ver o rosto de seu filho.

Após se despedir dele, Victor vai para um ponto de ônibus na estrada e fica ali esperando por um tempo. Após quase 30 minutos, o ônibus chega e ele sobe no mesmo para seguir viagem.

Cerca de duas horas depois, Tânia recebe um telefonema. Telefonema este que marcaria para sempre as suas vidas.

O ônibus que levava Victor e várias outras pessoas cruzou com uma carreta na estrada e virou no rio. Victor e dezenas de pessoas não sobreviveram.

No enterro, aquele sentimento de culpa, de remorso e de desespero que pairava no olhar de Tânia. Adrian sendo consolado pela avó ao perder o seu maior exemplo de inspiração. Ali também Esther está presente e diferente do que todos imaginavam, ela não fez nenhum barraco ou tentou bancar a moralista na frente de Tânia e dos demais.

Apesar que ela estava na razão: “Ora bolas, essa mulher roubou o meu marido! Ela merece sofrer sim”, talvez isso teria dito Esther, mas ela sabe o peso que é ser mãe solteira, então talvez ela teria que engolir o seu orgulho e ajudar Tânia neste momento tão difícil.

E assim Adrian e Angélica cresceram sendo criados por suas mães, sofreram as consequências dos atos de seus pais e agora estão juntos, presos em um loop temporal junto com outras pessoas, com pessoas que poderiam mudar a vida deles para sempre.

Angélica recebeu uma segunda oportunidade da vida, ela não podia desperdiçar essa chance, percebeu a mãe maravilhosa que teve sem ter se dado conta antes. Ajudou outras pessoas em uma época aquém dela e agora… Sua vida está prestes a virar… Está prestes a tomar um novo rumo.


O destino uniu todos esses jovens…

— Boa noite! Bem vindos ao Hotel Hilbert! Em que posso servi-los?

— Precisamos de uns quartos pra passarmos a noite, estamos de viagem e começou essa chuva forte, então…

Brincou com suas emoções…

— Admita que você tem inveja de mim, sua oxigenada!

— Já chega, garotas!

O forcejo continua até que no momento em que Adrian e Samuel tentam apartar Daniela da Angélica, esta última é empurrada pra trás se desequilibrando e bate a cabeça na quina do móvel.

Brincou com a sua sanidade…

— Ai, querida! Você realmente bateu feio com a cabeça, até perdeu a noção do tempo.

— Espera, hoje é… Hoje é 8 de Outubro?

— Sim, querida. 8 de Outubro… De 1998.

Interrompeu sonhos…

Dentro do armário, Denis vê que o mesmo começa a brilhar. Pequenas gotículas como se fossem estrelas preenchiam o armário e em seguida todo o quarto. Denis mesmo com medo, se sentou no chão do armário e se abraçou fortemente até o momento que a luz tomou conta de todo o local e em seguida desapareceu.

Mas também os tornou mais fortes…

Quando a porta do elevador abre, o homem atira e acerta na perna de Esther.

— Aaaaahh!!

— Mamãe!!

Angélica segura Esther no colo e tenta arrastá-la pra dentro do elevador.

— Vocês não vão escapar, suas putinhas!

Angélica, desesperada, tenta fechar o elevador a qualquer custo.

— Ahh fecha, porra! Fecha!

Os tornou mais unidos…

Quando Adrian e os outros estão chegando na porta, da mesma forma que aconteceu com Angélica, todas as portas se fecham de uma vez e é impossível conseguir abri-las.

Samuel e Daniela ficam desesperados:

— O que tá acontecendo?

— Por que não tá abrindo, Adrian?

— Eu não sei, porra! Ah não, não, não, não pode ser.

Deise já desesperada, pergunta:

— O que houve, jovem?

— É o tempo! O tempo não vai deixar a gente sair daqui. O terremoto tem que acontecer pra linha temporal voltar ao seu percurso normal.

E chegou o momento de por um ponto final em tudo isso…

Denis olha para o relógio que está marcando 00h11. Depois olha pela janela do carro e começa a ficar preocupado.

— Tem alguma coisa errada.

— O que foi?

— O terremoto! Por que o terremoto ainda não começou?

— Como assim, o terremoto?

— Todas as vezes, o terremoto acontece à 00h10 do dia 10 de Outubro de 2023, 1 minuto após a Angélica atravessar o portal. Por que ainda não começou? Não pode ser, a não ser que… A não ser que…

As partículas de luz envolvem o carro e o veículo desaparece na estrada.

QUARTO 21, 10 DE OUTUBRO DE 2023, 00H11.

Angélica consegue passar pelo portal, ela cai no chão e fica tossindo muito, ela se levanta olhando para a porta.

— Eu consegui, eu passei pelo portal.

Mas o que ela não esperava…

— Oi, boneca! Agora eu te pego.

Antônio está atrás dela, ele viajou pelo portal, um furo na linha temporal acaba de acontecer.

— NÃO! O QUE VOCÊ TÁ FAZENDO AQUI?

 

O tempo… Tudo por culpa… Do tempo.

E agora…

A guerra contra o tempo começa.


 

 



                        ATO FINAL


 

SALA DO TEMPO, 10 DE OUTUBRO DE 2044.

Denis chega na sala do tempo juntamente com sua versão mais jovem e com o senhor Hilbert.

— Doutor Hernandez!

— Graças a Deus você voltou, meu filho!

— Esse é o Sr. Hilbert, proprietário do hotel e esse outro sou eu, bom, você sabe.

— É um prazer conhecê-lo pessoalmente, senhor Hilbert.

— Disponha, doutor.

— Não temos tempo. Doutor Hernandez! Alguma coisa errada aconteceu em 2023.

— O que houve?

— O terremoto ainda não aconteceu. Saímos de lá e ainda não tinha começado, isso nunca aconteceu em nenhuma das outras vezes.

— Não pode ser possível, a Angélica voltou pra 2023?

— Tenho certeza que sim. Ela fez exatamente como era pra ter sido feito.

— Alguma coisa atrasou o evento do terremoto. Mas o que poderia ser? A não ser que…

— O quê, doutor?

— Mais alguém atravessou o portal além dela.

QUARTO 21, 10 DE OUTUBRO DE 2023.

Angélica está diante de seu pior pesadelo.

— NÃO! O QUE VOCÊ TÁ FAZENDO AQUI?

— Achou que ia escapar de mim, não é? Pois agora eu vou te mostrar o que é bom pra tosse.

Quando Antônio dá o primeiro passo pra frente, Daniela abre a porta do quarto bruscamente.

— ANGÉLICA!

— DANIELA?

— CORRE!

Angélica segura na mão de Daniela e as duas saem do quarto e tentam fechar a porta, Antônio coloca o braço na frente pra impedir que elas consigam trancar. Ele dá um chute na porta fazendo com que as moças recuem, elas percebem que não tem outra opção e decidem correr.

Antônio sai do quarto e alcança Angélica puxando-a pela sua calça. Daniela recua e chuta os braços dele, o homem é ainda mais forte do que pensamos e está resistindo com tudo. A porta do quarto 25 está aberta, Antônio pega as duas pelos cabelos e as empurra para dentro do quarto.

Estando ambas no chão, Antônio começa a chutar o estômago de Angélica e ela grita de dor. Daniela se levanta e sobe em cima de Antônio, ele fica girando pela sala com ela agarrada ao seu pescoço até que ele consegue arremessa-la contra a TV do quarto.

— DANIELA!

Daniela no chão começa a ser enforcada por Antônio. Angélica se levanta, pega um vaso de decoração e joga na cabeça do criminoso. Ela empurra ele para o lado e pega na mão de Daniela pra que ela se levante.

As duas tentam escapar e ele ainda dominado de ódio, não vai se cansar tão fácil.

No hotel, uma gritaria inicia e pessoas começam a correr por um lado e pro outro. Em questão de minutos, o térreo se enche de pessoas tentando sair, mas o tempo não permitirá que elas saiam.

Todas as portas e janelas estão fechadas. Deise, Adrian e Samuel estão ali tentando entender o que tá acontecendo. Este último diz:

— Cadê a Daniela e a Angélica? Já era pra elas duas estarem aqui.

— Eu vou atrás delas! Samuel, fique aqui com a enfermeira Deise.

Adrian vai para as escadas do térreo tentar encontrar as garotas, mas sente dificuldade de passar com o tumulto de pessoas correndo no prédio.

SALA DO TEMPO, 10 DE OUTUBRO DE 2044, 00h20.

— Não pode ser possível, doutor. Isso nunca aconteceu antes.

— É uma probabilidade, Denis. Se mais alguém ou alguma coisa que pertence ao ano de 1998 viajou com a Angélica para o futuro, isso vai provocar um colapso na linha do tempo e…

— O quê? O que pode acontecer?

— Uma nova linha temporal pode ser criada, e talvez o universo não vai reiniciar o tempo.

— Significa que…

— … Se o terremoto acontecer e eles morrerem, provavelmente não vão mais voltar à vida.

— Puta merda! Eu preciso ir até lá! Me dê os braceletes, vou trazer todos eles pra cá. Agora que a linha do tempo foi alterada, não temos mais nada a perder.

— Precisa tomar cuidado, Denis! Não sei se os braceletes vão aguentar tamanha frequência. E não sabemos como está lá em 2023, não sabemos se o terremoto está acontecendo ou não.

— Não se preocupe, eu vou trazer eles pra cá… Confie em mim.

HOTEL HILBERT, 10 DE OUTUBRO DE 2023, 00H25.

Adrian está tentando procurar as suas amigas em meio ao tumulto.

— Daniela! Angélica! Cadê vocês?

No meio da multidão, ele avista as duas correndo em sua direção.

— Daniela! Angélica!

— Adrian!

Elas abraçam a Adrian. Ele dá um beijo na testa de Angélica.

— Angélica, você voltou! Eu fiquei tão preocupado contigo, graças a Deus você tá bem.

— Eu não vou me afastar de vocês tão cedo.

Daniela olha pra trás.

— GENTE, CUIDADO!

Antônio vem correndo com toda a fúria com um machado de emergência na mão.

— AHHHHHH, vocês vão morrer!

Adrian empurra as garotas para o chão e tenta desviar do golpe de machado do criminoso. Angélica tenta alertá-lo.

— Adrian, cuidado! Ele tá transtornado!

— Vai encarar, seu arrombado?

— Não me provoque, mauricinho!

— Vem brigar como homem, seu otário!

— AAAHHHHH EU VOU TE MATAR!

Antônio parte pra cima de Adrian com o machado, ele começa a correr e Antônio o persegue até chegarem nas escadas do térreo. Angélica e Daniela vão correndo atrás.

Adrian fica parado no vão da escada, Antônio chega até perto dele.

— Não tem como escapar, garotinho…

Lá embaixo, todos que estavam tentando sair, viram pra trás e avistam de longe os dois no topo da escada cara a cara.

— Se meteu com a galera errada, otário.

— Ah, é? E o que você vai fazer, seu playboy? Eu estou com o machado, você só está com a sorte, esse hotel será a tua sepultura.

De repente, um silêncio ensurdecedor paira em todo o hotel. Angélica e Daniela estão próximas da escada avistando Antônio e Adrian. No andar de baixo, Deise e Samuel estão vendo aquela cena… No meio do hall de entrada, partículas de luz começam a se formar, um portal é aberto e Denis entra por ele.

Quando ele passa, percebe que algo está errado, o tempo parou por um milésimo de segundos, até que um barulho começa a surgir. As pessoas procuram de onde vem esse barulho.

Do lado de fora, uma fenda na terra se abre e vai em direção à porta do hotel. De repente, o chão começa a se dividir.

Denis percebe aquela fenda se formando no chão e diz:

— Começou! É o terremoto!

De repente, um tremor começa a sacudir as estruturas do prédio, Antônio que estava com o machado pronto para acertar em Adrian, acaba dando de cara com a pilastra do teto que cai em cima dele por conta do tremor.

O desespero entre aquelas pessoas começam, todos os vidros das janelas se quebram e eles têm dificuldades de se segurarem em algum lugar.

Daniela e Angélica tentam se apoiar em Adrian.

— MENINAS! SEGUREM-SE EM MIM!

Samuel tenta alcançar Denis. Deise vem atrás e o chão se parte ao meio separando ela dos demais. Samuel vendo aquilo tenta fazer alguma coisa.

— Enfermeira Deise! Enfermeira Deise!

Deise está encurralada e talvez não consiga escapar.

Denis puxa Samuel pelo braço.

— Vamos, Samuel! Eu vou tirar vocês daqui!

— Não, mas e a enfermeira Deise?

— Quando conseguirmos quebrar essa maldição do loop, vamos salvá-la. Eu prometo.

Adrian, Angélica e Daniela continuam nas escadas do térreo. Denis chega imediatamente até eles.

— Pessoal! Sei que sou a última pessoa que vocês querem ver agora, mas… Eu vou tirar vocês daqui, mas preciso que confiem em mim.

Daniela com muita raiva, diz:

— Já nos enganou várias vezes, por que devemos confiar em você?

— Breve vocês vão me agradecer por tudo isso. Adrian! Preciso que faça a última coisa que eu te pedi. Preciso que vá pra 81 e entregue essa carta ao meu pai.

— O quê? Eu não vou fazer os teus caprichos!

— Escuta! Eu estou salvando a tua vida e a dos teus amigos! Esse é o último favor que eu te peço pra depois nos reunirmos e bolarmos um plano para destruir o portal para sempre. Eu programei o bracelete, vai viajar pra 16 Agosto de 1981 na estrada, o nome dele é Vagner.

— Tá maluco? Eu não vou fazer isso.

— Tarde demais!

Denis prensa o bracelete do tempo no pulso de Adrian.

— Escuta, quando terminar, digite no visor: 10 de Outubro de 2044 e você vai pro futuro juntamente com todos nós. Vamos nos reunir na sala do tempo.

Adrian começa a brilhar, Angélica sem entender o que está acontecendo questiona:

— Mas o que é isso? Adrian!

Em questão de segundos, Adrian desaparece. Samuel fica furioso.

— O que você fez com ele? O que você fez?

— Não temos tempo! Precisamos ir para o quarto 21 e tentar a sorte do portal nos levar pra 2044. Os braceletes não vão aguentar a carga por muito tempo.

Todos em unânime perguntam:

— O QUÊ?

Em uma estrada por volta da tarde, uma luz surge abrindo um portal e Adrian aparece nele.

— Mas que porra! Denis, seu filho da puta! Quando eu voltar, eu juro que…

Um carro está passando por ali e vê Adrian no meio da estrada com a sensação de estar perdido e confuso.

O homem que dirigia o carro é Vagner, o pai de Denis, ali ele ainda tinha 35 anos de idade, mesmo Adrian não sabendo quem ele seria, o reconheceu, pois ele possui os mesmos olhos do Denis adulto.

— Você tá bem, rapaz?

— Eu… Eu…

SALA DO TEMPO, 10 DE OUTUBRO DE 2044.

Hilbert e Hernandez estão conversando, preocupados com tudo o que está acontecendo em 2023.

— O atraso do terremoto em 2023 não é comum, em nenhuma vez que se repetiu o loop, isso aconteceu.

— Dr. Hernandez, lembro que o senhor tinha dito que é possível que mais alguma coisa tenha viajado com a Angélica de 98 pra 2023. Acha mesmo isso?

— Sim e eu acredito que outra pessoa deve ter passado no portal. Isso é muito estranho. Por que será que dessa vez entraram elementos novos na linha do tempo?

O Denis criança está assustado e tentando conciliar tudo o que está acontecendo.

— Eu queria ir pra minha casa, eu estou com medo, por que essas coisas estão acontecendo? E por que eu vim pra cá?

— Não se preocupe, jovem Denis. Logo, logo você vai voltar e o Sr. Hilbert vai tomar conta de você.

— Espera um pouco. Como assim eu?

— O senhor ficará com a guarda provisória do Denis até… Bom, até o dia de sua morte.

— Então… Eu vou adotar esse garoto?

— Praticamente isso, senhor Hilbert. Foi por tua causa que temos um Denis neste exato momento tentando salvar a vida de todas aquelas pessoas na tua época.

HOTEL HILBERT, 10 DE OUTUBRO DE 2023, 00H30.

Denis e os outros estão indo para o 2º andar, de longe no corredor é possível ver a luz irradiando o quarto 21. Os tremores estão aumentando cada vez mais, eles não tem muito tempo.

— Depressa! Entrem no quarto 21!

Todos eles entram no quarto e se deparam com o portal aberto. Daniela e Samuel ficam atônitos por estar vendo aquilo pela primeira vez.

— Mas que…

— … Porra é essa?

— Escutem! O terremoto provocou a abertura do portal. Temos duas opções: Tentar a sorte de ir pra 2044 atravessando neste portal ou tentar colocar os braceletes em vocês, só que isso vai levar mais tempo pra programar em todos eles.

Angélica pergunta:

— E se nós voltarmos pra 98 de novo?

— Se formos pra 98, estarão seguros lá até o terremoto passar. E então? O que decidem?

Daniela ainda em dúvidas pergunta:

— A gente tem uma terceira alternativa?

— Ficar aqui e morrer esmagado no terremoto.

— Melhor não. Vamos entrar nessa merda logo!

Os 4 dão as mãos e passam pelo portal.

A luz no portal está brilhando como nunca. Do lado de fora, as estradas começam a se partir, árvores caem no meio da estrada e carros que estavam atravessando a rodovia se chocam uns com os outros, um verdadeiro caos generalizado inicia.

Helicópteros sobrevoando as zonas rurais perdem o controle por conta do enorme tremor e caem nas florestas. Em Belo Horizonte, crateras se abrem nas ruas e carros são engolidos pela terra.

Em Goiânia, as represas começam a estremecer e em segundos uma rachadura se forma e a água transborda provocando o caos nos setores vizinhos.

Em Brasília, um avião particular está passando pela esplanada, o tremor atinge a capital federal, o piloto perde o controle e o avião bate no topo da torre do palácio dos ministérios. Na rodoviária do Plano Piloto, os ônibus e carros começam a se chocar uns com os outros formando um grande engavetamento.

Em São Paulo, o tremor também chega com força. A ponte Estaiada começa a estremecer e em minutos ela se parte ao meio e cai no rio matando a várias pessoas que estavam atravessando de carro ali.

No Rio de Janeiro, o movimento sísmico das placas tectônicas provoca maremotos e tsunamis nas praias cariocas. O belíssimo Cristo Redentor perde o seu império e se parte ao meio não aguentando o impacto do terremoto.

Esse será o fim de todos eles? Não apenas o fim de Adrian e seus amigos, será o fim definitivo da humanidade?

SALA DO TEMPO, 10 DE OUTUBRO DE 2044.

Na sala do tempo, um portal se abre no meio da sala e de repente Denis e os outros surgem ali.

— Ufa! Estamos em 2044.

— Denis! Conseguiu! O que houve lá?

— O terremoto está acontecendo agora, Dr. Hernandez, mas teve um atraso, porque… Outra pessoa viajou pelo portal juntamente com a Angélica.

— Como eu pensei!

— Escutem! Eu preciso fazer mais uma coisa, eu vou voltar pra buscar o Adrian e trazer ele pra cá. Fiquem aqui com o senhor Hilbert e o doutor Hernandez.

Hernandez questiona:

— Denis, onde você vai?

— Vou até 98 dizer pra mãe da Angélica que a filha dela está a salvo.

Angélica fica sem reação.

ESTRADA MINEIRA, 16 DE AGOSTO DE 1981, 09H35.

Adrian está um pouco nervoso, pois segundos atrás estava odiando Denis a qualquer custo e agora está frente a frente com o pai dele. Mas ele teve que engolir o orgulho, pois sabia o quanto isso era importante para o Denis, afinal de contas, Adrian também perdeu um pai e ambos compartilham dessa mesma dor.

— É que… É que… Eu estava mesmo esperando o senhor.

— Eu? Desculpa, mas… Já nos conhecemos?

— Pra ser sincero não, mas… Eu conheço o teu filho.

— O meu filho? O Denis? Mas ele só tem 10 anos, como você pode… Ah, você deve ser um dos professores dele, não é?

— (Mentindo) Isso! Exatamente, escuta, eu não tenho muito tempo… Preciso entregar essa carta para o senhor.

— Uma carta pra mim?

— É do teu filho… Ele pediu pra avisar que… Sente muito e que… Vai tentar arrumar uma forma de consertar as coisas.

— Mas… Consertar? Por que isso? Meu filho, minha esposa e eu temos uma vida perfeita juntos!

— Exatamente, senhor! E é somente dessa vida que o senhor deve se lembrar.

Vagner abre a carta e começa a ler com o mexer de lábios na frente de Adrian.

ENFERMARIA DO HOTEL HILBERT, 10 DE OUTUBRO DE 1998, 00H35.

Deise está tentando tomar conta do ferimento de bala de Esther e também o senhor Hilbert que agora está baleado. Ela pega uns gases pra colocar na perna de Esther e ela percebe algo.

— Deise? Tuas mãos?

Hilbert no canto também percebe algo errado.

— Deise, você está… Se dissolvendo…

Deise olha para as mãos dela e vê tudo se desintegrando. Lá em 2023, a explicação para esse fenômeno é dada. O terremoto fez com que a Deise do presente morresse esmagada pelos escombros.

A Deise de 98 não entende o que está acontecendo e um sentimento de angústia e medo pairam em seu olhar. Até que por fim ela se desintegra de vez. A existência dela foi apagada.

Esther e Hilbert ficam completamente atônitos tentando entender o que aconteceu.

— Deise! Deise! Cadê você? O que foi isso?

Ouve-se uma voz:

— Ela infelizmente morreu.

Denis chega até ali para dar a devida explicação a eles. Hilbert pergunta:

— Mas quem é você?

— Um amigo… Alguém que… Está tentando consertar tudo isso. Senhor Hilbert, esse tiro em teu ombro não vai te matar, acredite, viverá por muitos e muitos anos.

— Espera, como que…

ESTRADA MINEIRA, 16 DE AGOSTO DE 1981.

Vagner está terminando de ler a carta com muitas lágrimas nos olhos. Adrian está parado assistindo-o sem falar uma só palavra.

— Como? Como ele pode falar sobre tanta coisa sendo tão pequeno? É como se uma pessoa adulta tivesse escrito essa carta, mas eu sei que foi o meu Denis.

— É uma longa história, senhor! Mas acredite… Foi o teu filho que escreveu isso… Eu não li essa carta, mas posso até imaginar o que ele escreveu aí. Ele queria passar mais tempo contigo, queria que você o perdoasse se ele fez alguma bobagem, queria jogar mais futebol contigo ou apenas assistir um filme juntos. Sabe como eu sei disso? Porque eu teria dito a mesma coisa para o meu pai… Eu ainda não tive uma chance de voltar ao passado para encontrar com o meu pai e dizer a ele tudo o que eu queria, de dizer a ele a falta que ele me faz. Meu pai morreu quando eu tinha a idade do teu filho, não imagina a dor que é perder o seu maior herói! O senhor é o herói dele… Independente de quanto tempo passe… Ele sempre será totalmente dependente do teu amor, e do teu afeto.

Vagner está emocionado, com a voz embargada e soluçando, tenta proferir algumas palavras e se atropela todo entre lágrimas e soluços. Adrian quebra o seu orgulho e abraça aquele homem cheio de sentimentos, com o coração pulsando. Aquele era o último ano de vida daquele homem… Então o mais coerente é que ele tenha apenas lembranças boas e jamais fique sabendo das coisas horríveis que sua mulher e seu filho passarão após a sua morte.

ENFERMARIA DO HOTEL HILBERT, 10 DE OUTUBRO DE 1998.

Denis continua a falar com Hilbert e Esther.

— Sei que é confuso pra vocês entenderem agora, mas… Todos nós estamos tentando arrumar isso. Queremos destruir esse loop, queremos acabar com todas essas amarras que ficam nos prendendo e toda vez repetimos os mesmos dias ou os mesmos anos pra alguns… Mas quero que vocês saibam que lá no futuro tem pessoas que estão lutando por cada um de vocês! Pessoas que estão fazendo o possível e o impossível para destruir o nosso pior inimigo… O tempo! E nós iremos conseguir! Esther?

— Ham?

— A tua filha te ama. Ela sente muito por ter sido dessa forma, mas quer acredite ou não, a tua filha era aquela mesma mulher que te salvou há algumas horas… Ela vai crescer e se tornar uma mulher forte e destemida. E você não tem ideia de como ela é importante nessa guerra. Ela vai te dar orgulho mesmo quando você achar que está se sentindo decepcionada… Nunca se esqueça disso, Esther.

Os policiais entram na enfermaria.

— MÃOS NA CABEÇA OU EU ATIRO!

Denis coloca as mãos na cabeça, mas ele acaba de ativar o bracelete do tempo.

— E pra finalizar… Se cuidem! Fiquem com Deus e… Nos vemos no futuro!

As partículas de luz ficam em volta de Denis e ele desaparece deixando os policiais totalmente confusos, mas deixou Esther e Hilbert com uma sensação de esperança.

ESTRADA MINEIRA, 16 DE AGOSTO DE 1981.

Vagner está dentro do carro se despedindo de Adrian.

— Tem certeza que não quer uma carona? Você tá no meio do nada aqui.

— Não, não… Eu… Uns amigos meus foram buscar gasolina, eles já estão voltando.

— Ok então, se cuida!

— O senhor também!

Ele olha para o bracelete do tempo.

— Relógio bonito! Onde você comprou?

— Ahh… Ehhh… OLX?

— Com certeza não conheço essa loja, mas… Estou indo! Fique em paz, jovem!

Vagner se retira, Adrian fica olhando ele partir até o carro sumir no horizonte.

— Beleza, agora eu só preciso descobrir como é que eu ativo essa bodega aqui… Deixa eu ver… Qual era a data mesmo que ele falou? Droga!

Adrian está distraído no meio da estrada, ele não percebe que tem um carro vindo em sua direção. Quando finalmente consegue digitar a data no bracelete do tempo, o carro tenta frear bruscamente. Adrian tenta desviar, mas o veículo o atinge de lado e o bracelete sofre o impacto e fica com os números embaralhados.

Adrian é arremessado, mas antes de cair no chão, é sugado pelas partículas de luz da ativação do bracelete e desaparece.

RESIDÊNCIA DO DR. HERNANDEZ, SALA DE ESTAR, 10 DE OUTUBRO DE 2044.

Angélica, Daniela, Samuel, Hilbert e o Denis criança estão sentados no sofá da residência do Dr. Hernandez conversando e completamente preocupados com o que pode estar acontecendo.

Hernandez chega até eles com uma espécie de tablet muito mais sofisticado mostrando-os algo.

— Acho que vocês vão gostar de ver isso aqui. Pesquisei na internet pra ver se já tinha alguma notícia do que aconteceu no Brasil em 10 de Outubro de 2023. Vejam só as imagens.

Todos ficam perplexos com o desastre que aconteceu no país. Hilbert indaga:

— Meu Deus! Quase tudo foi destruído.

— Parece que o terremoto atingiu todo o centro-oeste e o sudeste do Brasil.

Daniela, impressionada, diz:

— Meu Deus! Eu… Eu nunca imaginei que isso pudesse acontecer no nosso país, não algo dessa magnitude.

— Mas tem uma coisa que me preocupa. Das outras vezes que o terremoto aconteceu, ele atingiu somente a estrada onde fica o hotel. Nunca atingiu outros estados do país.

Angélica questiona:

— Espera um pouco, o que isso significa?

— Aquele homem que você disse que viajou contigo de 98 pra 2023, provocou um enorme colapso na linha do tempo e agora ele está furioso.

Em meio à conversa, Denis chega ali afoito.

— Onde tá o Adrian?

Daniela o responde:

— Achei que ele tivesse com você.

— Não! Marcamos de nos encontrarmos aqui em 2044 depois que ele saísse de 81.

Samuel argumenta:

— Então ele ainda tá em 81.

— Não! Quando eu saí de 98 eu fui pra 81 e não tinha mais nem sinal dele.

Angélica fica temerosa.

— Então pra onde ele foi, Denis? Onde tá o Adrian?

Em alguma estrada por aí, um portal se abre há poucos centímetros do chão e Adrian sai de lá e cai rolando na rodovia.

— Aaai! Droga! Droga! Tanta hora pra eu ser atropelado.

Ele se levanta, tenta limpar as calças. O tempo ali está quente e seco, mas ele fica feliz pelo feito que conseguiu.

— Consegui! Consegui mexer nessa merda, mas agora cadê o Denis? Por que aquele filho da puta não falou que a gente ia se encontrar no meio de uma estrada?

Ele dá alguns passos.

— Denis! Denis! Olha, é bom que isso seja só uma brincadeira, mano. Porque esse lugar tá quente pra caralho.

Adrian percebe que é inútil ficar gritando e tenta seguir o teu caminho.

Cerca de 30 minutos se passam. Adrian já está bastante cansado, até que por fim encontra um ponto de ônibus. Ele se senta ali, começa a sentir a boca seca. Um barulho de aviões pode ser escutado passando ali por perto. Ele olha pra trás e vê uns trechos de jornais colados ali.

Ele apanha um pedaço do jornal e lê algumas coisas:

— Golpe militar? Mas… Isso foi… Espera…

Adrian se levanta assustado, pega outro cartaz, se afasta um pouco da parada quase chegando na pista. Ele olha aquele jornal, suas mãos ficam trêmulas, seus olhos lacrimejam, ele começa a se tremer todo, coloca as mãos na cabeça, fica andando de um lado para o outro e diz:

— Eu… Eu estou…

Antes de terminar, um grupo de soldados em tanques de guerra e comboios está passando por ali. Um deles grita:

— Ei, você! Parado!

Adrian fica tão assustado que não pensa em outra coisa a não ser fugir.

— Droga! Deve ser um deles. Está escapando, vamos!

Adrian começa a correr sem destino, ele olha pra trás e vê os soldados correndo atrás dele. Quando olha pra frente de novo, dois camburões do exército o cerca. Adrian fica aflito, não tem mais como reagir, ele apenas coloca as duas mãos na cabeça e um dos soldados chega e o bate com o fuzil.

— Pegamos você, seu ativista desgraçado!

— Esperem! Eu não fiz nada! Eu não fiz nada!

— Vejam só pra esse aí, olha o tipo de vestimenta que ele usa. É assim que vocês estão protestando, seus comunistas idiotas!

— Eu não sei do que você tá falando!

Um dos soldados avisa ao outro:

— Avisa ao coronel que pegamos mais um desses ativistas na estrada tentando fugir, ele vai adorar querer conhecer um de perto.

Adrian, ajoelhado, exige uma explicação:

— Esperem! Esperem! Eu preciso saber… ONDE NÓS ESTAMOS?

O soldado com ironia toma um gole de água, segura firme no queixo de Adrian, o olha fulminante e com um sorriso macabro, diz:

— Para nós, este é o paraíso. Para vocês… O verdadeiro inferno.

— Como… Como assim? Eu não estou entendendo.

— BEM VINDO, JOVEM… À DITADURA MILITAR!

A expressão no olhar de Adrian. O terror em sua face. Todos aqueles soldados ali reunidos. Um avião de caça passa por eles. O destino mudou o seu percurso e conseguiu ser ainda mais cruel do que imaginávamos.

Já não há mais como se livrar disso.

Esse loop criou uma nova linha temporal.

E agora todos eles, e principalmente o Adrian, estão a deriva do desconhecido.

 

 

O TEMPO… MAIS UMA VEZ… O TEMPO.

 

 

 

 

 

 

REALIZAÇÃO:

 

      PRODUÇÃO:

 

DIREÇÃO GERAL:

WELL VYANNA

 

PRODUTOR EXECUTIVO:

MELQUI RODRIGUES

 

 

 

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