Um ambiente totalmente novo se abriu para eles, repleto de arvores, flores de todos os formatos e cores, um incontável número de fragrâncias invadiram suas narinas de uma só vez. Aquela clareira era rodeada por uma densa cadeia de montanhas, parecia impossível um lugar como aquele existir ali em baixo. Uma leve brisa fresca pairava sobre eles trazendo aos seus narizes os mais infinitos cheiros. Eles podiam sentir a maresia misturada ao cheiro de folhas secas levadas pela brisa, transmitindo a eles a sensação de conforto e paz interior, o cheiro da terra sendo molhada pela chuva e também o ar frio de uma noite de inverno.
Era possível também ouvir várias espécies de animais com seus sons peculiares, mesmo sabendo que era impossível todos eles caberem num espaço tão pequeno como aquele.
— O som se propaga pelo ar. Tudo aqui é um reflexo do ar vindo lá de cima. — Disse Artur ao chegar perto deles. — Toda a vida em Ézius está ligada diretamente a este lugar. Tudo aqui está conectado como se fossem um.
Por um curto espaço de tempo eles puderam esquecer de toda aquela loucura e se concentrar apenas no que viam e ouviam naquele ambiente. Em uma fenda num tronco oco de uma arvore tão grande, plantada sabe-se lá como naquele lugar, cujo fim não era possível ver, porem eles sabiam que uma enorme construção arredondada se iniciava.
— Cara, você tá vendo o que eu tô vendo? — Adam perguntou admirando aquela magnífica construção.
— É lindo. — Jimmy disse abobalhado com o que seus olhos acabaram de ver.
Chegando mais perto foi possível enxergar com clareza como aquela construção era feita. Cada detalhe foi pensado de forma a não danificar a arvore mais que o necessário, aproveitando suas entradas, galhos, tronco e ramificações para iluminar a parte interior, dando a ela um aspecto rústico de habitação.
Não era possível distinguir o que havia sido feito primeiro, ou a arvore havia crescido ao redor da construção, ou o a construção havia sido erguida entre as raízes daquela arvore enorme, no topo da entrada apenas uma placa com três espirais em forma de redemoinho avisava aos visitantes que aquele era um lugar sagrado.
Aquele era um nítido exemplo de como humanidade e natureza poderiam conviver em paz, sem que houvesse destruição e morte por nenhuma das partes. De um lado a praia convidativa com ondas serenas e um luar esplêndido de outro uma bela floresta pronta para um passeio ou um piquenique cheia de animais silvestres em seu habitat natural e por fim uma civilização que mesmo sem muita tecnologia tinha uma forma extremamente pra frente de viver.
— Olaaaaaaaaaaaaá. — Adam gritou diante do vão de entrada.
“— Olaaaaaaaaaaaá”. — Sua própria voz reverberou de volta para eles.
Vinda de algum lugar a cima da grande arvore, uma arara azul envolta em uma luz radiante pousou delicadamente em um galho próximo a eles. O magnífico animal umas três vezes maior que o normal parecia estudá-los parecia não ter medo, parecia que aquele animal estava esperando por eles.
— Olá amiguinho! — Saudou Drew com um sorriso, enquanto acariciava a ave com carinho. — Parece que você é o único por aqui.
O pássaro aninhou-se no braço do garoto retribuído as caricias com o bico. Esboçando o que para eles parecia um sorriso, depois de um tempo, a ave bateu suas asas, e levantando voo adentrou ao templo num convite para que aqueles aventureiros fizessem o mesmo.
— Acho que nós podemos entrar ai, não? — Perguntou Adam dando um passo para dentro.
***
— Deixem os seus medos para traz. — Disse a ave em seu coração. — Abandone sua antiga vida antes de adentrar ao reino do ar, ou seu espirito se perderá para sempre.
— Me esperem aqui. — Disse Drew ao vislumbrar aquele toco de arvore oco.
— Nós começamos isso juntos e vamos terminar juntos. — Disse Adam pegando-o pelo braço.
— Essa é uma jornada solitária para todos nós meu amigo. — respondeu ele carinhosamente. — Eu devo ir sozinho pessoal.
— Deixem que vá. — Arthur estava seguro em suas palavras. — Só assim ele conseguirá entender seu verdadeiro proposito neste mundo.
Vencidos pelo cansaço os cinco garotos trocaram olhares desconfiados antes de deixa-lo partir.
Drew adentrou sozinho aquela enorme fissura na arvore. Era impressionante que tudo aquilo pudesse caber ali dentro, mas de alguma forma cabia. Uma escadaria se enrolava até o topo, uma leve brisa soprava convidativa como o verão. O cheiro do mar invadia suas narinas, sua pele queimava lembrando o sol.
Algo em seu interior o chamava a continuar subindo. Alguma coisa ali lhe dizia que as perguntas para toda e qualquer dúvida que ele tivesse estaria lá em cima.
A medida que Drew subia uma infinidade de cheiros invadia seu corpo, e a cada nova sensação uma lembrança sua era apagada de sua mente. A brisa vinda do alto o purificava.
Nada ali importava mais.
Ao chegar ao topo ele pode vislumbrar toda a beleza do reino de Ézius, todo o céu, sem manchas. Os quatro continentes, a cadeia de montanhas que eles teriam de subir e o castelo do reino.
Ele pode ver também várias criaturas de espécies distintas, marchando rumo aos continentes, carregando consigo inúmeras armas.
— Muitos mais estão a caminho. — Disse a ave pairando sobre sua cabeça. — Elas buscam vingança pelo que aconteceu no passado.
— O que eles pretendem?
— Iniciar uma guerra. Onde os seres humanos não tenham chance de vitória. — A ave havia pousado ao lado dele fazendo carinho enquanto falava. — Uma guerra é inaceitável. Humanos e bestiais foram criados para coexistir pacificamente, aprendendo um com o outro a viver em paz.
— O que vocês querem que a gente faça? — Ele perguntou devolvendo o carinho a ave.
— O ar é o elemento da paz, da paciência. Nós, os espíritos elementais queremos que vocês restaurem a harmonia deste reino. Para que o reino de vocês seja restaurado. Um não pode viver sem o outro. E para isso vocês devem devolver a energia elementar a seus locais de direito. Só assim o equilíbrio será restaurado.
— Como nós fazemos isso?
Antes que ele obtivesse a resposta a magnifica ave bateu asas dando duas voltas em seu próprio eixo antes de se tornar uma esfera de cristal na palma de sua mão.
— Isso você terá que descobrir sozinho guardião.
***
Ao retornar para seus amigos Drew percebeu uma nova fissura aberta entre a cadeia de montanhas. Um novo caminho rumo ao desconhecido se abriu. Todos estavam esperando por ele, para que pudessem seguir juntos.
— A partir daqui nós temos que nos separar, se quisermos cobrir uma área maior. — Arthur sugeriu olhando o mapa desenhado por Lucca. — Assim será mais rápido encontrar a localização dos cristais de energia elementar e a prisão das quatro feras reis… Jimmy Drew, Adam vem comigo para o deserto.
— Então nós devemos subir a montanha. — completou Lucca guardando o mapa. — faremos isso ao amanhecer.
— Por que não agora? — Perguntou Adam aos pulos, sem tentar esconder a sede por aventura.
— Hoje foi um dia cheio e nós precisamos descansar, — respondeu Artur sentado na areia da praia já tirando as botas. — além disso, temos que construir um barco para atravessar esse mar até chegar no deserto.
— Eu concordo. — Disseram Jimmy e Tonny ao mesmo tempo.
— Já que é unanime, vamos acampar por aqui essa noite, e traçar um plano, caso algo aconteça nós estaremos preparados.
O acampamento foi armado em poucos segundos. Aredhel e Milla se encarregaram de procurar alguma coisa que servisse para acender o fogo. No fim alguns galhos cecos dos coqueiros junto com as fibras do coco também secos deram um ótimo resultado, e de quebra trouxeram cocos verdes para beber.
Adam, Jimmy, Tonny e Drew se encarregaram da pescaria, garantindo o jantar do grupo. Uma aposta havia sido feita:
Aquele que pegar mais peixes ganha um dia de rei quando voltarmos para casa. – Brincou Drew.
— Aceito. — Respondeu Adam
— Apostado. — Jimmy e Tonny repetiram juntos.
Drew acabou ganhando, pois havia usados seus poderes aquáticos para tirar os peixes ainda vivos da agua fazendo-os quicar no chão da praia de uma hora para outra, enquanto os outros três tentavam pegar os peixes com as mãos.
A noite transcorreu tranquila, depois do jantar à luz da lua, Lucca e Artur se resguardaram em um ponto mais afastado da praia para poder planejar o que seria feito no dia seguinte. Os outros aproveitaram para se divertir um pouco.
Vendo a fogueira crepitar em chamas, Jimmy começou a batucar nas cuias dos cocos abertos enquanto Tonny tocava seu alaúde encantado deixando a melodia acompanhar as batidas do amigo, Adam se pôs a cantar:
— De tarde quero descansar,
Chegar até a praia e ver
Se o vento ainda está forte
Vai ser bom subir nas pedras
Sei que faço isso pra esquecer
Eu deixo a onda me acertar
E o vento vai levando tudo embora
O barulho das ondas foi a última coisa que se ouviu antes de todos adormecerem, cobertos por um céu de estrelas brilhantes, o que tornou impossível não sonhar.-” ”>-‘.’ ”>





