Invadir o castelo e toma-lo de volta. Esse era o plano.
O que ninguém havia dito era que ele teria de escalar uma montanha de quase trezentos e cinquenta metros sem nenhum equipamento de segurança, com duas garotas a tira colo, depois subir os muros mais altos de um castelo antigo cheio de guardas armados para então adentrar a fortaleza, vasculhar todos os cômodos a procura de um maluco que sequestrara seu pai.
Libertar Ézius não parecia uma tarefa tão simples agora. Na verdade se ele pudesse escolher, estaria no sofá de casa assistindo a uma maratona de series antigas das quais ele e o pai adoravam, com uma vasilha gigantesca de pipoca e refrigerante.
Nenhum deles teve tempo para descansar depois daquela subida. Aredhel os guiou até a entrada por onde ela havia saído, a alguns dias atrás revelando a ele um ponto cego entre as torres de observação do castelo. Uma saída de esgoto nos fundos do castelo que dava acesso ao penhasco por onde eles haviam subido.
O ataque dos bestiais deixara um rastro de destruição no ar, corpos em decomposição jaziam inertes em meio àquela paisagem, o odor proveniente da morte era insuportável. A guerra parecia ter acabado, mas algo dizia a todos eles que aquilo era apenas o começo.
Não existia honra em tudo aquilo.
— Eu não fazia ideia do que estava acontecendo aqui. — Disse Milla enquanto forçava o estomago a não colocar sua refeição mais recente para fora.
Era desumano demais ver todos aqueles corpos espalhados cobertos por sangue, homens, mulheres e crianças mutiladas para saciar a vontade de um homem sem honra.
— Ele vai pagar pelo que me fez passar. — Aredhel disse segurando o choro.
— Para onde princesa?
— O segundo túnel a direita vai dar direto no corredor da sala do trono. Creio que ninguém tenha conseguido entrar lá.
— O que faremos quando chegarmos a sala do trono?
— Vocês eu não sei, mas eu vou matar aquele desgraçado que acabou com a minha vida.
Como num filme em preto e branco todas as imagens dos mortos na batalha passou diante dela, nenhum deles merecia aquele fim. Pessoas deram suas vidas para que Aredhel Tazardur reassumisse o trono. E ela não iria decepciona-los.
— Onde está todo mundo? — Milla perguntou de repente.
— Devem estar nas masmorras ou mortos. — Respondeu Aredhel com o semblante triste.
— Vamos liberta-los princesa. Eu prometo. — Lucca parecia resignado em salvar todo mundo.
Eles atravessaram sem nenhum problema os estábulos vazios, o pequeno conjunto de casas que pertencia aos inúmeros criados, a capela destinada as quatro nações antigas tudo estava vazio. Não havia ninguém em parte alguma. Chegaram a entrada de serviço por onde todos os trabalhadores entravam, ela dava acesso a uma saleta pequena que ligava a cozinha e o salão de jantar
Haviam poucos guardas de plantão naquele momento, o que facilitou muito a vida de Lucca. O garoto retirou de um de seus inúmeros boldos algumas substancias e um frasco fechado.
— Essa é uma poção do sono. Prendam a respiração o máximo que conseguirem, não sei quanto tempo vocês podem ficar desacordadas se inalarem ela. — Disse ele mostrando o liquido de cor avermelhada. — Aredhel onde fica exatamente a sala do trono?
Eles haviam acabado de atravessar a cozinha
— No fim do segundo corredor a esquerda.
— prendam a respiração o máximo que conseguirem. — disse ele atirando o frasco onde os dois guardas estavam.
Uma cortina de fumaça encobriu todo o lugar, fazendo os dois guardas caírem em sono profundo.
***
Era um pouco incomodo entrar naquela sala. Uma sala cheias de maquinas. Lucca se sentiu em casa em meio a todo aquele maquinário, apesar dele nunca ter visto algo parecido com aquilo na vida.
Eram quatro computadores de última geração, monitorando cada um uma área distinta de Ézius e no centro da sala uma roldana de metal com cinco pedras de cores distintas flutuando envoltas por um arco ires multicolorido. Ao redor de todo aquele maquinário uma espécie de ar gelado pairava, ajudando a resfriar toda a sala.
Uma força gravitacional puxava quatro rajadas de energia vindas de algum lugar por uma abertura no teto sendo canalizada na pedra que se encontrava no centro, num ziguezague sem fim. Os dados eram armazenados de forma aleatória, como se a própria máquina estivesse viva.
Aquilo o fez lembrar do amigo de lata que ele havia deixado tomando conta de seus corpos na sala de casa.
— Isso não estava aqui quando eu fugi. — Disse Aredhel olhando incrédula para um dos monitores. — Este monstro está acabando com toda a Ézius de uma vez.
— Toda essa energia está sendo direcionada pra quatro pontos específicos de Ézius. Você sabe porquê?
— Ele quer libertar as quatro feras reis para poder acabar com o restante da humanidade.
— Como assim?
— Antes, humanos e bestiais viviam em harmonia, até os seres humanos começaram a retirar da natureza muito mais do que ela podia repor. — Milla os interrompeu. — Assim uma guerra foi travada e os homens escravizados. Até o dia em que cinco guerreiros apareceram e salvaram a terra de Ézius aprisionando as quatro feras reis em casulos de energia…
— Os homens que sobreviveram a esta guerra tiveram que reaprender a utilizar os poderes vindos da natureza, terra, fogo, agua e ar, criando novas fontes renováveis de tecnologia e assim o continente de Tecnus surgiu. — Aredhel completou.
— Quer dizer que toda a população humana de Ézius vive na cidade do início? — Lucca parecia intrigado.
As peças começaram a se encaixar em sua mente.
— Na cidade do início e nesse castelo.
— Como isso funciona exatamente? — Ele quis saber.
— O rei oferece a busca da matéria prima, viajando aos quatro continentes em busca de materiais que possam ser usados na fabricação de utensílios garantindo a reposição da matéria prima. E ainda proteção militar a cidade do início.
— Em troca nos confeccionamos as peças para a manutenção dos campos de força que mantem os monstros longe da cidade. Mas de algum modo esses campos de força pararam de funcionar. Fazendo com que várias criaturas começassem a nos atacar novamente.
— É essa coisa que está fazendo isso. — ele respondeu analisando os gráficos com um pouco mais de atenção. — Essa máquina tem sugado todos os tipos de energia existente em Ézius, renováveis e não renováveis. Em alguns meses não existirá mais nada.
— Nós temos que desligar essas maquinas, ou Ézius morrerá.
***
Lucca Souza era considerado um gênio, mas nem todo o seu conhecimento sobre as maquinas o fez ter certeza de como aquilo realmente funcionava. Aquela máquina era capaz de converter energia natural em nanotecnologia que estava sendo armazenada naqueles quatro computadores.
— O que tem nesta sala? — ele perguntou mostrando a Aredhel um mapa de todo o castelo.
— Essa é a sala do trono aqui ao lado. Aqui era a antiga sala do concelho, onde papai se reunia com os senhores feudais de Ézius para discutir como usar a matéria prima de forma mais satisfatória e sem agredir o ambiente.
— Então aqui tem uma porta de acesso direto a sala do trono?
— Sim.
— Toda a energia roubada está sendo direcionada parta esta sala. O que quer que esteja acontecendo é lá que nós vamos encontrar todas as respostas. — Disse Lucca fazendo alguns cálculos mentais. — Eu vou entrar e ver o que está acontecendo, vocês duas procurem por prisioneiros e os libertem.
— Eu vou com você! — Aredhel respondeu decidida. — Depois libertamos os escravos.-” ”>-‘.’ ”>












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