CAPÍTULO 3
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CAPÍTULO 3

Escrito por: Alessandro Fonseca12/06/2026 - 20:00

A primeira coisa que André percebeu foi o barulho dos sussurros.

Não eram altos. Não eram diretos.
Mas estavam ali.

A casa da família de Eric cheirava a café forte e julgamento.

A mãe dele estava sentada no sofá, ereta demais para quem tinha acabado de perder um filho. As mãos apertavam um lenço com uma firmeza quase disciplinada. Não chorava. Não ainda.

O pai permanecia em pé, braços cruzados, postura militar. O tipo de homem que transforma dor em rigidez.

Quando André entrou, os dois o olharam como se ele fosse uma pergunta sem resposta.

— Você estava com ele ontem à noite — disse o pai, sem rodeios.

Não foi pergunta.

André assentiu.

— Estava.

Silêncio.

A mãe finalmente falou.

— Ele parecia nervoso quando saiu daqui ontem.

Saiu daqui.

A frase ecoou.

Então Eric tinha passado ali antes.

André não sabia disso.

Uma pequena lacuna se abriu dentro dele.

— Nervoso por quê? — perguntou, mantendo a voz estável.

A mãe desviou o olhar.

— Disse que precisava resolver algo.

Resolver algo.

O ar pareceu pesar.

André tentou puxar da memória cada detalhe da noite anterior. A discussão. O copo quebrado. A frase cruel. A própria resposta.

Mas tudo vinha fragmentado. Como se alguém tivesse arrancado pedaços estratégicos.

O pai se aproximou um passo.

— Vocês brigaram.

De novo, não era pergunta.

— A gente discutiu.

— Discutiram por quê?

Porque ele me chamou de lixo.
Porque ele disse que eu nunca seria mais do que um corpo pago.
Porque ele sabia exatamente onde ferir.

Mas André apenas disse:

— Assuntos nossos.

A mandíbula do pai travou.

— Meu filho está morto. Não existe mais “assunto de vocês”.

A palavra morto caiu no ambiente como objeto físico.

André sentiu o impacto. Mas não reagiu como esperavam.

Ele não gritou.
Não desmoronou.

Isso foi notado.

Ele percebeu nos olhos da mãe.

Desconfiança.

Horas depois, na delegacia, o ambiente era diferente. Frio. Clínico. Controlado.

O investigador não era agressivo. Era paciente.

O tipo que deixa o silêncio trabalhar.

— O senhor usava drogas?

A pergunta veio direta.

André manteve o olhar fixo.

— Usei.

Passado.

— Ontem?

Um segundo a mais de pausa.

— Não.

Meia-verdade. Talvez.

Ele lembrava do pó alinhado na mesa da cozinha semanas atrás. Lembrava de ter prometido que estava limpo. Lembrava de Eric rindo quando descobriu que não estava.

“Você não consegue nem largar isso. Quer largar quem?”

A memória atravessou como lâmina.

— Seu relacionamento era estável?

André quase riu.

Estável.

Como definir estabilidade quando alguém te desmonta e depois te abraça?

— Tínhamos nossos problemas.

— Ele pretendia se casar com o senhor.

— Sim.

— Havia traições?

Agora o investigador o encarava com atenção real.

André não piscou.

— Não que eu saiba.

Mentira.
Mas estratégica.

Se ele dissesse que sabia, estabeleceria motivo.

Se negasse, pareceria ingênuo.

Ele escolheu o meio-termo invisível.

Quando saiu da delegacia, o mundo parecia normal demais.

Carros passando. Pessoas andando. Sol indiferente.

Como podia estar tudo funcionando se Eric não estava mais?

O pensamento veio acompanhado de algo incômodo.

Culpa?

Não exatamente.

Era mais complexo.

Era a sensação de que algo estava fora do lugar dentro da própria cabeça.

Ele lembrava da discussão.

Lembrava da voz elevada.

Lembrava de ter segurado Eric pelo braço.

Forte demais?

Não tinha certeza.

Lembrava de Eric se soltando.

Lembrava da frase final.

Mas não lembrava da despedida.

Isso o inquietava.

Porque toda briga deles terminava com alguma coisa.

Um “fica”.
Uma “desculpa”.
Um silêncio compartilhado.

Dessa vez, não conseguia acessar o desfecho.

À noite, sozinho no apartamento, André abriu o armário.

A camisa ainda estava lá.

Amassada. No fundo.

Ele a segurou.

Cheirou.

Nada.

Ou talvez algo que ele não sabia nomear.

Sentou na cama com o tecido nas mãos.

A cabeça começou a girar.

“Você nunca vai conseguir ser mais do que isso.”

A frase voltava como eco permanente.

Ele fechou os olhos.

Parte dele queria odiar Eric.

Queria sentir raiva limpa, simples.

Mas o que vinha era outra coisa.

Era saudade.

Do toque.
Do controle.
Até das humilhações, porque significavam atenção.

Isso o envergonhava.

Que tipo de pessoa sente falta de quem a diminuía?

Ele.

Ele sentia.

O telefone vibrou.

Mensagem desconhecida.

“Ele estava diferente ontem. Pergunta pra você.”

Sem nome.

Sem explicação.

O estômago contraiu.

Diferente como?

Nervoso?
Com medo?
Arrependido?

Ou decidido?

André percebeu que havia coisas que não sabia sobre a última noite.

E isso podia salvá-lo.

Ou condená-lo.

Do outro lado da cidade, a família de Eric conversava com o advogado.

A mãe dizia entre lágrimas contidas:

— Ele não era violento. Ele não tinha inimigos.

O pai completava:

— Só aquele relacionamento conturbado.

A palavra conturbado virou rótulo.

E rótulos se transformam em teorias.

Dias depois, o investigador voltou.

— Encontramos sinais de luta no apartamento.

O coração de André bateu uma vez, pesada.

— Isso significa o quê?

— Que alguém perdeu o controle.

A frase ficou suspensa entre os dois.

André sustentou o olhar.

— Vocês acham que fui eu.

Não era pergunta.

O investigador inclinou levemente a cabeça.

— Eu acho que o senhor tinha motivos.

Motivos.

André quase concordou.

Tinha mesmo.

Humilhação acumulada.
Traições.
Desprezo disfarçado de amor.

Mas motivo não é prova.

Ele sabia disso.

Só não sabia se conseguiria provar que, apesar de tudo, não tinha atravessado aquela linha.

Naquela noite, ele sonhou.

Não com sangue.
Não com violência.

Sonhou com Eric sorrindo.

Aquele sorriso controlado.

— Você nunca vai conseguir sair de mim.

André acordou suando.

O quarto parecia menor.

Talvez Eric estivesse morto.

Mas o controle ainda estava ali.

Dentro.

E isso era o mais assustador.

A investigação avançava.

A família pressionava.

Os olhares mudavam.

E André começava a perceber que não bastava ser inocente.

Ele precisava parecer.

E naquele momento, com o passado sujo demais, o amor doente demais e as memórias incompletas demais…

Ele não parecia.

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