
André acordou com o gosto metálico na boca.
Não era sangue.
00Era culpa.
O quarto ainda estava escuro, mas ele já estava sentado na cama, respirando como se tivesse corrido quilômetros. O peito subia e descia pesado. Suas mãos estavam tremendo.
De novo.
Ele fechou os olhos e tentou puxar a memória pelo fio. Forçou. Apertou as têmporas.
Um flash.
Água.
Um brilho prateado.
A voz de Eric dizendo algo que ele não conseguia ouvir.
E depois — nada.
Um vazio que não era esquecimento comum. Era como se alguém tivesse arrancado uma parte da fita e colado outra por cima.
Ele levantou, foi até o espelho do banheiro. A luz fria revelou o que ele já sabia: estava se desgastando. O loiro do cabelo continuava impecável, os olhos claros ainda tinham aquele tom quase transparente sob a iluminação branca… mas havia olheiras profundas ali.
O tipo de olheira de quem não dorme porque a mente não deixa.
Ele apoiou as mãos na pia. Seus braços eram fortes, musculados — sempre foram. André gostava de controle. De disciplina. Academia às seis da manhã, dieta calculada, rotina organizada.
Mas agora… o controle tinha ido embora.
E ele odiava isso.
A MÃE
Do outro lado da cidade, Helena dobrava uma camisa de Eric com cuidado quase religioso.
A casa permanecia intacta. Como se o filho fosse atravessar a porta a qualquer momento e reclamar da bagunça. Ela mantinha tudo no lugar. O quarto arrumado. A cama feita. O cheiro do perfume dele ainda vivo no ar.
Negação?
Não.
Era outra coisa.
Ela abriu a gaveta da cômoda e passou os dedos por dentro, como se procurasse algo que não estava mais ali.
Porque não estava.
Os olhos dela ficaram duros por um segundo.
Depois suaves de novo.
Ela era excelente nisso.
INVESTIGAÇÃO
O delegado Matos folheava o laudo mais uma vez.
— Não faz sentido — murmurou.
Sem sinais claros de luta. Sem testemunhas. Sem câmera na área afastada. Apenas o corpo encontrado perto da margem do rio. Um disparo.
Execução limpa.
Crime passional?
Acerto de contas?
Encontro errado na hora errada?
Ele tinha um nome recorrente nos depoimentos.
André.
O amante.
Relacionamento mantido às escondidas, apesar de Eric já ter sido visto publicamente com ele algumas vezes. Amor clandestino. Paixão intensa.
Motivo nunca falta quando o amor vira obsessão.
— Quero falar com ele de novo — disse o delegado.
ANDRÉ E A FALHA
André estava na academia quando aconteceu.
Ele estava no supino, concentrado, a respiração controlada. O corpo definido sob a camiseta justa, músculos desenhando cada movimento.
E então… o cheiro.
Não estava ali.
Mas ele sentiu.
O perfume de Eric.
Um perfume amadeirado que sempre ficava na pele dele depois do banho.
A barra quase caiu sobre seu peito.
Por um segundo, André não estava mais na academia.
Estava em outro lugar.
MEMÓRIA FRAGMENTADA
Eric encostado na parede, ainda suado do treino. Cabelos negros bagunçados, os fios caindo sobre a testa. Os olhos claros — um azul profundo — fixos em André com aquele meio sorriso provocador.
Eric era o tipo de homem que ocupava espaço. Alto, musculoso, ombros largos. Pele levemente bronzeada. Havia uma cicatriz pequena próxima à clavícula esquerda — ele dizia que era de infância, mas nunca contava a história completa.
André se aproximava. Mãos firmes na cintura dele.
E ali, naquele momento, o mundo sempre ficava menor.
Mais silencioso.
Eric gostava de provocar. Mordia o próprio lábio inferior antes de puxar André pela camiseta. André respondia com intensidade. Beijava como se quisesse marcar território. Como se tivesse medo de perder.
A química entre eles não era suave. Era elétrica.
Eric deslizou as mãos pelas costas largas de André, descendo devagar. André sempre ficava arrepiado quando Eric fazia isso. Principalmente quando as mãos dele apertavam sua cintura, sua curva firme, puxando-o mais para perto.
Não era apenas desejo.
Era vício.
André lembrava do peso do corpo de Eric contra o dele. Do calor. Da respiração misturada. Das risadas baixas quando quase foram flagrados uma vez no estacionamento.
E então…
O flash muda.
A expressão de Eric não era mais provocadora.
Era séria.
— A gente precisa parar com isso.
A memória corta.
Volta.
Água.
Discussão.
Algo na mão de alguém.
Depois — escuridão.
Volta à realidade
A barra caiu no suporte com força.
André estava ofegante.
Ele olhou ao redor. Ninguém parecia ter percebido o colapso interno que ele acabara de sofrer.
“Parar com isso.”
Parar com o quê?
Ele tentou lembrar da continuação da frase.
Nada.
A mente dele estava sabotando ele.
Ou protegendo.
E essa dúvida era pior.
A FAMÍLIA DE ERIC
O pai de Eric não falava muito. Desde o enterro, se fechou.
Mas naquela noite, ele encarou Helena na mesa de jantar.
— Você sabia.
Ela levantou os olhos lentamente.
— Sabia o quê?
— Sobre ele. Sobre o André.
Silêncio.
Ela não respondeu imediatamente.
— Mãe sempre sabe.
A frase saiu neutra.
Mas havia algo ali.
Algo frio.
O CHAMADO
André recebeu a ligação às 19h42.
— Precisamos conversar novamente.
O delegado.
Ele sentiu o estômago gelar.
— Eu já disse tudo que sabia.
— Talvez tenha esquecido alguma coisa.
A frase ecoou.
Esquecido.
Ele desligou com as mãos suadas.
E pela primeira vez, uma pergunta surgiu clara:
E se eu realmente fiz algo…
e simplesmente não lembro?
A ÚLTIMA IMAGEM
Naquela noite, ele sonhou.
Estava à beira do rio.
A lua refletia na água.
Eric estava à sua frente.
Mas não havia discussão.
Havia silêncio.
E atrás de Eric… alguém.
Uma silhueta.
Feminina.
Acordou com o coração disparado.
Ele não viu o rosto.
Mas a sensação era de que sempre esteve ali.
Observando.
O jogo começou a virar.
A falha de memória deixou de ser apenas trauma.
Virou pista.
E no fundo, bem no fundo, André começou a temer uma coisa muito específica:
Que a verdade não estivesse apagada.
Apenas escondida.
E que alguém estivesse esperando o momento certo para revelá-la.












Comentar