A batida na porta não foi educada.
Foi firme.
Oficial.
André já estava esperando.
Ele abriu antes da segunda batida.
— Senhor André Almeida?
— Já sei.
Dois investigadores entraram. Um deles fechou a porta com calma calculada.
— Precisamos que nos acompanhe.
—
A sala da delegacia era fria demais para aquele tipo de conversa.
— O senhor discutiu com a vítima na noite do assassinato?
— Sim.
— A discussão foi sobre traição?
André hesitou.
— Foi sobre mentiras.
— O senhor ameaçou a vítima?
Silêncio.
O investigador deslizou uma folha pela mesa.
Impressão de mensagem recuperada.
“Você vai se arrepender.”
— O senhor escreveu isso?
— Escrevi.
— O senhor o amava?
A pergunta veio seca.
— Amava.
— Amor vira ódio rápido.
André levantou os olhos.
— Nem todo mundo mata por impulso.
— Mas quem ama demais às vezes perde o controle.
A pressão era psicológica.
E estava funcionando.
—
— O senhor sabia que a vítima tinha um histórico de envolvimento com negócios ilícitos?
André congelou.
— Que tipo de negócios?
O investigador observou a reação.
— Então o senhor não sabia.
A frase ficou no ar.
Semente plantada.
—
Horas depois, Rafael apareceu.
Sem aviso.
— Eu disse que isso ia acontecer.
— Para de agir como se estivesse acima de tudo!
Rafael manteve a calma.
— Você não conhecia o Eric inteiro.
— Para com isso.
— Ele usava gente.
A palavra foi dita com desprezo.
— Usava você. Usava o Lucas. Usava a família.
André ficou imóvel.
— Que merda você está falando?
Rafael respirou fundo.
— Eric estava lavando dinheiro para os próprios tios. Drogas. Apostas. Contratos falsos. Ele era o rosto limpo do negócio sujo.
O ar pareceu desaparecer.
— Você está mentindo.
— Eu participei.
O silêncio foi brutal.
— Você… o quê?
— Eu fazia a ponte. Contatos. Transferências. Até perceber que ele estava nos queimando para proteger o próprio nome.
André sentiu o chão ceder.
— Ele não seria capaz.
Rafael riu, mas não havia humor.
— Você ainda acha que ele era vítima?
—
Lucas reapareceu como quem não tem culpa.
— Soube que te chamaram na delegacia.
— Você já sabia.
— Eu sempre sei.
André o encarou.
— O que você quer?
Lucas se aproximou devagar.
— Nada que você já não tenha me dado.
A frase foi baixa. Ameaça disfarçada.
— Se essa história sair… nossa noite vira argumento.
O estômago de André revirou.
— Você não faria isso.
Lucas sustentou o olhar.
— Não me subestime.
— Você está me chantageando?
— Eu estou me protegendo.
A mesma justificativa de Rafael.
Sempre “proteção”.
Sempre mentira embalada como cuidado.
—
A investigação avançava.
Movimentações financeiras começaram a surgir.
Contas ligadas a empresas fantasmas.
Nome de Eric aparecia como intermediador.
Mas oficialmente, ele continuava sendo a vítima perfeita.
Filho exemplar.
Herdeiro respeitável.
—
A mãe assistia tudo em silêncio.
Quando o nome dos negócios sujos surgiu na imprensa, ela não demonstrou surpresa.
Só tristeza.
Controlada demais.
—
André começou a juntar as peças.
Eric lavando dinheiro.
Rafael envolvido.
Lucas sabendo demais.
Ele sendo o rosto perfeito para a culpa.
— Ele me usou — André murmurou.
Rafael o encarou.
— Ele usava todo mundo.
— Então por que eu ainda sinto falta dele?
Rafael não respondeu.
Porque a resposta era simples e cruel:
Manipulação não apaga sentimento.
—
O capítulo termina com o investigador dizendo, de forma direta:
— Senhor André, se novas evidências surgirem, o senhor pode ser formalmente indiciado por homicídio qualificado.
A palavra ecoou.
Indiciado.
E pela primeira vez, André percebeu que talvez não estivesse apenas cercado.
Talvez estivesse sendo empurrado exatamente para onde alguém queria.
E se Eric era mesmo o filho da puta que Rafael descreveu…
Quem, afinal, tinha mais motivos?












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