A cidade estava suja de câmeras.
Microfones erguidos.
Sussurros.
Gente que nunca se importou agora querendo opinião.
A polícia não tinha mais dúvidas.
A arma encontrada.
Os vestígios.
As movimentações financeiras.
O histórico de ameaças.
Testemunhos cruzados.
Tudo convergia para ela.
A mãe de Eric.
Ela saiu da delegacia escoltada. Sem gritar. Sem chorar. Sem desmoronar.
Elegante.
Fria.
Como sempre foi.
André estava ali.
Não por coragem.
Mas porque precisava olhar nos olhos dela uma última vez.
Ela o viu.
Pediu para falar com ele.
Sozinhos.
Na sala vazia, o silêncio pesava mais do que qualquer acusação.
— Foi você — André disse, a voz falhando.
Ela não negou.
— Ele estava se tornando o pai.
André fechou os olhos.
— Ele era um filho da puta… mas era seu filho!
Ela sustentou o olhar.
— E você o amava mesmo assim.
Aquilo doeu.
— Você destruiu tudo.
— Não — ela respondeu, sem alterar o tom. — Eu impedi que ele destruísse mais.
Ela se aproximou um passo.
— Você sabe quem ele estava se tornando.
André sabia.
Sabia das chantagens.
Das manipulações.
Dos jogos cruéis.
Das vezes em que Eric usava pessoas como peças.
Inclusive ele.
— Você sempre foi fraco demais para ele — ela disse.
A frase entrou como lâmina.
André não respondeu.
Ela não pediu perdão.
Ela não justificou com lágrimas.
Só concluiu:
— Você ainda pode ser diferente.
Os policiais chamaram.
Ela foi levada.
Sem olhar para trás.
Rafael chegou ao apartamento no fim da tarde.
O silêncio estava errado.
A porta não estava trancada.
O quarto… vazio.
Metade das roupas sumidas.
Documentos faltando.
A gaveta aberta.
Ele sentou na cama.
Ainda havia o cheiro da noite anterior.
Ele fechou os olhos.
Não gritou.
Não quebrou nada.
Só sussurrou:
— Você não precisava fazer isso sozinho…
Mas no fundo, ele entendia.
André sempre fugia antes de ser abandonado.
Lucas soube pela imprensa.
Riu.
Disse que já esperava.
Mas quando foi ao apartamento e percebeu que André tinha desaparecido sem sequer uma mensagem… algo rachou.
Ele nunca amou.
Mas gostava de vencer.
E dessa vez, não houve vencedor.
Dias depois, a cidade começou a esquecer.
Outro escândalo.
Outra tragédia.
Outro assunto.
Rafael não esqueceu.
Guardou uma camisa de André.
Aquela da primeira noite em que ele não fingiu nada.
Não era obsessão.
Era promessa silenciosa.
Meses se passaram.
Então surgiu algo pequeno.
Um nome usado numa pousada no interior.
Documento falso.
Mas o jeito de escrever… familiar demais.
Não era prova.
Era possibilidade.
E pela primeira vez desde aquela manhã, Rafael respirou diferente.
Em outra cidade.
Outro estado.
Outro céu.
André caminhava sem destino fixo.
Sem Eric.
Sem Lucas.
Sem Rafael.
Sem a mãe.
Ele estava vivo.
Mas carregava tudo.
Parou numa esquina.
O vento frio bateu no rosto.
Por um segundo, quase voltou.
Mas seguiu em frente.
Sem saber que alguém ainda procurava por ele.
Sem saber que ainda havia um fio invisível ligando duas cidades.
E enquanto desaparecia entre prédios desconhecidos, a única verdade que restava era simples:
Algumas histórias não terminam. Apenas mudam de cidade.












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