ESTAÇÃO MEDICINA
Capítulo 56
Luzes na quitinete
CENA 01/SÃO PAULO/JD AMÉRICA/MANSÃO MOÇA/EXTERIOR/MANHÃ
Goram não estava acreditando no que estava ouvindo.
JOSÉ – Para de ficar me repetindo isso. Eu não quero lembrar disso.
ALEXANDRE – Não há como não se lembrar, o que fizemos marcou nossos destinos para sempre.
JOSÉ – Você não entende, porque está aqui nessa mansão, protegido, não recomeçou a sua vida, ficou parado no tempo, eu quero recomeçar, mereço recomeçar.
ALEXANDRE – Mas nós não pagamos pelo crime.
JOSÉ – Eu era outra pessoa. Fiz num momento de desespero por dinheiro e me arrependo muito.
ALEXANDRE – Não interessa isso, aquele índigena voltou para destruir tudo e a todos. Você precisa entrar nessa e me ajudar nisso, se não tudo estará perdido.
JOSÉ – EU NÃO QUERO MAIS ESSA PORRA!!! E VOCÊ, SEU FILHO DA PUTA, VOCÊ VAI PAGAR POR TODA SAFRA QUE PERDI.
E pega Alexandre pela gola suspendendo no ar.
JOSÉ – EU NÃO TÔ BRINCANDO!!!
ALEXANDRE – Eu posso até devolver o dinheiro, mas não poderei te devolver o amor de sua princesa quando ela souber de tudo. Marcela o nome dela não é?
A face de José se transforma em medo e solta no ar.
JOSÉ – Do que você está dizendo, seu babaca? Que Marcela é tudo que eu tenho.
Alexandre o encara de baixo para cima com um sorriso sarcástico.
ALEXANDRE – Ora, imagina só quando ela souber que está namorando um assassino frio, covarde, que atacou um casal enquanto dormiam, deixando dois filhos órfãos?
José estremece
Close no rosto de Goram escondido, em lágrimas de revolta.
CENA 02/SÃO PAULO/VILA MADALENA/CLÍNICA PSIQUIÁTRICA/INTERIOR/MANHÃ
HELOÍSA – Nossa, gente, vocês estão me assustando!
LEOPOLDINA – Vamos te levar até o jardim, está sendo servido um buffet de café da manhã para os pacientes e familiares. Encontramos um canto e vamos te contando.
HELOÍSA – Tá certo. Vou escovar os meus dentes, acho que estou com um bafo não tão legal.
Ela se levanta e suas pernas tremem.
SUZY – Está fraca amiga pelo tempo que dormiu, te ajudo.
HELOÍSA – Acho que vou precisar mesmo.
CORTE PARA:
JARDIM CLÍNICA
Heloísa senta num balanço numa árvore, próximo a um banco.
HELOÍSA – Fazia tempo que comi queijo nózinho. Saudades da minha terra. Pois então o que vocês precisam me contar?
SUZY – Você pode começar, Leopoldina?
LEOPOLDINA – Claro. Pois bem, é sobre o Goram.
HELOÍSA – Goram! Doce Goram! Como o amo. Eu senti falta dele agora comigo no quarto.
LEOPOLDINA – Isso, fale sobre Goram. O que sente por ele?
HELOÍSA – Eu não sei explicar, é algo tão bonito, tão leve, sinto que minha barriga flutua como aquelas nuvens lá no céu. Eu lhe quero tão bom, quero lhe aqui comigo para eu fazer carinho naquele cabelo dele, aprender sobre o tupi-guarani, vê-lo dançar.
SUZY – Que raiva, velho, ele iludiu a garota direitinho. Raiva desses homens.
LEOPOLDINA – Se acalma, querida.
HELOÍSA – Pare de falar assim dele, Suzy. Depois do que ele fez aquele dia. Ele demonstrou que me ama muito.
SUZY – Mas ele não te ama, ele te largou, Helô, te largou para ficar com aquele cara.
Instrumentos de corte.
HELOÍSA – Do que você está falando?
Leopoldina troca um olhar de desespero com Suzy que abaixa a cabeça arrependida.
HELOÍSA – Falem logo, o que vocês estão me escondendo?
LEOPOLDINA – Ele está com Mateus, ele assumiu publicamente o romance com o herdeiro Moça.
Heloísa fica incrédula, lágrimas escorrem pelo seu rosto.
CENA 03/SÃO PAULO/JD AMÉRICA/MANSÃO MOÇA/EXTERIOR/MANHÃ
JOSÉ – Você não vai fazer isso, se não eu te mato! Eu mato!
ALEXANDRE – Isso! Revela essa face assassina, Zé. Você não presta assim como eu, assim como esse casal que nos envolveu neste crime. Você não pode negar sua natureza, ela vai aparecer cedo ou mais tarde.
José perde a paciência e tenta socá-lo. Alexandre se esquiva.
ALEXANDRE – Posso contar com você, né?
JOSÉ – Patife! Desgraçado!
ALEXANDRE – Vou entender como sim.
Alexandre pega do bolso algumas notas e as conta na frente de José.
ALEXANDRE – Toma! Seria meu final de semana com uma garota, agora é sua para ajudar a arrumar o lance lá do caminhão.
José se enfurece ainda mais.
ALEXANDRE – Que foi, não quer? Estou sendo generoso com você depois da situação que você está. Aceite.
José raivoso, esbaforido, sente ódio, mas aceita.
ALEXANDRE – Muito bem, amigos de novo. Agora vaza daqui, que eu tenho que trabalhar.
José pensa em revidar, mas prefere não fazer nada.
Os dois saem em direção ao portão. Goram sai por de trás do arbusto e corre até o banheiro dos funcionários, abrindo a privada e vomitando.
GORAM – Assassinos! Jejukas! Vocês vão pagar por tudo que fizeram aos meus pais, vocês vão.
CENA 04/ SÃO PAULO/TATUAPÉ/HOSPITAL ORLANDO MOÇA/INTERIOR/ENFERMARIA GO/MANHÃ
Meire acorda com uma enfermeira que traz um café da manhã. A jovem fica olhando para a porta para ver se encontra Caio, mas não o vê.
Rita aparece na porta e vai ao seu encontro.
RITA – Amiga, como você está? Eu fiquei sabendo, como está o bebê?
MEIRE – Foi só um susto, está tudo bem.
RITA – Vocês estavam brigando?
MEIRE – Como não poderia estar? O que ele fez com aquela jovem. Como ele pode dizer que quer ser pai e defender um aborto, defender só não, atuar na linha de frente para isso acontecer.
RITA – Mas amiga, você sabe que isso é um direito legal, como você mesma me disse foi fruto de um estupro.
MEIRE – Isso é o que ele diz agora, quem garante que essa jovem não enrolou eles, eles nem sequer investigaram, Rita. Eles acataram a solicitação da menina e no outro dia estavam abortando.
RITA – Eu nunca entendi como Boina pode fazer isso. Ele é um psiquiatra sério, respeitado. Mesmo que fosse repugnante e o espírito revolucionário dele queimasse em suas veias latinas, ele jamais poderia ter metido os pés pelas mãos como fez.
MEIRE – Se isso chegar ao conselho regional de medicina, ele pode ser processado e perder o registro médico. Você sabe o que isso significa?
RITA – Sei muito bem. E é por isso que eu acho que vocês deveriam conversar.
MEIRE – Ele matou uma vida. Eu não…
RITA – Você sabe o que eu penso sobre isso. Por mim o aborto já estava descriminalizado há muito tempo.
MEIRE – Eu não quero falar sobre isso. Eu não consigo pensar desta maneira e nem é por uma questão religiosa, é só porque eu simplesmente não consigo. E Goram, ele te procurou?
RITA – Ele fez a escolha dele, mesmo de alguma forma eu vendo no fundo dos olhos dele que existia um sentimento, eu não entendi porque ele está agindo assim.
MEIRE – Talvez seja apenas sua mente tentando te pregar peças, você gosta dele.
RITA – É…talvez sim.
CENA 05/ SÃO PAULO/TATUAPÉ/HOSPITAL ORLANDO MOÇA/iNTERIOR/ UTI/MANHÃ
Os olhos de Bernardo se arregalam. Ele começa a tossir loucamente por conta do tubo orotraqueal. A enfermagem se desespera.
ENFERMAGEM – Depressa, vamos sedá-lo, vamos sedá-lo.
Bernardo começa a ficar agitado e bate em uma técnica que surge e tenta aplicá-lo medicação. Ela se corta.
MÉDICA – Precisamos de ajuda aqui. Reforço.
Um paliativista surge.
PALIATIVISTA – Vamos tentar extubá-lo.
MÉDICA – Você ficou louco? Ele vai desestruturar e pode chocar de novo por acidose.
PALIATIVISTA – Por que não tentamos? Não custa nada, isso está nitidamente incomodando o paciente.
A Médica faz uma cara para ele de raiva.
CORTE DESCONTÍNUO
A equipe observa por uns minutos o monitor e a saturação se mantém acima de 92, oscilando pouco. Ele se encontra em VNI.
Araponga chega no quarto.
ARAPONGA – Por que toda essa multidão aqui?
ENFERMEIRA – Seu homem extubou.
ARAPONGA – Finalmente tiraram o tubo dele?
Ela se felicita, dando pulos de alegria.
ARAPONGA – Homem porreta, sabia que tu ia sair dessa.
Ele sorri sem graça por debaixo da máscara.
CENA 06/SÃO PAULO/VILA MADALENA/CLÍNICA PSIQUIÁTRICA/INTERIOR/MANHÃ
Heloísa se levanta inconformada.
HELOÍSA – Então era tudo mentira, ele veio aqui me enganar novamente?
Suzy abraça a amiga, que se afasta.
HELOÍSA – Eu não quero a sua piedade, não quero piedade de ninguém.
SUZY – Não é piedade. Eu não gosto de te ver sofrendo, cara, por um homem que não tem merece.
HELOÍSA – Por que ele fez isso comigo de novo? O que ele ganha sangrando meu coração?
LEOPOLDINA – Compartilhe com a gente esse sentimento, sofra o que precisar sofrer, mas aos poucos, liberte-se disso, não guarde rancor.
HELOÍSA – Meu irmão é que estava certo, esse sujeito não presta, não presta.
Suzy troca olhares com Leopoldina que acena negativamente com a cabeça. Iriam contar sobre o estado de saúde de Bernardo.
Heloísa sofre ao se recordar dos momentos que viveu com Goram.
CENA 07/ SÃO PAULO/TATUAPÉ/CAMPUS ORLANDO MOÇA/RESTAURANTE UNIVERSITÁRIO/INTERIOR/TARDE
Goram termina de conversar com André num canto.
ANDRÉ – Cara, que história mais horrorosa, como este mundo é pequeno. Então o namorado de Marcela foi um dos responsáveis pela morte de seus pais?
GORAM – Nem eu acreditei quando vi, André. Goram ficou pertubado.
ANDRÉ – Eu fico tentando imaginar como você digere todas essas bombas, tem que ter muito sangue de barata mesmo. Você realmente vai para cama com seu irmão?
GORAM – Nunca. Eu dopo aquele maldito antes. Minha vontade às vezes é colocar veneno de rato na bebida dele.
ANDRÉ – Eu não te julgaria não, depois de tudo que ele fez. Matar os próprios pais, velho. E o que você vai fazer em relação ao caminhoneiro? Vai abrir os olhos de Marcela, sim, porque ela não pode dormir na mesma cama do que ele.
GORAM – Goram ainda não sabe como proceder. Ele tem que pensar que está me vigiando. Não posso dar um passo em falso.
Eles se aproximam dos estudantes da mesa, quando Marcela chega animada acompanhada de José. Goram engole seco.
MARCELA – E aí gente, quem aí tá dominando biomol e poderia me dar uma mãozinha?
Goram observa os dois com náusea.
CENA 08/ SÃO PAULO/MORUMBI/DELEGACIA DA MULHER/INTERIOR/SALA DE VISITA/TARDE
Cacau acompanhada de Guto e Dr. Alembert, aguarda ansiosa a presença de filha. A porta se abre, a carcereira anuncia.
CARCEREIRA – Dez minutos!
Fabiana entra, a câmera não mostra. Cacau solta um grito de pavor. Guto observa a namorada não acreditando. Fabiana estava com o rosto desfigurado de tanto apanhar.
CACAU – O que fizeram com você, minha filha? Pelo amor de Deus.
Guto se aproxima meio sem jeito e abraça a namorada que chora.
FABIANA – Eu só quero sair daqui.
DR ALEMBERT – Já entrei com pedido, logo mais devem te soltar.
FABIANA – Por favor, eu tenho medo de morrer aqui dentro.
CACAU – Para filha, não fale mais nada. Se não eu não vou aguentar.
As duas se abraçam emocionadas e choram alto. Guto assiste a cena comovido.
CENA 09/SÃO PAULO/TATUAPÉ/ESTACIONAMENTO HOSPITAL ORLANDO MOÇA/TARDE
Mateus reassiste o vídeo de Araponga entrando de cigana e saindo do vestuário no hospital a partir do visor de seu carro.
MATEUS – Quem é essa mulher?
Ele então percebe que uma sombra passa a poucos metros de seu carro. Ele se vira e percebe que era ninguém menos que Araponga que saía do hospital indo em direção a entrada do estacionamento. Instrumental catastrófico.
MATEUS – Não é possível…Mas é bom demais para ser verdade.
Ele observa em silêncio, ela entrar num uber e manda uma mensagem para Daniela, avisando que vai entrar. Ele a segue com o carro.
CENA 10/SÃO PAULO/HOSPITAL/ENFERMARIA COLETIVA/INTERIOR/TARDE
Rita reflete sobre o quadro de Tiffany. Larissa e Giovana abordam a doutora.
LARISSA – Conseguiu descobrir mais alguma coisa?
RITA – Ainda não. Para mim tá faltando história, não consigo juntar os elementos num caso clínico só. Ela tem síndrome de Balint, mas não há tumores, acidentes vasculares ou má formações, nem sintomas de alzheimer precoce que aponte uma etiologia.
Então, nesse instante, a cozinheira chega trazendo o almoço, em sua camiseta vemos o símbolo de uma lanchonete com um cachorro quente de slogan. Os olhos de Rita parecem querer saltar. EUREKA!
CENA 11/SÃO PAULO/VILA MADALENA/EDIFÍCIO DE ADELAIDE/EXTERIOR/FINAL DA NOITE
Goram desce da bicicleta e percebe do outro da rua que disfarçadamente José o vigia.
GORAM – Maldito! O que é seu está guardado.
CORTE DESCONTÍNUO
Ele abre a porta do elevador e se aproxima para abrir a porta da casa da tia, mas Themise abre a porta antes. Ele percebe que Akiko estava a sua espera.
GORAM – Mas o que esse velho tá fazendo aqui? Como é que o senhor descobriu onde minha família mora?
AKIKO – Não esqueça que eu tenho o seu sangue, muito mais do que qualquer pessoa aqui.
THEMISE – Eu tentei fazer ele embora, mas…
AKIKO – Mas eu fiquei.
GORAM – O que Akiko quer? Já não basta ter chantageado Goram durante todo esse tempo? Se veio aqui me pedir aquele dinheiro, você pode…
AKIKO – Giovaninho não me trate assim. Olha, eu prometo que vim em missão de paz. Podemos conversar a sós.
GORAM – Themise sabe de tudo, pode falar na frente dela.
AKIKO – Você sabe das ameaças que Mateus me fez e depois daquela violência toda no jantar. Eu estou com medo do que ele possa fazer comigo. Estou disposto a esquecer do dinheiro se você me ajudar a esconder.
GORAM – Que história é essa?
AKIKO – Me deixe ficar aqui, é o último lugar que ele procuraria. Até toda essa história baixar.
Goram respirou fundo, trocando olhar com Themise.
CENA 12/SÃO PAULO/CENTRO/APARTAMENTO DE ARAPONGA/INTERIOR/ENTARDECER
Araponga chega e abre o apartamento. Respira fundo. Ela tira os sapatos e abre a janela encarando a paisagem. Senta na cama, pegando o porta-retrato deles, abraça. Não percebe que deixou a porta entreaberta.
ARAPONGA – Ah, meu Galalau que bom que você está se recuperando.
– ENTÃO É VOCÊ!
Ela se levanta de sobressalto, assustada.
ARAPONGA – Por Maíra e Macunaíma. O quê está acontecendo aqui?
Os olhos de Mateus se fixam coléricos no porta- retrato.
MATEUS – Então é você a verdadeira amante do meu ex-noivo, é você é bisca, é você!
Close no rosto de Araponga desesperada
CONTINUOU…





