O sangue espalhava-se, tingindo todo o caminho de pedra. E sob a luz do luar, os ladrilhos úmidos reluziam como jóias preciosas.
Parte I
Patrícia olhava pela janela do carro e via a paisagem rural passar lentamente. Suspirou. Poderia estar com as amigas, passeando na praia, jogando em seu computador ou videogame, mas nãoooo… Estava ali, enfurnada no veículo contra a própria vontade. Aquela viagem era a última coisa que gostaria de fazer em suas férias.
— Pai, por que me trouxe junto? Podia ter me deixado em casa…
— Já tivemos essa conversa e eu não vou mudar de ideia, Paty. — Suspirou. — Sabe que não gosto de te deixar sozinha, não acho seguro.
A garota bufou. Desde que sua mãe morrera, anos atrás, o pai se tornara um paranóico com a segurança da filha. Geralmente quando ele viajava a menina ficava com a tia, mas a mesma estava muito ocupada para cuidar dela, então a Patrícia não tivera escolha senão ir.
Tornou a olhar para fora da janela, resmungando. Seu pai costumava trabalhar apenas no Rio de Janeiro, onde moravam, mas aquele caso fora uma exceção. O homem era nativo de Minas Gerais, e um parente havia pedido para que o ajudasse com assuntos jurídicos, então agora se deslocavam para longe das lindas paisagens litorâneas.
Mais de seis horas de viagem, tudo por onde passavam eram terras agropecuárias e mato pra tudo quanto é lado, um tédio total. Quando nenhum dos dois aguentava mais permanecer dentro do veículo, foi um alívio ver o pórtico de pedra em forma de arco, contendo uma placa com o nome da cidadezinha: Vista Bela.
Patrícia rolou os olhos, mas seu pai deu um sorriso nostálgico, relembrando suas peripécias de infância na cidade. Não demorou mais que alguns minutos até que parassem diante de uma bela casa com um bem cuidado jardim frontal. Uma mulher esguia foi recebê-los, lançando um sorriso aliviado para o homem.
— Muito obrigada por ter vindo, Gui.
Guilherme sorriu e abraçou sua prima.
— Sabe que eu não a deixaria na mão, Carla. Sinto muito pelo que houve.
— Acontece, nem todo casamento dá certo, não é?
Aquele era o motivo da longa viagem. Carla estava se separando de seu marido e precisava de um advogado para acertar os procedimentos legais. Infelizmente não tinha dinheiro para contratar nenhum profissional, então se viu obrigada a pedir ajuda. Sua sorte era que o primo era um homem generoso que se dispusera a viajar toda aquela distância para ajudá-la, e sem cobrar nada.
Patrícia não estava interessada, de qualquer forma. Deu uma olhada na casa. Era bonita, mas ela duvidava que tivesse Wi-fi. Teria que se contentar com a internet de seu plano telefônico. Carla finalmente pareceu notar sua presença e se aproximou com um sorriso nos lábios.
— Essa é a Patrícia, Gui? Minha nossa, como cresceu!
— Sim, está uma bela jovem — o pai disse com orgulho.
— Oi — a menina cumprimentou, meio sem jeito. Odiava reuniões familiares.
— Oi, lembra de mim? — A mulher perguntou. Paty fez uma careta e timidamente negou com a cabeça. — Ah, claro que não, você era muito pequena pra lembrar, mal havia saído das fraudas. Eu sou Carla, prima do seu pai. É um prazer revê-la — falou e já deu um beijo apenas na garota, que ficou confusa esperando o segundo. Diferença de costumes.
— Igualmente… — A menina respondeu por educação, já querendo fugir dos dois adultos.
— Vamos, devem estar cansados da viagem — a dona da casa os convidou a entrar.
Para a sorte de Paty, a casa não era tão grande, mas tinha dois quartos de hóspedes, o que lhe dava o privilégio de não ter que dividir o quarto com o pai e perder a privacidade. O cômodo era pequeno, simples e com poucos móveis. A menina ajeitou as roupas que trouxe na mala dentro do pequeno guarda-roupa e depois se jogou na cama. O colchão era mais confortável do que imaginara.
Algumas horas depois foi chamada para o jantar e, após a refeição, a menina preferiu se recolher no quarto e deixar os adultos resolverem os assuntos. Com certeza a prima não iria querer uma adolescente observando enquanto falava dos problemas pessoais. Era cerca de onze da noite quando seu pai apareceu, mandando que fosse dormir. Paty rolou os olhos. Estava de férias, pelo amor de Deus! Nenhum adolescente tinha horário para dormir nesse período.
No entanto, daquela vez a menina obedeceu. Estava cansada da viagem e as pálpebras pesavam. Foi até o banheiro, escovou os dentes e retornou ao quarto para dormir. Deitou na cama e o sono não tardou a embalá-la, junto com a estranha sensação de ouvir uma longínqua e suave canção de ninar…
Parte II
Os dias naquela cidadezinha eram enfadonhos. Guilherme estava ocupado tratando do processo junto a Carla, então na maior parte do tempo Patrícia ficava sozinha, trancada dentro do quarto. A adolescente estranhava a diferença daquele lugar com a cidade em que morava. O Rio de Janeiro era agitado, cheio de atrações, além das belas praias. E Vista Bela? Não parecia ter nada de interessante ali. Eram casas e mais casas, quase não se via estabelecimentos comerciais! Olhando para o horizonte, via-se morros e mais morros de um lado, áreas rurais do outro. O que mais chamava a atenção era um grande parque no centro da cidade, com um bosque protegido como reserva ambiental.
A internet do celular pegava razoavelmente bem, mas Paty se irritava porque à noite, sempre que suas amigas estavam disponíveis para conversar na madrugada, ela adormecia. Ô lugarzinho pra dar sono! Parecia até que o ar tinha algum sonífero!
— Não adianta ficar aí trancada o dia inteiro, todos os dias — o pai surgiu na porta.
— E o que quer que eu faça? — a jovem resmungou. — Não conheço ninguém daqui. Meus amigos estão todos a quilômetros de distância.
— Então vai conhecer alguém, oras. Tem uma cidade linda lá fora, ar puro… Sabe, também existem adolescentes no interior, porque não tenta fazer novos amigos? Na minha época não tínhamos esses brinquedos pra ficar teclando, a gente conversava cara a cara.
— Ai, pai, por favor, não começa com a conversa de “na minha época…”! — Paty gemeu. Quando o pai começava a discursar sobre as diferenças entre o passado e o presente, era insuportável.
— Vai fazer o que falei? — Guilherme deu um sorrisinho vitorioso.
— Vou — A menina bufou.
— Então levanta daí e vai dar uma volta.
Patrícia rolou os olhos, se levantou e saiu levando o celular. Caminhou por cerca de meia hora até estar entediada, parou em uma lanchonete para comer algo e foi até o parque. Não podia negar que o lugar era bonito, florido e bem cuidado. Seria um bom lugar para relaxar, mas não fazia o tipo dela.
Foi caminhando pelas estradinhas de pedra e parou diante da cerca que protegia o bosque. Apenas pessoas autorizadas podiam entrar no local, devido às leis de preservação. Paty se aproximou e segurou na grade de ferro, comprimindo seu rosto entre as barras para tentar enxergar algo do outro lado. Só via árvores e mais árvores tão juntas que o caminho entre elas era escuro em plena luz do dia.
— Sinistro, não é?
A jovem levou um susto que a fez bater com a testa no ferro. Massageou o local dolorido e se afastou, meio zonza e assustada, para olhar quem falara ao pé de seu ouvido. Uma garota ria, aparentemente da idade dela. Vestia roupas simples e possuía uma aparência comum, daquelas que não se presta atenção quando se anda na rua.
— Quem é você?
— Marina. — Ela estendeu a mão. — Prazer em conhecê-la, garota da cidade.
— Você sabe quem eu sou? — Patrícia estranhou, mas retribuiu o cumprimento.
— Aham, nossos pais são amigos de infância. Eu vi vocês chegando de carro, mas achei que nunca sairia de casa.
— É, meu pai também achou…
— Por que tanto olha lá pra dentro? — Marina apontou as árvores com o polegar.
— Ah, nenhum motivo específico… Só queria saber se tem algo ali.
Marina olhou para um lado, depois para o outro, e se aproximou dela com um ar cúmplice.
— Quer ver o que tem lá?
Patrícia franziu a testa e concordou com a cabeça. A outra jovem entrelaçou o braço no dela, como se fossem velhas amigas, e a puxou para caminharem ao longo da cerca.
— Mais adiante, tem um lugar por onde a gente pode entrar sem sermos vistas. Acha que consegue pular a grade?
— Eu… Não sei. — Paty olhou surpresa.
— Eu te ajudo.
Depois de alguns minutos caminhando, pararam perto de uma grande mangueira, cujos galhos frondosos sombreavam a área ao redor. Aproveitaram o tamanho da árvore para encobrirem seu delito, escalaram a grade de ferro e pularam para o outro lado. O coração de Patrícia batia forte no peito por estar entrando em uma área proibida, mas o sorriso nos lábios indicava que estava gostando de quebrar algumas regras.
— Por aqui — Marina chamou, virando à esquerda após uma amendoeira. — Quero te mostrar uma coisa.
A jovem seguiu a outra por entre as árvores, tropeçando em raízes e folhas secas, e, quando chegaram ao local, Patrícia ficou boquiaberta. Era uma pequena praça esquecida no meio do bosque. A grama e o limo cresciam entre e sobre o chão pavimentado. As pedras, de cores diferentes, formavam algum padrão circular desgastado pelo tempo e coberto de sujeira, com um lindo e antigo relógio de sol feito de pedra e bronze. Do lado oposto em que estavam, breves degraus ladrilhados levavam a um antigo coreto, com o teto parcialmente coberto pelos ramos de um salgueiro-chorão.
O gazebo era feito de madeira, pintado por uma tinta branca desgastada e descascando em alguns pontos. O telhado, com telhas de pedra, estava coberto de folhas secas e limo, e estava manchado em vários pontos devido a inúmeras chuvas. O chão parecia feito dos mesmos ladrilhos que compunham a escada, mas formava um padrão difícil de ver à distância e com a sombra que o salgueiro fazia sobre a construção.
— Que lindo! Que lugar era esse? Por que está tão abandonado?
— Ah, aqui era um lugar bem famoso antigamente. Chamavam de “Gazebo das Memórias” — Marina começou a explicar. — Quando o bosque ainda não era uma reserva ambiental, esse lugar era aberto ao público. Era aqui que as pessoas mais ricas da cidade faziam suas festas de casamento, diziam que era muito bonito… Por isso que chamavam assim, por causa dos momentos especiais que aconteciam aqui e tal… Mas aí aconteceu uma tragédia.
— Tragédia? Que tragédia? — Patrícia perguntou, cada vez mais curiosa.
— Um moço que ia casar… Na véspera do casamento dele, sua noiva sofreu um acidente e morreu. Ele ficou inconsolado e enlouqueceu. Uns falavam que ele começou a ouvi-la chamando por ele, um horror! Falaram até mesmo de um espírito o assombrando!
— Uau!
— O cara não aguentou o sofrimento, aí veio até aqui, onde eles iriam casar, e se matou ali mesmo, dentro do gazebo.
— Credo.
— Incrível, não é? — Marina sorriu. — Ninguém nunca mais celebrou nenhum casamento aqui depois disso. Depois que cercaram as árvores e proibiram as pessoas de entrarem, esse lugar foi esquecido.
— Sinistro.
Patrícia ficou curiosa, por que seu pai nunca contara aquela história? Talvez pensara que a jovem ficaria assustada se soubesse do caso mórbido, ou não quisesse que ela ficasse curiosa e decidisse investigar. Independente do motivo da omissão, lá estava a garota, no local do suicídio. A jovem caminhou devagar e se aproximou do gazebo. Estava escuro demais para ver os detalhes.
— Como foi que ele se matou? — perguntou enquanto tirava o celular do bolso e ligava o modo lanterna.
— Sei lá… Isso ninguém nunca me contou. Só sei que tinha sangue pra todo o lado! — Marina gesticulou um amplo gesto com os braços.
— Parece que eles limparam bem isso aqui… — Patrícia falou, notando que não havia resquícios do que acontecera. Subira os degraus até a parte de dentro e iluminou o chão, para enfim descobrir qual o misterioso padrão. — Poxa vida!
Era um mosaico maravilhoso. Os ladrilhos, conservados apesar de cobertos de poeira e terra, formavam o desenho de um belo e sereno anjo. Uma arte linda, que a jovem lamentava o abandono.
— Sempre me perguntei se foi esse lugar que inspirou aquela canção de ninar — Marina comentou, surgindo ao seu lado.
— Que canção de ninar?
— Sabe, aquela… “Se essa rua, se essa rua fosse minha, eu mandava, eu mandava ladrilhar”… Conhece?
— Conheço… — Patrícia murmurou. Por alguma razão, sentiu um arrepio e vontade de sair dali. — É melhor eu ir embora, meu pai deve estar preocupado comigo.
— Sei… — Marina olhou desconfiada. — Quer que eu te leve de volta?
— Quero sim, por favor — a outra jovem agradeceu a gentileza, desligou o aplicativo e guardou o celular antes de saírem dali.
Marina foi o caminho todo tagarelando de volta, enquanto Patrícia seguia pensativa. Mesmo após terem se afastado do local, ela ainda tinha uma sensação incômoda no peito que não compreendia. De frente à casa de Carla, as meninas trocaram seus contatos e prometeram se falarem e saírem juntas de novo.
O fim da tarde correu bem e Guilherme ficou feliz de saber que a filha fizera uma amizade. Patrícia, é claro, não contara o que a dupla aprontou, ou o que havia descoberto, não queria que o pai se preocupasse ou ficasse bravo com ela.
De noite, a jovem bem que tentou ficar acordada até tarde, mas assim que deu 23h, seus olhos começaram a pesar e ela se recolheu. Já estava em um sono leve quando ouviu o sino da igreja local acusar a meia noite.
E, somado ao som dos badalos, Patrícia dormiu embalada por uma estranha canção de ninar…
Parte III
Guilherme estava cansado. O dia fora cansativo e improdutivo. O ex-marido de Carla era um folgado e não estava disposto a colaborar com o caso. Passaram horas e horas em reunião com o ex-casal e os dois advogados e nada fora resolvido. Esperava ter um resultado melhor na presença do juiz.
Chegou a casa com a prima, praticamente carregando-a. Carla estava cansada e arrasada pelo desgaste emocional. Deixou-a no sofá e preferiu pedir comida para jantarem naquela noite. Olhou a filha e deu um sorriso. Parecia que estava se dando bem com a tal amiga, Marina, havia passado a tarde na casa dela. Era bom ver a menina se enturmando, sentia-se um tanto culpado de ter de arrastá-la junto consigo sem nem saber quando voltariam para casa, talvez somente no fim das férias.
Após o jantar, tomou um banho demorado, trocou mais umas palavras de consolo com Carla e decidiu se recolher. Pegou a foto que estava sobre o criado mudo e deitou na cama, passando o polegar delicadamente sobre o objeto. Era o retrato de sua esposa, Natália.
— Sinto tanto a sua falta… — Suspirou. — Queria que ainda estivesse aqui conosco…
Guilherme colocou a foto sob o travesseiro e adormeceu pensando na falecida companheira.*
Patrícia virou-se e acordou com um susto. Xingou baixo e massageou as nádegas, há quanto tempo não caía da cama? Resmungou e tateou em busca do celular, o achou debaixo do travesseiro. Apertou um botão e a tela de bloqueio se acendeu, mostrando as horas. Era 00:05h.
Guardou o aparelho no short e coçou as costas enquanto caminhava para fora do quarto. Estava com sede, então foi até a cozinha e bebeu um copo de água. Quando retornava aos seus aposentos, notou que a porta do quarto do pai estava aberta. Estranhou e foi verificar. O local estava vazio. Entrou no cômodo e notou que o celular estava ali, então não havia como contatá-lo.
Saiu do quarto e foi até a sala, o que a deixou ainda mais nervosa. A porta estava aberta e o portão também. Teria seu pai saído do nada? O carro não estava estacionado. Onde o homem fora? Andou até o jardim na esperança de vê-lo em algum lugar na rua, e o que ouviu a fez gelar a espinha.
“Se essa rua, se essa rua fosse minha
Eu mandava, eu mandava ladrilhar
Com pedrinhas, com pedrinhas de brilhante
Para o meu, para o meu amor passar…”
A canção de ninar que Marina mencionara. A música que ela tinha a impressão de ouvir todas as noites antes de dormir desde que chegara ali. No entanto, havia um detalhe que a assustava mais que os demais…
Era a voz de sua mãe.
*
Guilherme não se lembrava de como chegara ali, tampouco sabia onde estava. Olhou ao redor, completamente confuso. Era madrugada e estava tudo escuro, mal conseguia enxergar. Estava em algum lugar no meio do mato, cercado de árvores para todos os lados. Pôs a mão sobre a testa, sentia-se zonzo. Teria sofrido algum tipo de episódio de sonambulismo?
Um som melodioso chamou sua atenção e o fez arregalar os olhos. Aquela voz… Ele reconhecia aquela voz! Apressou-se na direção, aflito. Aquilo só podia ser um sonho, aparecer ali e ainda ouvir a canção de alguém que já se fora…
Era real. Guilherme parou próximo ao relógio de sol, estarrecido, e seus olhos encheram-se de lágrimas. Ele via o local bem arrumado, lamparinas iluminando e flores adornando o gazebo. E ali, no centro do coreto, estava um belíssimo ser, vestido de branco e com lindas e alvas asas emplumadas. Todavia, não era um anjo qualquer…
— Natália? — o homem sussurrou emocionado.
A mulher alada sorriu, continuando a cantar, esticou o braço para frente e gesticulou com o indicador para que ele se aproximasse. Hipnotizado, Guilherme obedeceu de imediato. Um riso incrédulo escapou de seus lábios conforme ele sorria largamente. O anjo o recebeu com um olhar doce e o homem se esticou para tocar o belo rosto angelical. Quando os braços da mulher o envolveram, uma lágrima escorreu por sua face.
*
“… Nessa rua, nessa rua tem um bosque
Que se chama, que se chama Solidão
Dentro dele, dentro dele mora um anjo
Que roubou, que roubou meu coração…”
Patrícia corria o máximo que podia, pois sabia que talvez a vida de seu pai dependesse daquilo. Ela lembrava-se de quando sua mãe cantava aquela cantiga de ninar enquanto ainda era viva. Naquela noite, porém, a canção soava com um toque macabro. Um homem morrera antes naquele gazebo, e ela tinha o péssimo pressentimento de que Guilherme corria um grave perigo.
Sem se importar em ser vista ou na própria segurança, Paty escalou a grade metálica e caiu na hora de descer do outro lado. As mãos e joelhos ardiam escoriados, mas ela tornou a correr tentando seguir pelo caminho que lembrava levar ao local. A música continuava a soar, com a voz cada vez mais próxima e distorcida.
Antes de tudo, ela viu o vermelho.
Patrícia parou de súbito e prendeu a respiração, olhando para o chão. Seus olhos seguiram lentamente, absorvendo cada detalhe como se estivesse em câmera lenta. O sangue espalhava-se, tingindo todo o caminho de pedra. O rastro subia pelos degraus, escorrendo de dentro do gazebo, e, sob a luz do luar, os ladrilhos úmidos reluziam como jóias preciosas.
Alguma coisa estava ali. Algum ser medonho, maligno e antigo. A jovem sentia o cheiro da podridão e a energia pesada contaminando o ar. Algo se escondia nas sombras do coreto. A cantiga parara. Agora, sem a melodia para atrapalhar, Patrícia ouvia o ser faminto se alimentando de alguma coisa.
Cometeu um erro ao recuar um passo. O som das folhas secas amassadas por seu pé atraiu a atenção do ser. A criatura virou-se em sua direção e a encarou. Seu rosnado ecoou pela clareira e Patrícia viu algo grande ser jogado em sua direção. Afastou-se e algo aterrissou pesadamente à sua frente. A jovem soltou um grito ao ver o que era.
Guilherme tinha o peito dilacerado. Algumas costelas estavam à mostra sob a carne mastigada do tórax e o sangue tingia-o inteiro como uma obra de arte do horror. Não havia coração. Seu rosto, em contraste ao estrago em seu corpo, exibia um sorriso nos lábios e uma expressão de serenidade.
Patrícia vomitou e se afastou chorando, com os lábios tapados por uma mão. Estava em choque, não conseguia acreditar que seu pai estava morto diante de si. No entanto, o ser ainda estava ali e se aproximava. Ergueu os olhos e viu algo sair do gazebo.
A carne pútrida colava-se às mãos ossudas com dedos repletos de imensas garras negras e afiadas, que impulsionaram o corpo cadavérico para fora. Asas escuras e encardidas brotavam rudemente das costas, com plumas quebradiças que se desprendiam de forma doentia a cada movimento. Não havia pelos no corpo desnudo, nem cornos em sua cabeça careca. O demônio desceu os degraus de quatro e arrastou-se sinistro até o círculo de pedras. Seus olhos vermelhos e injetados estavam fixos em Patrícia. A face cadavérica deformou-se quando a boca repleta de dentes se abriu e soltou um lamento horrível e destoante.
A jovem correu dali, não queria deixar o corpo de seu pai, mas o instinto de sobrevivência falou mais alto. Ouvia aquela melodia deturpada e sentia que o ser tentava encantá-la, mas o feitiço fora quebrado ao ver sua forma real. Tudo o que restava a Patrícia era tentar escapar com vida.
Ela corria e corria, sentindo o ser diabólico arrastando-se atrás de si. Choramingou quando viu a grade de ferro ao longe. Pensou que conseguiria fugir. Saltou e agarrou as barras, impulsionando-se para cima. Quando estava no topo da grade, prestes a saltar para fora, sentiu algo agarrar seu pé e puxá-la com violência.
Patrícia foi jogada de costas no chão, batendo a cabeça em uma pedra. A visão nublou-se por um momento e, antes que pudesse tornar a enxergar, sentiu uma dor lancinante no peito. Sangue fluiu de imediato pelos lábios, e a última coisa que a jovem ouviu foi:
“Se eu roubei, se eu roubei seu coração
Tu roubaste, tu roubaste o meu também
Se eu roubei, se eu roubei teu coração
É porque, só porque te quero bem.”
— FIM —





