CENA 01: ESCOLA, EXTERIOR, MANHÃ.
DAVI: – Quem é você? Porque tá chorando?
Marina sorri timidamente em meio as lágrimas que escorrem de seus olhos. Com as mãos trêmulas, ela aproxima-se lentamente do rosto de Davi e o acaricia. O menino não entende nada, apenas observa atentamente a mulher. No impulso materno, Marina abraça Davi.
MARINA: – Meu filho!
Davi estranha ao ouvir aquilo e se afasta de Marina, que limpa as lágrimas.
DAVI: – Eu não sou teu filho.
Marina fica pasma e Davi corre para dentro da escola. Ela chora compulsivamente ajoelhada no chão, lembrando-se de João em muitas situações.
CENA 02: FUNDAÇÃO DE PESQUISA AO CÂNCER, BOSTON EUA, INTERIOR, MANHÃ.
Heloisa, Ricardo e Pietra entram na Fundação. Pietra se impressiona com o tamanho da fundação, assim como Heloisa e Ricardo estão esperançosos por estar no local. Eles vão até a sala do Dr. Morvan, especialista em genética que se dedica ao tratamento de câncer.
MORVAN: – Bom dia! Sejam bem-vindos! Em que posso ajudá-los? em inglês.
RICARDO: – Bom dia, Dr. Morvan. Meu nome é Ricardo Trajano, essa é minha esposa Heloisa e essa é nossa filha, Pietra. Nós viemos do Brasil em busca de ajuda especializada, pois a Pietra sofre de osteossarcoma. em inglês.
MORVAN: – Ok. Vocês trouxeram os exames de Pietra e o grau de limitações que ela possui? em inglês.
HELOISA: – Sim. Até o momento, sabemos que ela já possui muitas dores nas articulações e também um sistema cardíaco mais fragilizado para atividades físicas. em inglês.
Ricardo entrega uma pasta de exames que fez com Pietra durante seus 7 anos de vida para Dr. Morvan analisar com atenção. Heloisa e Ricardo ficam apreensivos.
MORVAN: – Bom, eu não entendo o português, então vou precisar da ajuda de um tradutor. Deixem os exames comigo, irei analisar com calma e na próxima consulta darei a resposta. em inglês.
Heloisa e Ricardo compreendem, se despedem do geneticista e saem da sala com Pietra. No corredor, Ricardo vê uma placa dizendo que há uma sala para recreação de crianças.
RICARDO: – Filha, você quer conhecer crianças que tem a mesma aparência física que você?
PIETRA: – E existem crianças parecidas comigo?
HELOISA: – Claro! Vamos conhecê-las?
Pietra aceita e caminha de mãos dadas com Heloisa e Ricardo na sala de recreação.
CENA 03: FUNDAÇÃO DE PESQUISA AO CÂNCER, SALA DE RECREAÇÃO, BOSTON EUA, INTERIOR, MANHÃ.
Heloisa, Ricardo e Pietra encontram uma sala cheia de brinquedos, com o chão emborrachado e uma pequena recepção para os pais ficarem. Há três crianças com que brincam com uns quebra-cabeças no chão, são dois meninos e uma menina. Heloisa e Ricardo se emocionam ao ver aquelas crianças, que já usam óculos e um deles possui até bengala. O menino levanta-se com dificuldades e se aproxima deles com sua bengala, sorridente.
STEVEN: – Oi! Você é nova aqui? Quer brincar com a gente? em inglês.
PIETRA: – Eu não sei falar inglês. O que ele disse?
HELOISA: – Ele perguntou se você quer brincar com eles.
PIETRA: – Ah, diz que eu quero sim!
Heloisa e Ricardo sorriem. Pietra vai até a mesa com Steven e as outras duas crianças. Os quatro brincam com o quebra-cabeça e se divertem com a falta de entendimento entre o inglês e o português. Heloisa e Ricardo sentam no sofá e observam o entrosamento de Pietra com as crianças e é inevitável as lágrimas que escorrem de seus olhos.
CENA 04: PENSÃO TITITI, QUARTO DE GEAN, INTERIOR, TARDE.
Gean e Vanessa estão sentados na cama, conversando.
GEAN: – Então, você vai morar fixo aqui?
VANESSA: – Vou, a Antonia aceitou. Tive medo que ela recusasse por causa da rixa com a mamãe.
GEAN: – Se tratando de dinheiro, a Antonia jamais recusaria. Poxa, vai ser muito bom morar no quarto ao lado do teu… vamos poder nos ver sempre!
VANESSA: – Deixa de ser safado! A gente não tem nada sério…
GEAN: – Mas assim que é gostoso! Esse negócio de fidelidade e rotina não é coisa de gente moderna, xô monotonia!
Vanessa sorri e Gean a agarra, joga na cama e deita em cima dela, dando um beijo de tirar o fôlego. Sem nem hesitar, eles tiram a roupa transam ousadamente no quarto, com as janelas abertas e a porta entreaberta. Correr o risco de serem flagrados deixa o sexo ainda mais prazeroso na visão deles, que transam muito sem pensar em mais nada, extremamente atraídos e envolvidos.
CENA 05: CASA DA FAMÍLIA AMARAL, INTERIOR, TARDE.
Miguel está chegando em casa com Davi em seus ombros, que dá altas risadas. Luiza seca as mãos após lavar a louça e aproxima-se deles, pegando Davi no colo.
LUIZA: – E então, como foi a aula?
DAVI: – Foi boa! Só que aconteceu uma coisa esquisita. Uma mulher me abraçou na frente da escola hoje e eu nem conhecia, começou a chorar e me chamou de filho.
Luiza e Miguel ficam pasmos com a revelação de Davi, que desce do colo da mãe e vai para o quarto com sua mochila.
MIGUEL: – Não é possível… Só pode ser aquela tal de Marina Amorim!
LUIZA: – Ai meu Deus, vai começar o inferno… Como ela descobriu a escola do Davi?
MIGUEL: – Só pode ter sido aquele geneticista ou alguém nos seguiu. Nós não podemos admitir que o Davi passe por uma situação como essa.
LUIZA: – Eu tenho tanto medo, Miguel… Eu tenho pesadelos só de pensar que o Davi pode ser fruto mesmo de uma troca de embriões. Eu não vou aceitar isso!
Luiza começa a chorar e Miguel abraça a esposa.
CENA 06: MANSÃO DA FAMÍLIA AMORIM, QUARTO DE MARINA E IVAN, INTERIOR, NOITE.
Marina e Ivan estão deitando na cama para dormir. Eles seguram um à mão do outro, apenas com o abajur iluminando o quarto.
IVAN: – Marina, eu notei que você está distante. Aconteceu alguma coisa?
MARINA: – Aconteceu sim e você não vai acreditar. Eu encontrei o Davi!
IVAN: – O quê? Você esteve com o nosso filho? Quando? Onde? Porque não me avisou!
MARINA: – Calma, foi tudo de repente! Eu fui até a casa dele e vi o Miguel saindo com o Davi, aí eu segui e vi que eles foram à escola. Quando o Miguel foi embora, eu fui até o nosso filho. Foi lindo, Ivan, eu falei e toquei nele! O abraço do Davi é tão aconchegante quanto o abraço do João, eu desabei em lágrimas!
IVAN: – Nossa, que incrível! Eu também queria ter conhecido o Davi, ter tocado nele… Eu sinto que esse filho vai mudar a nossa vida, Marina! Hoje eu me peguei pensando: será que Deus existe? A gente brigou com Deus depois que o João morreu, mas agora a gente encontra o Davi. Será que é um aviso da existência de Deus?
MARINA: – Será, meu amor?
Marina e Ivan ficam desconfiados, com a fé sendo colocada a prova.
CENA 07: HOTEL, BOSTON EUA, INTERIOR, NOITE.
Heloisa, Ricardo e Pietra estão deitados na enorme cama que há no quarto de hotel.
RICARDO: – E aí, filhinha, tá gostando de Boston?
PIETRA: – É uma cidade bem bonita, não é calor nem frio, tem parques tão aconchegantes! Tô gostando muito sim, papai.
HELOISA: – E da fundação? Você gostou?
PIETRA: – Muito! Eu fiquei tão feliz em saber que não sou a única criança com essa aparência. Hoje foi o primeiro dia que eu me senti parte do mundo.
Heloisa e Ricardo se olham, aflitos com o que Pietra disse. A menina vai ao banheiro e os pais aproveitam a oportunidade para chorarem.
HELOISA: – Essa exclusão que a Pietra sofre, é agoniante pra mim!
RICARDO: – A ditadura da beleza destrói qualquer autoestima que uma pessoa pode ter quando não se encaixa no padrão da moda. Fora o preconceito e a ignorância das pessoas que não compreendem os problemas dos outros.
HELOISA: – Se essa viagem não for útil pra salvar a vida da nossa filha, pelo menos já valeu por ela ter conhecido crianças com a mesma limitação dela e percebido que ela faz parte do mundo.
Ricardo concorda e abraça Heloisa. Pietra sai do banheiro e retorna a cama, dormindo abraçada com seus pais.
CENA 08: DIAS DEPOIS.
Luiza e Miguel seguem suas vidas com Davi, apreensivos com o que o casal Amorim poderia fazer. Marina e Ivan estão angustiados, esperando um novo encontro com o casal Amaral e de terem contato com Davi. Heloisa e Ricardo seguem em Boston para o tratamento de Pietra, que está se sentindo muito feliz em conviver com crianças que possuem a mesmo câncer dela. Paula e Vanessa seguem na Pensão, revoltadas com a pobreza. Gean se encontra às vezes com Vanessa, sem Paula e Antonia saberem.
CENA 09: PENSÃO TITITI, QUARTO DE PAULA E VANESSA, INTERIOR, MANHÃ.
Paula está fazendo as unhas de Vanessa, todas enfeitadas e delicadas. É quando Antonia entra no quarto sem bater.
PAULA: – Que isso? Que invasão é essa?
ANTONIA: – Vim cobrar o aluguel. Cadê a grana?
PAULA: – Mas já? A gente nem completou um mês aqui, Antonia!
ANTONIA: – Eu cobro o aluguel de todos os moradores no mesmo dia, então, vocês têm que pagar. Vamos, eu não tenho todo tempo do mundo, deem o dinheiro logo!
Paula para de fazer as unhas de Vanessa e pega o dinheiro na bolsa, entregando para Antonia.
ANTONIA: – Tá faltando vinte reais, sua avarenta!
PAULA: – E os vinte reais que você arrancou das mãos da Vanessa quando ela ia comprar o cachorro-quente? Tá valendo pro aluguel…
ANTONIA: – Não mesmo! Aquilo foi um extra pelos dias que vocês ficaram provisoriamente! Você não me enrola, Paula, dá vinte reais!
PAULA: – Eu não acredito que eu tô passando por isso, Jesus Cristo… Tá bom, eu dou esses malditos vinte reais, sua trambiqueira!
Antonia se ofende, mas se cala após Paula dar vinte reais nas mãos dela. Antonia ri e sai do quarto.
VANESSA: – Eu gosto da Antonia, mas ela é gananciosa demais!
PAULA: – É uma recalcada, mal-amada e insuportável! Você não imagina o quanto eu odeio morar nessa pensão chinfrim, ter que aguentar todos os dias essa louca me importunando, eu estou mais por baixo que tapete de “bem-vindo” na frente das casas.
VANESSA: – Ai mamãe, não fique assim! Um dia, a gente vai sair desse fundo do poço.
PAULA: – Sabe quando isso vai acontecer? No dia que você parar de dar bola pra esse zé-povinho do Gean e ir atrás de homens ricos! Esse vagabundo não vai te dar futuro nenhum, você precisa é fisgar um milionário pra bancar a gente!
VANESSA: – Falando assim, parece que a senhora quer me transformar numa prostituta!
PAULA: – Você é linda, minha filha, qualquer homem de verdade cairia aos seus pés! Nessas boates pobres que você frequenta, você só vai encontrar homens que se vestem mal, que te levam pra um motel de beira de estrada caindo aos pedaços ou então vão atrás de uma moita qualquer, te pagam uma cerveja da pior marca e ainda espalham pra redondeza inteira que te “pegou”. Agora, se você frequentar restaurantes finos, você vai conhecer homens que se vestem com roupas de marca, te levam ao apartamento particular num condomínio de luxo, te pagam um jantar com os pratos mais chiques e caros, e te dão joias! Não seja boba, Vanessa, saiba jogar na vida! Não desperdice tempo com “Geanzice” da vida, vá atrás do seu futuro!
Paula volta a fazer as unhas da filha, enquanto Vanessa fica balançada com o que a mãe disse, pois sempre sonhou em sair daquela vida.
CENA 10: PENSÃO TITITI, INTERIOR, MANHÃ.
Antonia desce as escadas e chega à sala, onde Vera e Gean estão assistindo TV. Ela para em frente ao aparelho, atrapalhando a visão dos hóspedes.
VERA: – Dá licença, Dona Antonia? Estou vendo a receita na TV!
ANTONIA: – Por quê? Você nem sabe cozinhar! Eu vim cobrar o aluguel.
VERA: – Eu mereço… Nem vou discutir, vou dar logo o dinheiro.
Vera abre a bolsa e dá para Antonia o aluguel. Ela caminha em direção à cozinha, quando Vera estranha ela não ter cobrado Gean.
VERA: – Dona Antonia, a senhora não vai cobrar o Gean?
ANTONIA: – Depois.
Antonia abre um sorriso lascivo, olhando com segundas intenções para Gean sentado no sofá, que fica calado e percebe a indireta. Vera fica intrigada e pensativa.
CENA 11: FUNDAÇÃO DE PESQUISA AO CÂNCER, BOSTON EUA, INTERIOR, MANHÃ.
Heloisa e Ricardo estão na sala de Dr. Morvan, enquanto Pietra está na sala de recreação com outras crianças.
MORVAN: – Eu analisei os exames que a Pietra fez no Brasil. O estado de saúde dela não é muito bom, mas também não é péssimo. em inglês.
HELOISA: – E isso significa o quê, doutor? A câncer da Pietra está em que nível? em inglês.
MORVAN: – A Pietra adquiriu problemas de saúde relacionados aos ossos, justamente pelo nível do câncer. Dores nas articulações, pequenas fraturas, problemas cardiovasculares já se manifestaram, mas é possível que novos problemas surjam. em inglês.
RICARDO: – E como nós devemos prosseguir a partir de agora, Dr. Morvan? em inglês.
MORVAN: – Primeiro, vocês devem registrar a Pietra na fundação. É importante para o estudo que todos os casos mundiais do Osteossarcoma sejam registrados aqui, assim podemos tratar com eficácia e analisar a vida e a genética dos portadores. em inglês.
HELOISA: – Ok. E medicação? Existe algo específico a esta síndrome? em inglês.
MORVAN: –Nossos estudos são recentes, tivemos poucos avanços, mas já são significativos. A medicação da Pietra devemos realizar algumas alterações. Vamos iniciar com os inibidores de quinase. Os inibidores de quinase agem para bloquear uma proteína que sinaliza o crescimento das células cancerosas. A terapia de anticorpo monoclonal usa proteínas especiais que se conectam às células cancerosas para matar as células ou diminuir o crescimento celular. Claro, não vamos esquecer da quimioterapia que é essencial. em inglês.
RICARDO: –. Nós gostaríamos de algumas recomendações do senhor para melhorar a qualidade de vida da Pietra pelo tempo que ela viver. em inglês.
MORVAN: – A Pietra deve viver como qualquer outra criança. Brincar, estudar na escola, ter amigos, rir e chorar. Ela precisa viver em sociedade, criar laços de afeto. A Pietra possui limitações impostas pelo Osteossarcoma, mas não impedimentos. Ela deve viver conforme suas limitações, mas jamais se anular. em inglês.
HELOISA: – A Pietra tem uma baixa autoestima, isso me preocupa. Eu e o Ricardo temos receio em dar liberdade a ela para o mundo, pois não queremos que ela sofra com preconceitos e ignorâncias. em inglês.
MORVAN: – Vocês não podem pensar assim, a Pietra precisa passar pelas experiências que todas as pessoas passam. Mostre as belezas da sua filha, incentive as potencialidades dela, permita que tenha amigos e viva normalmente em sociedade. Se vocês impedirem isso, então os preconceituosos são vocês, mesmo que sem intenções. em inglês.
Heloisa e Ricardo ficam tensos com as declarações de Dr. Morvan e seguem conversando sobre o futuro de Pietra.
CENA 12: JARDIM BOTÂNICO, EXTERIOR, MANHÃ.
Em Curitiba, o dia está ensolarado. Luiza, Miguel e Davi passeiam pelo Jardim Botânico e se divertem tirando fotos, conversando e comendo sorvete. Davi está com sua bola de futebol, chutando pelo jardim, enquanto os pais caminham atrás. O menino dá um chute muito forte, que arremessa a bola ao longe e cai próxima a um casal. Davi corre até eles e, ao pegar a bola, reconhece a mulher: era Marina com Ivan.
Os três se olham, imóveis e intrigados. Ivan já reconheceu João em Davi e fica com os olhos marejados.
IVAN: – Qual é seu nome, menino? Tá sozinho aqui?
DAVI: – Eu me chamo Davi e estou com meus pais, por quê?
Marina e Ivan ficam apreensivos. Logo, Luiza e Miguel se aproximam e ficam pasmos ao encontrem o casal Amorim. Davi não compreende os quatro ficarem se encarando e calados.
DAVI: – Mamãe, foi essa mulher que me abraçou e me chamou de filho na frente da escola.
Luiza e Miguel observam Marina e Ivan com tensão, enquanto Davi tenta entender a situação na sua inocência.





