VOZ EM OFF- HARUKA:

 

Por muitos anos eu me senti tentada em conhecer mais a fundo o oculto e o desconhecido. Herdei um dom extraordinário, um dom que nem todas as pessoas conseguiriam lidar com ele.

 

Vemos Haruka em uma universidade por volta de 30 anos de idade, fazendo pesquisas na biblioteca, na internet e outros artigos.

 

Eu via coisas, sentia coisas, e queria achar explicações lógicas para as coisas que eu estava vendo. Queria ter um conforto, um afago, um “tá tudo bem não ser igual todo mundo”, qualquer coisa que ajudasse.

Comecei a procurar, vi os casos daquele casal paranormal, os Warren. A possessão de Enfield, a família Perry, Amityville, eu comecei a crer que de fato eu não era a única a ter esse dom.

Mas foi aí que eu de repente descobri que havia um caso tão perturbador em meu próprio país. Uma mansão de uma família xintoísta. Mas até então, eu nunca havia entendido o motivo de ninguém nunca ter encontrado o paradeiro desta casa ou simplesmente me davam as costas quando eu apenas mencionava o nome “Himuro”.

 

Vemos Haruka entregando um documento para uma pessoa e ela ignorando-a completamente como se não quisesse saber daquele assunto.

 

Senti que eu estava perdendo meu tempo, eu já não tinha mais os meus pais, eles faleceram antes de eu completar 30 anos, estava sozinha, por fim. Mas foi aí que eu vi a oportunidade de pela primeira vez estar mais perto de descobrir a mansão Himuro. Foi quando eu me envolvi no caso da “Boneca de Okiku”.

Não me envolvi diretamente, claro, mas soube de todos os pormenores dessa história. Okiku era uma garotinha que nunca se separava de sua boneca. Ela era feita de pano, com o rosto de cera, tinha cabelos longos e usava uma roupinha em forma de quimono.

Reza a lenda que a garotinha morreu de frio e que o espírito dela possuiu a boneca fazendo com que o cabelo dela crescesse de uma forma inexplicável.

Quando uma colega me contou sobre isso e me dizia que a filha dela tinha pesadelos com a Okiku, de uma forma que nem ela sabia, eu pesquisei mais sobre o caso e descobri onde a tal boneca se encontrava.

Eu fui até o Templo Manneji em Hokkaiso e a vi com os meus próprios olhos. De fato, o cabelo da boneca Okiku estava enorme. Soube que fizeram estudos científicos e o cabelo da boneca era cabelo humano.

Isso me deu uma ponta de esperança, mas como não havia a menor possibilidade de eu encontrar a famosa casa Himuro, decidi largar isso de mão.

Mas o meu interesse retornou dois anos atrás quando vi o caso da possessão demoníaca naquele asilo de freiras na Irlanda. Eu pensei comigo mesma: Preciso juntar as minhas economias e viajar pra Irlanda e conversar pessoalmente com a senhorita Olivia Brown, mas logo eu pensei: Por que ela iria querer revisitar todo esse inferno novamente?

Aquela pobre mulher deve ter passado maus bocados, uma simples enfermeira que lidou sozinha com uma manifestação demoníaca em um santuário sagrado, isso não é algo que acontece no dia a dia.

Eu cheguei a telefonar para o asilo Sta. Agatha no ano passado, mas toda vez que alguém atendia, eu me acovardava, e desligava em seguida.

Então depois de tudo isso, eu esqueci, apenas esqueci. Deixei pra lá toda essa história, fui desempenhar o meu papel pelo qual eu estudei pra me formar, mas… Sempre sabendo que uma hora… Algum dia… Eu estaria diante do oculto novamente…

E aqui estou eu!

 

Eu não sei ainda o motivo de ter sido escolhida para esta missão. Mas eu farei de tudo para salvar esses garotos, nem que seja a última coisa que eu faça na minha vida.


Haruka está de costas e podemos ver a silhueta de alguém atrás dela. Ela fica parada ainda sem reação, até ouvir um chamado:

— HARUKA-SAN!

— AAAAAAAHHHH!

Haruka cai, se rasteja pelo chão, segura novamente o atiçador e aponta para aquela suposta mulher.

— QUEM É VOCÊ? O QUE TÁ FAZENDO NA MINHA CASA?

— Perdoe-me pelos maus modos, não quis assustar-te.

Haruka estranha aquilo, se levanta aos poucos e fica com as mãos trêmulas.

— Eu vim pedir a sua ajuda, senhora Haruka, és a única capaz de ajudar.

— Eu, eu não entendo… Quem é você?

Aquela mulher finalmente sai da penumbra do corredor da sala e se revela para Haruka.

— Eu sou… Mino Himuro. E eu morri há 70 anos.

Haruka arregala os olhos sem acreditar no que está vendo.

— Não pode ser possível.

— Preciso da tua ajuda para descobrir as intenções da entidade da casa, senhora Haruka… Ou então… Os gêmeos estarão correndo perigo.


 

 

OPENING:

 


 

EPISÓDIO 5:

“AQUELAS PAREDES TAMBÉM CHORAM”


 

                     ATO I


 

MANSÃO DOS MIYAZAKI, QUARTO DE KATO

 

Kato está dormindo tranquilamente em seu quarto. Mei abre a porta devagar para observar a filha, e percebe que ela está bem.

Ela fecha a porta e seu marido está ali no corredor.

— Dormiu?

— Sim, dormiu.

— Graças a Deus. E os meninos?

— Devem estar deitados, mas duvido que já estejam dormindo. Querido, precisamos conversar, o comportamento dos nossos filhos está me preocupando muito.

— Ok, querida. Vamos para o quarto.

 

RESIDÊNCIA DA PROFESSORA HARUKA.

 

Haruka continua frente a frente com o espírito de Mino.

— Para a senhora descobrir como essa casa foi vendida aos Miyazaki. Precisa ir até Kyoto.

— Até Kyoto? Mas por quê? A mansão Himuro fica aqui.

— Mas foi de lá que a família Miyazaki veio, então eu sei que vai conseguir encontrar respostas na construtora onde o pai das crianças trabalhava.

— E como eu posso fazer isso?

— Pegue um trem amanhã cedo e não conte pra ninguém, nem mesmo para os gêmeos. A entidade ainda não sabe de você e até eu sei que você é uma potencial ameaça pra ela. Você pode fazer isso?

Haruka não tem outra escolha, terá que atender o pedido de Mino.


 

O dia amanhece, Haruka está entrando em um trem com destino a Kyoto. Ela senta em um dos bancos, coloca fones de ouvido e aguarda.

Quase 3 horas de viagem, ela finalmente chega a Kyoto. Desembarca, sobe pelas escadas rolantes, pesquisa as potenciais construtoras que Kaiba poderia ter trabalhado.

Ela chama um Uber pra ir em todas elas. Nenhum resultado, até finalmente chegar em uma específica. A construtora Katawari.

Já conversando com o gerente daquela construtora, um senhor magro de óculos e cabelos pretos, ele diz:

— Sim, sim, agora me lembro… O senhor Miyazaki, grande homem por sinal.

— Sou uma grande amiga da família, sabe? E agora como eles vivem em Tóquio, fica difícil eles virem até aqui fazer suas pendências.

— Ah sim, eu suponho que seja difícil mesmo. Mas o que deseja, senhora…?

— … Haruka Mori, e, bom, ainda não sou casada, então pode me chamar de “senhorita”.

— Certo, senhorita Mori, o que te trouxe de tão longe até aqui?

— Eu gostaria de saber… Quem fez a escritura da casa Himuro localizada nas áreas rochosas em Tóquio?

— Casa Himuro? Não sei do que se trata.

— Um momentinho.

Ela pega uma fotografia de dentro de sua bolsa.

— Aqui está.

Ele apanha a foto e pega o óculos forçando-o a enxergar melhor.

— Olha, me desculpa, senhorita, mas… Nunca soubemos dessa casa por aqui.

— Mas isso não pode ser possível, o Kaiba disse que alguém vendeu pra ele por um preço bacana.

— Sim, de fato, soubemos que ele conseguiu uma casa em Tóquio, mas nós teríamos nos lembrado se tivesse sido esta casa.

— Mas… Eu não entendo.

— Já sei. Farei uma busca para a senhora, digo, para a senhorita, mas estou fazendo isso unicamente por se tratar de alguém próximo ao senhor Miyazaki.

— Muito obrigada, senhor!

— Eu já volto!

 

COLÉGIO YAMATO, TARDE.

 

Saori está esperando Kato sair da sua aula para voltarem para casa.

Kato se aproxima e dá mão pra ela.

— Oi, maninha. Como foi a aula hoje?

— Foi boa.

A professora se aproxima acelerando o passo.

— Com licença, senhorita! A senhorita é a irmã da Kato, né?

— Sim, sou eu mesma, algum problema?

— Não, nenhum problema, é que eu precisava ter uma conversa em particular contigo.

— Ah ok, eu… Ah, veja, Kato. Seu irmão está ali, vai lá com ele e me espera.

Kato vai correndo até Takeru e o abraça. A professora pega o papel com o desenho da Kato do bolso e mostra à Saori.

— Veja, a Kato fez esse desenho esses dias durante a aula de artes.

Saori pega o desenho e fica intrigada com aqueles rabiscos.

— Mas… O que é isso?

— Eu perguntei a ela do que se tratava e ela disse que… Esses dois são você e seu irmão.

— Mas… Por que estamos em uma cruz como se estivéssemos…?

— … Crucificados, sim.

— Não, não faz sentido isso.

— Mas a parte que mais me preocupou, é que eu perguntei pra Kato por que ela não tá nesse desenho? E ela me respondeu: Que ela não pode estar com vocês dois.

Saori fica intrigada. Ela olha Kato de longe ali com o irmão e fica estarrecida sem saber o que significa tudo isso.

 

CONSTRUTORA KATAWARI, KYOTO, JAPÃO.

 

Após uma longa espera, o gerente finalmente volta para conversar com Haruka.

— Peço mil perdões pela demora, senhorita. Não conseguimos saber quem foi o corretor que indicou a nova moradia do senhor Miyazaki, mas lembro que ele havia deixado as coordenadas da nova casa. Eu anotei aqui em um papel, caso tenha interesse.

— Ah sim, claro, muito obrigada, senhor, e desculpe incomodá-lo.

— Por favor, peço que tenha total discrição sobre isso, senhorita.

— Não se preocupe, estou bem calejada com isso. A propósito… Sabe onde tem uma biblioteca ou algum centro de informática aqui perto?

— Ah sim, claro, há dois quarteirões à frente, tem uma biblioteca.

— Certo, agradeço pela paciência, senhor. Até logo!

 

Haruka se levanta da cadeira e se retira do escritório da gerência. O gerente fica observando-a sair com os pensamentos permeando sua mente sem saber se fez a coisa certa passando essas informações, ou se ficou tão encantado com a beleza de Haruka, que não mediu esforços em ajudá-la.

Minutos depois, Haruka está na biblioteca sentada em uma mesinha com um computador fazendo umas pesquisas. Ela coloca as coordenadas do endereço onde aquele gerente passou pra ela, pra ver se coincide com a casa Himuro. Mas ela fica impressionada diante de algo que aparece na sua tela.

— Ai, meu Deus! Isso só pode ser uma piada.

 

Em Tóquio, os três irmãos Miyazaki estão no carro de Takeru voltando para casa. Kato está no banco de trás muito calada. Saori decide romper o silêncio.

— Kato… Você… Fez um desenho na sua aula de artes esses dias?

Kato continua a olhar pela janela e está muito distante.

— Kato?

— Que desenho, Saori?- Pergunta Takeru.

— A professora dela me mostrou um desenho estranho que a Kato fez de nós dois em uma cruz.

— Nós dois?

— Sim.

— Kato, irmãzinha, por que não responde pro seu mano o que tá acontecendo?

— Não é nada, eu só estou cansada. Preciso dormir.

Saori olha para Takeru, ele devolve o olhar e depois olha para o retrovisor, dizendo:

— Tá bom, maninha. Já estamos quase chegando e depois do almoço vamos todos dormir.


 

Após 1 hora, os Miyazaki terminaram de almoçar. Saori coloca Kato em sua cama. Apesar de ainda nem ser 3 horas da tarde direito, todos eles estão sentindo muito sono, mal estão conseguindo dormir à noite.

Kato adormece rapidamente. Em seguida, Saori vai para o seu quarto e também decide tirar um cochilo.

No quarto de Takeru, ele coloca o relógio em cima da cabeceira e também vai deitar.

Pela primeira vez, é possível que os irmãos consigam ter um período de sono em paz.

 

Entretanto…

 

 

ESTAÇÃO DE TREM DE KYOTO, 3:30 DA TARDE.

 

Haruka está entrando no trem com destino de volta a Tóquio. Ela se senta no banco e pega uns papéis de dentro da bolsa. São impressões das coisas que ela havia pesquisado. Ela folheia cada uma delas, repetidas vezes, e murmura consigo mesma.

Meu Deus, essa família inteira foi enganada. Eles precisam sair daquela mansão o quanto antes.

 

MANSÃO DOS MIYAZAKI- 6:30 DA TARDE.

 

Passamos pelo quarto de Kato e a pequena permanece adormecida tranquilamente. Em seguida, vamos para o quarto de Saori no qual ela parece não estar tão tranquila assim. Está agitada, parece estar tendo algum tipo de pesadelo, mas não consegue acordar.

No quarto de Takeru, o mesmo acontece. O rapaz se movimenta para um lado e para o outro, fica agoniado, começa a suar.

Voltamos novamente para o quarto de Saori, ela se debate várias vezes na cama, até por fim conseguir acordar como se algo a tivesse sufocando. Ela sente uma ardência no braço e quando puxa a manga de seu suéter, enxerga marcas de queimadura em formato de cordas em seus braços.

Saori arregala os olhos e quando está prestes a pedir ajuda, alguma força sobrenatural pega o seu cobertor e o arrasta de vez pra frente.

— Aaaaaaaaaaaaaah!! Takeru! Socorro!!

No quarto de Takeru, este de tanto se revirar, acaba caindo da cama. Ele acorda atordoado tentando encontrar o rumo de onde está, olha para o braço e vê a mesma marca de queimadura que aparecera no braço de Saori.

Ele ouve os gritos da irmã.

— TAKERU-KUN, SOCORRO!

— SAORI-CHAN!

Takeru se levanta, sai correndo pra fora do quarto. Chega ao corredor e encontra Saori ali, desesperada.

— SAORI, O QUE ACONTECEU?

Em prantos, ela responde.

— Tinha alguma coisa no meu quarto, eu juro que tinha, eu juro.

— Tá legal, eu acredito em você. Eu acredito.

Kato aparece no corredor.

— Mano, mana!

Takeru vai até ela e se abaixa na sua altura.

— Kato, você tá bem? Se machucou?

— Não, e o que houve? E por que vocês estão com essas marcas no braço?

— Takeru, a gente precisa sair dessa casa, por favor.- Se desespera Saori.

— Tá bom, tá bom. Sobe no meu colo, Kato. Vamos pra fora.

Os três irmãos descem as escadas. Já no hall de entrada, eles se aproximam da porta, mas por algum motivo, ela não abre.

Takeru forceja com a fechadura.

— Não, não, não pode ser possível.

— O que foi, Takeru?

— Tá trancada, não quer abrir de jeito nenhum.

— Não pode ser possível, ela destranca normalmente por dentro.

— Eu não estou conseguindo, me ajuda aqui!

Saori vai ajudar o irmão a tentar abrir a porta e todos os métodos falham. Kato, que até então só observava, diz:

— É a casa!

Saori e Takeru se viram pra ela e perguntam em uníssono:

— O QUÊ?

— A casa não vai deixar a gente sair!

 

CIDADE DE NIKKO, JAPÃO- 19H.

 

Haruka desce de um Uber, ela agradece ao motorista, tira o papel de sua bolsa, o encara e, em seguida, olha novamente para o lugar onde desceu e fica incrédula com o que descobre.

— Então era verdade mesmo. As coordenadas que o senhor Kaiba deixou era de um templo xintoísta.

Haruka fica impactada por estar diante de um templo xintoísta na cidade Nikko, que fica a 149 km de distância de Tóquio.

Ela hesita em entrar naquele lugar, mas depois pensa que essa será a única maneira de descobrir os segredos traiçoeiros da família Himuro.

Haruka passa pela porta, adentra ao templo. Nada ali é fechado, tudo está de muito fácil acesso, como se quisessem mesmo que alguém encontrasse.

Haruka usa a lanterna do seu celular para iluminar o local. Mais adentro, ela encontra uma porta grande com o desenho de Buda acima.

Ela consegue abrir essa porta e vai parar em uma espécie de santuário cheio de livros, pergaminhos, encantamentos, apetrechos para rituais, entre várias outras coisas.

Haruka anda vagarosamente por aquele projeto de biblioteca macabro tentando entender por que coisas tão profanas estão ali, dentro de um templo supostamente sagrado?

A situação parece ainda mais alarmante quando ela vê um cartaz em uma das paredes escrito: OS HIMURO VIVEM!

Aquilo estarreceu Haruka, se existe mesmo algum membro da família Himuro vivo, então certamente ele está utilizando alguma magia negra pra controlar as entidades que invadem a casa e afrontam as crianças.

Não contente em ficar apenas no conceito da dúvida, Haruka passa a mexer nos livros, nos pergaminhos, ela começa a revirar em tudo o que lhe parece ser pertinente pesquisar.

Ao olhar mais a frente, está uma mesa com um pedaço de papel amarelado estirado sob ela e do lado, há uma pena dentro de um pote de tinta.

Haruka se aproxima daquela mesa, ela percebe que aquela tinta estava fresca, supostamente, não tinha muito tempo que alguém havia utilizado aquele lugar. Pega a pena, cheira a tinta, e como uma boa professora e historiadora, percebe que realmente é uma tinta utilizada na era vitoriana.

Mas o que mais assustou Haruka, é o que realmente está escrito naquele pergaminho. Ela pega um outro papel com gravuras, podemos ver apenas umas cruzes e também umas cordas, ela vê gravuras de duas pessoas com os braços marcados. Naquele momento, ela começa a entender no tipo de coisa que está se metendo.

A mulher fica tão estarrecida tentando encontrar palavras em sua mente pra conseguir se expressar, que não percebe quando o espírito de Mino chega naquela biblioteca.

— Essa era uma das coisas, Haruka-san.

— Ahhh!! Você me assustou de novo, por favor, não faça mais isso.

— Senhora Haruka, você e as crianças precisam imediatamente romper o elo do mal com aquela casa antes que seja tarde demais!


 

MANSÃO MIYAZAKI, 19H20.

 

Kaiba e Mei estão chegando juntos do trabalho. Mei coloca a chave na fechadura, gira e abre a porta. Mas não esperava os seus três filhos praticamente avançando em cima deles desesperados para poder sair. Saori, Takeru e Kato gritam atônitos, respectivamente.

— POR FAVOR, DEIXA A GENTE IR EMBORA! POR FAVOR!

— A GENTE PRECISA SAIR DAQUI, PAI!

— MAMÃE, PAPAI, POR FAVOR! POR FAVOR!

 

Kaiba e Mei ficam completamente estarrecidos, o que poderia ter acontecido com os filhos deles pra ficarem dessa forma?


                    

                ATO II


 

NIKKO, JAPÃO.

 

Haruka continua naquele templo tentando entender a ligação daquele local com a mansão Himuro.

— Estou aqui pensando o que realmente está acontecendo… Por que esse tipo de coisa e de ritual está fazendo aqui entre esses pertences?

— A verdade é que… O ritual do estrangulamento já passou “de moda”, podemos dizer assim.

— Como assim?

— As entidades dessa geração querem realizar algo muito mais poderoso, um ritual ainda mais sagaz e profano do que o da donzela.

— E que tipo de ritual é esse?

Mino se cala por um breve momento. Hesita em mencionar. Mas depois de alguns segundos consegue enfim pronunciar.

— É… O ritual da Crucificação… Esse ritual… É mediante ao sacrifício de… Gêmeos.

Haruka fica estarrecida e percebe mais do que nunca o perigo que Saori e Takeru estão correndo.

 

MANSÃO DOS MIYAZAKI, ESCRITÓRIO.

 

A família Miyazaki está em peso ali no escritório conversando de maneira alterada e com os nervos aflorados. Kato, por sua vez, está na sala, no corredor, perto da porta, ouvindo e assistindo tudo. A mochila dela está no sofá, com certeza nem levaram os pertences da escola de volta ao quarto, pois estavam caindo de sono.

Kato decide se aproximar mais da porta do escritório que está aberta para ouvir a discussão. E pela primeira vez podemos ver os pais deles completamente inconformados com todas as coisas que seus filhos estão dizendo.

— Todo dia, todo santo dia, vocês ficam com essa palhaçada, falam de assombração pra cá, de assombração pra lá. Tudo pra vocês é isso.- Disse Kaiba.

— Se parasse um pouco de ser cabeça dura, você ia entender a gente.- Confronta Takeru.

— E quem é você pra falar comigo dessa forma, moleque?

— O Takeru tem razão, papai. Há meses que a gente tenta explicar pro senhor e pra mamãe que essa casa tem algo de muito errado e vocês olham pra a gente como se fôssemos loucos. Desde o primeiro dia, o primeiro dia! Quando eu tirei a foto da janela e vi aquela mulher estranha, já deveriam ter me dado caso. Mas não… Preferem achar que é um devaneio de adolescente bobo e vocês, como adultos, estão sempre certos.

— Olha só no que você está se transformando, Saori. Não é nem o terço daquela menina boa e obediente que saiu de Kyoto.

— NÃO, MAMÃE! Eu apenas parei de ser burra e parei de ignorar as coisas. Mas vocês acham que a gente é burro o bastante pra não saber que há algo errado. Se não acredita, veja só essas marcas nos nossos braços e…

Saori olha para os braços e aquelas marcas já não estavam mais ali. Takeru fez o mesmo procedimento e nada encontrou.

— Viu só? Toda essa história que você e o seu irmão inventaram é tudo pra assustar a irmã de vocês. – Diz Kaiba.

— Ah, por favor, papai!- Resmunga Takeru- Sempre nos demos bem com a Kato, a gente nunca inventaria uma idiotice dessas pra assustar ela, e por que caralho a gente tá falando dela na terceira pessoa? ELA TÁ BEM ALI NA PORTA! Por que não fala com ela, papai? Por que não pergunta pra ela o que ela acha disso tudo?

— Já chega! Para de agir feito um moleque!

— Ah, mas agora você não é homem pra assumir o que diz, né? Pergunta pra Kato as coisas que ela viu! Você não fala diretamente com ela porque tem medo que ela discorde de você.

— Não me provoque, garoto.

— Você sempre se escondeu por trás da sua soberba, papai. Não aceita ser contrariado, tudo tem que ser do teu jeito, eu imagino que deve ter sido um alívio pra você ter ficado um ano longe de mim, né? Porque assim você não iria ter alguém que falasse umas boas verdades na tua cara, porque enquanto a gente se matava pra estudar, você vivia mamando no pau dos empresários em Kyoto pra conseguir status na administração pública e PORRA! Comprou a droga de uma mansão em Tóquio apenas pra disfarçar o velho escroto e imundo que você sempre foi!

Kaiba não consegue se conter e dá um soco em Takeru.

— PARA, PAPAI!- Grita Saori.

Mei fica impressionada com a reação do marido.

— KAIBA!

Takeru sangra no canto da boca, limpa o lábio e decide revidar.

— VOCÊ VAI ME PAGAR!

Saori se coloca na frente tentando apartar o irmão. Mei também tenta apartar Kaiba pra impedir que os dois se encostem. A discussão acalorada se transformou em uma troca de insultos e violência.

A pequena Kato assistia aquela cena horrorosa com várias lágrimas nos olhos. E o mais perturbador é que enquanto discutiam, Kato podia ver várias mãos negras saindo das paredes daquele escritório.

E não apenas essas mãos, várias vozes de injúrias, lamentos e sussurros podem ser ouvidas pela casa. No chão do escritório, sombras macabras se aproximando do quadrado onde eles estão discutindo.

Kato coloca as mãos nos ouvidos, ela sente a casa tremer, as sombras continuam se aproximando lentamente dos quatro como se toda aquela discussão fosse um gatilho que atraísse e alimentasse as entidades da casa.

Curiosamente, Kato é a única que está conseguindo enxergar e sentir tudo isso que está acontecendo, ela permanece com suas mãozinhas nos ouvidos chorando muito, mas eles não param. A discussão aumenta e as vozes pela casa estão cada vez mais fortes.

Eles sussurram palavras de ódio, de morte, blasfêmias, injúrias, sortilégios, todas as coisas ruins que podem acontecer com um ser humano. Eles proferem com fervor e convicção.

A situação se tornando cada vez mais insustentável, a casa estremecendo, os quatro discutindo, as entidades entoando louvores satânicos mediante a discórdia implantada naquela família.

Ninguém poderia entrar naquela casa para impedir que a tragédia acontecesse, mas enfim, algo ascendeu no coração de Kato e finalmente ela decide colocar por terra toda aquela situação.

A pequena tira as mãos do ouvido, vai para dentro do escritório e pisa no chão como forma de protesto ao holocausto que está acontecendo.

— PAREM! PELO AMOR DE DEUS, PAREM!

Ao pronunciar isso, as vozes que sussurravam pela casa, cessam. Os quatro param instantaneamente de brigar. As sombras que estavam quase tocando neles, se dissipam. E o tremor que balançava as estruturas daquela casa, voltou a adormecer.

— Eu já estou cansada! Cansada disso tudo! Por que ninguém nunca me dá atenção? Por que eu sempre sou ignorada enquanto vocês só pensam em brigar? Por que ninguém me deixa mais eu ser uma menina normal? Todo dia uma briga, todo dia uma briga!

Kaiba tenta contornar a situação.

— Me desculpe por isso, filha. É que seus irmãos, eles…

— … Não estou falando deles, papai. Estou falando do senhor e da mamãe.

— O quê?

— Desde que a gente se mudou pra cá, você e a mamãe passam mais tempo trabalhando do que com a gente, nunca estão por perto quando eu mais preciso e nunca acreditam em mim quando falo que vi um fantasma.

Os dois olham um para o outro, envergonhados.

— Sempre colocam a culpa no mano e na mana porque vocês acham que tudo isso é só minha imaginação. Mas quando eu caí naquele porão e fiquei sozinha e morrendo de medo… Eram eles que estavam lá e não vocês!

O silêncio pesa na consciência dos senhores Miyazaki.

— O Takeru e a Saori nunca iriam me machucar… Porque eles foram melhores como pai e mãe do que vocês dois são.

Aquelas palavras foram o suficiente pra desestabilizar Kaiba e Mei, mas eles não esperavam que depois de tudo aquilo, a pequena ainda iria expressar algo que eles temiam.

— E eu quero ir embora desta casa. E eu vou com meu irmão e com minha irmã.

Não há mais como fugir dessa responsabilidade. Os senhores Miyazaki percebem mais do que nunca que toda aquela proteção exagerada só estava afastando mais os seus filhos deles mesmos.

Takeru e Saori saem dali. Takeru pega Kato no colo e a leva até o sofá.

— Kato, pega tua mochila. Tua irmã e eu vamos pegar algumas coisas e vamos sair daqui, tá bom?

— Tá bom, mano.

 

Cerca de uns 15 minutos mais tarde, vemos Takeru saindo da casa com Kato no colo e algumas mochilas. Saori está vindo atrás acompanhando. Mei e Kaiba saem em seguida. A primeira diz:

— Onde vocês vão?

Takeru responde:

— Qualquer lugar longe daqui.

Ele coloca as coisas no porta-malas. Kato entra na parte traseira do carro e coloca o cinto.

— Não, não podem sair assim. Kaiba, faz alguma coisa.

Saori entrando no carro, diz:

— Vamos ficar bem, mamãe. Iremos te ligar depois quando estiverem mais calmos, até lá… Melhor que não saibam nunca pra onde iremos.

Saori entra no carro. Takeru dá partida no veículo e saem dali.

Kato fica ajoelhada no banco de trás e coloca as mãos no vidro traseiro do carro, e podemos ver através de seu ponto de vista, os seus pais olhando eles partirem.

Kato fica extremamente triste, não consegue disfarçar que gostaria que todos os 5 estivessem reunidos, mas aquele lugar já não estava sendo sadio pra eles.

Takeru tentando animar a irmã, diz:

— Vai fica tudo bem, Kato. Quando a mamãe e o papai estiverem mais calmos… A gente volta pra buscar eles.

Kato se recosta no banco novamente e coloca o cinto.

Saori bastante triste e até mesmo decepcionada com tudo o que viu hoje, questiona o irmão:

— Pra onde estamos indo, Takeru?

— Vamos procurar um hotelzinho barato na cidade pra passar a noite e… Amanhã a gente decide o que faremos da nossa vida.

 

NIKKO, JAPÃO.

 

Haruka está com os pergaminhos do ritual da crucificação em mãos enquanto o espírito de Mino tenta explicar a ela como funciona.

— Gêmeos possuem uma ligação extremamente forte e é por isso que este ritual, diferente do ritual do estrangulamento, pode perpetuar paz e harmonia a quem executa, durante séculos. Mas é um ritual extremamente macabro, o último ritual registrado envolveu duas irmãs gêmeas de 16 anos há mais de 150 anos atrás. Esse ritual não só revigorou o poder da casa Himuro, como também fez um acordo com os portões do inferno para que se abram somente após a grande calamidade.

— E a grande calamidade foi quando…?

— … Quando eu me apaixonei por aquele rapaz e o karma pairou sob nós.

Haruka se cala por um momento. Em seguida, dá continuidade.

— Eu preciso voltar a Tóquio. No sistema da escola, eu vou encontrar o telefone da Saori ou do Takeru, preciso alertar eles o quanto antes.

Haruka se prepara para sair, e Mino dá um recado.

— Haruka-san. Faça o possível para ajudar os garotos, mas peço que, por favor, não vá até aquela casa em hipótese nenhuma.

— Mas… Por qual motivo?

— Você tem dons psíquicos extremamente poderosos, o fato de eu conseguir me comunicar com você foi porque você foi até a casa através da projeção astral. Para sua sorte, eu era o único espírito da casa que estava por perto no momento de sua entrada, então estabeleci uma conexão contigo. Eu não sou onipresente e nem onisciente, se eu estou aqui agora foi graças a essa conexão. Mas se alguma das entidades demoníacas conseguir se apegar a você, tua vida vai virar de ponta cabeça.

— Por que precisa tanto da minha ajuda, Mino?

— Porque eu não posso descansar em paz sem saber qual parte das minhas memórias dessa casa, a entidade está tentando esconder de mim.

Haruka fica estática diante de tudo que Mino está lhe contando.

 

CIDADE DE TÓQUIO- 1 HORA DEPOIS.

 

Saori, Takeru e Kato chegam na recepção de um hotel bem modesto. Takeru é quem está fazendo a reserva.

Ele está assinando uns papéis enquanto a recepcionista, uma mulher de uns 35 anos, cabelo curto e liso até o queixo, entrega a chave do quarto nas mãos de Saori.

— Aqui está, o quarto de vocês é o número 212.

— Obrigada, senhora.

A recepcionista olha para Kato.

— E… Quantos anos tem a filhinha de vocês?

Takeru, terminando de assinar os papéis, diz:

— Ah não, não, nós… Nós somos irmãos gêmeos, e essa é nossa irmã caçula.

— Logo imaginei, são jovens demais pra ter uma menina tão grandinha, me desculpe pela intromissão.

— Não se preocupe, senhora, está tudo certo aí? Preciso assinar mais alguma coisa?

— Não, está tudo certo, senhor. Tenham uma boa estadia.

Eles agradecem.

— Obrigado!

 

Alguns minutos mais tarde, eles entram no quarto daquele hotel. Takeru acende as luzes. Saori leva Kato até o sofá e coloca as coisas delas ali. Takeru vai até a cozinha, acende as luzes de lá e, em seguida, vai até o banheiro.

Ele liga o chuveiro, confere a temperatura da água e sai.

— É, o chuveiro tem água quente, depois se quiserem tomar um banho…

Kato está no sofá muito triste e abalada com tudo o que aconteceu. Saori tenta consolá-la.

— Kato, eu sei que as coisas estão difíceis, mas a gente vai dar um jeito nisso.

— O que vai acontecer com a mamãe e o papai?

— Nós… Nós vamos voltar depois pra buscar o papai e a mamãe, eles ainda estão nervosos porque não querem acreditar na gente.

— A gente precisa se mudar, aquela casa não é boa.

— Sim, meu anjo, nós sabemos. É que… Não é tão fácil assim conseguir outro lugar pra morar, não temos mais nada e a nossa casa em Kyoto, ela… Ela já foi vendida.

Takeru vai até elas, se agacha e conversa com Kato.

— Aí, pequena, não precisa se preocupar. Tua irmã e eu iremos sempre estar do seu lado, sempre… Aconteça o que for, nós três estaremos juntos e vamos enfrentar isso tudo, combinado?

— Combinado, mano.

— Então venham aqui, vocês duas, me dêem um abraço.

As duas abraçam Takeru uma de cada lado.

— Olha… Vocês duas são tudo que eu tenho e eu amo vocês. Nunca vou deixar que alguma coisa ruim aconteça a vocês, certo?

— E você e a Kato são tudo pra mim… Eu não vou desistir de vocês.

— Obrigado, mano e mana… Por serem tão bons pra mim.

Os três se abraçam e ficam por um longo período desfrutando daquele momento de união entre eles. Entre toda essa tristeza e dor, ainda coube um pequeno fragmento de esperança entre os três. Com a casa mostrando seu poder e o ceticismo de seus pais, os irmãos Miyazaki só têm um ao outro a partir de agora.

Mas a situação ainda estava prestes a ficar pior.

 

MANSÃO DOS MIYAZAKI- MEIA HORA DEPOIS.

 

Após a discussão com os filhos, Kaiba e Mei ficaram dispersos na casa, cada um em um lugar.

Kaiba está no escritório falando ao telefone, enquanto Mei está no seu quarto tentando tricotar.

Tudo parece normal até a porta principal da mansão começar a se abrir lentamente. O rangido ensurdecedor daquela porta pode ser ouvido e é como se algo ou alguém tivesse passado por ali.

Kaiba permanece falando ao telefone. Ele não percebe que uma brisa gélida e sombria paira no escritório e começa a folhear os papéis de sua mesa.

Ele olha aquilo, estranha, acha que algum vento forte possa ter passado pela janela.

— Eu… Eu ligo mais tarde.

Kaiba coloca o telefone no gancho. Sai do escritório e vai para o corredor.

— Mei?

Mei não responde. Ele fica parado vendo a porta principal aberta, mas quando está prestes a ir fechá-la, ouve o barulho de um livro caindo de dentro do escritório.

Ele vai até lá dentro, mas a porta do escritório se fecha bruscamente fazendo um barulho muito alto.

No quarto, Mei ouve aquele barulho e para de tricotar. Ela se inclina na ponta da cadeira e primeiro chama pelo esposo.

— Kaiba?

Kaiba não responde. Mais nada pode ser ouvido. Então ela se levanta e sai do quarto.

Mei desce as escadas e, curiosamente, a porta da entrada já estava fechada.

— Kaiba, querido, eu ouvi um barulho. Tá tudo bem?

Ela primeiramente encosta na porta da biblioteca e bate umas 3 vezes.

— Kaiba, tá tudo bem aí?

Ela espera ele responder.

— Eu estou entrando, querido.

Mei abre a porta. Ao entrar, parece ter visto alguma coisa que a deixou assustada.

— Ai, meu Deus!

 

HOTEL ASAKA, TÓQUIO.

 

Takeru pega as chaves do carro em cima da mesa e veste sua jaqueta.

— Gente, eu vou aproveitar que ainda vai dar 22h e vou passar em uma conveniência aqui perto pra comprar alguma coisa pra a gente comer, não devo demorar muito. Saori, tranca a porta.

— Tá bom, irmão, volta logo.

— Já já estou de volta.

Takeru sai. Saori tranca a porta. Kato permanece ali no sofá.

— Você quer que eu ligue a TV pra você assistir alguma coisa, irmã?

— Pode ser.

— Tá bom então.

 

RESIDÊNCIA DA PROFESSORA HARUKA, 21H30.

 

Após duas longas viagens, Haruka finalmente chega à sua casa e vai direto para o banho. Ela não pode perder mais nenhum minuto de seu tempo. Cada segundo que passa, a vida dos irmãos Miyazaki corre perigo. E ela é a única que sabe das verdadeiras intenções das entidades da casa.

Ela joga as coisas tudo pelo corredor e entra no chuveiro correndo tirando as roupas ali no chão mesmo.

Ela deixa a água cair sob seu rosto e, consequentemente, seu corpo. Respira fundo e ofegante tentando encontrar fôlego para lidar com toda essa situação.

 

HOTEL ASAKA.

 

Kato está no sofá vendo TV. Saori está com uma toalha na mão e se aproxima dela.

— Kato, eu vou tomar um banho rapidinho e você fica de olho pra quando o teu irmão chegar e você abrir a porta pra ele, tá bom?

— Tá bom, mana.

— Não demoro.

 

Na casa de Haruka, esta veste uma camisola roxa, e vai para a mesa onde se encontra o seu notebook. Ela se assenta na cadeira e acessa o site do colégio Yamato. Ela está decidida em conseguir avisar aos irmãos sobre tudo o que está acontecendo.

 

HOTEL ASAKA, 15 MINUTOS DEPOIS.

 

Kato está entretida assistindo TV enquanto Saori toma banho. Alguém bate na porta.

Ela se levanta do sofá, vai até a porta, destranca, e podemos ver pelo ponto de vista da pessoa que está na porta, a Kato estranhando aquilo que vê.

— Mamãe?

Cortamos para o momento em que Saori está terminando de tomar banho, o celular dela está tocando em cima da mesinha na sala. Ela não ouve, ainda está se secando lá dentro do banheiro e não consegue ouvir seu telefone tocar.

Do outro lado da linha está Haruka, aflita, tentando conversar com Saori e ela não atende.

— DROGA!

Ela tenta agora ligar para o celular de Takeru.

— Vamos, Takeru, responde, por favor, responde.

Takeru está no carro voltando para o hotel, ele percebe que seu celular está tocando, mas ao vê que se trata de um número que ele não conhece, acaba rejeitando a chamada.

Do outro lado da linha, Haruka fica ainda mais eufórica.

— Mas que droga! O que está acontecendo que nenhum deles me atende?

 

HOTEL ASAKA.

 

Saori termina de se vestir e vai até a sala com a toalha secando o cabelo.

— Kato, o seu irmão já… Kato?

A Tv ficou ligada. A mochila e as coisas de Kato continuam ali.

— Kato, cadê você?

Alguns minutos mais tarde,após fazer uma busca minuciosa no quarto, Saori chega à recepção do hotel.

— Com licença, senhora, tudo bem? Eu só queria perguntar uma coisa. Por acaso não viu a minha irmã passar por aqui? Aquela baixinha de franja que você até pensou que fosse minha filha?

— Ah sim, claro que me lembro. Pensei que você estava sabendo, a mãe dela acabou de passar por aqui e disse que veio buscá-la.

Saori fica incrédula.

— A minha mãe?

— Sim, uma senhora veio aqui tem pouco tempo, me disse o sobrenome de vocês, e falou que veio pra buscar a menor que ela precisava ir em uma consulta amanhã.

— Espera, a senhora viu a Kato saindo?

— Não tem nem 10 minutos que eu vi essa senhora saindo com ela de carro daqui do hotel.

— AI, MEU DEUS!

Saori sai da recepção atordoada. Ela ainda no pátio do hotel, tenta telefonar para casa.

— Por favor, atende, atende.

Finalmente sua ligação é respondida e Saori apenas ouve a voz do outro lado.

Alô?

— Mãe? Mãe, graças a Deus, me escuta!

Onde você está, filha? O seu pai, ele…

— Mãe, só me escuta um pouco agora, por favor. Você está com a Kato?

A Kato? Não, filha, ela foi com vocês, já esqueceu?

— O… O quê?

Saori, aconteceu alguma coisa?

— Espera, tem outra ligação aqui entrando, fica na linha, mãe, eu já volto… Alô?

— Saori! Graças a Deus você atendeu!

— Professora Haruka?

— Sim, peguei o seu número no banco de dados da escola, escuta, onde você tá?

— Eu… Eu estou em um hotel aqui na cidade, mas…

— Escuta, Saori. Aconteça o que acontecer, você precisa tirar todo mundo da casa, eu descobri tudo, Saori. Tudo!

— Como assim?

— Eu fui até Kyoto, o endereço deixado na construtora onde supostamente seu pai fez o acordo para comprar esta casa, era de um templo xintoísta em Nikko.

— O… O que disse?

— Saori, você ainda não entendeu? Alguém da família Himuro forjou pra que seus pais comprassem essa casa pra realizar o ritual!

Saori fica com lágrimas nos olhos sem acreditar no que está acontecendo.

— Espere, fique na linha, eu já volto.

Saori volta desesperada para a recepção, pega o seu celular e folheia a galeria.

— Moça, por acaso a mulher que veio aqui se parece com essa?

Ela mostra uma foto na tela do seu celular.

— Sim, sim, foi essa mulher mesmo que veio aqui ainda agora.

— Espere um pouco… Alô, mãe? Ainda tá aí?

Oi, filha. Estou aqui.

— Mãe, eu vou te perguntar pela última vez… Você está com a Kato?

Claro que não, filha, como eu poderia estar com ela? E outra, vocês sequer nos contaram pra onde vocês foram, então como eu ia saber?

Saori compreende o risco que sua irmã possa estar correndo, olha diretamente para a recepcionista com o celular na orelha e diz:

— Meu Deus.

 

Na estrada, em um carro qualquer, Kato está sentada no banco de trás e olha pela janela pra tentar reconhecer o lugar que supostamente está indo.

— Pra onde estamos indo, mamãe?

A mulher que está no volante, vira o rosto lentamente pra ela e dá um sorriso diabólico.

— Vamos para a casa, Kato. Para a nossa casa!

Kato fica aflita ao perceber que aquela não é a sua mãe.

 

HOTEL ASAKA.

Saori faz umas anotações em um papel na mesa da recepção e entrega à recepcionista.

— Liga pra polícia.

— O quê?

— Liga pra polícia e peça que eles mandem o máximo de viaturas possíveis pra esse endereço aí.

— Mas, senhorita, o que eu falo pra eles?

— Sequestro e… Tentativa de assassinato.

A recepcionista fica sem escolha. Saori vai para fora, tenta falar com sua mãe novamente, mas a ligação cai.

— MÃE? MÃE! DROGA!… Oi, professora!

— Saori, por que não me escuta?

— É que… É que…

Takeru chega naquele momento com o carro, antes mesmo dele descer, Saori vai até ele desesperada.

— TAKERU-KUN! TAKERU-KUN!

Ele saindo do carro, diz:

— O que foi, Saori? Por que está tão agitada?

— A Kato sumiu, alguém levou ela se passando pela mamãe.

— O quê?

Ainda na linha, Haruka grita ao telefone pra que eles possam escutá-la. Saori coloca no viva-voz.

— AGORA ME ESCUTEM VOCÊS DOIS! A casa não foi vendida legalmente, foi cedida por algum descendente da família Himuro, pois sabia que seus pais tinham gêmeos. Eu fui até o templo xintoísta onde eles se escondiam e descobri tudo. Eles estavam esperando a próxima lua cheia para realizar o ritual… E adivinhem que noite é hoje?

Ao pronunciar isso, os dois olham para o céu e contemplam a lua cheia. Takeru diz:

— É… É Lua cheia!

Saori diz:

— Professora, a entidade levou a Kato, a gente precisa ir salvá-la.

— Não, vocês não entendem? A Kato é apenas uma isca. A entidade quer vocês dois.

Takeru questiona:

— Mas pra quê?

— Pra garantir que o ritual da crucificação seja consumado… Matá-los!

Os dois ficam um olhando para o outro sem saber o que dizer. Saori decide romper o silêncio.

— Me desculpe mesmo, senhorita Haruka… Mas fizemos uma promessa de nunca abandonar um ao outro… E eu não vou deixar que nenhuma entidade filha da puta machuque a minha irmã.

Saori desliga o celular. Takeru fica impressionado, pois ele nunca viu a irmã pronunciar um palavrão.

— Depressa, Takeru! Precisamos ir atrás da nossa irmã.

— Sim, vamos!

 

Haruka em sua casa, fica indignada.

— SAORI! SAORI! MERDA!- Desliga o celular e bate a mão na mesa com raiva.

 

 

MANSÃO HIMURO, PONTE DO JARDIM SECRETO.

 

Kato está caída em uma espécie de ponte com um abismo de um lado ao outro. É como se ela não estivesse mais dentro de uma casa, e sim em um grande jardim.

Kato começa a despertar aos poucos. Ela se levanta e estranha o lugar bizarro onde foi parar. Como é possível que um lugar como aquele possa estar no submundo da mansão Himuro? Ela olha para baixo e fica apreensiva, pois não sabe o que pode acontecer se cair lá embaixo. Ela decide seguir o caminho para tentar descobrir aonde vai parar aquela ponte.

Kato vai andando e está chegando perto do outro lado.

Mas aparece uma suposta entidade de um homem vestindo um quimono branco e uma máscara vermelha.

Kato paralisa. Ao virar para trás, vê a entidade de uma mulher mais jovem também usando quimono e maquiagem de uma gueixa.

Kato olha para um lado, olha para o outro, a pequena jovem se encontra encurralada.

— Quem… Quem são vocês?

A entidade masculina diz:

— Nós queremos brincar de um jogo contigo, jovem donzela.

— Jogo? Que jogo?

A mulher responde:

— Se chama, “Tente não cair no abismo”. E adivinha? Tá com você.

As duas entidades mostram duas cordas nas mãos, Kato sente a sua respiração ficando cada vez mais acelerada, aquele pequeno coração palpitava descontroladamente.

A entidade da mulher dá um pequeno passo a frente e sorri de maneira diabólica.

— Será que você consegue vencer esse jogo, Kato?

A mulher pula em uma altura descomunal e vai na direção de Kato.

— Aaaaaaaaaahhhhh!

Kato cai no chão da ponte, se arrasta para trás, a mulher pega a corda e usa como chicote, e acerta o braço da garota.

— Aaaaaaii!

— Isso é só o começo, garotinha.

 

Na estrada, Saori e Takeru estão no carro, desesperados.

— Se o que a professora Haruka disser for verdade, estamos indo direto para nossa própria morte.- Disse Saori.

— Pois eu não me importo, se quiserem nos matar ou nos fazer como boneco de feitiçaria pro ritual deles, que façam, mas que não ousem tocar um só dedo na Kato.

 

Na ponte, continua o jogo diabólico daquelas duas entidades contra Kato.

— Parem, por favor! Eu não fiz nada! Eu não fiz nada!

— Ah, mas parar logo agora que a brincadeira estava ficando boa? Não é mesmo, querido?

— Claro, Kato. Brinca mais um pouco com a gente.

A entidade do homem usa sua corda e açoita as costas de Kato.

— Ahhhhhhh! Mamãe!

Kato cai, se levanta, desvia o caminho da entidade da mulher e tenta correr para voltar de onde supostamente veio. A mulher dá uma cambalhota no ar e volta a ficar na frente de Kato novamente.

— Você não quer mais brincar com a gente, Kato?

— NÃO, EU NÃO QUERO BRINCAR COM VOCÊS!!

Ao pronunciar isso, a reação da mulher foi bem inesperada ao que imaginamos. Ela começa a chorar como uma criança.

— Você ouviu isso, querido? Ela não quer mais brincar comigo!

A entidade do homem aparece de vez e segura Kato pelo pescoço a deixando pendurada para o abismo daquela ponte.

— Como se atreve a magoar a princesa dos Himuro, sua fedelha insolente?!

Kato, chorando, implora pela vida.

— Por… Por favor, não me machuca.

— E pensar que em outra época, você seria a donzela perfeita para o ritual das cordas. Mas pensando bem… Acho que não precisamos mais de você, Kato-chan. Os seus irmãos vão sofrer as consequências.

O homem solta o pescoço de Kato e ela começa a cair no abismo.

— NÃAAAO! MANO! MANA!!

Kato cai no abismo e vemos apenas as duas entidades observando e rindo diabolicamente.

 

No carro, quase chegando na mansão, os irmãos sentem que algo aconteceu, um aperto no coração de ambos veio imediatamente e Takeru freia o carro bruscamente.

— Ahhhhh KATO!- Grita Takeru.

Saori em lágrimas, grita:

— KATO-CHAN!!

 

Estava começando apenas o início do fim de todos eles. E a fúria da casa, levará esse jogo até as ultimas consequências.


 

 

 

 

NA PRÓXIMA SEMANA, NÃO PERCAM AS GRANDES SURPRESAS, EMOÇÕES E REVELAÇÕES NO CAPÍTULO FINAL DE CRIMSON HOUSE!

A Widcyber está devidamente autorizada pelo autor(a) para publicar este conteúdo. Não copie ou distribua conteúdos originais sem obter os direitos, plágio é crime.

Pesquisa de satisfação: Nos ajude a entender como estamos nos saindo por aqui.

Publicidade

Inscreva-se no WIDCYBER+

O novo canal da Widcyber no Youtube traz conteúdos exclusivos da plataforma em vídeo!

Inscreva-se já, e garanta acesso a nossas promocionais, trailers, aberturas e contos narrados.

Leia mais Histórias

>
Rolar para o topo