Episódio 2

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Episódio 2
Web Séries | Eu, Kadu - Temporada 2

Episódio 2

Escrito por: Francisco Siqueira15/10/2021 - 20:00

MUHERES À BEIRA DE UM ATAQUE DE NERVOS

Imagem do post Episódio 2 em Web Série | Eu, Kadu - Temporada 2 - Widcyber— Do que você está falando, Maria Clara? — ouço dona Marcela lançar sua pergunta mergulhada num meio-tom de incredulidade enquanto, finalmente, deixa os braços penderem ao lado do corpo ao mesmo tempo que dá um passo para trás — Como assim o Gustavo te deixou? Isso é inconcebível!

Aproveitando este recuo, ainda que dona Marcela continue entre mim e Maria Clara, decido avançar, saindo de sua retaguarda e movendo-me com cuidado, no intuito de tentar aproximar-me de minha irmã o máximo possível, e conseguindo, por fim, ficar a poucos centímetros ao lado dela, ou melhor, ao lado das duas, já que dona Marcela permanece onde está, meneando a cabeça bem, bem devagar, num movimento quase imperceptível, recusando-se a tirar os olhos de cima de Maria Clara conforme um quê de perplexidade atravessa sua fisionomia, que a esta altura já assumiu o aspecto de uma nuvem de tempestade.

Nesse meio tempo, a tensão nervosa que pairava sobre o rosto de minha irmã, retrocedeu, mas não por completo. Óbvio. Ao menos o lado da face, retraído, voltou ao normal e seus lábios, agora paralisados, não são nada mais que dois traços semiabertos envoltos num mar de amargura, desolação e tristeza infinitas.

— O que foi que você fez? — dona Marcela a interroga num tom excessivamente severo, rude, conforme lhe esquadrinha o rosto com os olhos semicerrados — Que merda você fez para que o seu noivo tomasse essa decisão absurda, garota?

Nada. Minha irmã não consegue se expressar, não consegue reagir à investida tipicamente impaciente de nossa mãe. Ou não quer. Simplesmente um ricto nervoso lhe atravessa a face mais uma vez e desaparece logo em seguida. E somente isso.

— Responde!

Dona Marcela exige, brada, porém, ainda sem causar nenhum efeito, ao passo que eu não mais suporto testemunhar a descomunal fragilidade de Maria Clara, agora cabisbaixa, os ombros caídos, fechada em definitivo num silêncio sepulcral. Preciso fazer alguma coisa o mais rápido possível. Ampará-la. Não posso ficar aqui, estagnado, passivo, assistindo ao seu massacre… Minha irmã vai desmoronar a qualquer momento…

Faço menção em me aproximar um pouco mais para lhe dar um abraço, mas sou empurrado para o lado, por nossa mãe, sem qualquer cerimônia, e não fosse um gesto de destreza ímpar de minha parte, um ato reflexo mais que oportuno — embora acompanhado de uma fisgada em minhas costelas —, me fazendo esticar os braços para amparar o peso do corpo sobre o apoiador de madeira a alguns centímetros atrás de mim, decerto iria tombar, e feio, no chão.

— Responde logo o que estou te perguntando, garota. Me diz que merda você fez antes que eu perca o que resta da minha paciência.

Pronto. Dona Marcela começa a sacudir Maria Clara, com força, muita força, e minha irmã se deixa balançar como se fosse uma boneca de pano nas mãos de uma criança hiperativa. Tenho a impressão de ouvir algum som lhe escapando da boca, nada mais que um mero sussurro até que, finalmente, nossa digníssima mãe resolve soltá-la.

O tamanho da ferocidade estampada no rosto de dona Marcela chega a assustar, apercebo, enquanto me recomponho, afastando-me um pouco do apoiador depois de acertar os óculos sobre o nariz. Está parecendo a própria Faye Dunaway com sua interpretação exibicionista, extravagante e excessiva em Mamãezinha Querida… Alguém precisa detê-la.

Olho para os lados e depois para trás, em busca de Sônia, até encontrá-la, parada, na ponta do corredor, na direção da saída para a sala. Está observando, sem se deixar afetar — como sempre — pelo descontrole de sua patroa à medida que balança a cabeça lentamente. Nesses vinte anos que vem trabalhando para a minha família, não foram poucas as vezes que presenciou esse tipo de espetáculo. Até ela mesma, de vez em quando, é vítima do histrionismo de dona Marcela. É por essas e outras que não canso de me questionar se o que lhe pagam é o suficiente para suportar esse tipo de coisa…

Deixo um ar retesado escapar dos pulmões e daí torno novamente minha atenção para Maria Clara, que segue cabisbaixa, e para a nossa mãe, que a esta altura está começando a caminhar no pequeno espaço entre a porta do quarto de Maria Clara e a parede à sua frente enquanto sustenta uma das mãos na parte de trás da cintura, na altura dos rins, fatalmente me fazendo lembrar algumas das vilãs caricatas da Disney, só faltando o turbante, a cigarrilha e o roupão esvoaçante para completar a indumentária.

— Por que estou me deixando surpreender com essa notícia? Talvez lá, no fundo, eu já soubesse, eu já esperasse por este desastre… — a voz de dona Marcela, agora a esmo, continua se elevando, absoluta — Até que demorou muito para que o Gustavo reagisse a tanta frieza, a tanta indiferença…

Oi? Eu ouvi direito?

Enquanto balanço a cabeça entre perplexo e indignado, me dou conta de que Maria Clara está me encarando com um olhar que beira o desvario…

— Um herói. Isso é o que ele é.

Sim. Dona Marcela continua desfiando seu rosário de constatações absurdas e não me resta alternativa senão retomar o olhar na sua direção. Ela está terminando mais uma volta dentro do seu pequeno trajeto de ir e vir, dentro da sua rotatória arredia, onde raiva, negação e agressividade desembocam em conluio, até que decide estacionar, por fim, diante de Maria Clara, ao mesmo tempo que retira a mão da cintura para, prontamente, sem qualquer hesitação, apontar o dedo indicador bem rente à face da minha irmã.

— Gustavo, sem sombra de dúvidas, é um herói por ainda estar te aturando, ou ter te aturado, depois desses três anos de um relacionamento conturbado, cheio de manias e extravagâncias. Saiba que por muito menos, mulheres da sua idade, que já passaram dos trinta, estariam se considerando vitoriosas em apenas conseguir um possível pretendente… Um possível pretendente ouviu bem?… Mas você? O que foi que você fez? Decidiu jogar tudo pela janela, mesmo com o privilégio de ter como noivo um dos mais jovens, notáveis e prósperos empresários do ramo imobiliário carioca, que poderia muito bem estar curtindo a vida como um solteirão convicto, tendo as mulheres que bem quisesse, mas que sabe Deus o motivo, acabou te escolhendo para ser a esposa dele — dona Marcela recolhe o dedo em riste e passa a fitar Maria Clara tomada de uma fisionomia ainda mais honesta, ainda mais altiva — Louca. Completamente louca. Insana. É isso o que você é Maria Clara.

Péra. É isso mesmo? Eu não posso acreditar que minha irmã está sendo comparada, em pleno século XXI, a uma donzela medieval cuja meta de vida é encontrar um homem que a tire do ostracismo de uma iminente solteirice fatídica e desesperadora.

Maria Clara permanece submergida em sua mudez. E não poderia ser diferente. Mas vai explodir a qualquer momento, isso sim. Ou é provável que vá guardar tudo para si, transformando esta merda toda, lá na frente, num câncer. Ou ainda poderá tomar uma decisão muito, muito pior…

Vem-me à mente a imagem embaciada de meu tio, irmão de dona Marcela, e todo o medo e descrédito que precisou enfrentar após revelar sua homossexualidade a meus avós, à família, e que, talvez, em verdade, tenha sido esse desamparo e esse desamor que o tenha feito tomar a fatídica decisão de tirar a própria vida quando descobriu ser portador do vírus HIV. E também se apodera do meu cérebro os contornos do inferno sofrido por Allyson e sua tentativa de acabar com a própria existência depois dos ataques contínuos daqueles Neandertais homofóbicos do CGAM.

Não! Não!

Engulo em seco, meneando a cabeça rapidamente, esforçando-me para afastar e para bem, bem longe a terrível, a desagradável sensação de receio, tensão, apreensão…

Respiro fundo.

Maria Clara é forte. É a pessoa mais sensata dentro deste apartamento de “apenas” 700 metros quadrados. Tenho certeza disso.

— Seis meses de preparativos para o seu casamento, garota, e você tratando o assunto de maneira esquiva, como se a sua indiferença, por encanto, fosse transformar tudo da noite para o dia.

Dona Marcela segue com seu discurso redundante, num tom de voz cada vez mais alto, acompanhado pelas mãos se agitando no ar. Sim. Sim. Sim. Uma verdadeira diva melodramática desferindo seu monólogo, já que a verdade não é o que ela deseja acima de tudo neste mundo.

— Mãe — decido me arriscar. É claro que este não é um bom momento para chamá-la de dona Marcela — A senhora precisa se acalmar…

Dona Marcela, visivelmente irritada com a interrupção, recolhe as mãos do ar num segundo e volta o rosto na minha direção, indignada, me desferindo no mesmo instante nada menos que um fulminante olhar de reprimenda; o tipo de olhar amargo que só mesmo ela, madame Albuquerque de Araújo Saldanha, com seu rosto seco, sem o mínimo sinal de empatia, consegue verter, fazendo retesar cada um dos músculos do meu corpo.

— Calma? Você está me pedindo para ter calma numa hora dessas, Carlos Eduardo? — ela arqueia uma das sobrancelhas enquanto vai aproximando sua face à minha, até que poucos centímetros as separem, o mínimo possível para evitar que se choquem — Sua irmã me dá a notícia de que recebeu um pontapé do noivo, isso faltando somente quatro dias para o casamento, e você me pede para ter calma? Deve estar tão louco quanto ela. Em que mundo vocês dois vivem, puta que pariu?

Baixo os olhos e miro o tapete persa sob os meus pés. Sinto as costelas latejarem. Tentar um mínimo de diálogo civilizado com essa pessoa, neste estado, em definitivo, é humanamente impossível.

— Digamos que eu permita que essa insanidade siga adiante… O que vou dizer para os 300 convidados que estão aguardando ansiosamente para estarem, no sábado, naquele maldito transatlântico?

Ergo a cabeça. Dona Marcela voltou a andar, indo e vindo, entre a porta do quarto de Maria Clara e a parede do outro lado do corredor.

— Esse é um dos casamentos mais esperados do ano. As redes sociais e toda a mídia, nesta última semana, não pararam de propagar a magnitude desse evento, especulando à exaustão os detalhes da cerimônia… As entrevistas marcadas… — de um salto ela se volta na direção de Maria Clara, que segue cabisbaixa — Aonde vou enfiar os sete caminhões que estão trazendo toda a decoração da festa? Os catorze lustres Baccarat? As pratarias e os cristais? Os candelabros? As toalhas? Os vasos de murano? E as quatro mil pétalas de orquídeas? Os sete mil botões de rosas?

Dona Marcela se aproxima de minha irmã, passos fortes, estacando à sua frente. O timbre de sua voz, evidente, já alcançou decibéis que beiram o insuportável.

— Esse casamento está custando dois milhões de reais para ser deixado assim de lado, como se fosse uma comemoraçãozinha de um pé-rapado qualquer. Mas você, óbvio, está pouco se lixando pra isso, afinal, é só mais um detalhe a ser desprezado, não é mesmo, garota? — dona Marcela, mal terminando seu questionamento retórico, bate na parede à sua frente com a palma da mesma mão que usou para socar o apoiador, fazendo estremecer, dessa vez, além dos murais de fotografias da família, também as prateleiras próximas.

Maria Clara deixa escapar um longo suspiro à medida que, enfim, vai erguendo a cabeça, sem pressa, até fixar o olhar sobre nossa mãe e mantê-lo, assim, de maneira imutável. Um misto de passividade e irritação atravessa o seu semblante enquanto um silêncio ensurdecedor passa a reinar de ponta a ponta neste corredor, neste apartamento, ao mesmo tempo que vejo os olhares de mãe e filha se cruzarem, como se estivessem em um campo de batalha infestado de minas, onde, inevitavelmente, mesmo que ainda não saibam, uma delas precisará ceder a qualquer momento para que nem uma, e nem a outra, possa ser sacrificada.

Volto-me rapidamente para trás, buscando mais uma vez um apoio, uma orientação que Sônia, talvez, possa me ofertar. Ela continua parada no mesmo lugar, na ponta do corredor, na direção da saída para a sala, meneando a cabeça sem pressa e me dando de ombros.

— Você é pior que qualquer um dos meus inimigos, garota — dona Marcela dispara, secamente, enquanto torna a colocar os braços em cada um dos lados do batente da porta do quarto de Maria Clara — E saiba que tenho muitos, já que as pessoas não suportam, não aguentam ver uma mulher madura, bem relacionada, rica, bonita, magra e produzida da cabeça aos pés, com as grifes mais caras do planeta, bancando suas próprias excentricidades, comandando um império, chefiando homens e também lidando com seus pares de igual para igual, não se rendendo às afrontas, aos ataques velados de misoginia e sexismo…

Maria Clara, agora sustentando um semblante inabalável, por completo, não deixa de confrontar nossa mãe um segundo sequer.

— Sou autêntica, o que você não é Maria Clara. Por incompetência e comodismo, por isso me odeia…

Por todos os anjos do céu. É realmente essa a munição que dona Marcela vai começar a usar?

— É natural, filhos odiarem seus pais. É natural, filhas odiarem suas mães… — ela deixa os braços penderem ao lado do corpo e em seguida retrocede não mais que dois passos antes de prosseguir com seu discurso — Eu mesma odiei a minha por um bom tempo… Só Deus sabe como era conviver com dona Antonieta…

Passando a mirar o alto, à sua esquerda, dona Marcela parece se ausentar por um instante. Medo, aversão e desprezo são as emoções que passeiam por seu rosto. Contudo, em questão de segundos, se recompõe, baixando o olhar até Maria Clara, retomando a postura severa e autoritária de antes, sustentando a mesma fisionomia embriagada pela raiva impotente.

— Mas saiba que eu jamais a desrespeitei. Jamais a confrontei. Nem mesmo depois de casada, com filhos… Nem mesmo depois… — ela engole em seco, pigarreia e então prossegue, porém, com um timbre de voz um pouco mais tolerável — Ao contrário da sua avó, tenho a consciência tranquila de que fui uma boa mãe na medida do possível — dona Marcela ergue um pouco o queixo para me observar de soslaio, célere, para tão logo volver o olhar à minha irmã — Posso não ser a melhor mãe do mundo. E não faço a mínima questão de fingir um estilo maternal que nunca carreguei. Entretanto, em minha defesa, quem disse que ser mãe é uma tarefa fácil? Ainda mais quando se tem filhos que fazem de tudo para nos aborrecer? — essas últimas palavras são disparadas entredentes, sólidas, gélidas.

A convicção de Maria Clara aparentemente se abala. Seu semblante estável, inalcançável, torna-se um tanto cinzento e empoeirado enquanto, mesmo atordoada, permanece fitando nossa mãe — só não sei até quando. Dona Marcela, com essa conveniente mea culpa, parece estar retomando, finalmente, a sua distinção, o seu brio, o terreno perdido. Consigo ouvir o som, o zumbido que o orgulho e o triunfo fazem reverberando dentro do seu cérebro.

Maria Clara reaja. Por Deus, reaja.

— Reconheço que superestimei todas as minhas expectativas em relação a você, garota, mas não demorei em desvalorizá-las, uma a uma — dona Marcela, de súbito, torna a caminhar pelo corredor, no pequeno espaço entre a porta do quarto de Maria Clara e a parede à sua frente, voltando também a sustentar uma das mãos na parte de trás de sua cintura, na altura dos rins — Fiz vistas grossas no início; agarrei-me desesperadamente a alguma espécie de utopia mesmo sabendo que você não teria capacidade para manter a postura adequada que o sobrenome da nossa família exige — entre seu ir e vir nossa mãe apenas se permite encarar, como antes, o seu horizonte particular — Onde já se viu jogar uma educação privilegiada para o alto e se contentar com um empreguinho numa agência bancária? — ela termina, por fim, o seu “passeio” e estaciona, obviamente, diante de minha irmã, continuando a afrontá-la, sem tirar a mão de um dos lados da cintura — Aliás, um emprego que o seu pai arranjou, porque esforço você não fez nenhum, não é mesmo, Maria Clara?

Qual é o propósito de tudo isso? Alguém pode me explicar?

— Meu avô e meu pai, a origem dos Albuquerque de Araújo, tiveram garra. Meu avô começou do nada e terminou a vida como um dos maiores produtores de papel e celulose do país, e meu pai não só assegurou a sua reputação, como também se tornou um dos grandes nomes no ramo hoteleiro. E eu? Eu fiz e faço das tripas, coração, para manter este império — dona Marcela apregoa, aos berros, como se nenhum de nós já não tivéssemos tido acesso a essa história, fosse por ela mesma ou fosse por uma rápida pesquisa no Google — E pelo jeito todo o esforço que os dois fizeram, todo o esforço que eu fiz, irá por água abaixo, já que a Filipa é uma deslumbrada e esse daí — mais uma vez dona Marcela se dá ao trabalho de me enxergar com o canto dos olhos, não mais que isso — É tão sem ambição quanto você. Está preocupado em se tornar médico tão somente para ajudar os necessitados, como se ele fosse responsável por todas as misérias do mundo. Uma piada! — seu tom de escárnio, como era de se esperar, choca um total de zero pessoas.

Não. Na verdade, dona Marcela Albuquerque de Araújo Saldanha não se parece nem um pouco com qualquer uma das vilãs caricatas da Disney. E muito menos lembra a atuação carregada que Faye Dunaway deu a Joan Crawford em Mamãezinha Querida… Está evocando, sim, é a imagem de Norma Desmond, de Crepúsculo dos Deuses; aquela diva com toques de estrelismo extremos, mas que com sua mente inquieta e infantil não conseguiu lidar com a realidade à sua volta enquanto envelhecia. Não conseguiu lidar com a decadência de sua carreira dentro do status quo de Hollywood, com os reflexos profundos que acabaram por atingir sua autoestima, passando a repetir para si mesma que permanecia grande o suficiente e que os filmes é que tinham ficado pequenos demais para comportar toda sua potência.

— E tudo que eu lhe pedi, no final das contas, Maria Clara… — dona Marcela retoma seu discurso, utilizando um tom de voz inacreditavelmente comedido — Foi que tomasse parte dos preparativos do seu casamento… — ela, agora, apoia a outra mão também na cintura, na altura do outro rim — Porém, você, evidente, se recusou, e da pior maneira possível. Mesmo sabendo da enorme importância desse evento para mim, de toda minha dedicação, o que foi que você fez? Agiu de maneira ardilosa, sorrateira; uma serpente preparando o bote — sua voz segue calma, incrivelmente calma, mas firme, enquanto acompanhada de uma expressão de inegável descontentamento — Minha própria filha me sabotando. Uma traição dupla!

— O Gustavo não disse as razões porque me deixou… — Maria Clara, graças aos céus, finalmente se manifesta. Aleluia! — Simplesmente me comunicou da decisão dele e pronto. Mas posso garantir que não foi porque eu agia, segundo a senhora, de maneira impassível, fria e ausente em relação aos preparativos do nosso casamento.

— Ah, não? — dona Marcela a interrompe de imediato, questionando-a entredentes, enquanto não consegue evitar o retesamento no seu semblante — E como você tem certeza disso, se acabou de dizer que o Gustavo não te disse as razões do porquê de ter te jogado fora? — ela mais uma vez estica os braços e coloca as mãos em cada um dos lados da porta do quarto de Maria Clara, só que desta feita tomada por uma obstinação medieval — É óbvio que você provocou essa merda toda e eu vou ter que limpar. É o meu nome, a minha reputação… É o nome da nossa família que está em jogo!

Maria Clara não se deixar abalar, por incrível que possa parecer. Está calma. Mais calma do que nunca. Parece que está de alguma maneira começando a dominar a situação. Mas como?

— O Guto sempre soube da minha opinião e entendia os motivos de eu ter me permitido ser manipulada…

Ela não consegue terminar o que tem para dizer, pois a mão direita de dona Marcela lhe desfere um tapa no lado esquerdo do rosto com tanta força que o estalo ecoa por todo o corredor enquanto o seu cabelo cai dramaticamente num dos lados do rosto. Evidente que faço menção em partir em sua defesa, porém, sou surpreendido por uma mão segurando um dos meus braços. É Sônia, que acaba de surgir milagrosamente ao meu lado.

— Cresça Maria Clara. Já está mais que na hora de você parar de agir como uma menina mimada — autoridade e desprezo pontuam as palavras de dona Marcela — Saiba que esse casamento vai acontecer, sim. E custe o que custar. Nem que eu tenha de arrastar você até o altar. Ou o Gustavo. Ou os dois. Que seja!

 

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