JADE

Jade apertava seu pescoço tentando de alguma forma arrancar qualquer som pelas cordas vocais. Sentia algo arder a garganta, como se uma lâmina em chamas atravessasse os músculos e cordas vocais. O que teria acontecido pra que isso acontecesse? Será que era resultado da facada que ela havia levado de Olívia? Não sabia, só queria muito falar, pedir desculpas a Esther e o principal, falar o código no computador e sair daquele lugar. Se sua voz não voltasse imediatamente, como cumpriria aquela missão? Meu Deus, me ajuda, pensou Jade.

Pimentel soube do ocorrido e imediatamente levou Jade para a enfermaria. Ele podia contemplar nos olhos dela, todo o pânico e desespero. Com certeza, ele queria saber o que a mulher havia feito para ser alvo do ataque. Será que ela fez algo que não devia? Ou será que as outras detentas só não gostavam dela mesmo?

Enquanto aguardava algo acontecer, Jade observou quando a enfermeira entrou no recinto e começou a falar ininterruptamente. Ela pediu que Jade balançasse a cabeça confirmando ou negando. Perguntou se ela sentia dores, se isso já havia acontecido, se estava inflamado, coisas do tipo. Por fim, a enfermeira disse que Jade aguardasse, pois a fonoaudióloga do Babemco iria fazer uma visitinha. Jade aguardou apreensiva.

Depois de longos minutos de espera, a porta se abriu e eis que aquela loira que Jade tanto vislumbrava, entra na sala, plena e viva.

Jade se assustou quando viu a mulher. Elas eram muito parecidas. É claro que no momento, Jade não parecia nada com ela, pois estava careca, com o rosto cheio de hematomas e sem poder falar absolutamente nada. A única expressão que Jade pode expor foi uma boca aberta, chocada e surpresa.

“Como pode ter alguém tão parecida comigo?”, pensou Jade. “A cor da pele, dos olhos e até o tom do cabelo. O formato do rosto, o nariz e a boca. Eram irmãs gêmeas?”.

– Eu já sei o que você tá achando. Me falaram que éramos parecidas. Eu mesma confirmei quando você chegou aqui. Você lembra? – perguntou a mulher, colocando luvas e se aproximando.

Jade somente confirmou com a cabeça. Estava em estado de choque. Mas é claro que lembrava da mulher. Por duas vezes encontrara com ela. A primeira, quando estava viajando com Lucas e eles pararam em uma loja de conveniência. Jade não podia esquecer quando vislumbrou aquela mulher que parecia tanto com ela. E a segunda vez, foi quando Jade chegou no Complexo Fantasma. Naquele dia horroroso, estava enjoada e muito machucada. Foi arremessada em um quarto escuro e quando estava prestes a desmaiar, viu quando a loira entrou no quartinho e se aproximou. Até o momento, Jade tinha dúvida de que a mulher era real ou não. Agora, tinha certeza de que era real.

– Quer dizer que você é uma mulher sem voz. Isso não está certo. Vamos resolver esse problema?

Sim! Vamos resolver esse problema, pensou Jade.

 

EPISÓDIO: A VOZ

 

VALTER

Enquanto dirigia de forma alucinada, Valter telefonou para Capeto. Queria tirar algumas dúvidas. Aquela história da delegada Yeda estava começando a cheirar a cilada.

– Enfim consegui falar com você! – disse Valter para Capeto, no celular.

– O que você quer? – perguntou Capeto, sem muito humor.

– A delegada disse que tem alguém te seguindo. Você consegue confirmar isso?

– Não tem ninguém me seguindo doutor.

– Preciso que você confirme essa história. Ela disse que estava seguindo uma viatura da policia que havia identificado você no veículo. Onde você está?

– Você só precisa saber que eu não estou sendo seguido. Esqueceu que eu sou ex-fuzileiro com experiência nesse tipo de ocorrência? Eu saberia se alguém estivesse me seguindo. Acho que você foi enganado pela delegada. Agora…tenho certeza que ela está seguindo você. Passar bem jovem delegado.

O delegado Valter olhou no retrovisor do meio tentando ver algum veículo atrás. Mas, a única coisa que viu foi um mar de areia. Será que Yeda havia montado essa cilada para saber onde que Capeto estava indo? Será que a delegada estava desconfiando dele? Droga! Precisava saber disso. Ele precisava montar um plano para pegar a delegada no flagra, e ele já sabia o que fazer.

**

CAPETO

Capeto entrou no Complexo Fantasma, ao lado de Lucas, que estava extremamente desconfiado. O capanga de Babemco estacionou ao lado do prédio central, e seguiu deixando Lucas na entrada.

– Você espera aí. Preciso falar a sós com Babemco – avisou Capeto.

– Tudo bem! – Lucas afirmou, apreensivo.

Por onde Capeto passava, os seguranças baixavam a cabeça em sinal de respeito. Dentro daquele sistema, ele era considerado a segunda pessoa depois do chefe.

Entrou na sala, onde Babemco fumava seu charuto acompanhado de uma taça de champanhe.

– Achei que você não fosse retornar! – xingou Babemco.

– Tive alguns imprevistos.

Os dois compartilharam um olhar de cumplicidade, como se já soubessem o que fazer dali em diante.

– O plano com a Marieta está de pé? – perguntou Capeto.

– Sim! Estamos aguardando o momento certo para agir.

– E a Jade? Quando vou poder por as mãos naquela desgraçada?

– Calma Capeto, no momento certo a Jade entrará em catarse. Ela só precisa de um empurrãozinho do destino. Estou pensando no que fazer com ela.

– Acho que eu trouxe esse empurrãozinho comigo.

– Como assim? – perguntou Babemco.

– Eu trouxe o esposo dela comigo, o Lucas. Ele perdeu a memória, e eu o convenci de que é um soldado nosso. Acho que ele acreditou em parte.

– Você não tá falando sério – tomando mais um gole da bebida, e dando mais uma baforada.

– Estou falando muito sério.

– Agora as peças parecem que estão se encaixando de uma forma única. A Jade está sem voz, e a minha fonoaudióloga está cuidando dela. Mas você não sabe qual o maior detalhe da história. A Serena, é a cópia da Jade. Você sabe o que isso quer dizer?

– Não! – Capeto afirmou confuso.

– Você não consegue enxergar?

– Continuo sem entender.

– Então senta que eu vou te explicar. Se tudo de certo, a Jade nunca mais voltará a ser uma pessoa sã.

Então, Babemco explicou o plano para Capeto.

**

VALTER

O delegado Valter dirigia a cem quilômetros por hora, quando de repente, diminuiu a velocidade, parando no acostamento.

Ele desceu do carro e foi para o outro lado da pista, aguardou uns cinco minutos e avistou um caminhão se aproximar. Foi até o meio da pista e mostrando o distintivo, parou o caminhoneiro que seguia na pista contrária.

O caminhoneiro parecia assustado, ao ver um homem mostrando uma arma e um distintivo no meio da pista. Mas mesmo assim, resolveu checar e saber do que se tratava.

– Preciso do carro! – disse o delegado.

– Eu tenho uma carga e não posso perder tempo, doutor.

– É utilidade policial. Mas você não precisa descer – disse Valter, empurrando o homem para o banco do passageiro e sentado no banco do motorista.

– O que você quer com meu carro?

– Tem uma galera me seguindo. Preciso despistar deles – explicou Valter.

Deu partida e seguiu de encontro à camionete de Licurgo, que já se aproximava.

**

Enquanto isso, na camionete de Licurgo, a delegada Yeda junto com o advogado Bruno e a psicóloga Victória, teorizavam o destino que o delegado Valter os estava guiando.

– Nós temos que ser prudentes. Não dá pra chegar chutando a porta. Confirmando alguma espécie de cativeiro, eu vou acionar o reforço – disse Yeda.

– Eu tenho certeza que a Jade está nesse local. Não tenho nenhuma dúvida! A questão é: como que ela está e como podemos resgatá-la? – disse Bruno.

Nesse momento, Yeda observou pelo tablete controle que o carro de Valter estava parado na estrada. Pelo rastreador, eles conseguiam saber a real localização do delegado.

 Um caminhão de carga cruzou com eles na pista.

– E agora, o que fazemos? – perguntou Victória.

– Não podemos nos aproximar demais. Ele pode tá trocando um pneu, ou parou só pra mijar. Precisamos esperar e ver o que acontece – disse Yeda.

Licurgo também encosta o carro no acostamento.

– Tá demorando demais – reclamou Licurgo, batucando os dedos no volante.

– Calma, precisamos esperar o movimento dele.

A estrada estava deserta. O sol escaldante do sertão pernambucano exalava o calor do nordeste. Um vento seco e quente soprava amenizando a quentura. Os participantes daquela operação estavam apreensivos dentro daquele veículo.

– Mas que merda ele tá fazendo? Acho que devíamos nos aproximar mais e checar! – propôs Bruno.

Ouviram um roncar de motor. Um caminhão se aproximava por trás deles. Notaram quando o carro entrou no encostamento e veio com tudo em cima da camionete.

Yeda ainda tentou gritar avisando que o caminhão vinha pra cima, mas não deu tempo. Seu grito foi engolido pelo som do cavalo do caminhão arrastando a camionete.

O caminhão arremessou a camionete de Licurgo ribanceira abaixo, que caiu girando em todas as direções. Yeda, Licurgo, Bruno e Victória caíram junto com o veículo.

**

LUCAS

Lucas e Capeto entraram na sala de interrogatórios. Aquele ambiente era um dos lugares mais requisitados no Complexo.

Capeto pediu que Lucas sentasse. Ele precisava dizer algumas coisas para o homem.

– Eu sei que você está muito confuso com tudo que está acontecendo. Mas o que eu fiz foi descortinar a realidade pra você. Espero que entenda – disse Capeto, solene.

– Onde nós estamos?

– Esse é um complexo extra-oficial de detenção especial. Aqui fazemos alguns experimentos que o governo apoia anonimamente. Gerando o resultado esperado, qualquer governante irá aceitar a tecnologia que estamos testando aqui.

– Qual a minha missão em tudo isso?

– Você é um dos agentes especiais dessa operação. Sua família inteira é engajada no processo. Queria muito que você reconhecesse a sua mulher.

– Eu sou casado?

– Sim, você tem uma bela esposa. Ela é fonoaudióloga, e no momento, está trabalhando com as detentas. 

– Ela tá aqui?

– Sim! Ela é médica fonoaudióloga e também trabalha para o Babemco. Inclusive eu quero que você veja algumas fotos pra provar o que eu tõ dizendo.

Capeto abre a tela de um notebook que está sobre a mesa e começa a mostrar fotos de Lucas junto de Jade.

Lucas se emociona e começa a chorar.

– Esse é o Lucas que eu conheço – afirma Capeto, enquanto passa as fotos.

Lucas observa várias fotos dele abraçando a esposa. Uma foto em especial lhe chama a atenção. É a foto de casamento. Os dois estão radiantes trocando as alianças. Ele está de terno preto e ela de vestido branco. Ele derrama lágrimas novamente.

– Por que eu não lembro de nada?

– Creio que ao ver sua esposa você lembrará tudo. Ela é exatamente como nas fotos.

– Você está pronto para voltar ao serviço?

– Sim, eu tô pronto – Lucas diz, decidido.

Capeto entrega uma pistola ao homem. Lucas analisa a arma, tentando lembrar como se destrava. Capeto se aproxima e mostra como fazer.

– Pronto pra encontrar sua esposa? – pergunta Capeto.

– Vamos lá!

**

JADE

Enquanto isso, Pimentel entrava com Jade na enfermaria. Babemco já esperava pelos dois.

– Deixe-nos a sós – Babemco pede para Pimentel.

Com Cícero no colo, Babemco se aproximou de Jade.

– Você quer pegá-lo?

Ela assente com a cabeça. Seus olhos estão cheios de lágrimas.

Babemco entrega o bebe nos braços da mãe.

– Deve ser maravilhoso abraçar o filho. Você deve tá ficando louca aqui, não é?

Jade sente o cheiro da criança e tenta a todo tempo segurar as lágrimas.

– Eu prometo cuidar da criança. Mas preciso de um último favor.

Ela tenta enxergar Babemco mesmo com os olhos embaçados.

– A segurança do seu filho depende da sua resposta. E eu preciso que você me dê a resposta certa. Pronta para saber a minha proposta?

Jade abraça o Cícero ainda mais forte, para em seguida encarar Babemco e confirmar com a cabeça. “O que esse louco tá querendo?”, ela pensou.

**

YEDA

A camioneta estava virada de ponta cabeça. Uma fumaça branca saía do motor. Em pouco tempo aquilo iria virar um inferno em chamas.

O sertão do Nordeste era o palco preparado para aquele embate. Em meio a arbustos, cactos e árvores rasteiras, Yeda tentava sair do veículo, mas sua perna estava presa.

– Droga! – Yeda gritava, com sangue jorrando de sua perna.

Bruno foi o primeiro a sair, e Victória saiu logo em seguida.

– Licurgo, Yeda vocês estão bem? – Bruno perguntou, ainda tonto com o baque que levou na cabeça. Um fio de sangue escorria do alto de sua testa.

Os dois ajudaram Licurgo a sair das ferragens, ele estava com o braço machucado.

– Me ajudem. Eu tô presa – pediu Yeda.

Uma bala atravessou a lataria do carro, assustando todos.

– Que merda foi isso? – Bruno gritou assustado.

– É o Valter! Corram, ele vai atirar novamente – avisou Yeda.

– Nós temos que tirar você daí – gritou Victória.

Um novo tiro ecoou no meio do deserto, acertando a porta da camionete. O projétil causou uma nova chama, aumentando o fogo sobre o veículo.

– Saiam daqui, eu posso lhe dar com isso – Yeda disse, enquanto empunhava seu revólver.

– Nós somos uma equipe, não podemos te deixar pra trás – avisou Licurgo, enquanto se escondia com os outros atrás da camionete.

Um tiro acertou o retrovisor, arremessando-o para longe.

– Droga! – gritou Yeda. – Corram ele tá se aproximando.

Licurgo, Bruno e Victória se entreolharam. E agora, o que eles iriam fazer?

**

JADE

A fonoaudióloga Serena entrou na enfermaria e encontrou Jade acompanhada de um segurança.

Serena observou Jade e não pode deixar de sentir um pouco de pena. A mulher estava destruída. Presa, sem cabelo, sem voz, sem perspectiva. Todos aqueles anos trabalhando para Babemco não foram suficientes para acostumar com aquela realidade.

O segurança saiu, deixando as duas sozinhas.

– Sinto muito por tudo que está acontecendo com você – disse Serena para uma Jade sem voz.

Jade observava os movimentos dela com muita atenção.

– Trabalho com isso há dez anos e sempre vi recuperação das cordas vocais. Apesar de precisar fazer alguns exames mais elaborados, posso afirmar por observação que não existem danos profundos. Creio que com uma série de exercícios e medicação adequada você vai recuperar sua voz. Não acredito que seja necessária alguma intervenção cirúrgica. Até por que você passou por uma recentemente, não foi?

Jade confirma com um leve movimento de cabeça.

– É difícil não ter voz. Eu já fiquei um dia inteiro sem poder falar, e isso foi horrível. Mas sei que existem outras formas de se expressar – deu um sorriso amigo.

Jade estava sentada na maca. Um bisturi estava entre seus dedos. Ela aguardou que Serena se aproximasse novamente para enfiar o bisturi no pescoço da mulher.

Serena caiu jorrando sangue.

Lucas e Pimentel entraram na sala a tempo de ver Jade segurando o bisturi ensanguentado. Serena se esvaindo no chão.

– Mas que merda você fez? – Lucas grtitou para Jade.

Ele se inclinou tentando socorrer Serena, mas ela já estava sem vida, imóvel em seus braços.

– Sua desgraçada! – gritou Lucas, sacando a arma e apontando para Jade – Eu vou matar você! – vociferou com raiva.

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  • Esse episódio foi tenso e cheio de surpresas. Que cena a do caminhão, depois eles tentando sair dos destroços antes da explosão, e os tiros, adrenalina total. Putz, e essa história do Lucas aí, bah, final magnífico, só quero ver o que vai acontecer. Logo vou pro último aiaiaiai.

  • Aaaaaaaaaaaaaaahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh que foi que deu na Jade?? .eu Deus, e ela matou a Serena e bem na hora, o Lucas apareceu, SOCORRO, Deus!!!.

  • Pesquisa de satisfação: Nos ajude a entender como estamos nos saindo por aqui.

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